Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Mahershala Ali. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mahershala Ali. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Crítica: Alita - Anjo de Combate

Adaptação é apenas Robert Rodriguez com orçamento e um grande estúdio por trás.

Por Alexandre Dias.

O cenário pós-apocalíptico devastado pela guerra e a sociedade disforme. Sejam quais forem as pequenas diferenças dos filmes que possuem esse pano de fundo, dos ciborgues aos desertos, é difícil não ter um pouco de preguiça do tema. O desgaste é claro, tanto pela imensa quantidade de projetos assim nos últimos anos – muito disso se deve à invasão juvenil de adaptações literárias -, como pela falta de criatividade nas histórias; os roteiros parecem reciclados de tão similares, recorrendo a pequenas reviravoltas “diferentes” para mudar.

Não que o assunto em pauta não seja legal, basta ver quantos clássicos e sub-clássicos advindos dessa linha fílmica já foram lançados. É redundante comentar sobre Mad Max, porém O Livro de Eli é uma ótima prova de produção totalmente derivada do gênero e que sabe ser inventiva dentro dele, ainda que com os seus escorregões. Se não um novo expoente que siga esse caminho, talvez uma das únicas opções para uma reinvenção seria a desconstrução, a exemplo de Os Imperdoáveis e Logan, no faroeste e com os super-heróis, respectivamente. Alita: Anjo de Combate não flerta com nenhum desses rumos.

Depois de ser adiado algumas vezes, o longa dirigido pelo veterano Robert Rodriguez e que tem a mão de James Cameron na produção e no roteiro, traz o contexto mais clichê possível do pós-apocalipse. Humanos cada vez mais com partes mecânicas, uma terra dividida entre ricos no céu e pobres no solo e um passado de guerras. Elysium, Blade Runner e Ghost in the Shell são apenas algumas das reproduções temáticas que podem ser identificadas na obra. E não há problema nisso, sendo o verdadeiro demérito a maneira como esse mundo e os seus integrantes são desenvolvidos.

Comecemos pelos personagens. O único deles que é realmente digno de nota é a protagonista, encarnada por Rosa Salazar. Na verdade, o papel em si é muito fraco e todos os mistérios que cercam a jovem guerreira são óbvios, contudo a inocência de Alita mesclada a sua perseverança geram um carisma que a atriz segura bem ao longo da produção. Os outros ao seu redor são absolutamente mal construídos. Hugo (Keean Johnson), por exemplo, começa como o clássico interesse amoroso juvenil, mas a importância desenfreada que ele ganha na trama torna-se bizarra, a ponto do espectador se perguntar se aquilo é burrice ou só piegas mesmo.

A impressão destas consequências é de que o roteiro foi remendado devido à produção atribulada, especialmente na virada do segundo para o terceiro ato. A trama começa a perder sentido, como no momento em que do absoluto nada Alita participa de uma competição logo após uma série de acontecimentos estranhos. Isso sem falar nas atitudes de personagens similares a de Hugo; Chiren (Jennifer Connely) e Zapan (Ed Skrein) são os que mais sofrem com ações esquisitas ou incoerentes nos seus pontos decisivos.

Entretanto, é engraçado como essa confusão narrativa acaba beneficiando os clichês da história por um lado, mesmo que não chegue nem perto de salvá-la. Com certeza o responsável é Robert Rodriguez, que faz o seu Pequenos Espiões com orçamento. O jogo citado acima é divertido, ainda que surja abruptamente e é algo que pode ser esperado do cineasta. Inclusive, o visual como um todo transmite essa sensação, pois é extremamente digitalizado e difícil de engolir em determinadas horas – leva tempo para se acostumar com o rosto de Alita -, porém o excesso do caricato em cima disso promove uma imersão curiosa no universo, que entre uma cena e outra é bonito de se ver.

A maioria delas acontece na ação. Rodriguez ativa totalmente a sua caracterização de videogame, o que deixa a habilidade de Alita, por exemplo, um tanto inverossímil, mas agradável. O confronto dela com Grewishka (Jackie Earle Haley) é literalmente a incorporação desse exagero benéfico. Não se pode dizer que estamos diante de um filme empolgante e que a pancadaria enche os olhos, mas há uma escolha oferecida ao público de ter um pequeno deleite naquele estilo.

Para um projeto clichê e destrambelhado é uma vitória ter esses momentos. É o melhor que Alita tem a disponibilizar, mais nada. Muito menos uma franquia, a qual foi pensada antes mesmo do nascimento deste longa por si só. Há um gancho enorme no final, que só realça a falta de potencial para uma nova marca hollywoodiana. Pelo menos a figura que dá as caras nos últimos minutos é interessante. Um pouco...

Nota: 3/10

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Crítica: Moonlight - Sob a Luz do Luar

Tríptico eleva ideal de masculino ao posto de maldição sob atuação de um paradoxo intrigante.

Por Pedro Strazza.

Das correlações que pode-se fazer entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano, a mais curiosa é sem dúvida a coincidência da entrada na categoria de filmes que parecem tirar da virilidade de seus protagonistas masculinos um alicerce fundamental para sua proposta e execução, como é o caso de Até o Último Homem, Manchester à Beira-Mar, A Qualquer Custo e Moonlight - Sob a Luz do Luar. Este último, porém, possui um contraste gritante em relação ao resto: se as outras três produções trabalham este item totêmico à figura masculina tradicional como uma base segura de suas histórias, a adaptação da peça de teatro de Tarell Alvin McCraney torna-o um elemento central de discussão.

Já se percebe a presença desta temática no filme logo em seus primeiros momentos, conforme o vistoso carro do traficante Juan (Mahershala Ali) surge ocupando grande espaço do plano, como se anunciasse seu perfil como ideal ao cenário proposto. Situado em uma periferia desfavorecida e maioria populacional negra de uma cidade não identificada nos Estados Unidos, o longa escrito e dirigido por Barry Jenkins se faz como um tríptico, dividido em momentos distintos da vida do protagonista Chiron - respectivamente a infância (Alex Hibbert), a adolescência (Ashton Sanders) e a fase adulta (Trevante Rhodes) - para tentar entender o processo que leva um garoto vítima de bullying a se tornar em uma engrenagem do tráfico quando adulto.

As respostas de início são várias. Da mãe vítima do crack (Naomie Harris) à clara figura paterna encontrada em Juan, passando pelo lar instável e a violência inerente ao bullying feito ao protagonista, Jenkins promove a princípio um filme de vieses genéricos ao mesmo tempo que privilegia na narrativa as suas relações masculinas, aos poucos construídas como elementos centrais da estrutura do longa. Conforme Chiron vai crescendo, a história também revela o porquê desta decisão, que dissolve as supostas causas imediatas e as substitui por uma mais particular e pertencente ao mundo dos homens.

O que Jenkins busca fazer em Moonlight é tornar o ideal masculino em uma espécie de maldição para seus personagens, um tormento gerado pela sociedade e carregado por todo indivíduo desde a infância que o impede de assumir sua real identidade, seja esta qual for. Dominado por relações de presa e predador (seja na escola ou no tráfico) e acompanhado pela trilha enervante de Nicholas Britell, o mundo habitado por Chiron exige dele constantemente uma condição viril que parecem não condizer com seu perfil de início inocente, mas conforme o tempo passa ele é obrigado a se colocar em um dos pólos em ordem de sobrevivência. Não existem aqui válvulas de escape ou meios alternativos: para o garoto, a lógica de vida passa em caráter inexorável por uma questão de matar ou morrer.

Esta percepção de ambiente no qual o filme caminha torna sua proposta ao mesmo tempo tão atraente quanto limitada em suas intenções. Se Jenkins por um lado torna a narrativa harmoniosa ao se apoiar nas relações que servem de alicerce à temática - algo que potencializa o trabalho de seu elenco, principalmente Ali e Harris na brevidade de suas participações - sua percepção daquele mundo também priva a produção de desenvolver com propriedade conflitos que sem dúvida dariam substância a seus objetivos, relegando-os a condições inertes e pouco efetivas para o que está em jogo ali - a situação, por exemplo, das duas mães de Chiron, no caso a biológica e a namorada de Juan, Teresa (Janelle Monáe), nunca chega a ser explorada direito pelo roteiro.

São ausências a serem sentidas no decorrer da história, que ademais soa um pouco indecisa sobre o tipo de obra que quer se adequar. Se Moonlight se comporta como o típico filme introspectivo, trabalhado de maneira a compreender o estado emocional do indivíduo em momentos-chave de transformação, ele ao mesmo tempo também parece almejar uma universalidade a seus atos e metamorfoses, esvaziando dramas para atingir qualquer tipo de espectador. O mundo de Chiron é particular em simultâneo que mostra-se comum, e tal paradoxo acaba por atuar contra e a favor da produção como uma espécie de maldição própria.

Nota: 7/10