segunda-feira, 23 de março de 2015

Crítica: Mapa Para as Estrelas

Cronenberg faz sátira convincente da Hollywood de celebridades.

Por Pedro Strazza.

Na temporada dominada por filmes que tratam sobre a própria maneira de se fazer arte, chega a ser curioso o olhar comum para a relação do ator com a indústria ao qual ele presta serviço. No mundo cinematográfico, o Birdman de Alejandro González Iñarritu discute o ofício da atuação sob o espectro do julgamento em Hollywood na mesma época em que o Acima das Nuvens de Olivier Assayas conversa a relação do intérprete com o interpretado no mesmo contexto; no musical, o Whiplash de Damien Chazelle enxerga como obsessivo essa mesma necessidade com o reconhecimento.
A eles se junta Mapa Para as Estrelas, novo trabalho de David Cronenberg que em essência não busca causar uma grande reflexão sobre o tema, e sim satirizá-lo como possível. Como em grande parte da obra do cineasta canadense, busca-se no roteiro (escrito aqui por Bruce Wagner) uma visão perturbadora de seus personagens, retratados como monstros por seu diretor para enaltecer seu pessimismo com a humanidade.
A diferença aqui é que, ao contrário de outros trabalhos como A Mosca ou Videodrome, Cronenberg não ressalta o lado repulsivo de suas figuras por meio de seu visual, mas sim pela sua personalidade escondida nos bons modos. Centrado em duas celebridades nascidas e criadas na própria Hollywood - a adulta Havana Segrand (Julianne Moore) e o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) -, o longa mostra estas como pessoas movidas pela insignificância de atos mesquinhos, feitos apenas para atingir objetivos superficiais ou de um sentimentalismo imediato típico de adolescentes fúteis. Não à toa, a juventude é tratada por esse universo como a maior das dádivas, e o envelhecimento natural o antagonista a ser evitado a qualquer custo.
Exibindo suas criaturas como modelos disponíveis em uma vitrine de uma loja de horrores, Cronenberg acaba por tropeçar, porém, ao querer buscar nestes uma profundidade maior que a existente. Das aparições fantasmagóricas à trama novelesca sobre a jornada de retorno da jovem Agatha (Mia Wasikowska) a essa Hollywood aterrorizante, o filme surge perdido na tentativa de causar uma reflexão existencial em aberrações tão rasas, ainda que encontre alguns bons momentos na trajetória de Benji e seu perfil de queda na indústria. Não há como trabalhar o tema sob essas condições, mesmo com o bom equilíbrio de atuações do forte elenco.
Coroado por um encerramento pouco convincente em sua pontuação, Mapa Para as Estrelas surge com força na maneira debochada com a qual enxerga o universo do trabalho no cinema, mas equivoca-se em exigir demais desta visão. Cronenberg foi ambicioso e quis unir reflexão e sátira, mas seu produto é claramente dedicado apenas ao último.

Nota: 6/10

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