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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Show de Esnobadas do Oscar 2015


...e uma volta do limbo

Por Pedro Strazza

Se no ano passado a gente fez até força para conseguir destacar os filmes não lembrados pela Academia, em 2015 essa lógica inverteu-se. Com o anúncio dos indicados, o Oscar pegou todo mundo de surpresa com uma porrada de filmes esnobados, chutados sem nenhuma consideração pelos votantes para fora da festa. Restou pra gente a tarefa de lembrar dessas produções, nessa espécie de "In Memoriam" da "festa do cinema" estadunidense. Confira:
Até então considerado o filme com maiores chances de levar o Oscar de Melhor Animação no ano em que a Pixar não concorria, a divertida aventura comandada por Phil Lord e Chris Miller acabou caindo fora até da disputa do prêmio, que deve ficar agora com Como Treinar o Seu Dragão 2. Mas Uma Aventura LEGO pelo menos ficou com a indicação de consolação em Melhor Canção Original, com sua divertida música Everything Is Awesome, e um prêmio de plástico, se você considerar a piada feita por Lord em seu Twitter.
Esse foi definitivamente a morte horrível do ano. Cotado em inúmeras categorias, incluindo Melhor Filme, o mais recente trabalho de David Fincher acabou conquistando apenas uma vaga em Melhor Atriz para Rosamund Pike, e de forma inexplicável foi deixado de fora em todo o resto. Até Roteiro Adaptado, onde a própria escritora foi responsável pela transição do livro homônimo para a telona, foi derrotado no calor da disputa.
  • O Ano Mais Violento
E não foi dessa vez que o cineasta J.C. Chandor vê seu trabalho ser indicado para o Oscar - de novo. Com fortes chances na categoria de Atriz Coadjuvante com Jessica Chastain e amplamente elogiado pela crítica especializada, O Ano Mais Violento teve sua chance na premiação aniquilada pela inesperada indicação de Laura Dern na posição, e terminou zerado na lista.
  • Selma
Ainda que tenha conseguido entrar na acirrada lista de indicados para Melhor Filme, é inegável que Selma foi amplamente ignorado pela Academia. A cinebiografia de Martin Luther King, afinal, foi cortado de todas as categorias principais e só foi indicado para Melhor Canção nas técnicas, tornando-se o concorrente ao prêmio máximo de 2015 com menos indicações.
  • Life Itself
Os críticos mais velhos devem ter sofrido um ataque cardíaco quando a Academia anunciou os indicados a Melhor Documentário. Isso porque Life Itself, biografia sobre a vida do falecido crítico de cinema Roger Ebert que em teoria era o grande favorito na categoria, ficou de fora da lista final, deixando caminho aberto para a vitória de Citizenfour.
  • O Abutre
Nesse caso já era até esperado uma passagem em branco na premiação, mas houve muita surpresa quando o psicótico Lou Bloom de Jake Gyllenhaal não entrou para a lista de indicados a Melhor Ator. Restou a O Abutre, pelo menos, um singelo reconhecimento em Melhor Roteiro Original, e nada mais.
  • Era Uma Vez em Nova York
Outro que estava fora da disputa há um bom tempo, a obra de James Gray sobre as dificuldades da imigração depositava um fio de esperança na área de fotografia, onde o espetacular trabalho de Darius Khondji talvez fosse suficiente para conquistar a desejada nomeação. Mas a sorte de Era Uma Vez em Nova York nunca veio, e o filme passou zerado na Academia.
Aqui existe mais uma curiosidade que uma "derrota dolorosa". Graças a um certo Capitão América, a conclusão da saga de Bilbo nos cinemas é o primeiro filme da franquia O Senhor dos Anéis a NÃO ser indicada para a categoria de Efeitos Visuais, sendo nomeada apenas para Edição de Som. A comparação da adaptação da obra de J.R.R. Tolkien nos cinemas com Star Wars agora é mais próxima do que nunca.
  • Cake
Pois é, não deu para Jennifer Aniston este ano. A eterna Rachel da série Friends apresentava grandes chances de ter sua primeira indicação ao Oscar, mas foi ultrapassada de súbito por Marion Cottilard e seu excelente trabalho em Dois Dias, Uma Noite, dos Irmãos Dardenne. Agora a grande questão é: Será que Aniston vai continuar tentando alcançar um Oscar ou vai voltar a fazer suas comédias românticas de sempre?

E pra não dizer que só teve esnobada...

  • Vício Inerente
Parecia morto, decapitado e enterrado bem fundo no cemitério, mas o novo trabalho do diretor Paul Thomas Anderson conseguiu não só uma como DUAS indicações ao Oscar, em Roteiro Adaptado e Figurino. Ainda estamos esperando uma vitória do cineasta na premiação, mas no momento essas conquistas merecem comemorações.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Crítica: O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos

Capítulo final evidencia tanto erros quanto acertos de toda a trilogia

Por Pedro Strazza

Há um tempo (mais exatamente no final dos anos 90), o cineasta George Lucas e sua Lucasfilm anunciaram que Star Wars enfim ganharia mais uma trilogia, passada antes dos eventos dos três primeiros filmes. A notícia atingiu o mundo de maneira brutal, e a grande legião de fãs foi assistir A Ameaça Fantasma com uma empolgação absurda, almejando ver na telona uma história de proporções similares aos longas dos anos 70/80. O resultado chocou: Além de trazer no primeiro capítulo uma trama simples, Lucas deixou claro no filme a preferência pelo arroubo visual que permearia a nova trilogia, investindo muito mais em cenários exuberantes e batalhas de impacto que em um roteiro de personagens e situações complexas.
De certa forma, a escolha tomada por Lucas lá atrás não é tão diferente da feita por Peter Jackson neste começo dos anos 2010 com O Hobbit. Responsável por adaptar com excelência a trilogia de livros O Senhor dos Anéis para a grande tela, Jackson resolveu dividir a história de 300 páginas em três filmes de mais de duas horas cada, visando na teoria acrescentar à aventura de Bilbo vários contos de J.R.R. Tolkien e conseguir maior arrecadação nas bilheterias para custear a sua mais nova e ambiciosa produção. Na prática, o que se viu em cena nos dois primeiros filmes foi uma dedicação homérica de tentar encantar mais pela ação que pelos eventos, um desbalanceamento claro do equilíbrio entre trama e espetáculo da primeira trilogia - algo irritante, óbvio, para fãs da franquia.
Mas se em Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug viu-se certo acanhamento do diretor nessa questão, em A Batalha dos Cinco Exércitos é evidente que ele enfim resolveu fazer da história apenas um espetáculo. Como bem indica no título, o terceiro capítulo de O Hobbit gira primordialmente em torno de um conflito gigantesco, gerado pela derrocada do dragão Smaug (Benedict Cumberbatch) e a questão de quem assumirá o comando da Montanha Solitária. Anões, humanos, elfos, orcs... todas as raças da Terra-Média estão envolvidas na disputa, e uma guerra de grandes dimensões se instaura no local.
E com tanto tempo disponível (são duas horas e vinte cinco minutos de duração), o que se vê na produção é justamente isso: um épico. Aliado à fotografia de Andrew Lesnie, bastante balanceada entre o deslumbramento dourado de Uma Jornada Inesperada e o clima sombrio de A Desolação de Smaug, e os efeitos visuais da sempre eficaz Weta Digital, Jackson enquadra a batalha e seus combatentes com precisão, e se utiliza de todo o seu aprendizado nos outros cinco filmes - o estilo de luta característico de cada facção, os planos aéreos, a ação em duas frentes - para gerar uma verdadeira exibição de cenas de grande porte. Não à toa, o que se vê no terceiro O Hobbit é uma sucessão de ações super-humanas semelhante à continuidade de um show, em que cada evento parece merecedor de aplausos.
O desenvolvimento da ação visual, porém, não esconde de A Batalha dos Cinco Exércitos os seus problemas graves na trama. O roteiro elaborado por Fran Walsh, Philippa Boyens, Guillermo Del Toro e Jackson parece não se incomodar mais em deixar mal explicado várias passagens e acontecimentos, e até deixa em aberto vários desfechos de personagens, como os de Tauriel (Evangeline Lilly) ou de Saruman (Christopher Lee), denotando clara dependência do longa na trilogia do Senhor dos Anéis - algo que novamente remete aos trabalhos de Lucas, cuja nova trilogia só funciona com os três Star Wars originais vistos. É evidente o erro de esticar o conto em três capítulos cinematográficos, pois mais do que nunca falta conteúdo em um filme baseado em uma obra de Tolkien.
Outro ponto grave na narrativa são os personagens, que além de aparecerem e desaparecerem ao bel-prazer da história - e alguns são incluídos sem qualquer necessidade, como é o caso de Alfrid (Ryan Gage) - são elaborados sem nenhum fundamento. Só observar, por exemplo, a trajetória final de Thorin (Richard Armitage), que varia seu humor sem qualquer motivo por causa da "doença do dragão" (outro ponto muito mal explicado e usado sem pretexto algum) e chega a absurdos como ir da alegria à raiva em um take. E sem essa substância, as boas atuações do vasto e primoroso elenco são bastante prejudicadas.
Com certa ironia, é curioso pensar que O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos reflete em seu conteúdo toda a trilogia elaborada por Peter Jackson nesses últimos três anos. É um trabalho visualmente arrebatador, com efeitos deslumbrantes e ação bastante eficiente, mas ao mesmo tempo possui um interior vazio, gerado por personagens mal desenvolvidos por um roteiro apoiado exclusivamente no emocional de uma trilogia, essa sim, brilhante. Para Jackson, assim como Lucas, vale muito mais no prelúdio um espetáculo impressionante que um filme bem trabalhado. Uma pena? Sim, claro.
Mas que é um baita de um espetáculo...

Nota: 9/10