segunda-feira, 9 de maio de 2016

Crítica: De Amor e Trevas

Natalie Portman estreia na direção com filme que se beneficia de mistério indecifrável.

Por Pedro Strazza.

Já não é novidade no meio cinematográfico, mas nunca deixa de ser interessante quando um ator ou atriz tem a oportunidade de assumir a direção de um filme. Quase um movimento de virada na vida destes profissionais, que os permitem abandonar sua posição de submissão para ter maior controle criativo, esta mudança funciona também como um momento de descoberta para o espectador, cuja imagem formada sobre o cineasta tende a ser aprofundada conforme ganha-se maior contato com o que este vê e pensa a realidade à sua volta. Dessa forma, a escolha do projeto tem grande importância na maneira como tal processo se dará, e no caso de Natalie Portman essa questão fica ainda mais evidente.

Com a carreira estabelecida em Hollywood desde a infância, a atriz israelense meio que recorre às origens em seu debute na função em longas, optando por dirigir a adaptação de Uma História de Amor e Trevas, livro autobiográfico do celebrado autor e seu conterrâneo Amós Oz, como forma de abordar o conflito entre Israel e Palestina sob seu ponto de vista mais distante dos fatos. Portman, que também é autora do roteiro e atua no filme como Fania, a mãe de Oz (Amir Tessler), demonstra ter bastante consciência desta distância, e sabe usar esta desvantagem a favor de seus próprios objetivos com a produção.

Mas o que a diretora busca com De Amor e Trevas, afinal? De início, o filme dá sinais de interesse pela posição de Oz como testemunha dos fatos históricos que ele e sua família presenciam na Jerusalém da pós-Segunda Guerra e dos primeiros passos na tensão entre judeus e árabes na região. A questão da Palestina, porém, logo deixa de ser protagonista na narrativa e volta a ser parte do contexto, que nas mãos da cineasta torna-se por sua vez em cenário para explorar as relações do autor-protagonista com a mãe, cuja figura enigmática serve à obra de meio, ponto de partida e de chegada.

A obra conscientemente mantém em segredo os porquês de Fania se sentir tão aflita e depressiva, criando entre espectador e personagens uma distância que acaba por esfriar a narrativa e a impede de ter maior impacto (as duas cenas que mostram vítimas do fogo cruzado dos confrontos, por exemplo, soam esvaziadas de qualquer significado na paleta fria de cores da fotografia de Slawomir Idziak). Portman parece entender a indecifrabilidade da mãe como motor do desenvolvimento profissional e humano de Amós - e, por consequência, do fascínio que o longa exerce sobre o espectador -, e faz disso tanto um norte para seu trabalho de atriz (os seus gestos e reações sempre dão a entender mais de uma coisa) quanto de diretora, que encontra nas sequências de sonho e histórias contadas pela mãe alguns momentos tocantes de lirismo.

Falta a Portman nessa estreia, porém, um melhor grau de separação entre esses dois pólos de seu lado artístico, até porque um prejudica o outro de maneira bastante visível. Se a diretora parece trabalhar a história em cima da atriz apenas para se dar maior liberdade e assim favorecer sua própria atuação, a atriz soa como se bloqueasse o caminho narrativo em grande parte da história, restringindo a direção de um maior aprofundamento em outras temáticas sugeridas. Não há uma consonância discernível entre as duas partes, que terminam por travar De Amor e Trevas naquilo que o é mais importante: a relação materna e primordial entre Amos e Fania.

Como filme de início de carreira, entretanto, o lado diretor de Portman também traz soluções funcionais ao retrato que busca realizar, mesmo quando envolto em suas próprias indecisões. O trabalho que realiza em cima do mistério, que pode muito bem vir a calhar como tema recorrente de seus próximos projetos, se basta para ferramenta de atração, capaz de fazer o público compreender o enigma oferecido por ela sem contudo decifrá-lo plenamente.

Nota: 6/10

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