sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Apesar das boas intenções, derivado não encontra unidade entre narrativas.

Por Pedro Strazza.

Os filmes da franquia Harry Potter sempre funcionaram em um meio-termo estranho entre a grandiloquência e o drama particular, trabalhando a partir de histórias simples de colegial, crescimento e descobrimento do mundo cenários de grandiosos conflitos cujo formato se enquadraria melhor ao épico. Essa dicotomia de realidades - que atendia às necessidades do desenvolvimento do jovem protagonista e sua entrada no universo mágico sem deixar de lado sua jornada para se tornar "o escolhido" - no fundo foi a grande responsável por tornar a série tão bem sucedida nos cinemas, virando uma fórmula que agora busca ser reproduzida em seu derivado Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Pois mesmo que se localize em um momento histórico diferente e almeje outras questões, o filme dirigido por David Yates - que retorna à franquia depois de dirigir os últimos quatro capítulos - é uma grande tentativa de refazer essa estrutura em outros termos. A grande mudança proposta aqui pelo diretor e o roteiro de J.K. Rowling, autora dos livros da série, passa por uma troca de gêneros no núcleo mais íntimo: sai o drama adolescente refletida no coming of age, entra a temática mais adulta do preconceito, encarnado no clima de enfrentamento entre trouxas e bruxos nos Estados Unidos dos anos 20 que encontra seu ponto de crise quando o pesquisador inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega ao país e deixa escapar de sua mala diversas criaturas mágicas proibidas pelo governo.

É dessa busca de Scamander por seus animais que Rowling e Yates então refazem a narrativa conhecida da série, enquadrando-a na trama de um estrangeiro perdido em um lugar desconhecido. A ideia parte do princípio simples da rápida conexão com o protagonista, que de início funciona em seus intentos - como Newt, o espectador não sabe como é o lugar onde se passa a história, e conforme ele é introduzido a este a falta de conhecimento do público se transforma em fascínio - mas aos poucos revela o quão inconsistente essa transfiguração  da estrutura da história se faz. Se nas aventuras anteriores a atribuição profética dada a Harry dava sentido a maiores inserções suas nos grandes acontecimentos do mundo bruxo, Scamander não poderia estar mais deslocado dos eventos ao seu redor, que envolvem desde grupos contra bruxos a magos terroristas.

Esse descompasso entre o que se passa com o protagonista e o cenário histórico habitado gera fraturas sensíveis na trama, que incapaz de conciliar as duas partes apela para ajustes e aumentos de ritmos na sequência de acontecimentos quando precisa realizar tais intersecções. O resultado é um filme desconjuntado, que almeja simultaneamente a alegoria social (os segundo salemistas, o arco do personagem de Ezra Miller, os simpáticos papéis de Dan Fogler e Alison Sudol), a mensagem ecológica (a busca pelas belas criaturas de CGI) e o drama de personagens (a referência ao relacionamento de Newt com a família Lestrange, situação deixada em aberto no longa) sem nunca conseguir de fato uni-los sob um mesmo objetivo. A impressão é que Rowling aqui escreve mais um de seus livros sobre o mundo bruxo sem antes adaptá-lo ao formato de um roteiro: existem tramas cuja relação com o filme soam muito periféricas (o núcleo liderado por Jon Voight, por exemplo) e mistérios com soluções escancaradas pelo visual dos elementos de cena.

Isso não impede a escritora, porém, de fazer bem aquilo que já provou no passado ser mestre. Embora a dissonância na narrativa imobilize a produção e a torne arrastada, Rowling concebe personagens carismáticos e um mundo bastante atrativo, ao qual Yates a trancos e barrancos preserva (ou, sob o viés da repetição, tenta emular o possível das obras de Chris Columbus na série) o senso de descoberta e maravilhamento com seu funcionamento. A franquia, afinal, também vive desse encantamento, e a produção mantém erguido este alicerce pela maleta de seu protagonista e nas criaturas e suas aplicações que são apresentadas por ele às irmãs Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Sudol) e o trouxa Kowalski (Fogler).

O deslumbramento com esses animais e até mesmo com a Nova York dos anos 20, entretanto, é um efeito passageiro. Por mais que busque tornar o encanto com o visual seu item central, Yates não consegue esconder o filme difuso que faz, cujas ambições a todo instante são frustradas pela inexistência de uma falta de escalada e concentração. Se o mundo bruxo de Animais Fantásticos e Onde Habitam provoca fascínio a primeira vista, por baixo dos cenários e seres belos parece existir um vazio sem rumo e de boas intenções desperdiçadas.

Nota: 5/10

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