Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Antoine Fuqua. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antoine Fuqua. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de setembro de 2016

Crítica: Sete Homens e um Destino

Refilmagem se disfarça de boas intenções, mas se contradiz com o próprio conteúdo.

Por Pedro Strazza.

Assim como Os Setes Samurais, épico samurai máximo do diretor Akira Kurosawa do qual aproveita a trama para ambientá-la no Velho Oeste, o primeiro Sete Homens e um Destino traz em seu âmago uma narrativa que engloba noções de público e privado. Os sete pistoleiros do título, afinal, aceitam de início defender um pobre vilarejo mexicano dos assaltos de uma gangue de 40 bandidos por mera ambição ou necessidade pessoal (a promessa vazia por riquezas, o desafio do combate, o pagamento de dívidas e etc), mas pouco a pouco se envolvem com a população ao qual foram contratados para proteger. A morte de grande parte do grupo no fim da história é a comprovação final do processo, um sacrifício que envolve não só suas vidas como também de seus desejos em prol de um bem maior.

A nova versão do filme, entretanto, não reconhece essa linha de raciocínio. Nas tantas mudanças feitas pelos roteiristas Nic Pizzolatto e Richard Wenk em cima do roteiro do original, se destaca no remake a dissolução da relação intrínseca entre heróis e vítimas, substituída por uma que privilegie os primeiros e relegue os últimos ao segundo plano. Se no longas de Kurosawa e John Sturges a questão principal é o encontro de figuras icônicas com pessoas comuns - o primeiro em forma de enfrentamento, o outro pelo deslumbramento conhecido dos faroestes da época -, a refilmagem dirigida por Antoine Fuqua prefere o espetáculo do duelo de seus mocinhos com o vilanesco industrialista Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), que quer assaltar a cidadezinha de Rose Creek pelo roubo das terras.

É uma mudança de eixo simples e feita por uma boa causa, mas que traz imensos prejuízos à estrutura da história. Pizzolatto e Wenk buscam aqui expandir e realçar o conflito entre brancos e negros que caracteriza o cinema de Fuqua, contrapondo o elenco multiétnico e em pleno equilíbrio de figuras do Velho Oeste que protagoniza a trama - o delegado negro de Denzel Washington, o branco boa-pinta de Chris Pratt, o confederado traumatizado de Ethan Hawke, o ermitão de Vincent D'Onofrio, o bandido mexicano de Manuel Garcia-Rulfo, o estrangeiro de Byung-hun Lee e o indígena de Martin Sensmeier, todos interpretados com canastrice e sotaques bastante forçados pelos atores - com o vilão capitalista e diabólico, porém nunca conseguem sair da linha maniqueísta e da estereotipação desses personagens. Não existe no filme um esforço de humanização de tipos mas sim um reforço destes, conforme os contatos promovidos entre elementos tão opostos provam-se ineficazes na construção de uma relação mínima entre eles.

Isso porque este Sete Homens e um Destino encontra-se contaminado por uma sede individualista que não se justifica, gerada justamente pelo abandono do alicerce primordial do encontro dos pistoleiros com a cidade. Enquanto os heróis liderados por Yul Brynner e Steve McQueen no longa de 1960 eram aos poucos guiados pela salvação da população, os comandados por Washington e Pratt nunca chegam a se desvincular do propósito único de derrotar os poderosos para se concentrar nos que foram contratados para salvar, como se estivessem lá apenas para se tornarem lendas por derrotar uma força maior. Nos poucos momentos de encontro entre os cidadãos e os pistoleiros, inclusive, a câmera de Fuqua gosta de ressaltar (e não de desconstruir) a hierarquia entre quem protege e quem está sendo protegido, colocando os heróis sempre acima do povo como forma de legitimar seu caráter "lendário".

Para piorar, Fuqua parece estar perdido mesmo em seus propósitos. Se falta equilíbrio nas cenas em que precisa estruturar uma mínima ligação entre os protagonistas, na ação seu descontrole é total, já que promove uma escalada de eventos que repete situações e se interessa em apresentar uma novidade de impacto a cada minuto para prender a atenção do espectador. Clímax do filme, o combate final entre as forças de Bogue e os sete homens do título é confuso e desatento, sendo incapaz até de acompanhar o movimento dos personagens - que não sejam os de Denzel Washington ou Chris Pratt - e manter suas aparições em equilíbrio. Mesmo alguns duelos soam subaproveitados, como o travado entre os dois índios da trama ou o final com o vilão.

Na comparação entre Os Sete Samurais e o Sete Homens e um Destino original, o último saía perdendo por não conseguir dar cabo da tarefa de transportar para seus pistoleiros a sensação inequívoca do longa de Kurosawa de que o sacrifício dos samurais no fundo representava também o fim de seu valor para a sociedade, um sacrifício simbólico que repercutia em sua queda final como figura fundamental do imaginário japonês. O remake não apenas vai na contramão disso e busca consagrar seus protagonistas pelos mesmos caminhos, mas também demonstra um orgulho muito burro de abandonar esse viés.

Nota: 2/10

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Crítica: Nocaute

História clichê de boxe ganha fôlego graças a seus momentos intimistas.

Por Pedro Strazza.

Ao longo de Nocaute, parece ser constante a sensação incômoda de que a história a se desenrolar na tela é idêntica a de outros milhares de filmes que tomam o boxe como tema principal, e isso não ocorre por acaso. No que diz respeito aos ringues, o novo trabalho do diretor Antoine Fuqua segue com fervor os caminhos e clichês do subgênero, como se tomasse para si a missão de ser a representação máxima deste particular grupo de produções. Do arco de superação primordial ao ator principal esforçado, o longa não esconde seus intentos do princípio.
Dessa maneira, somos apresentados logo no início ao protagonista Billy Hope (Jake Gyllenhaal), selvagem lutador profissional do esporte que defende a várias partidas o título de campeão na categoria de peso médio somente para o bem da sua mulher Maureen (Rachel McAdams) e da filha Leila (Oona Laurence). Tudo vai pelos ares, porém, quando a esposa é morta durante uma briga dele com um adversário e a rebenta, pouco depois de Billy perder o cinturão, é afastada legalmente de sua pessoa. Mergulhado na depressão e destituído de tudo, o boxeador então começa um processo de redenção para reaproximar-se da filha, e pra isso contará com a ajuda do lendário treinador Tick Wills (Forest Whitaker).
O que Nocaute realiza a partir daí é o velho arco de normalização do indivíduo, com direito a discursos pra levantar a moral e cenas de disciplinamento. Da abertura apresentando um Billy Hope completamente animalizado, Fuqua e o roteirista Kurt Sutter - que em sua estreia em longas-metragens traz a violência brutalizada e a relação com a morte que tanto fizeram seu nome em Sons of Anarchy - aos poucos devolvem ao personagem sua condição humana conforme este é reintroduzido à sociedade. O diretor inclusive usa de um plano dos telhados da casa de Hope (um verdadeiro castelo visto por cima) para acentuar o aspecto quase mágico de sua vida antes de desmoronar, além de tratar as lutas de boxe como puro e trivial espetáculo - como bem denotam as narrações dos locutores ou a postura canastrã ao qual 50 Cent incorpora ao agente do protagonista.
Nesse quesito, o elenco acha bastante espaço para manobrar com conforto suas interpretações, e isso diz respeito principalmente a Gyllenhaal. Já no físico musculoso demonstrando seus esforços com o papel, o ator torna realidade a passagem de besta a humano de seu papel, em caras e bocas que saem do exagero para chegar ao contido quando efetiva a posição de pai de família. É nesses momentos mais intimistas, inclusive, que o longa consegue respostas mais imediatas do espectador, pois o ator e a pequena Oona Laurence encontram-se afiados na execução de suas tarefas.
Clichês e relações familiares à parte, o filme traz ideias interessantes a partir do contato de Billy com Tick Wills (interpretado com tranquilidade por Whitaker) e sua academia. Nas mãos de Fuqua, a ligação entre treinador e lutador ganha um viés de marginalização no sistema e da incapacidade de reconhecimento sobre esta de um ponto de vista racial, já que o protagonista, enjaulado sobre luzes e holofotes, só consegue observar as mazelas dos outros quando está na mesma posição. Quando Gyllenhaal encontra o personagem de Whitaker lamentando sobre eventos envolvendo um dos garotos de sua academia e no princípio parece incapaz de reagir ao que vê, talvez tomado pela surpresa daquilo que presencia, resume bem essa noção da obra.
Tomado por personagens femininos totalmente objetificados (em tempos de personagens femininas fortes é impossível não se incomodar com cenas como a de Rachel McAdams conversando com o marido enquanto de quatro na cama), Nocaute é uma obra que se conforma demais com o genérico e o rotineiro para poder funcionar sozinho. Seu elenco, porém, consegue levantá-lo o suficiente para torná-lo relevante o suficiente e apresentar ao público suas boas ideias que surgem ora ou outra na narrativa convencional.

Nota: 6/10