domingo, 18 de dezembro de 2016

Crítica: Sully - O Herói do Rio Hudson

O peso da responsabilidade.

Por Pedro Strazza.

Tal qual o polêmico Sniper Americano, Sully - O Herói do Rio Hudson é mais um filme de Clint Eastwood que já surge com a ingrata tarefa de glorificar seu protagonista. Obra que retrata os acontecimentos relacionados ao pouso forçado do voo US Airways 1549 no rio Hudson em 2009, o longa é baseado no livro co-escrito pelo piloto do avião Chesley Sullenberger, tendo portanto uma obrigação natural de homenagear de alguma forma o homem que - como o subtítulo brasileiro bem define - foi o maior responsável por evitar uma verdadeira tragédia no dia.

O curioso de Sully, porém, é que por mais que ele de fato enalteça o feito de seu personagem principal no evento sua história acaba por tomar um rumo completamente oposto a este fim. Se em Sniper a posição heroica do soldado Chris Kyle era palco para Eastwood realizar uma problematização interior da ideologia estadunidense, o diretor torna a trama da queda de um avião e do refreamento de um desastre em uma ode ao espírito coletivo humano em tempos de dificuldade, no contexto da Nova York do pós-11 de setembro.

Para isso, o diretor trabalha o relato de forma não cronológica. Centrado na investigação conduzida pela NTSB (Diretório Nacional de Segurança do Transporte dos EUA) sobre o acidente, o roteiro escrito por Todd Komarnicki vai e volta no tempo, mostrando momentos anteriores e posteriores ao evento (incluindo aí passagens da juventude do protagonista) e apresentando o pouso feito pelos oficiais Sully (Tom Hanks) e Jeff Skiles (Aaron Eckhart) sob diferentes ângulos, da cabine dos pilotos à área dos passageiros, passando por equipes de resgate, controle aéreo e até mesmo moradores de Nova York que presenciaram o acontecimento dos prédios onde trabalhavam. É uma forma que o filme encontra de tanto preservar o mistério da narrativa (o que de fato ocorreu naqueles minutos fatídicos?) quanto esboçar algum conflito em cima de uma trama presa a acontecimentos factuais puros.

Mas que conflito é este que envolve o filme e o protagonista Sully, afinal? Epicentro do longa, as entrevistas do trio de investigadores (Anna Gunn, Jamey Sheridan e Mike O'Malley) com o piloto revelam um gigantesco embate entre homem e máquina que passa pelo questionamento das ações do protagonista para realizar um pouso forçado no Hudson e de sua saída dos eventos como grande herói quando em teoria haveria possibilidade de soluções mais harmoniosas. O que está em jogo no filme é a própria humanidade dos personagens, tomadas como falhas pelo sistema ao lhe prejudicarem financeiramente e dificultarem seu domínio como uma força infalível.

Como escapar desta processo de desumanização torna-se então na grande questão a ser respondida pela produção, e a resposta encontrada por Eastwood reside no coletivo. Uma solução que, em um filme centrado na consagração de apenas um indivíduo, é algo muito interessante: Se Sully carrega alguma responsabilidade pelo rumo das coisas e é glorificado por seus feitos, a obra ruma para o lado oposto, oferecendo no esforço social para salvar os passageiros e a equipe do avião a elucidação do "fator humano" tão citado em seus diálogos. No fundo, o diretor filma o acidente sobre diferentes ângulos não apenas para criar um retrato completo dos acontecimentos, mas também como forma de dar mais camadas de entendimento a estes, de lembrar o espectador que é em meio à iminência de uma tragédia que o ser humano melhor se recorda de suas responsabilidades como alguém inserido em uma sociedade.

Ao suposto herói do rio Hudson, o que há de diferente mesmo é o peso da responsabilidade de uma possível tragédia. Enquanto controladores de tráfego aéreo e passageiros parentes respiram aliviados ao terem conhecimento de que o pior foi evitado, Sully passa a ser assombrado pelas próprias ações e das possibilidades que ele sozinho poderia ter dado à história. Desde os primeiros instantes e ao longo da trama - por meio de incursões como delírios ou (mal inseridas) ligações da esposa Lorraine (Laura Linney) - Eastwood situa o drama de seu protagonista como uma maldição incorporada, um espírito pós-traumático que se apossa do piloto para lembrá-lo continuamente de sua responsabilidade sobre os atos.

Para benefício do diretor e de sua produção, o filme conta com a sensibilidade de Tom Hanks para traduzir na tela esta balança de responsabilidade em meios reconhecíveis a qualquer espectador. Ator que cada vez mais tem se especializado nos papéis de homem comum, Hanks repete o desempenho exercido nos recentes Ponte dos Espiões e Negócio das Arábias em chave de assombro, capaz de evidenciar tanto o trauma de Sully desde os primeiros momentos após o pouso (das cenas do avião até o hospital o ator mostra um mesmo olhar assustado que mergulha o público dentro da ação) e a crescente deste processo até o julgamento quanto para tornar a frase - tantas vezes repetida - "Nós apenas fizemos nosso trabalho" em um mantra que una o piloto a tantos outros heróis não midiáticos da tragédia.

Nota: 8/10

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