sábado, 27 de fevereiro de 2016

Crítica: Ponte dos Espiões

Spielberg encontra na ambiguidade da Guerra Fria uma salvação para sua visão sobre o espírito americano.

Por Pedro Strazza.

Logo em seus primeiros momentos, concentrados na rotina do britânico Rudolf Abel (Mark Rylance) em mais um dia em Nova York pouco antes de ser preso pelo governo estadunidense sob suspeita de trabalhar para os soviéticos, Ponte dos Espiões já revela a seu espectador a abordagem para sua história, e não apenas em um aspecto formal. Ao invés de elaborar a ação de prisão por um ponto de vista que favoreça os esforços dos agentes americanos, o longa investe na humanização de Abel, aproximando o espectador do personagem por meio de suas ações cotidianas, mesmo que estas sejam voltadas para seu verdadeiro serviço no país.

No fundo, este processo de ignorar o patriotismo subjacente e focar no humano é a grande tônica do filme, que junto de Cavalo de Guerra e Lincoln parece encerrar uma espécie de trilogia realizada pelo diretor Steven Spielberg nesta temática em cima dos Estados Unidos. Mas se nos dois predecessores esta metodologia se fazia em momentos históricos cujo campo era universal e claramente maniqueísta - os exércitos da Tríplice Aliança nunca se desvencilharam de alguma culpa pela Primeira Guerra Mundial, e os políticos a favor da escravidão... bem, eram a favor da escravidão - em Ponte dos Espiões ela se dá no exato oposto na figura da Guerra Fria, um período no qual o maior inimigo da nação americana nunca de fato alcançou o status de vilania ao qual o governo e seus líderes procuraram tanto adequá-lo.

Essa dualidade, presente na história do advogado James B. Donovan (Tom Hanks) sobre seus esforços em trocar o agente russo, designado seu cliente no julgamento nos EUA, por dois estadunidenses capturados pela União Soviética e a Alemanha Oriental, serve para o cineasta tanto como lógica narrativa quanto temática, permitindo que ele se aprofunde na problemática polarização política exercida pelo país por quase cinquenta anos de sua História. Não à toa, o diretor retrata membros do governo, seja de qual lado for, de uma forma bastante negativa, somente interessados em movimentos que privilegiem o avanço de seus respectivos países na briga silenciosa que se desenrola e inconsequentes sobre a perda de vidas no caminho. A paranoia é explícita em tempos assim, e o longa não se segura em mostrar isso em momentos como do corte de uma cena no tribunal para uma sala de aula com crianças recitando o hino nacional para registros de uma explosão nuclear.

Deste estado destrutivo das coisas, Spielberg e o roteiro de Matt Charman e dos irmão Coen resgatam o ideal do homem comum, herói típico das comédias do falecido Frank Capra e que tem no cerne de suas motivações essa busca pela humanidade no sistema. Personificado por Hanks com a dignidade necessária, Donovan se torna no contraponto ideal ao raciocínio natural da época, num primeiro momento incapaz de condenar à morte Abel e depois engajado na tarefa de trazer são e salvo os dois cativos norte-americanos, o oficial consciente de suas ações capturado no ato e o cidadão inocente pego no fogo cruzado e desinteressante para seu governo.

Assim, o que se vê acontecer em Ponte dos Espiões é um choque entre dois tipos de espírito americano, sendo um fabricado e voltado para o belicismo e o outro natural e motivado pela preservação da humanidade nas relações. Esse conflito, como é de praxe da carreira de Spielberg, não escapa de ser escancarado na narrativa ("Eu sou um homem comum"), mas é trabalhado com alguma delicadeza ao ser materializado na dinâmica espelhada dos planos da fotografia de Janusz Kaminski, colocando seu protagonista em lado oposto ao dos oficiais com quem conversa e culminante no clímax da ponte do título, ou naquela exercida nas conversas entre Donovan e Abel, que ressalta sem grande o alarde o que está mesmo em jogo ali com a mesma sutileza com a qual Rylance trabalha seu papel.

É claro que esta lógica na prática nunca chega a desconstruir o maniqueísmo elaborado da época por estar ligada à desconstrução do patriotismo seja pelo lado estadunidense ou soviético. O que importa mesmo a Spielberg no filme é esse antagonismo entre os interesses do indivíduo e da nação, nos mecanismos desta relação que permite ao primeiro submeter sua vida e dedicação aos objetivos do segundo sem se dar conta dos riscos representados por tal ato. A última troca de olhares entre advogado e cliente após o fim das negociações, cujo dilema se faz na própria ambiguidade das vantagens obtidas pelos soviéticos nesta, soa como uma resposta rápida à questão, mas também a prolonga em um caráter aflitivo.

Nota: 9/10

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