segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crítica: Os Oito Odiados

Com caldeirão social efervescente, Quentin Tarantino quebra mais um alicerce americano.

Por Pedro Strazza.

A essa altura da carreira, Quentin Tarantino já deve ter deixado claro para qualquer espectador que ele trabalha no cinema para desconstruí-lo em seus ideais. Das pin-ups que se revoltam contra o macho que as oprime de À Prova de Morte aos faroestes protagonizados por mulheres e negros - esses tipos relegados nos clássicos a servir o homem branco em seus afazeres heroicos - nos dois volumes de Kill Bill e em Django Livre, o diretor e roteirista assumiu para si na carreira essa tarefa de questionar os alicerces da mitologia estadunidense sem contudo nunca assumir filiação a qualquer movimento social de igualdade, bem a exemplo da polêmica com seu uso desenfreado da palavra "nigger" em Django e que continua a persistir em Os Oito Odiados junto agora de inúmeros "bitch".

É nesse tão alardeado oitavo filme da carreira, por sinal, que o cineasta parte de fato para a desconstrução definitiva do cinema americano em sua essência, no arquétipo mais utilizado pelas artes do país e que continua a persistir nos moldes atuais. Mais uma vez no faroeste e tirando a poeira acumulada dos filmes cabin fever na mesma intensidade que faz com a fotografia em 70mm, Tarantino vai atrás do questionamento ao tão celebrado herói americano, aquele cujos feitos revolucionam o mundo um salvamento de mocinha de cada vez.

É um assunto que se anuncia desde o início nos aspectos técnicos, nas pequenas coisas que o diretor reafirma seu amor a cada novo projeto. Além dos "gloriosos" 70mm que o cineasta usa para mergulhar o espectador no imenso deserto branco das paisagens de inverno (e mesmo cortadas pelas adaptações para o formato convencional dos cinemas comerciais encantam da mesma maneira), Tarantino deixa claro o caráter revisionista de seu faroeste em elementos como a trilha sonora de Ennio Morricone e o design de produção, feitos para emular nos objetos e no uso constante de instrumento de sopro mais graves o clima de leve tensão que aos poucos domina a cabana onde os personagens se abrigam durante uma forte nevasca.

Mas por que essa tensão crescente? Além de toda a situação envolvendo o desconfiado caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) em proteger sua criminosa aprisionada Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) de quaisquer investidas da gangue à qual ela pertence e de outros caçadores interessados no prêmio oferecido pela cabeça dela em um lugar em que confia em ninguém, o casebre em que ocorre grande parte dos eventos de Os Oito Odiados serve como caldeirão para a reunião dos mais diferentes tipos sociais do cinema estadunidense, que por serem naturalmente opostos entre si acabam por dar início ao banho de sangue conhecido dos filmes de Tarantino.

Mulher, negro, imigrante prestigiado e desprestigiado, vaqueiro, confederado, xerife... boa parte desses tipos representam indivíduos marginalizados ou criminalizados na sociedade americana, enquanto a outra é posta no pedestal pelos bons modos e uma "mente superior", e ambos assim sendo pintados na sétima arte. Todos odiados, todos julgados no longa como seres desprezíveis em seus preconceitos e atos de violência exarcebados - e é alarmante isso na cena em que Russell dá um murro na boca de Jason Leigh, onde Tarantino filma sem glorificar a pancada, numa medida rara e quase única na carreira de repudiar a agressão. Todos, porém, ajudaram a consolidar os Estados Unidos como conhecemos, e seu reconhecimento ou a falta dele são o que geram os conflitos do filme.

Tarantino, porém, não se interessa somente em pô-los em rota de colisão para gerar caos e destruição como também em pé de igualdade. É comum (e estranho) ver na fotografia de Robert Richardson (frequente colaborador dos filmes do diretor) planos que ponham em pé de igualdade os diferentes personagens de diferentes sexos, cores ou idades, seja nos diálogos rápidos ou nos planos mais gerais. Mesmo a presença fantasmagórica do presidente Lincoln, homem conhecido por querer unir os povos em seu governo e aqui o grande tesouro na forma de uma carta, surge para reforçar no filme esse desejo escondido e cheio de esperança em meio à tempestade que se forma.

O conflito, entretanto, é algo inerente aos filmes do cineasta e também a melhor solução para resolver os problemas, e o sangue logo começa a jorrar. A grande questão é: O que vai surgir desse caldo social de diferentes temperos?

Pois é por meio do caldeirão efervescente de traições e tiros que emerge o herói americano, mas dessa vez não da forma que se espera. Em Os Oito Odiados, enquanto o maior vilão é o homem branco emasculado (não à toa interpretado por Channing Tatum, experiente no ramo desde Magic Mike), o mocinho termina por ser justamente o xerife interpretado por Walter Goggins, que em sua mentalidade confederada, racista e misógina e mesmo na figura franzina é a antítese de tudo aquilo que se espera desse arquétipo. O grande conflito final, na verdade, não é se ele se rende às ofertas tentadoras de Daisy ou permanece ao lado da justiça e do caçador de recompensas interpretado por Samuel L. Jackson (tanto o maior espectador do debate como também figura odiosa), mas sim o do espectador em se afiliar àquele sujeito em sua batalha contra "o mal".

Enquanto isso, é inegável que Tarantino esteja se divertindo a valer em seu épico desconstrutivo. O problema é ele acabar por deixar transparecer demais seus acessos de alegria com a violência: as explosões de sangue ocorridas no longa, mais viscerais do que nunca em sua filmografia graças ao ótimo trabalho de efeitos visuais, acabam por deixar o diretor se deixar levar demais pelo seu tesão, e por sua vez permite que certos sadismos seus cheguem à superfície e se mostrem inadequados socialmente. Misoginia e racismo aparecem nesses momentos de explosão de agressividade, ainda que no mesmo tom de ato involuntário no uso do velho clichê de colocar a mulher como representação do pecado - e também sendo bastante divertidos, como no ato irônico de ambientar o grande confronto de Samuel L. Jackson com o confederado interpretado por Bruce Dern em um "Noite Feliz" tocado no piano.

Assim, entre canos fumegantes, jorros de sangue na cara de seus personagens e vícios de linguagem mais controlados (o close nos pés dessa vez ocorre em pessoas calçadas), que Tarantino caminha a passos largos para se tornar o grande bastião desse esforço de questionar e demolir os antigos arquétipos hollywoodianos. O herói, que a princípio parece ser o homem mais paranoico e de objetivo mais claro - o dinheiro, claro - no grupo, com velocidade passa a ser na visão do cineasta o homem mais desprezível e sem meta real alguma, que por alguma razão continua a ser o homem pelo qual espectador torce para que tome a decisão certa.

Mas se ele termina amigo daquele que mais despreza, em pé de igualdade com este, é sinal de que melhorou o suficiente para aceitá-lo neste papel. Ou pelo menos é isso que o diretor leva o público a crer.

Nota: 9/10

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