segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Crítica: 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi

Relato panfletário de Michael Bay refaz contradições ideológicas em clima de histeria.

Por Pedro Strazza.

Por ser a nação mais poderosa do mundo desde o fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos tendem a refletir continuamente sobre seu próprio poder nas artes, e no cinema isso se dá bastante em seus filmes de guerra. Os ideais do que caracteriza o famoso espírito americano, imperialista e nacionalista por natureza, já foram desconstruídos em diversas produções sobre todo tipo de conflito internacional protagonizado pelo país, da urgência de reafirmação dos valores no combate aos nazistas à crítica sem pudor desses na Guerra do Vietnã.

As recentes intromissões estadunidenses nos conflitos do Oriente Médio, porém, parecem ter despertado um novo tipo de discussão sobre a temática, que buscam expor a dualidade ideológica da nação em tempos posteriores à crise, criadas no contínuo financiamento americano ao combate bélico mesmo com a pouca disponibilidade de recursos. Das obras mais conhecidas pelo público, temos o Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura de Kathryn Bigelow, que tratam da questão como um vício pela adrenalina, e o polêmico Sniper Americano de Clint Eastwood, que aborda essas contradições como uma metodologia do próprio sistema abatido.

Em termos de aproximação, 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi encontra-se bastante alinhado com o último. A adaptação do livro de Mitchell Zuckoff comandada por Michael Bay, que acompanha os esforços de seis soldados das Forças Especiais em proteger uma das bases da CIA na Líbia de uma série de ataques empreendidos por milícias do país, tem a mesma propensão do longa de Eastwood em trabalhar tais contradições da ideologia de guerra estadunidense, mas no conhecido ritmo urgente e desesperado dos filmes de seu diretor.

Este ritmo fica claro já do princípio, quando o longa realiza os mesmos cacoetes dos outros trabalhos do cineasta. Adepto entusiasmado da dinâmica do movimento como elemento central da narrativa, Bay repete em 13 Horas sua predisposição de manter a câmera em pleno deslocamento em conjunto de uma montagem acelerada, acreditando cegamente que a velocidade é a melhor maneira de transportar seu espectador para dentro da adrenalina sentida por seus protagonistas. O resultado alcançado por ele, óbvio, é o exato oposto, com cenas de ação difíceis de se acompanhar e maneirismos estéticos (o plano da bomba, as constantes explosões) que continuam a expor a deterioração desse seu estilo de direção.

O que difere Os Soldados Secretos de Benghazi de seus outros trabalhos recentes, entretanto, é que aqui a metodologia de Bay parece mesmo ter um objetivo a cumprir além do que se configura na sua cabeça como entretenimento. O roteiro de Chuck Hogan não economiza munição em engrandecer os atos dos soldados e de fazê-los heróis de uma situação julgada pelo filme como prova cabal da ineficiência burocrática do sistema, mas também encara a situação com um ar de ironia não assumida, como se a cada reverência ao homem estadunidense ele não conseguisse conter um sorriso. Cenas como a do protagonista interpretado por John Krasinski admitindo ao colega que "devoraria umas panquecas agora" ou de uma diplomata que pelo telefone ordena o envio de um drone com a justificativa de que "americanos irão morrer se ele não for enviado" - ou até mesmo as inúmeras menções a Deus - parecem perder quase toda a carga dramática, em favor de uma sátira difícil de ser esclarecida.

Nas mãos de Michael Bay, esta sátira se torna histérica, e o que acontece a seguir é um piripaque ideológico dos mais curiosos, pois ele, munido de seu estilo "intenso", é capaz de pular do engrandecimento à crítica velada à América em menos de um segundo. Assim, se por um lado vê-se os soldados defendendo cidadãos americanos e os interesses do país com as próprias vidas em um ímpeto de puro nacionalismo, é também possível enxergar o outro lado, as deficiências da máquina de guerra tanto pelo lado governamental - "eu já cansei de ouvir esses discursos vazios", o acúmulo de burocracia nas ações táticas - quanto pelo do agente de campo, assim como dos líbios que são inimigos mas também aliados. Nesse meio tempo, o espírito americano e capitalista é destroçado por 13 Horas, resumido a um grupo de crianças que berram na parte de trás do carro por McLanches Felizes e levam ao desespero uma mãe que acaba de contar ao marido que está grávida mais uma vez.

Existe uma justificativa panfletária para todo esse caos orquestrado pelo filme, na forma de uma condenação à missão e da exaltação dos soldados mortos no caso (e, numa coincidência difícil de acreditar, feita em tempos de eleições presidenciais nos EUA, que tem Hillary Clinton, a secretária de Estado na época do caso Benghazi, como candidato democrata). O cinema gritado de Bay não consegue esconder isso nem por um momento, com pelo menos duas cenas em que a bandeira dos EUA é reduzida a fiapos e um final moralista exacerbado. Mas estas intenções duvidosas da produção sem dúvida encontram um caminho fascinante para serem exercidas, personificada na figura do soldado interpretado por Pablo Schreiber, que do alto de seu posto  de resistência aos ataques pergunta desesperado ao controle de cinco em cinco segundos se o alvo mirado é um inimigo, reforço ou inocente.

E a paranoia do pós-11 de setembro prossegue, firme e forte, atrelada aos Estados Unidos onipotente.

Nota: 6/10

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