sábado, 13 de agosto de 2016

Crítica: Um Espião e Meio

Comédia de ação acaba sendo muito mais interessante nas piadas sobre o antes e depois do colégio.

Por Pedro Strazza.

O personagem de Dwayne Johnson em Um Espião e Meio, o loser obeso do colégio Robbie Wierdicht que anos depois se transforma no musculoso agente da CIA Bob Stone, tem como filme favorito a comédia adolescente Gatinhas e Gatões, e nunca perde uma oportunidade de trazer esse assunto à tona. É uma escolha bastante incomum e que vai além do campo da nostalgia simples - as referências ao longa não são tão pontuais quanto outra produção oitentista lembrada na trama, Matador de Aluguel -, muito porque a obra, debute de John Hughes na direção e responsável por consolidar a atriz Molly Ringwald como jovem patricinha dos anos 80, trata dos mesmos jovens que a comédia de ação estrelada por The Rock busca abordar aqui.

Os contextos, claro, são muito diferentes. Se a produção de 1984, assim como grande parte dos trabalhos de Hughes como diretor, se localiza na época do colegial e de todas as ânsias da juventude, o longa dirigido por Rawson Marshall Thurber está nos reencontros de formados, próximo passo dentro da narrativa escolar e que se faz do clássico choque de expectativa e realidade entre antigos colegas. Os dois protagonistas, inclusive, sofrem desse mal nostálgico: enquanto Wierdicht é atormentado pelo bullying do qual foi vítima no passado, o contador Calvin Joyner (Kevin Hart) teme "atestar" que sua vida foi um fracasso, já que no colégio era tido como aquele com maiores chances de ser bem sucedido no futuro.

Nesse ponto, o roteiro escrito por Ike Barinholtz, David Stanssen e o próprio Marshall Turber com surpresa funciona bem, já que busca de Gatinhas e Gatões uma espécie de continuidade espiritual. Isso não é novo - um dos alicerces da comédia estadunidense atual se baseia nos mesmos jovens dos anos 80 e de Hughes, agora com eles crescidos e encarando problemas da vida adulta - mas ganha suaves contornos dramáticos no longa ao refazer com seus dois protagonistas a mesma insegurança com a própria identidade da adolescência sem necessariamente cair na crise de meia-idade pelo retorno ao passado. Os pontos altos da história surgem disso, seja na invasão noturna ao colégio ou na reunião em si.

Um Espião e Meio, porém, não é sobre isso, mas sim sobre aproveitar o óbvio viés cômico desse trauma de reencontro a uma trama de espionagem que dê vazão à necessidade de se auto-afirmar dos protagonistas, e esse objetivo nunca chega a se concretizar. Se no humor o filme soa mecanizado - Johnson e Hart inexplicavelmente parecem desconfortáveis com seus papéis e não conseguem produzir muito da gigantesca diferença entre suas alturas -, a ação muitas vezes é prejudicada pelas viradas óbvias da história, incluindo o clímax que de maneira esperta brinca no tiroteio com a incerteza do real posicionamento de Stone - já consumada do princípio graças à inabilidade da produção de criar o mistério em cima da figura do personagem.

Dado seu potencial de comédia pós-colegial que se forma nas entrelinhas, essa opção pela combinação pura e simples de gêneros não deixa de ser frustrante. A química entre os dois atores principais é muito boa e as participações de Jason Bateman e de outro comediante contribuem muito para formar boas piadas em cima do que se preserva e não se preserva dos tempos de colégio, mas nada disso chega a ser explorado a fundo no filme para fins mais cômicos além da graça de um momento.

Nota: 4/10

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