sexta-feira, 31 de julho de 2015

Crítica: Magic Mike XXL

Continuação abandona moralismo para tirar do fim de ciclo uma ode à felicidade.

Por Pedro Strazza.

É um exercício interessante comparar Magic Mike com sua sequência, Magic Mike XXL, sob o ponto de vista estrutural, pois apesar de tratarem de um mesmo tema - o fim de um ciclo - seus direcionamentos são radicalmente distintos. Dirigido por Steven Soderbergh, o original se vale da história de seus strippers masculinos para situar um arco comum de transição para a fase adulta nos tempos da crise econômica, e prega o prazer juvenil e todos os seus desenrolares como superficial e perigoso. Não à toa, seus dois protagonistas (interpretados por Alex Pettyfer e Channing Tatum) vivem o começo e o fim dessa fase considerada irresponsável, o primeiro entregando sua juventude à vida sem objetivos e o segundo se comprometendo com uma namorada e um trabalho "mais" respeitável.
Já a continuação comandada por Gregory Jacobs, parceiro de longa data de Soderbergh como diretor de segunda unidade, faz o caminho contrário sem medo de chocar sua mentalidade com o original, e isso se nota quando ele elimina (com algum humor) as potenciais figuras moralistas do primeiro e situa o restante dos personagens em uma narrativa típica de filme de road trip. Disfarçado sem muito esforço de conto de último trabalho, Magic Mike XXL é uma celebração do prazer universal e verdadeiro a partir dos heróis mais inusitados da sociedade contemporânea.
"Heróis", no caso, porque a produção equilibra o protagonismo antes total de Mike (Tatum) com o que resta dos Reis de Tampa, encontrando no grupo um campo maior para desenvolver a história de viagem de amigos, típica dos filmes sobre adolescência. Com suas ambições pós-stripping e limitações, o grupo formado por Richie (Joe Manganiello), Tarzan (Kevin Nash), Ken (Matt Bomer), Tito (Adam Rodriguez) e Mike serve como condutor melhor da trama que o último sozinho, e guia o espectador em sua exploração da felicidade através de sua viagem até Myrtle Beach, onde se dará uma convenção de strippers masculinos.
Mas qual será a face desse prazer nos tempos atuais? Essa é a grande questão do longa, que parte de uma realidade dura e problemática devido aos efeitos da crise - aqui mostrada no início sem maior destaque - para terminar no festival de felicidade carnal que é o destino e clímax do terceiro ato. Ao mesmo tempo, é durante esse caminho que o grupo se vê na tarefa de confrontar os seus maiores medos e de desconstruir a si mesmos, partes inevitáveis em sua jornada e eternizadas em metáforas literais, como a em que figurinos antigos (e representantes de profissões "sérias", como o exército ou o bombeiro) são jogados pela janela.
O maior acerto do filme, entretanto, é o de não imbuir seus protagonistas como únicos atrás dessa felicidade maior, vendo essa procura também nos ambientes encontrados ao longo do trajeto. Daí que transparece na obra um interessante viés feminista, que não só humaniza as mulheres em busca do entretenimento masculino oferecido por Mike e seus amigos como submete a figura masculina ao prazer da parceira no ato sexual, tornando o orgasmo da mulher em principal objetivo do homem na relação - as clientes, afinal, são chamadas de rainhas. Ao mesmo tempo, isso oferece ao roteiro de Reid Carolin personagens femininas mais interessantes e capazes de fazer frente aos rapazes, como a divorciada de Andie Macdowell ou a poderosa MC interpretada por Jada Pinkett Smith.
Em seu encerramento explosivo e movido ao delírio pelo corpo, Magic Mike XXL sintetiza muito bem o caráter auto-reflexivo que impõe à trama e seus protagonistas. Um a um, o show de despedida traz na performance dos artistas uma representação clara de seus destinos e de seus perfis, exaltando no processo o sucesso individual na jornada empreendida que será comemorado brevemente ao fim dos trabalhos. E é quando a câmera se movimenta em busca da apresentadora para abrir espaço à próxima atração e tira o artista do enquadramento para definir o fim de sua vida naquele meio é que se ressalta no filme a força do triste canto de cisne.

Nota: 9/10

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