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sábado, 15 de julho de 2017

Crítica: Carros 3

Capítulo final da trilogia recicla valores de outras franquias para atualizar história.

Por Pedro Strazza.

Em termos de produção, Hollywood sobrevive como uma máquina em constante renovação. Seus estúdios estão sempre atrás de sucessos que alimentem suas receitas e se tornem em verdadeiras marcas, franquias capazes de multiplicarem os lucros para fora das telonas em produtos como brinquedos, materiais escolares e até lancheiras. Nesse sentido, tanto faz a qualidade da obra que irá às telas, o que interessa mesmo aos executivos é a sua rentabilidade e se ela possui o necessário para continuar rendendo dinheiro à empresa a qual pertence. Se isso é possível, ótimo; se não, está na hora de se reinventar ou partir para a próxima. Nenhuma produtora escapa desta lógica, algo comprovado inúmeras vezes no passado.

No caso da Pixar, empresa que se fez como um estúdio de animações de qualidade, tal noção de mercado está em Carros, que começou em 2006 como um longa alimentado pela paixão de John Lasseter por automóveis e a mítica Rota 66 para depois se tornar na franquia mais lucrativa da empresa fora das telas, gerando milhões em licenciamento e produtos. Entregue à insanidade e assumindo o viés de filme estritamente comercial no segundo capítulo, a série chega agora ao terceiro episódio sob uma aura de metalinguagem, percebida não apenas na figura do empresário que quer lucrar a todo custo em cima de seu corredor: como o protagonista Relâmpago McQueen (Owen Wilson), a franquia já passou pelo seu auge e vê agora a concorrência renovar suas marcas com produtos mais modernos e atraentes. O que para o protagonista é uma questão de manter-se na pista, para a série se trata de sobrevivência.

Para fazer isso acontecer, o diretor estreante Brian Fee e os roteiristas Kiel Murray, Bob Peterson e Mike Rich não hesitam em olhar para os lados em busca de outras franquias que possam ajudar a reorganizar a marca no mercado, uma metodologia de reciclagem levada quase como um mantra dentro da "máquina hollywoodiana" atual. A surpresa é que Carros 3 parece encontrar nos filmes de Rocky Balboa um modelo a ser seguido, passando a incorporar elementos de diversos episódios da série à sua estrutura e tomando as temáticas de hereditariedade e legado para si. A inspiração na saga do personagem vivido por Sylvester Stallone é tão clara que a produção não hesita em nomear um dos adversários de McQueen de Cal Weathers - uma alusão a Carl Weathers, o intérprete do Apollo Creed que anos depois serviria à Rocky de chave em seu reinício com Creed.

A mudança de foco oriunda desse processo é bastante abrupta. Se nos outros dois capítulos o disputado circuito de corridas era um pano de fundo para os acontecimentos da trama, Carros 3 torna o esporte em sua questão central ao inserir em McQueen um dilema de temporalidade, conforme ele percebe que seu tempo na pista se aproxima a passos largos do passado. A trama gira em torno de sua reticência em constatar este fato, com ele em busca de vencer a primeira corrida da temporada para provar a seu novo patrocinador - o empresário Sterling (Nathan Fillion) - de que é capaz de correr com a nova e mais veloz geração, que inclui o vilanesco Jackson Storm (Armie Hammer). Para enfrentar a alta tecnologia do treinamento de seus adversários, McQueen terá de recorrer ao passado, enquanto atura as investidas de sua nova treinadora, Cruz Ramirez (Cristela Alonzo), de aceitar o futuro.

A sinopse acima já induz a essa conclusão, mas ao longo de sua história o filme dá evidências do quão frágil é sua estrutura. Comportando-se como um verdadeiro medley de todos os Rocky, a narrativa do longa toma emprestado tantos elementos e referências distintas da série de boxe para a pista - o duelo McQueen/Storm sem surpresas evoca Rocky IV, a própria personalidade do vilão emula o Clubber Lang do terceiro capítulo, a relação do protagonista com Cruz alude à Creed, o Doc Hudson do saudoso Paul Newman vira quase o Mickey de Burgess Meredith na extensa homenagem que recebe - que por consequência acaba por trazer sem perceber para o roteiro todas as variantes temáticas implícitas. E ao mostrar dificuldade em organizar tudo isso sob um mesmo eixo, a produção dá a sensação de estar mirando muitos objetivos para conseguir apenas acertar algum.

É um caso de desorganização que logo se converte em esquizofrenia pura, ainda mais porque o protagonismo de McQueen passa a competir com o arco de redenção de Cruz sem necessidade, conforme Carros 3 busca tirar da dinâmica dos dois a ideia de que a franquia mora em um ciclo eterno de aprendizado, uma noção por sua vez emprestada de Toy Story, outra série bem sucedida da Pixar. Mas se na história de Woody e Buzz este sentimento era resultado de um uso bem aplicado de nostalgia (que pouco depois se converteria em palavra de ordem nas grandes produções de Hollywood), o caminho usado neste derradeiro capítulo da trilogia Carros para obter este mesmo fim converte a franquia àquele que talvez seja um dos maiores pesadelos da máquina hollywoodiana: a desfiguração.

Nota: 4/10

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Crítica: Moana - Um Mar de Aventuras

Animação sabe aproveitar e se posicionar dentro da fórmula Disney.

Por Pedro Strazza.

Desde que as animações da Disney passaram a ser supervisionadas pelo chefe criativo da Pixar John Lasseter, as produções animadas do estúdio passam por um processo de recombinação de elementos dos mais intrigantes. Ainda que filmes como A Princesa e o Sapo, Operação Big Hero, Frozen e Zootopia repliquem a fórmula consagrada em clássicos da produtora, eles também reciclam essa metodologia pela incorporação de temas e cenários contemporâneos.

Até aí, a fase atual em nada se diferencia do chamado "renascimento Disney", que nos anos 90 também retrabalhou arcos clássicos das histórias infantis sob um novo e revigorado prisma. O que a torna única dentro do histórico do estúdio é a tendência de suas produções de uma forma ou de outra terem consciência das histórias tradicionais e, a partir disso, visarem uma efetiva desconstrução de valores do legado que as cercam.

Moana - Um Mar de Aventuras, mais nova animação da Disney, parte justamente deste ato de auto-consciência, algo já inserido desde o início com a introdução da mitológica figura heroica de Maui (Dwayne Johnson). Semideus da cultura polinésia, ele é responsável no passado pelo roubo de uma pequena pedra que serve de coração à deusa Te Fiti, um ato que a fez adormecer para sempre e permitiu que forças malignas dominassem os mares do Pacífico. Cerca de um milênio depois, a jovem Moana (Auli'i Cravalho), futura rainha de uma das tribos da região e em crise com as restrições geográficas impostas por seu pai (ela não pode ir além dos recifes), precisa encontrar o objeto depois de perceber que seus conterrâneos já não acham peixe ou frutos para se alimentar. Sabendo que Maui foi o último a ter posse do item, ela então desbrava o oceano pela primeira vez e vai atrás de seu paradeiro.

Não demora muito para que os dois se encontrem, e depois de Maui e Moana trocarem insultos e resolverem se unir para atingir suas próprias metas fica um pouco mais claro na narrativa que o objetivo dos diretores Ron Clements e John Musker - dupla conhecida pelas animações do estúdio que melhor mexem com o conceito do mito (A Pequena Sereia, Aladdin, Hércules) - é de contrapor as figuras heroicas de dois tempos. Pelo arco trágico clássico bastante amenizado do semideus polinésio (o abandono da mãe, quase uma constante nas mitologias antigas, é algo subentendido pela trama) e o da procura por um lugar no mundo da garota, típico dos heróis modernos, o longa mantém a dinâmica da dupla acesa durante a jornada por esses choques quase geracionais, pendendo sem muita surpresa para o lado da protagonista e a desconstrução do tipo durão que a acompanha.

Chega a ser natural, então, que a aventura fique um pouco de lado no filme, em ordem de abrir espaço ao estranho relacionamento amigável que se forma entre os dois. O roteiro de Jared Bush nunca deixa de manter a jornada em pauta, mas é evidente o teor capitular das situações, ligadas com elegância pelas canções de Opetaia Foa'i, Mark Mancina e Lin-Manuel Miranda. Até mesmo o divertido encontro com o gigantesco Tamatoa (Jemaine Clement), momento mais psicodélico da trama, soa um pouco fora do contexto da história, que preza por uma fantasia menos explosiva e pontual - como o espírito da avó de Moana (Rachel House), os gigantescos deuses do final e até mesmo os cocos dotados de vida que são os Kakamora.

Mas no fundo a grande força do filme está nas maneiras como ele lida com a fórmula do estúdio, o que não deixa de ser uma repetição do que foi visto em seus antecessores com melhor desenvoltura. Temas e situações batidas como a morte do ente querido, a valorização da tradição e a mensagem de desbravar o mundo são usados mais uma vez por Clements e Musker sem hesitação, sendo capazes de reintroduzir esses conceitos ao público de forma revigorada e com sensação de inédito. Moana tem uma percepção muito clara daquilo que busca aspirar dentro do histórico da Disney e sabe se portar como tal, dispondo da referência ao passado apenas para potencializar o próprio discurso.

Nota: 7/10

sábado, 2 de julho de 2016

Crítica: Procurando Dory

Continuação não arrisca e repete história original.

Por Pedro Strazza.

A moral familiar sempre esteve presente em algum nível nas produções da Pixar. Desde o início com Toy Story e Vida de Inseto, o estúdio não esconde que seus filmes, cuja inventividade na contextualização de suas histórias constituem em seu principal atrativo, tem na desagregação seu ponto de partida e na união familiar o seu final feliz, seja por um brinquedo que teme o abandono e termina unido ao motivo de tal anseio ou na formiga que precisa sair de casa e enfrentar o mundo para salvar a colônia que o repele. Essa é a estrutura tradicional de suas obras, em parte uma das grandes responsáveis pelo seu sucesso e consagração com o público.

Em tempos recentes, porém, tal lógica criativa parece desarrumada, afetando sensivelmente o balanço de suas produções mais novas. Talvez à exceção de Divertida Mente (que tem muito a agradecer ao maior aprofundamento psicológico de seus realizadores na trama), os últimos seis filmes do estúdio soam perdidos entre anseios do mercado (Carros 2, Universidade Monstros) e um esgotamento sensível da moral, posta em primeiro e único plano no roteiro de trabalhos como Valente, O Bom Dinossauro e agora de Procurando Dory.

É Procurando Dory inclusive que melhor representa esse momento atual da Pixar ao proporcionar nas telas o casamento das duas causas para seus problemas. Ao mesmo tempo que cumpre com metas econômicas (é uma sequência pedida pelo público há quase 13 anos!), a continuação de Procurando Nemo também prossegue o rumo criativo atual da produtora ao fazer de novo da unidade familiar o motor que avance sua trama - dessa vez, na literal busca por ela.

Passado um ano depois dos eventos do original, o longa escrito por Andrew Stanton, Victoria Strouse e Bob Peterson centraliza suas atenções na antes coadjuvante Dory (Ellen DeGeneres), a adorável e esquecida peixe que agora busca reencontrar seus pais. Ainda que inverta o protagonismo do trio principal - Nemo (Hayden Rolence) e Marlin (Albert Brooks) é que estão atrás da cirurgiã-paleta -, faça flashbacks e envolva um grupo completamente diferente de personagens e espaços, a história da sequência repete no fundo a mesma estrutura do filme de 2003, buscando proporcionar o maior conforto possível ao espectador fã da franquia.

A estratégia segue com o padrão atual das continuações de obras mais velhas, dessa vez com ainda menos espaço para arriscar: Dory, Nemo e Marlin não sofrem alterações substanciais na jornada que seguem, e tampouco parecem aprender alguma grande lição no processo. Essa decisão pelo familiar na narrativa, auxiliada pelo maior interesse do diretor Stanton em destacar a recriação em animação dos cenários marinhos e do aquário (que por sua vez não encantam tanto quanto os de O Bom Dinossauro), seda e restringe a produção de grandes emoções que não seja a nostalgia.

Cabe então aos coadjuvantes exercer as funções vitais do roteiro, carregando com dificuldades o peso de uma responsabilidade ao qual não lhes deveria pertencer. Não à toa, portanto, que o polvo Hank (Ed O'Neill, ator conhecido pelos papéis de patriarca na televisão) ocupe na história uma centralidade inesperada ao ter o desenvolvimento mais claro na narrativa - justamente o arco de socialização, clássico em filmes sobre família - e alívios cômicos como a baleia-branca Bailey (Ty Burrell), a tubarão baleia Destiny (Kaitlin Olson) e as focas Fluke (Idris Elba) e Rudder (Dominic West) acabem atraindo maior atenção que o normal. Mesmo o clímax, que atinge o ápice na queda abstrata de um caminhão no mar, se faz por elementos secundários e como Stanton os usa para criar humor.

Essas medidas funcionam de certa forma para reparar parte dos problemas, até porque as novidades bastam com seu caráter de inédito ao espectador. Elas não impedem, porém, que Procurando Dory se torne em uma experiência superficial e controlada: é agradável rever personagens e situações familiares, mas tão logo termine o filme estas se dissolvem tão rápido na memória quanto comida de peixe em um aquário - um espaço que não por acaso é cenário da continuação.

Nota: 6/10

domingo, 20 de março de 2016

Crítica: Zootopia - Essa Cidade é o Bicho

Fábula de tolerância sofre com o peso do passado.

Por Pedro Strazza.

De início, soa como inesperada a propensão de Zootopia - Essa Cidade é o Bicho em brincar com o histórico recente de produções da Walt Disney Animation Studios, marcada pela entrada do membro fundador da Pixar John Lasseter no comando. Piadas e easter eggs metalinguísticos nas produções animadas são coisa antiga da empresa, é verdade, mas conforme o longa se desenrola em estabelecer referências diretas e indiretas a antecessores (como Frozen e Operação Big Hero) e alguns de seus sucessores, fica claro que há alguma coisa fora do lugar na história sobre o mundo de animais antropomorfizados.

Esta sensação se repete com incômoda frequência no filme de Rich Moore e Byron Howard, que acima de tudo busca se enquadrar nos moldes das animações Disney e ao mesmo tempo acrescentar algo de novo a esta. São dois objetivos que notavelmente se confundem na narrativa desenvolvida no longa, que além disso ainda se dedica a conferir uma estrutura óbvia de fábula e uma experimentação combinativa de subgêneros em cima da trama protagonizada pela policial coelha Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) e o malandro raposa Nick Wilde (Jason Bateman). Com tanto a fazer, a produção sem saber acaba um pouco enrolada em si mesma, presa à burocracia de sua própria mensagem.

Mas que mensagem é essa, afinal? A princípio, o roteiro de Jared Bush e Phil Johnston parece buscar na protagonista coelha uma espécie de eco com a História negra recente dos Estados Unidos, com Hopps sendo um "animal pequeno" do interior que consegue se tornar uma policial na cidade grande, algo nunca antes realizado por qualquer outro de seu grupo "métrico", e que agora precisa lutar para fazer valer sua posição entre os parceiros de profissão. Tão logo isso se estabelece, porém, o filme desiste e parte para algo mais universal, tanto na forma - a maneira como a questão é evidenciada na narrativa parece englobar também o gênero, já que a maioria dos atos preconceituosos só atinge mulheres - quanto na estrutura, quando posteriormente Zootopia vira o tabuleiro de cabeça para baixo e passa a trabalhar o tema sob a ótica de uma intolerância geral entre grupos.

É esquisito, mas considerando a necessidade da obra em querer se encaixar como mais uma animação Disney esse problema é natural. Pois ao mostrar disposição em tratar de um tema mais complexo (o racismo) e simultaneamente manter em foco o caráter universal e simples da fórmula fabulesca que caracteriza as produções históricas das quais ela agora sucede, Moore e Howard criam no longa um problema estrutural gritante, que o impede de funcionar como uma aventura ingênua ou um ensaio ambicioso. As maiores vítimas no processo são Hopps e Wilde, que não funcionam por estarem presos dentro desse fogo cruzado, vítimas de um ambição mal executada de seus diretores.

Por outro lado, quando não indeciso entre esses dois caminhos, Zootopia funciona ao fazer proveito do mundo que cria para situar sua fábula. O que encanta aqui, entretanto, não é a inventividade dos diversos cenários da cidade, mas sim sua utilidade: Moore e Howard são inteligentes em usar a diversidade dos ambientes para trabalhar vários subgêneros do policial, do buddy cop movie (os dois protagonistas na cidade grande, em rápidas perseguições policiais e investigações) até os filme de máfia, com a óbvia menção a O Poderoso Chefão e seus locais de despejo frios.

São essas diversões pontuais que possibilitam ao longa se soltar, ainda que de maneira bastante contida comparada aos esforços monumentais de desenvolver sua moral engessada. E de certa forma, o que no geral parece faltar em Zootopia - e o impede de decolar de falto - é justamente esse senso de diversão, de se mostrar mais aberto em aceitar a própria leveza que, no fim, caracteriza os maiores clássicos do estúdio.

Nota: 5/10

domingo, 31 de janeiro de 2016

Crítica: Anomalisa

O amor nos tempos da amargura.

Por Pedro Strazza.

Filmes que se usam da animação para contar suas histórias são famosos por possuírem um alto controle sob todo e qualquer tipo de elemento visual que empregam em cena, e isso tende a aumentar quando a metodologia é o stop-motion. Anomalisa, segundo longa-metragem do roteirista Charlie Kaufman como diretor e debute de Duke Johnson na função, segue à risca esse processo, aproveitando o perfeccionismo inerente à técnica para imprimir na narrativa o emocional instável de seu protagonista. A maneira como isso é realizado, porém, não necessariamente traz aquilo que os diretores planejam a princípio.

Baseado na peça de mesmo nome que Kaufman escreveu em 2005, o filme é protagonizado por Michael Stone (David Thewlis), um famoso escritor e analista de serviço de atendimento ao cliente que viaja a Cincinnati para dar uma palestra sobre o tema. Melancólico, Michael sente-se em um mundo uniforme e impessoal, onde todos à sua volta parecem ter a mesma atitude, rosto e voz, mas suas esperanças se reacendem quando conhece Lisa Hesselman (Jennifer Jason Leigh), uma típica garota do interior que parece ser a única a ter alguma personalidade no universo do hotel.

Levemente disfarçada de romance, a temática central da trama é trabalhada pelo filme com sutileza encantadora, e não apenas por causa de seus elementos de efeito mais imediato ao qual tanto se aproveita, como o fato de todos os personagens em cena à exceção do casal protagonista possuírem a mesma identidade visual e serem dublados por Tom Noonan. Kaufman e Johnson são simples na organização espacial dos cenários se comparados aos trabalhos de estúdios como a Aardman ou a Laika, mas se aproveitam muito bem do stop-motion para dar a estes a artificialidade necessária, que compõe o mundo paranoico de Michael nas coisas pequenas (o balde de gelo, a revista que vende chili na capa) e grandes (a sex shop e a divertida uniformidade de seus consolos).

É uma atmosfera delicada e impressionante, mas não tão bem utilizada pelo roteiro. Em muitos momentos soando como uma história curta que foi esticada para ocupar os noventa minutos de um longa-metragem, Anomalisa não demora muito a repetir sem criatividade os maneirismos de Kaufman, que refaz sua estética depressiva em um trabalho de maior controle. E se o maior domínio por um lado permite ao diretor executar seu roteiro como bem entende, ele também impede a obra de alçar voos maiores por estar preso a seus mecanismos.

Neste quesito de dominância, a comparação com Sinédoque, Nova York, primeiro trabalho do cineasta, permite uma maior elucidação do caso. Também um típico trabalho de roteirista no comando, o filme protagonizado por Philip Seymour Hoffman com velocidade se entrega a jogos metalinguísticos complexos, e o eventual descontrole que se sucede na narrativa é o que o permite se expandir em temáticas mais difíceis e existenciais. Em Anomalisa, o sufocamento provoca o contrário, particularizando a trama em temas que apesar de sugeridos nunca chegam a ser explorados de fato pelo roteiro.

E se o particular em outras obras trabalha a favor, aqui ele só ressalta o estranho viés adolescente de sua história de amor. Pois apesar de a todo momento posar e insistir na imagem de ser uma animação adulta - deve ser a primeira vez que um longa em stop-motion abusa tanto de cenas com cigarros, bebidas alcoólicas, partes sexuais do corpo humano e sexo oral - Anomalisa não consegue escapar de questões conhecidas da juventude, como a da busca da identidade na sociedade ou da procura pelo amor perfeito. E Charlie Kaufman, em uma síndrome ou de adolescente que se recusa a crescer ou de adulto amargurado e saudoso dos dilemas juvenis (que em ambos os casos traz fácil identificação com as gerações mais jovens), acaba por se comportar como uma espécie de John Green da depressão.

Nota: 6/10

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Crítica: Os Heróis de Sanjay

Sentimento é a estrela guia de curta que ensina tolerância.

Por Pedro Strazza.

Existem vários benefícios na decisão de tornar um arco íntimo de uma pessoa na essência de um filme, e muito provém do inevitável ato de aproximação que se gera entre público e autor. Trazer para a tela a relação de alguém com uma pessoa pela qual ela nutre carinho traz compaixão à obra, e quanto mais bem trabalhada melhor a obra se torna.

É o caso de Os Heróis de Sanjay, curta que antecede as exibições de O Bom Dinossauro e que conta uma história de fatos mais ou menos reais, como bem brinca nos créditos iniciais. A artimanha do estreante na direção Sanjay Patel é simples: das lições religiosas que seu pai insistia em passar pra ele quando pequeno, ele brinca com seu imaginário da época para fazer uma aventura que envolva tanto os super-heróis de sua infância quanto a religião de sua família.

O resultado é bonito, e funciona melhor que o esperado. Feito em cores vibrantes para dar o contraponto à dura realidade, mostrada no curta pelo número mínimo de móveis na sala de estar (uma decisão inesperada, vide que tais filmes são exibidos em dupla com os longas da Disney para já tirar o espectador da realidade), as cenas dentro da cabeça do garoto protagonista não só divertem pela criatividade do negócio - os deuses assumirem de vez o papel de super-herói é uma ideia simples mas bem executada - como também promovem diversidade e tolerância religiosa sem chamar muita atenção, desprovido de qualquer julgamento maior e descabido a uma produção do tipo. A combinação desses dois elementos sai satisfatória, em um equilíbrio difícil de se alcançar.

Mas o que dá liga a isso, a bem da verdade, é o próprio sentimentalismo inerente ao roteiro. O valor que Patel dá à sua relação com o pai, no filme figuras tão opostas para depois se unirem no meio do caminho, é capaz de trazer o espectador pra dentro da história de Os Heróis de Sanjay com velocidade, algo essencial para a estrutura pequena e breve do curta.

Nota: 8/10

Crítica: O Bom Dinossauro

Faroeste e animação não escondem reais problemas do filme em 16° projeto da Pixar.

Por Pedro Strazza.

Embora seja uma animação que se disponha a contar uma história em um mundo onde dinossauros e seres humanos coexistam - graças à ausência do meteoro que destruiu os primeiros - é curioso que O Bom Dinossauro se estabeleça em seus primeiros momentos como um filme sobre as fundações dos Estados Unidos. As primeiras cenas do 16° longa-metragem da Pixar, afinal, são exatamente sobre esse tema, mostrando o pai do protagonista Arlo formando com paciência sua fazenda e família.

É esse estranho espírito nacionalista, alinhado com a inesperada adequação aos trejeitos do faroeste, que torna o filme do diretor Peter Sohn em uma espécie de experiência já vivida pelo espectador, que ao mesmo tempo é procurada e rechaçada pela produção para contar a história do jovem apatossauro Arlo e sua inexplicável parceria com uma selvagem criança humana, Spot. Único a não conseguir provar seu valor para a família, o dinossauro acaba longe dela após uma estranha cadeia de eventos, e tendo como única companhia o pequeno selvagem ele parte então em uma longa jornada de volta para casa.

Daí em diante, o roteiro de Meg LeFauve segue sem maiores surpresas as diretrizes da Pixar, que tem no arco de amadurecimento o elemento universal para se conectar com adultos e crianças. A diferença aqui é que, se nos outros filmes do estúdio essa universalidade era seguida à risca, em O Bom Dinossauro ela parece se chocar constantemente com tom moralista ao qual ele se associa: pelo menos aos olhos de Sohn, LeFauve e o resto da equipe, a jornada de Arlo e Spot é nada mais que a de dois indivíduos em busca de suas respectivas unidades familiares, únicas capazes de prover a eles dos meios necessários para sobreviver. Para os menores isso talvez funcione, mas no plano geral esse discurso não poderia estar mais ultrapassado.

O que não está datado, porém, é o faroeste, e é ele que oferece ao longa os seus melhores momentos. Na trilha sonora característica de Jeff e Mychael Danna ou no design de todas as cenas envolvendo o trio de tiranossauros e sua procura pelo rebanho, os toques do gênero conseguem dar o estofo necessário ao arco principal quando tem a chance de realizar isso por justamente trazer um caráter atemporal à produção. Mesmo a crítica religiosa empreendida na figura dos pterodáctilos, a princípio tão fora das estrutura estabelecida, parece se tornar mais orgânica conforme esse processo se dá na narrativa.

O outro ponto que trabalha à favor da história e a salva do genérico é a própria animação, que encanta em seus aspectos mais detalhistas. Os efeitos de luz, sombra e água são quase realistas em sua proposta, dando vida aos ambientes e personagens (esses bastante estilizados). O truque, entretanto, é que eles nunca chamam a atenção para si além dos planos gerais, momento onde são chamados para tomar a frente do palco.

E é talvez aí que esteja o grande problema de O Bom Dinossauro. Se em outros filmes a Pixar chamava a atenção por criar histórias que brilhavam nos pequenos detalhes, falta à estreia em longas de Sohn uma trama sólida, e ele aposta somente no fator do "algo a mais" para substituí-la. Mas não importe o número de adereços que se ponha na superfície, esse vazio é sentido em toda a cavidade oca.

Nota: 6/10

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Crítica: Minions

Falta conteúdo na aventura solo dos ajudantes de Gru.

Por Pedro Strazza.

O caminho da Illumination Entertainment nestes seus primeiros anos tem sido instável. Fundada em 2007, o estúdio de animação parceiro da Universal mostrou-se promissor com Meu Malvado Favorito, seu adorável filme de estreia, mas não conseguiu repetir o mesmo feito com seus trabalhos seguintes. A bem da verdade, a empresa sugere a cada nova produção estar mais interessada no lucro comercial - tarefa esta bem executada, a exemplo dos resultados de bilheteria de Meu Malvado Favorito 2 - que entregar produtos mais significativos, como bem indica a dominância de protagonistas exageradamente fofos em seus longa-metragens.
Nenhum deles alcançou, porém, o sucesso de público dos Minions, que encheram os cofres do estúdio como coadjuvantes nas aventuras protagonizadas pelo vilão Gru e agora ganham um filme de origem próprio. Dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin, a trama segue a trajetória dos pequenos seres amarelos antes de conhecer seu atual mestre, indo de seu estado embrionário até os anos sessenta, e foca em sua missão de servir a criatura mais diabólica possível. Seus esforços em cumprir tal tarefa, entretanto, acabam por os levar ao exílio e sem ninguém para lhes dar ordens, e os minions Kevin, Stuart e Bob se voluntariam para encontrar um novo líder.
O que se busca nessa separação dos três de seu bando é simples, mas difícil de ser executado. Além de criar protagonistas de fácil identificação para sua jornada (é muito mais fácil usar apenas alguns minions ao invés de todos), o roteirista Brian Lynch procura diminuir dos personagens o seu caráter único de alívio cômico, presente desde o primeiro Meu Malvado Favorito e mantida intacta na sequência. A uniformidade das criaturas, até então uma vantagem para os realizadores, torna-se um obstáculo no derivado, que quer justamente diferenciar um dos outros para conseguir contar uma história.
A medida chega a servir seus propósitos em alguns momentos, mas não se faz plena pela própria necessidade da trama em entregar comédia (aqui com poucos altos e muitos baixos) com regularidade. Enquanto os três principais se divertem com os costumes e hábitos da Inglaterra dos anos sessenta, os outros minions continuam a funcionar como muleta de humor em suas aventuras próprias, e a trama acaba esvaziada. É perceptível em Minions a falta de um real protagonista que seja capaz de guiar a história e todo o seu humor em um arco pessoal, coisa que Kevin, Stuart e Bob não conseguem por ainda estarem ligados à sua origem criativa.
Por outro lado, o filme também perde por não possuir um antagonista minimamente interessante. Como Victor Perkins e El Macho, Scarlett Overkill (Sandra Bullock no original, Adriana Esteves na versão dublada) e seu namorado Herb (Jon Hamn/Vladimir Brichta) são vilões pouco convincentes, que falham tanto para criar oposição aos mocinhos como para entregar boas cenas de humor. E no caso de Overkill as coisas desandam ainda mais pelo seu contexto de formação, apoiado em valores moralistas demais para uma franquia que prega a inocência.
Dessa forma, Minions se firma em uma posição não muito favorável. Apesar de ser mais honesto que seu antecessor na questão do humor (os minions pelo menos desta vez assumem terem se tornado figuras centrais), o derivado está longe de encantar na mesma proporção que o primeiro Meu Malvado Favorito, se rendendo demais ao propósito financeiro de sua produção. E embora as situações vividas pelos seres amarelos crie alguns sorriso aqui e ali, a sensação de "faltar algo" expressada pelo próprios personagens ao longo da narrativa se reflete de maneira inequívoca no público ao assistir suas aventuras. Uma pena.

Nota: 5/10

sábado, 20 de junho de 2015

Crítica: Lava

Curta erra a mão no sentimentalismo e soa piegas.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser curioso que a Pixar alcance tanto o auge quanto o fundo do poço em uma mesma projeção de Divertida Mente. Enquanto o longa-metragem de Pete Docter brilha com suas ideias criativas dentro da consciência de uma criança, o curta Lava, que antecede a exibição do filme, se perde em meio ao show água com açúcar que propõe e entrega uma das piores experiências propostas pelo estúdio em seus quase 30 anos de existência.
Dirigido pelo estreante James Ford Murphy, o filme conta a história de Uku (Kuana Torres Kahele), um vulcão havaiano que vive solitário em uma ilha onde todos os casais animais se encontram para se apaixonar. Apesar de levar uma vida tranquila e ficar feliz de servir para um propósito tão bonito, Uku se sente triste em nunca encontrar um par para si. Mas tudo muda quando uma "vulcoa" chamada Lele (Napua Greig) começa a nascer no fundo do oceano.
Contado em milhares de anos, Lava soa do começo ao fim piegas. A canção que dá título ao curta e entoada pelos dois personagens é genérica a ponto de em muitos momentos lembrar a versão em ukelele de "Somewhere Over the Rainbow", arrancando do instrumento havaiano todo e qualquer tipo de sentimentalismo barato. Para piorar, o conto não traz nada muito criativo, pois se restringe a emular clichês do gênero para dar tom à concepção fofinha da produção.
Embora seja bastante parecido em objetivo e execução a O Guarda-Chuva Azul, curta que antecedeu as exibições de Universidade Monstros, Lava se sai muito pior à história de amor entre guarda-chuvas por querer criar algo dez vezes mais meloso. A Pixar já provou que sabe contar histórias sobre quaisquer tipos de objetos e seres, mas aqui demonstra que nem tudo pode se tornar interessante em suas mãos.

Nota: 3/10

Crítica: Divertida Mente

Imaginário torna-se realidade em novo filme da Pixar.

Por Pedro Strazza.

Assim como em todas as outras as artes, o cinema é feito de simbolismos. Em suas histórias, sejam estas as mais rasas ou as mais complexas, sempre se traz disfarçado por meio de situações e personagens uma carga interior, uma mensagem que os responsáveis pela obra cinematográfica buscam passar para seu público. É um processo que na maioria das vezes é realizado de maneira silenciosa, sendo desenvolvido no plano subjetivo para tornar esse processo de compreensão muito mais fácil e acessível para qualquer espectador.

No caso da Pixar, porém, o procedimento se faz ao contrário. A maioria dos contos infantis do estúdio (e de seus vários cineastas, em consequência) se fazem de uma simbologia física e propositalmente escancarada, sem medo de soarem fáceis por saberem que a representação não precisa se limitar ao abstrato para alcançar seus objetivos. Caso máximo dessa tendência adotada pela empresa é Divertida Mente, filme que leva ao limite do imaginável essa relação objeto-representação.

Porque se até então os filmes do estúdio haviam empregado ratos para representar a marginalização do indivíduo ou robôs para provar o prejudicial isolamento populacional, aqui o diretor e roteirista Pete Docter (responsável também por Up - Altas Aventuras e Monstros S.A.) se usa de uma efígie muito mais próxima do ser humano para abordar uma temática diretamente implícita a ela: seus sentimentos. Protagonistas do longa, as emoções da garota Riley (Kaitlyn Dias) são retratadas desde o início do longa como figuras reais, habitantes da consciência da menina de 11 anos com gostos, sonhos e objetivos pessoais - todos, claro, relacionados em prol da menina.

Dessa maneira, o espectador é com velocidade introduzido a dois planos de trama em Divertida Mente. No primeiro, ele acompanha o cotidiano de Riley, cuja rotina é virada de cabeça para baixo quando seus pais (Diane Lane e Kyle MacLachlan) se mudam com ela do estado de Minnesota para a cidade de São Francisco; no segundo, o das emoções da garota, que liderados por Alegria (Amy Poehler) controlam suas reações ao mundo em uma sala de controle visando o melhor para ela e precisam agora auxiliar a garota nesse processo de adaptação. Mas quando Tristeza (Phyllis Smith) e a própria Alegria acabam fora da central após uma sucessão incomum de eventos, torna-se vital que as duas voltem para seus lugares antes que a menina cometa um erro sem volta sob o controle de Raiva (Lewis Black), Nojinho (Mindy Kaling) e Medo (Bill Hader).

Adotando do princípio essa estrutura narrativa, o longa passa então a construir a personagem de Riley, que passa por um arco universal a todos os seres humanos. A aceitação da mudança, transfigurada na trama em seu formato mais literal possível, é também usado por Docter em conjunto dos roteiristas Meg LeFauve e Josh Cooley como metáfora da própria passagem do tempo e da entrada na puberdade, sendo realizados com transparência ao longo da história e sem maiores complexidades.

O caráter simples de tal ritual, porém, torna-se intricado quando se é abordado pelo ponto de vista da consciência de Riley, e é aí que o filme encontra sua genialidade. Antropomorfizadas, os sentimentos protagonizam crises e situações que de forma direta ou indireta circulam sobre o momento vivido pela menina, e com isso se transformam em figuras complexas fascinantes. Principalmente Alegria e Tristeza, personagens centrais que trazem em sua relação um profundo drama de aceitação (seja a do próximo ou a de si mesmo) que encontra perfeita sincronia com o tema do longa e das próprias produções da Pixar - para efeitos imediatos de comparação, um momento similar pode ser encontrado no flashback trágico vivido por Jessie em Toy Story 2.

E enquanto tudo isso se desenrola, o filme ainda encontra espaço suficiente para criar um universo extremamente criativo e colorido para povoar a mente de uma criança. Levando ao pé da letra conceitos da psicologia (a localização do subconsciente é um de meus preferidos), Divertida Mente concebe representações físicas para explicar diversos traços da cabeça do ser humano, e vai de concepções racionais a irracionais em um passo. Amigos imaginários, lembranças, sonhos... nada escapa aos olhos da produção, que ainda dá toques de humor em sua abordagem.

É justo nesta mistura que Divertida Mente se faz de fato. Dramático e cômico, simples e ao mesmo tempo complexo, o 15° longa-metragem da Pixar é uma confluência de ideias bem executadas e que conversam muito com as outras produções do estúdio, e juntas do tempero emocional certo fazem desta uma obra única. E que grande ironia, toda esta grandiosidade acontece na cabeça de uma menina de 11 anos de idade.

Nota: 10/10

segunda-feira, 30 de março de 2015

Crítica: Frozen - Febre Congelante

Curta-metragem garante boas risadas e garante preocupação de mais receosos com franquia de longa.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser curioso que Frozen - Febre Congelante seja o curta que antecede a exibição de Cinderela nos cinemas. O filme, situado no reino (agora endinheirado) de Anna e Elsa, é quase uma pequena representação do éden buscado pelas reinterpretações live-action dos contos de fada, possuindo tanto a qualidade quanto o sucesso financeiro à sua disposição.
Dado o tempo disponível e o futuro garantido (a continuação de Frozen já foi confirmada pela Disney), a trama de Febre Congelante é básica e não perde tempo em entregar o que quer: É aniversário da princesa Anna, e a rainha Elsa, depois de anos decepcionando a irmã, quer compensar tudo com uma grande festa. O problema é que ela está gripada, e isso tanto acaba com sua disposição física quanto oferece um grande perigo para seus planos.
Confusões acontecem, mas tudo é resolvido com tranquilidade, e os personagens mantém em seu âmago as mesmas funções. As duas irmãs protagonistas continuam o elemento principal, enquanto o boneco de neve Olaf, Kristoff e sua rena são os bons alívios cômicos. A grande adição são os "olafinhos", pequenas criaturas criadas pelos espirros de Elsa que encantam pela fofura e os ótimos esquetes feitos com os outros personagens.
Criado a partir de uma música remanescente do longa original, Frozen - Febre Congelante diverte pela despreocupação e despretensão, e com isso mostra ao público o potencial que a obra baseada no conto de Hans Christian Andersen tem como franquia, agora a ser explorada pelo estúdio que a popularizou.

Nota: 8/10

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crítica: Bob Esponja - Um Herói Fora D'Água

Bons episódios do Calça Quadrada nos cinemas.

Por Alexandre Dias.

Se a expressão “diversão para toda família” existe, com certeza ela pode ser aplicada no novo longa de um dos personagens mais queridos da televisão, Bob Esponja Calça Quadrada. Isso se deve, principalmente, ao tipo de humor que agrada tanto as crianças como os adultos. Porém, diferentemente do filme de 2004, Bob Esponja: Um Herói Fora d’Água sofre pela trama arrastada, e mesmo que as risadas apaziguem essa questão de uma certa forma, é um defeito a ser observado.
A história envolve o sumiço repentino da fórmula do hambúrguer de siri, assim Bob e sua equipe precisam encontrá-la. “Equipe”, aliás, seria uma espécie de subtema em questão (na produção de 2004, este se relacionava com a maturidade, pelo fato do Calça Quadrada ser um garoto), o que dá mais espaço para os vários personagens existentes na Fenda do Biquíni entrarem em cena. Podemos observar, assim, um Lula Molusco enojado como sempre, a natural paixão do Seu Sirigueijo por dinheiro, Sandy Bochechas surtada, Plankton e o seu vilanismo fajuto, Patrick Estrela sendo... Patrick Estrela e, é claro, o carismático e inocente protagonista amarelo.
Mais do que observar, podemos vê-los pela primeira vez em live-action feitos por computação gráfica, algo que funcionou bem- especialmente pelo desenvolvimento de “superpoderes” dos personagens. Contudo, a maior parte do longa ainda é animado e se passa na cidade marinha, o que não é, necessariamente, uma desvantagem.
O grande defeito de Bob Esponja: Um Herói Fora d’Água é, na verdade, a condução do próprio. A trama nunca poderia (ou deveria) ser complexa, obviamente. É algo simplório, afinal, grande parte do público é infantil. Entretanto, essa simplicidade natural não é aproveitada a partir do momento que o filme parece ter sido montado por pequenas histórias; são vários episódios do seriado praticamente, não uma experiência cinematográfica. O que seria apenas ir atrás da fórmula secreta acaba, então, acontecendo de maneira um pouco cansativa.
Apesar disso, este fator consegue ser minimizado diante da principal qualidade do universo tratado: o humor. As risadas acabam por vir de todas as faixas etárias, com as piadas mais sarcásticas para os mais velhos (Plankton continua a fazê-las muito bem) e as mais inocentes para os mais novos (Bob e Patrick sempre abobalhados, no melhor sentido da palavra), ainda que ambas sejam capazes de afetar a todos. Muitas vezes, as referências permitem esta ambiguidade, como, por exemplo, no momento em que a Fenda do Biquíni se torna um mundo devastado pelo apocalipse: as crianças, e até os adultos, acharão a situação engraçada pela forma como acontece espontaneamente, porém alguns integrantes deste último público também irão rir por, claramente, se lembrarem do mundo de Mad Max.

A nova aventura da esponja amarela dirigida por Paul Tibbitt é, portanto, para a toda família. Não tem a naturalidade de seu antecessor, porém ainda consegue levar espectadores ao cinema pelo universo único criado por Stephen Hillenburg.

Nota: 7/10

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Crítica: Operação Big Hero

Animação é previsível em suas escolhas, mas promove união eficaz de dois mundos

Por Pedro Strazza

Faz pouco mais de cinco anos que a Disney comprou a Marvel Comics e só agora o maior pesadelo dos críticos à venda da companhia na época se concretizou. A animação Operação Big Hero, afinal, marca a primeira parceria artística entre a empresa de Mickey Mouse e a Casa das Ideias, reformulando para as telas um esquecido supergrupo japonês das páginas da editora - o Big Hero 6 do título em inglês. E para o desespero daqueles analistas, o longa prova, mesmo que com algumas ressalvas, o quão acertado foi a decisão da Marvel em ser comprada pelo estúdio.

Isso porque o filme carrega em seu esqueleto uma mistura de sucesso do melhor dos dois mundos, e os equilibra com precisão. Estão lá a bem-humorada história "simples mas profunda", os personagens carismáticos e o design de produção estupendo típicos dos maiores trabalhos da empresa de Walt Disney, alinhados às características conhecidas (e popularizadas nos longa-metragens) dos quadrinhos onde se originaram o Homem de Ferro, Thor, Capitão América e etc, como o visual marcante (tanto nos indivíduos como no cenário) ou a ação dinâmica.

A trama gira em torno de Hiro, um garoto brilhante na área de tecnologia que aplica seus vastos conhecimentos nos proibidos ringues de lutas de robôs da cidade San Fransokyo. Essa rotina clandestina do jovem, porém, muda a partir do momento em que o irmão Tadashi o influencia a tentar entrar em uma universidade ao apresentá-lo ao centro de pesquisa de robótica que trabalha e a seus colegas, os estudantes Go Go, Wasabi, Honey Lemon e Fred. Mas quando Tadashi morre em um incêndio suspeito e um misterioso vilão planeja dominar a cidade com nano-robôs, Hiro, seus mais novos amigos e Baymax, o afetuoso robô do irmão, precisam se transformar em heróis para impedir o plano do vilão.

Ainda que o tenha citado apenas no final do parágrafo anterior, Baymax é aqui o personagem com maior destaque. Sua figura rechonchuda e desajeitada é usada pelos diretores Don Hall e Chris Williams para tanto dar o tom de humor à história - as melhores piadas surgem de sua ingenuidade com o mundo e excesso de afeto, como bem esclarece o momento em que está com pouca energia e precisa ser silencioso - como para evidenciar a relação profunda entre o protagonista e o falecido Tadashi. É daí que a produção mostra seu maior foco narrativo, tocando em temas como a da vida após a morte do próximo e o amor entre irmãos - e nesse momento é inevitável a comparação com Frozen - Uma Aventura Congelante, animação antecessora também interessada neste último assunto.

A profundidade no conteúdo do filme, entretanto, termina em uma superfície semelhante à de sua narrativa, que cumpre somente com o básico das histórias clássicas de super-heróis. Do começo ao fim, o longa segue uma trajetória de extrema previsibilidade, e não consegue surpreender mesmo no timing de suas reviravoltas. Além disso, os personagens secundários encontram-se totalmente submetidos aos intentos do protagonista e do roteiro escrito por Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird, e seus perfis individuais, visando apenas a rápidos alívios cômicos, são estereotipados ao máximo - no grupo formado por Hiro, por exemplo, temos o nerd (Fred), a descolada (Go Go), o sensível (Wasabi) e a patricinha (Honey Lemon).

Mas mesmo com pouco aprofundamento criativo a produção consegue cativar, e isso que mais importa a ele. Com visual rico e equilibrado em cores e personagens de carisma capaz de ocultar seus claros defeitos criativos, Operação Big Hero funciona como diversão ingênua, e entretém por sua tendência ao simples. Mais um acerto na nova fase vivida pela Disney em suas animações, e um grande considerando a origem de seu material.

Nota: 7/10

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Crítica: Festa no Céu

Bela animação traz valores diferenciados para público infantil

Por Pedro Strazza

Existem diferentes maneiras de se encarar a morte. A maioria da sociedade mundial e globalizada, fortemente influenciada pelos valores da cultura europeia, atribui ao evento uma conotação negativa pelo fato do falecimento afastar o ser humano daqueles que o amam. Há culturas, porém, que veem no fim da vida um recomeço ou o encerramento de um ciclo, tornando o fato digno de ser celebrado pela família e os amigos do morto.
O povo mexicano faz parte desta última tendência, e traz até em suas festividade uma data dedicada àqueles que se foram: o Dia dos Mortos, celebrado em 2 de novembro. E é justamente desta comemoração a base para a trama de Festa no Céu, filme dirigido por Jorge R. Gutierrez e produzido por Guillermo del Toro. No longa, a Morte e seu amante Xibalba, os dois guardiões do mundo dos mortos, fazem no dia da celebração dos falecidos uma aposta em cima de Manolo e Joaquin, que disputam arduamente pela mão de Maria. Se Manolo se casar com Maria, ganha a Morte; se for Joaquin, Xibalba vence.
É a partir desta competição entre imortais que a obra começa a se aprofundar pela mitologia indígena mexicana, trabalhando com ardor na tarefa de encantar e educar o público infantil no processo. Neste quesito, o design de produção orquestrado por Paul Sullivan e Simon Valdimir Varela é eficiente ao configurar um tom de cores cada vez mais explosivo conforme vai mudando de mundo. Se na realidade atual vemos uma cidade mais acizentada, na vila palco da fábula temos já um aumento considerável na matiz, e quando se avança para o mundo dos mortos usa-se com equilíbrio de tonalidades berrantes que se harmonizam entre si. Outro acerto é transformar os personagens do conto em criaturas de madeira, configurando à produção uma charmosa infantilidade.
O roteiro de Gutierrez e Douglas Langdale é outro bom aspecto de Festa no Céu. Mesmo que traga traços de didatismo excessivo e tenha um clímax dos mais incoerentes no terceiro ato, a história consegue se guiar bem e é capaz de não ser maniqueísta na forma como configura a maioria de seus personagens. Até Xibalba, por exemplo, que é presumido aqui como grande vilão da trama, age por interesses justificáveis.
Contando ainda com uma trilha sonora bela e bastante pautada na cultura mexicana, Festa no Céu é uma animação que se difere de outras por justamente trazer em seu interior valores diferentes dos que a sociedade está acostumada a ver. Apesar de apelar para estruturas narrativas óbvias, a criatividade da produção em apresentar uma outra visão para o público infantil é algo digno de palmas.

Nota: 7/10

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Crítica: Os Boxtrolls

De significado mais profundo, terceiro filme da Laika evidencia mais uma vez principal característica da empresa

Por Pedro Strazza

No competitivo mercado de animações, é curioso perceber que, mesmo sendo dominado por grandes empresas como a Disney-Pixar, a Aardman e a Dreamworks, ele ainda encontre espaços para abrigar com conforto iniciativas pequenas como a Laika. Criado em 2005, o empreendimento vem concebendo seus filmes através de um uso mais atencioso do stop-motion, técnica esta que ganhou em suas mãos um maior nível de detalhismo cenográfico. Seus dois primeiros longa-metragens, Coraline e o Mundo Secreto e Paranorman, encantam os olhos do público justamente por este cuidado técnico, capaz de criar cenários tão espetaculares quanto o jardim do mundo dos botões da obra de Neil Gaiman, por exemplo.
Em Os Boxtrolls esta tendência à meticulosidade não é diferente. À partir do livro Here Be Monsters!, a terceira animação do estúdio fabrica todo um universo para contar a história de Ovo, um garoto que desde pequeno foi criado nos esgotos pelas simpáticas criaturas do título. A vida de sua família, porém, vive sob a ameaça de Arquibaldo Surrupião, um homem que busca capturar todos os boxtrolls para garantir um luxuoso chapéu branco e assim poder sentar com a alta classe da sociedade. Resta ao rapaz e sua amiga Winnie a tarefa de impedir o vilão de cumprir seus objetivos e salvar o grupo.
Assim como nos outros trabalhos da Laika, o design de produção é feliz na maneira como retrata os ambientes e seus personagens. Se na cidade dos humanos a equipe chefiada por Paul Lasaine tende a representar as ruas como estreitas e os prédios como altos - em uma clara referência à Londres vitoriana, também base para o visual dos habitantes -, no lar das criaturas usa-se muito da rusticidade dos moradores (os boxtrolls, afinal, combinam e reinventam objetos do cotidiano em suas criações) para fascinar o espectador, que entende desde a primeira visita ao local o motivo pelo qual o lugar é considerado uma casa pelos seres.
Mas ainda que seja um dos pontos mais fortes, o lado estético da produção serve apenas como base para o desenvolvimento da história, e é neste ponto que o filme apresenta a sua face mais surpreendente. Através da caça aos boxtrolls pelas mãos de Arquibaldo, o roteiro escrito por Irena Brignull e Adam Pava de forma sutil aplica à aventura conceitos da teoria marxista como a luta de classes e a opressão da burguesia ao proletariado, elementos bastante inesperados para um estúdio de animação estadunidense. E mesmo que os alivie de uma carga dramática maior por causa de seu público-alvo (as crianças), estas características se destacam várias vezes na narrativa do longa, principalmente pelos diálogos - "Se eu consegui mudar, vocês também conseguem", "Os ricos não ligam para nós", etc.
O ousado e sutil uso de uma ideologia diferente pela animação, porém, não esconde dele a previsibilidade da trama adotada, e é aí que reside o maior problema de Os Boxtrolls. Desde seus primeiros minutos, o longa erroneamente deixa claro todo o caminho que irá percorrer em sua história, e revela sem cuidado algum os clichês empregados em todos os seus 96 minutos. Dessa forma, as ações empreendidas pelos personagens em nenhum momento chegam a causar surpresa a ninguém, e isto torna a experiência cinematográfica um tanto enfadonha.
Mesmo com esse problema tão básico a produção porém não chega a ser prejudicada. Esteticamente belo e de ideias ousadas, Os Boxtrolls encanta pelos personagens e cenários, que por causa de seus cuidados técnicos disfarçam (na medida do possível) a trama fraca e previsível. Mais um acerto para a Laika, que prossegue com sua ascensão agora em um passo menor.

Nota: 7/10