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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

As esnobadas do Oscar 2017

O pessoal que ficou de fora da grande festa do cinema estadunidense.

Por Pedro Strazza.

Como qualquer outro prêmio disposto a consagrar nomes e obras que marcam o ano, o Oscar não é capaz de englobar todas as produções que pipocam na temporada. Para cada La La Land, Moonlight, A Chegada e suas inúmeras indicações, vários filmes acabam morrendo na praia durante a longa e já tradicional temporada de premiações. São os famosos esnobados do Oscar, aqueles que os votantes esqueceram de acrescentar ou simplesmente não acharam o espaço na cartela de votação para colocá-los entre seus melhores.

Em 2017, esse cenário se repete. As onze produções, atores e atrizes mencionadas abaixo em algum momento ganharam reputação suficiente para almejar um lugar na lista de indicados da 89° edição do Oscar, mas terminaram a corrida sem nada nas mãos além de vãs esperanças frustradas. O esquecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, porém, não se repete aqui.

No In Memoriam da temporada do Oscar 2017 temos:

Talvez a ausência mais sentida por todos este ano, a queda de Amy Adams na categoria de Melhor Atriz é um fenômeno dos mais bizarros. A atriz é sem dúvida a força maior de A Chegada, que conquistou nomeações em quase todas as outras categorias para ficar de fora da que lhe era mais fundamental. Pessoalmente acho o filme superestimado (ainda mais para oito nomeações), mas Adams de fato merecia seu lugar na premiação.

Foi um ano bastante cheio para a categoria de Melhor Documentário, o que por consequência resultou numa categoria forte e muito política - três das obras indicadas envolvem a questão racial e um (Fogo no Mar) trata da imigração, bom lembrar. Ainda assim, fica a tristeza de ver um documentário tão curioso e inusitado como o Cameraperson de Kirsten Johnson de fora da disputa, pois ele traz problematizações bacanas sobre o gênero e o ato de registrar a realidade.

Aquarius já tinha morrido na temporada há muito tempo, mas até ontem alguns ainda carregavam a esperança de ver o sul-coreano A Criada em algumas das categorias técnicas do Oscar. O que muito provavelmente frustrou as chances do longa de Park Chan-wook foi que ele não foi escolhido como representante do país na disputa de Melhor Filme Estrangeiro (a Coréia do Sul decidiu submeter The Age of Shadows), ao passo que a campanha de seus admiradores não foi suficiente para carregar o longa até onde precisava.

Convenhamos, por um momento ali o filme do anti-herói nada convencional teve chances de chegar no prêmio mais importante da indústria hollywoodiana. As inesperadas lembranças ao filme de Tim Miller nos importantes sindicatos dos produtores, roteiristas e diretores catapultaram Deadpool ao impensável status de possível finalista no Oscar de Melhor Filme. Tudo não passou de sonho e no fim das contas os filmes de super-herói que chegaram no Oscar foram Esquadrão Suicida (RISOS!) e Doutor Estranho, mas... quem diria.

  • Hugh Grant (Florence - Quem é Essa Mulher?)

Além de A Chegada, outro filme que passou (em menor grau) pelo processo "indicado para tudo menos no que importa" foi a cinebiografia da cantora Florence Foster Jenkins. O filme dirigido por Stephen Frears conquistou nomeações em Melhor Atriz para Meryl Streep (em sua 20° participação na premiação) e Figurino, mas ficou de fora em Ator Coadjuvante com Hugh Grant. A culpa talvez seja porque o ator não é mais tão querido dos votantes, talvez porque a categoria esteja um pouco lotada esse ano - o que não explica Michael Shannon lembrado por Animais Noturnos, porém.

Se há um filme que melhor representa a categoria dos esnobados este ano é com certeza O Nascimento de uma Nação. Ovacionado no Festival de Sundance do ano passado, comprado por um valor altíssimo pela Fox Searchlight e no início da corrida o favorito absoluto ao prêmio de Melhor Filme, o filme sobre a revolução violenta de escravos nos Estados Unidos escravocrata aos poucos foi perdendo força conforme ressurgia na mídia um antigo caso de estupro por parte de seu diretor, Nate Parker. Uma morte horrível para um candidato mediano e que em sua queda mais pareceu um gigantesco Ícaro na temporada, mas pelo menos ele não obstruiu a forte presença negra na premiação este ano.

Paterson nunca chegou a ser um nome na disputa de Melhor Ator, mas os fãs do diretor Jim Jarmusch sempre estão aí fazendo campanha para que seus filmes entrem no Oscar e ele seja devidamente reconhecido pela indústria. Azar de Adam Driver, que apesar da ótima atuação como motorista de ônibus não conseguiu entrar na disputa.

Se no ano passado a Pixar tinha Divertida Mente para ocultar o fracasso de O Bom Dinossauro nas premiações, em 2017 restou à dupla indicação em Melhor Animação em Curta-Metragem (com o simpático Piper - Descobrindo o Mundo e o fraco Borrowed Time) para fazer o público esquecer da ausência de Procurando Dory na categoria principal. Ultrapassado por trabalhos estrangeiros e animações da sua vizinha e dona Disney, a continuação das aventuras de Marlin, Nemo e Dory no fim ficou só com os bons resultados de bilheteria.

  • Sing Street - Música e Sonho

A grande ausência em Melhor Canção este ano é sem dúvida o mais recente trabalho do diretor John Carney, que pela primeira vez na carreira não chega à categoria. A simpática história de uma banda colegial irlandesa acabou de fora graças à surpreendente nomeação de Trolls e a dupla entrada de La La Land.

Não está fácil a vida de Tom Hanks no Oscar. Depois de ter levado dois Oscar nos anos 90, o sexagenário ator não conseguiu emplacar mais uma indicação no prêmio, estando desde 2001 (quando foi lembrado por seu trabalho em O Náufrago) a ver navios nas temporadas de premiação. Paul Greengrass não conseguiu trazê-lo de volta em 2014, Steven Spielberg fracassou em levá-lo em 2016 e nem mesmo Clint Eastwood foi capaz de torná-lo um ator indicado ao Oscar este ano. Uma pena para Sully, ótimo filme que ficou no fim como uma nomeação singela em Melhor Edição de Som.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Crítica: Deadpool

Mercenário tagarela entrega o que os fãs esperam e se intimida de ir além.

Por Pedro Strazza.

Produto dos atribulados anos 90, Deadpool é um personagem que, seguindo a lógica superficial de sua época, sempre viveu de uma subversão imediata, do impulso de levar a narrativa dos quadrinhos ao limite sem contudo dar real cabo disso. As constantes quebras da quarta parede, o excesso de violência em suas histórias e o humor mais "sujo" permitem que o mercenário saia das convenções estabelecidas e as critique com desdém, mas seus roteiristas e desenhistas nunca foram capazes de levar esse jogo a algo além da própria piada de ter um herói consciente de sua existência como protagonista de uma história em quadrinhos.

A lógica rasa do personagem, tendente ao desgaste e à arrogância, é repetida quase como um mantra em seu debute solo nos cinemas, que também se aproveita do caráter marginal de sua produção - foram mais de dez anos até ela se tornar realidade, e ainda com um orçamento relativamente baixo - para se estabelecer como comédia de escárnio do subgênero de super-heróis. O curioso é que, para um filme dedicado a fazer piada do grupo ao qual pertence, Deadpool parece confortável demais em realizar a história de sempre e tímido em problematizá-la pelo humor de fato.

Claro que o roteiro escrito pela dupla Rheet Reese e Paul Wernick está disposto a fazer piada com tudo e todos, incluindo aí tiradas com a confusa linha temporal dos X-Men nos cinemas, Hugh Jackman, a carreira do ator protagonista Ryan Reynolds e a sexualidade de Batman e Robin. E pelo menos a princípio, o longa dá sinais de que irá pra cima daquilo que considera óbvio e mundano, seja nos créditos iniciais repletos de clichês do subgênero (destas, me diverte em particular a irônica "Roteiristas: Os verdadeiros heróis aqui") ou na simultaneidade narrativa dos dois primeiros atos. É inegável no filme essa sede anarquizante de atirar para todo lado, similar à de seu herói em matar e rir de qualquer um em seu caminho.

Este sentimento de caos, porém, nunca abandona o valor imediato das cenas que reproduz, estando muitas vezes preso à violência e ao sexo explícitos delas. A bem da verdade, Deadpool só se permite à subversão de fato nestes momentos, porque no resto sua maior propensão é a de repetir a fórmula do justiceiro em chave egoísta: ainda há uma mocinha a ser salva, ainda há um vilão malvado a ser derrotado, ainda há a recusa em se admitir um herói; o que falta mesmo é um dia a ser salvo, único ponto diferente de qualquer outra produção do tipo.

Isso não seria tão grave se o longa se utilizasse disso como base para o seu humor demente e escrachado atacar sem restrições o cenário cultural que vive o cinema estadunidense, repleto de adaptações de quadrinhos como o próprio Deadpool. O filme, porém, acaba por optar pelas saídas mais fáceis, fazendo graça com temas e produções malhadas pelo público em busca da aceitação rápida deste, e hesita em disparar contra coisas que ou tenham um mínimo de amor entre seus fãs ou não tenham a relevância necessária para eles. O exemplo maior de ambos é Rob Liefeld, um dos criadores do personagem e eterno quadrinista odiado pelas massas, que não somente não é mirado pelo roteiro como também rende duas referências rápidas na narrativa.

O que funciona no longa então, se até a ação é filmada pelo diretor Tim Miller com desinteresse? A resposta talvez seja a comédia mais física, cujo apelo universal, bastante dependente da performance do ator e entregue por Reynolds - aqui redimido de seus erros passados - com timing cômico eficiente é capaz de proporcionar os momentos mais divertidos de Deadpool.  E se considerar o humor da produção, típico do garotão dos anos 90 com saudades dos 80 e contente em emitir piadas textuais sem qualquer inspiração sobre pinto e masturbação, o riso proporcionado por cenas como a do protagonista quebrando as mãos e os pés em combate ou de uma mão decepada com o dedo do meio levantado termina por ser a melhor opção mesmo.

Nota: 5/10