sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Egos artísticos em choque.

Por Pedro Strazza.

O ego é uma parte muito curiosa e instável de nossa humanidade. Responsável por alimentar as ambições do indivíduo e de proteger a auto-confiança, ele fortifica as (falsas) convicções do indivíduo sobre sua importância e lugar no mundo, impulsionando-o a tentar ser aquele "algo a mais" em qualquer esfera social que se localize. Mas assim como todas as outras coisas, o ego precisa ser equilibrado para evitar que o ser humano tanto tenha sua pessoa subjugada à sociedade quanto seja tomado por seu orgulho e comece a acreditar na importância de certas características para guiar seu dia-a-dia - ou pior, tenha sua vida escravizada e ditada por estas.
Este último caminho, o da alta soberba, serve como motor para Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), filme de Alejandro González Iñarritu que analisa o tema sob o espectro do mundo artístico. E esta escolha não se dá somente por ser a esfera em que o cineasta mexicano trabalha, mas também por se tratar de um dos ambientes onde o ego encontra-se mais tomado pela vaidade, e é dessa maneira que Iñarritu em poucos instantes já estabelece o bairro central à história aqui como uma espécie de campo de batalha, no qual a soberba dos indivíduos envolvidos confrontam-se continuamente pelo domínio.
Toda esse conflito ocorre devido a uma peça de teatro organizada por Riggan Thomson (Michael Keaton), um decadente ator de Hollywood famoso apenas por fazer o papel de um super-herói intitulado Birdman nos anos 90 e que busca voltar a ser reconhecido por seu trabalho por meio da obra teatral. Para conseguir isso, porém, Thomson não só tem que arrumar os problemas ocorridos nos bastidores, como também precisa encarar sua própria trajetória de vida e todos os erros cometidos nesta, envolvendo desde o problemático relacionamento com a filha Sam (Emma Stone, ótima) até a segunda voz em sua consciência, o próprio personagem responsável por sua rápida ascensão cinematográfica, que o atormenta de forma constante.
De certa maneira, o grande mérito do filme acontece nessa relação de egos desenvolvida na preparação da peça. Do agente de Riggan (Zach Galifianakis),  interessado apenas no sucesso da produção e disposto a fazer de tudo para conseguir isso, à crítica do Times Tabitha (Lindsay Duncan), que defende suas bandeiras e opiniões sobre a arte por um orgulho mesquinho (e bastante caricato, se pensarmos bem), o roteiro escrito por Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Giacobone e Armando Bo cria uma rede de indivíduos que de diferentes formas se relacionam com o reconhecimento do público, concebido aqui como elemento essencial para o sucesso.
Essa definição de glória de imediato remete, claro, aos próprios objetivos estabelecidos nas carreiras de atores e atrizes, que são por sua vez o centro da elaboração temática de Birdman. Assim, temos (com o perdão do trocadilho) no palco uma variedade de intérpretes de perfis que remetem diretamente à questão do sucesso, como a novata inexperiente tomada pelo natural medo do fracasso e esquecimento (Naomi Watts), ou à do ego, como a atriz em crise pessoal devido a uma gravidez perdida (Andrea Riseborough) e o ator "problemático mas brilhante" Mike Shiner (Edward Norton, em um papel dos mais parecidos com sua própria pessoa) que fora da profissão não consegue ser algo mais além de inconveniente.
Mas se a relação dos atores com o mundo em que vivem e suas próprias pessoas é central ao longa, o ponto que marca o centro desta esfera é o Riggan de Michael Keaton. Além de ser ele que esclarece e protagoniza essas interações entre egos orgulhosos, o personagem traz em seu interior uma complexa conexão com a fama proporcionada pelo público, gerada graças ao papel que, apesar de tê-lo consagrado, grudou-se em sua personalidade para nunca mais se soltar. E mesmo que o papel tenha sido escrito para ele e possua todas as características referentes à sua carreira, é inacreditável perceber como Keaton incorpora o personagem para si, dando uma profundidade metalinguística e emocional ao protagonista difícil de ser alcançada.
Saindo um pouco da proposta temática, é interessante perceber como Iñarritu transmite ao público toda a tensão referente à peça. Com a contribuição da atmosférica trilha sonora composta pela bateria de Antonio Sanchez, o diretor escolhe se utilizar (e abusar) de um muito bem montado falso plano-sequência eterno para ao mesmo tempo criar a noção de estarmos vendo de fato uma peça de teatro - o que reforça com precisão o teor metalinguístico da obra - e também de nos dar a sensação de acompanhar a história pelos olhos de Birdman, que parece assombrar os corredores onde seu intérprete "mora" por três dias.
Do começo ao fim com um ritmo crescente e intenso para se encerrar com sua metalinguagem no máximo, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um extremamente bem elaborado ensaio sobre o ego e o orgulho que mesmo gerais a toda a humanidade são individualizados e únicos, denotando nossa insignificância para o universo repetidas vezes ao longo do caminho. E isso não é à toa: Como bem diz o título, a maior qualidade que o ser humano deve ter para continuar a vida é a ignorância do conhecimento de sua própria insignificância.

Nota: 10/10

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