quinta-feira, 21 de julho de 2016

Crítica: Dois Caras Legais

Filme segue cartilha do noir voltado para comédia, mas não sai do exercício.

Por Pedro Strazza.

Dois Caras Legais serve a princípio tanto de homenagem quanto de paródia a temas relacionados ao cinema. A piada, claro, é com os filmes de duplas policiais e mesmo com o gênero noir, dois tipos de história que, se no passado foram bastante populares, hoje encontram-se desgastados no cinema estadunidense, dominados por dinâmicas batidas e clichês que cheiram à mais pura naftalina, um cenário perfeito para qualquer comédia.

Já a homenagem, empreendida em clima de festa pelo diretor Shane Black - junto do co-roteirista e estreante Anthony Bagarozzi -, é à geração da Nova Hollywood, cujos excessos e alta carga de autoralidade foram chave para a indústria cinematográfica do país se revigorar em conteúdo e forma a partir do fim dos anos 60. A loucura desse grupo de cineastas (sejam estes diretores, produtores, atores e atrizes...) serve como canal para Black criar uma espécie de declaração de amor visual sobre o passado, mesmo que isso esteja embalado dentro de uma história protagonizada por dois indivíduos que gostam nem um pouco das mudanças que estão acontecendo na época.

Os protagonistas em questão são Holland March (Ryan Gosling) e Jackson Healy (Russel Crowe), dois homens que se veem unidos na procura por uma garota desaparecida chamada Amelia (Margaret Qualley). O primeiro, detetive particular e com a filha Holly (Angourie Rice) para cuidar, busca encontrar a moça para solucionar um caso envolvendo a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio), que morreu em um estranho acidente de carro dias antes; o segundo, um brutamontes que vive de bater em pessoas, teme pela segurança da jovem após ser pago por ela para protegê-la de perseguidores. A investigação da dupla, como em todo exemplar do noir, seguirá então por um caminho tortuoso e cheio de reviravoltas, que incluem poderosos membros do governo, assassinos de aluguel e até abelhas assassinas do Brasil.

Black trabalha bastante pelo exagero com o momento histórico, um verdadeiro período de transformações dos costumes na sociedade estadunidense que retrata, apostando principalmente nos dois personagens e na relação criada entre eles. Emulando a estrutura do melhor dos filmes buddy cop, o diretor faz de March e Healy um casal, cujas diferenças radicais de atitude encontram um ponto em comum no sentimento que tem com as novas gerações e seu estranhamento quando na presença destes. A dinâmica da dupla, aliada às intervenções de Holly (do qual se geram algumas situações divertidas na ligação "padrasto"-filha desenvolvido com Healy), é a base para um humor mais exagerado, que permeado de piadas físicas e gags recorrentes em cima dos dois dá o gás necessário para o longa em seus pontos altos, como a festa de um produtor pornô ou no clímax da história.

Os momentos cômicos entretém, mas muitas vezes soam um pouco perdidos na própria indecisão da proposta da produção. Da verdadeira passagem de bastão geracional que se situa, Black segue ao mesmo tempo pelo sarro e o tom reverencial na hora de retratar esses dois lados, reconhecendo o lado fundamental do cinema que se instaura (a premissa é basicamente isso) para logo em seguida fazer graça com o próprio (as constantes referências ao pornô). Até a dupla protagonista sente essa instabilidade: Crowe e Gosling sabem brincar muito bem com seus papéis, mas nem sempre são capazes de entender o ponto no qual estes deixam de ser cool para se aproximar da versão suave de velhos rabugentos.

Conforme o filme se aproxima do fim, essa questão é mais ou menos resolvida pela saída fácil da ampla homenagem a ambos lados, que evite um maior aprofundamento na temática e direcione a trama a um reflexo político-econômico superficial com a atualidade. O curioso de Dois Caras Legais, porém, é que essa resolução acabe por resumir o longa em seus intentos e resultados: Black parte da emulação para trabalhar o panorama, mas sua dificuldade em sair do estágio inicial faz com que o filme se torne plano e sem grandes atribuições além do mero exercício de repetição.

Nota: 6/10

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