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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Crítica: Refém do Jogo

Dave Bautista estrela ação oitentista que deveria ter ficado no passado (ou nem isso).

Por Alexandre Dias.

Sylvester Stallone ainda é ativo no mercado cinematográfico pelo simples fato de saber utilizar o saudosismo ao seu favor. Os trabalhos e atuações do eterno intérprete de Rocky Balboa não tentam impor as suas características orgânicas ao modelo fílmico atual, mas sim relembrá-las. Assim, o astro continua mantendo a sua presença em projetos como algo requerido, enquanto a evolução do cinema de ação oitentista fica a cargo dos novos brutamontes que entenderam como tirar sarro deles mesmos e se divertirem, sendo os principais Vin Diesel, Jason Statham e Dwayne Johnson.

O próprio Velozes e Furiosos, protagonizado pelos três artistas em questão, prova com o seu show de mentiras e bizarrices a existência de uma vertente do blockbuster moderno, focada totalmente no entretenimento. Não é ultrapassado, ainda que ridículo. Refém do Jogo, no entanto, imprime uma aura que já não funciona mais nos dias de hoje. A parte “ruim” da obra que seria perdoada (e até celebrada) em uma época remota, como ocorreu com Sly, Arnold Schwarzenegger e Jean-Claude Van Damme, é apenas ruim sem aspas atualmente.

Por falar em Van Damme, há a influência clara de um dos seus filmes no longa do diretor Scott Mann: Morte Súbita, de 1995. A premissa da invasão de um estádio esportivo – antes era hóquei, agora futebol - por “terroristas” permanece. A produção estrelada pelo belga também não era um triunfo da sétima arte, porém foi lançada durante o auge do artista marcial e, mais uma vez, acaba tornando as suas cafonices, vícios e clichês aceitáveis.

Estes pontos são perceptíveis no projeto de Mann principalmente por meio do roteiro de Jonathan Frank, David T. Lynch e Keith Lynch. Há o herói norte-americano atormentado pelo passado que deve voltar à ativa, o vilão russo que ficou louco com os seus ideais, a adolescente rebelde, o amigo árabe do protagonista e dessa forma continua. Sim, os estereótipos são tão batidos quanto parecem, inclusive são explicitados; a “piada” que referencia um possível homem-bomba é o exemplo máximo disso.

O texto monótono e antiquado não ajuda Mann, mas ele, do mesmo jeito, não tem nenhuma marca positiva aparente. Na franquia John Wick, Chad Stahelski e David Leitch, trabalharam com uma trama de vingança e máfias russas. Seria um grande clichê se não fosse o modo preciso de abordar o mundo dos mercenários, além de colocar a ação nas telas com a maestria de um espetáculo de dança. 

O cineasta de Refém do Jogo passa longe de promover a mesma boa identidade estética que a dupla faz. A pancadaria e os tiroteios são genéricos e não exploram bem Dave Bautista, ex-lutador gigantesco – falam o tempo inteiro sobre o seu tamanho - que teria muito a agregar como um brucutu ao estilo The Rock. Aliás, o seu personagem desajeitado quase sempre tem o benefício da sorte, sem precisar necessariamente demonstrar habilidade. Em ambientes fechados o caos é menos aparente, como é o caso da batalha no elevador, porém quando se trata do aproveitamento do espaço vemos a limitação gritante do realizador, a exemplo da medonha cena da perseguição de motos.

Enquanto isso, o bom elenco não tem como exibir o mínimo de talento pelos papéis horrorosos, vide o momento em que Bautista precisa chorar. Há certas carreiras que tem um limite e Dwayne Johnson teve essa compreensão, por isso chegou tão longe. Ele sabe até onde pode ir e que trabalhos estão a sua frente. O intérprete de Drax tem tanto potencial quanto ele e, se aprender com erros como esse, também pode alavancar como um ícone dos blockbusters modernos de ação e aventura. Vale ressaltar que os outros coadjuvantes sofrem igualmente, como o veterano Pierce Brosnan, que mal tem tempo de tela, e Ray Stevenson (o Volstagg, de Thor), ótimo ator sujeito a dar vida a um russo estereotipado. 

As referências são importantes em qualquer projeto cultural. Entretanto, elas são argumentos para a formação de algo novo, que seja uma nova referência no futuro. Obviamente, há um certo idealismo nesta afirmação, mas, de fato, não há como reproduzir só uma referência esperando que haja uma simulação de tudo de bom que ela tem. Refém do Jogo tenta reproduzir uma época, com um material de base superficial. Esperemos pelo terceiro capítulo de John Wick.

Nota: 3/10

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Crítica: Operação Overlord

Terror de ação da Bad Robot flerta com o caricato, mas também o teme.

Por Alexandre Dias.


J.J. Abrams sempre foi uma espécie de elo entre as produções mais independentes e os blockbusters arrasa-quarteirões, principalmente no que se refere ao conteúdo fantástico e aventuresco. A sua produtora, a Bad Robot, é responsável pela franquia Missão: Impossível e ao mesmo tempo lançou a marca Cloverfield que, inclusive, catapultou Matt Reeves - o diretor já contratado para o próximo filme do Batman - a Hollywood. 

Nos casos de projetos com orçamentos reduzidos, especialmente aqueles relacionados ao terror, ação, sci-fi e fantasia, os realizadores em questão têm mais chance de se sobressaírem, pela necessidade de fazer muito com pouco, além da liberdade criativa ser maior, pois há menos pressão de um grande estúdio por trás. Em Operação Overlord esse contexto mesclou-se a um receio de não explosão comercial, sendo essa aspiração de que o longa fosse o próximo Deadpool o seu monstro.

Zumbis nazistas. Isso resume (e não resume) a obra. Com esta premissa é difícil trabalhar uma quebra de expectativa e fazer algo que rompa barreiras, portanto a execução do gore e da parte trash é essencial, ainda que haja um trabalho mais apurado de roteiro do que circunstâncias assim pedem. Dessa forma, a seriedade e a pseudo profundidade da trama são fatores extremamente limitantes, que criam uma burocracia desnecessária a uma história como essa.

Talvez o objetivo fosse a realização de um novo Drink no Inferno, em que o seu início segue a estrutura de um filme clássico de Quentin Tarantino e depois Robert Rodriguez dita a explosão do horror bizarro de vampiros. Se era, não ocorreu como planejado por causa da ausência dessa segunda característica, a do exagero, da galhofa. Pode-se contar nos dedos quantos zumbis aparecem. E até poderíamos entender Operação Overlord mais como uma produção de guerra do que como um terror de ação, se não fosse o fato de que há inúmeros clichês do gênero, como jump scares, e a própria insinuação constante de monstruosidades paranormais.

Mesmo este tom de O Resgate do Soldado Ryan só funciona até certo ponto, mais especificamente no primeiro ato e início do segundo. Os personagens são absolutamente desprovidos de carisma por isso, mas não por falta de potencial. Ford, por exemplo, que é interpretado pelo filho de Kurt Russell, Wyat, é barrado como o líder brucutu – tomara que continue seguindo os passos do pai - pelo moralismo usual do protagonista, Boyce (Jovan Adepo, também bom ator, mas que sofre pelo papel cansativo). Todos os outros sofrem por essas relações previsíveis e automáticas, que, já que não foram incorporadas ao grotesco, deveriam ter sido melhor trabalhadas.

E como os atores, o diretor Julius Avery demonstrou que tem talento, porém não conseguiu exibí-lo com toda a força, muito pelo roteiro mastigado de Billy Ray e Mark L. Smith. A câmera próxima dos personagens, como na ótima cena de abertura, e a disposição da ação em determinados espaços – o tiroteio noturno na floresta - comprovam que o cineasta tem uma visão de ideias, que podem ser colocadas na telona sem milhões de dólares. Apesar disso, ele se perde nos momentos em que precisa mostrar o horror e o caricato.

Aliás, o conceito dos zumbis super poderosos é inteligente e cria uma expectativa não atendida também na ação. Há um embate que acontece em um ponto da trama que gera muita empolgação não devolvida na execução. Na verdade, Operação Overlord é uma grande promessa em falso. É frustrante, porque não tinha motivo de um projeto como esse ter medo do público e da indústria, principalmente depois de dar o primeiro passo em direção à ousadia de um filme de baixo orçamento.

Nota: 4/10

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Crítica: Podres de Ricos

Comédia romântica inova clichês do gênero com elenco 100% asiático.

Por Isabela Faggiani.

Podres de Ricos, que chega essa semana aos cinemas brasileiros, foi um dos filmes mais esperados do ano, e teve um sucesso espetacular nos Estados Unidos. À primeira vista, parece que é apenas mais uma comédia romântica com uma trama conhecida: a garota de classe média baixa que se vê namorando um ricaço e precisa conquistar a aprovação da família dele, mas a história é muito mais que isso. Começando pelo fato de que quase todos os envolvidos são asiáticos ou descendentes de asiáticos, desde o diretor, John M. Chu, até os figurantes. Difícil mesmo, é achar algum caucasiano no longa. 

O filme é claramente feito para o público ocidental, com o roteiro em inglês, baseado no livro Asiáticos Podres De Ricos, de Kevin Kwan. A importância desse longa para os asiáticos que vivem no ocidente pode ser comparada à importância de Pantera Negra para o público negro. Isso ocorre porque a representação asiática nos cinemas ocidentais quase nunca foge de clichês como “o asiático nerd” ou “o lutador de artes marciais”.

A história acompanha Rachel (Constance Wu), uma professora de economia sino-americana que nunca havia viajado para o seu país de origem, apesar de falar a língua. Ela namora Nick, porém nunca havia conhecido a família dele, que mora em Singapura, até ele a convidar para o casamento de seu melhor amigo. O que ela não esperava, porém, foi a descoberta de que Nick (Henry Golding) faz parte de uma das famílias mais ricas e famosas da Ásia. O título do filme é completamente honesto nesse aspecto: a riqueza da família é imensurável.

No filme, a prima de Nick, Astrid Young (Gemma Chan), mesmo tendo a própria trama, é secundária, porém é a história dela que mostra a possibilidade de uma sequência. O livro que deu origem ao filme também a tem como personagem central e faz parte de uma trilogia. Astrid tem que lidar com seus próprios problemas e, a cena final envolvendo ela e Charlie Wu (Harry Shum Jr) apontam que podemos ver mais da família Young nas telonas.

Astrid é uma das poucas personagens que aceita e gosta de Rachel. O resto da família Young e de seus amigos e conhecidos parece não gostar da presença da jovem, principalmente a mãe, de Nick, Eleanor (Michelle Yeoh). Ela não aceita Rachel e quer que o filho volte a morar em Singapura e cuide dos negócios da família. A reprovação se dá ao fato de que Rachel não cresceu inserida na cultura e tradições asiáticas. Isso aborda uma questão importantíssima aos descendentes asiáticos: a sensação de não pertencimento.

Os descendentes de países do leste da Ásia não são vistos como estadunidenses, brasileiros, britânicos, etc., mas também não são vistos como chineses, japoneses, coreanos… Eles não são “ocidentais” o suficiente, mas ao mesmo tempo, por não terem crescido dentro da sociedade de seus pais e avós, também não são considerados parte daqueles locais.

Podres de Ricos sabe abordar muito bem o preconceito contra asiáticos de forma clara, mas sem trazer um tom dramático à trama.  A primeira cena do filme já mostra isso. Ela se passa em uma noite chuvosa na Inglaterra nos anos 90, com Eleanor e seus filhos entrando em um hotel cinco estrelas e falando que reservaram a suíte mais cara. Os funcionários do hotel se recusam a hospedar a família. Eleanor, porém, não deixa barato e logo liga para o marido, que prontamente compra o hotel, mostrando o poder aquisitivo da família.

A cultura hollywoodiana quase não admite o estrelato de pessoas que não sejam brancas, e muitas vezes tira papéis dessas minorias para colocar alguém branco no lugar, como foi o caso de A Vigilante do Amanhã, com Scarlett Johansson no papel de uma personagem japonesa. Por isso, Podres de Ricos, com seu elenco 100% asiático, é um marco na história de minorias no cinema ocidental. Ele se apresenta com uma comédia romântica de qualidade, com personagens complexos e um ótimo roteiro.

Nota: 7/10

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Crítica: Legalize Já! - Amizade Nunca Morre

Relação dos fundadores do Planet Hemp é o foco certeiro da cinebiografia da banda carioca.

Por Alexandre Dias.

Straight Outta Compton - A História do N.W.A. tem uma grande história de base, personagens reais fortes e um fundo musical riquíssimo. Por que, então, toda essa qualidade foi limitada no filme de F. Gary Gray? O erro crasso da maior parte das cinebiografias é justamente essa dificuldade de transpor um produto cultural imponente para as telonas. Ou seja, dos realizadores pensarem que a parte cinematográfica em si está em segundo plano e que o tema já é o suficiente para a formação de um longa-metragem.

O roteiro, o tom, a técnica e o trabalho dos personagens são tão importantes em um projeto assim como em qualquer outro, vide A Rede Social, em que David Fincher fez muito mais do que contar quem é Mark Zuckerberg. Os cineastas Johnny Araújo e Gustavo Bonafé entenderam isso e Legalize Já! – Amizade Nunca Morre não deve receber a alcunha genérica de cinebiografia do Planet Hemp. Há uma boa dose de personalidade, ainda que contida em alguns momentos para se adequar aos padrões comerciais.

De longe, o ponto de partida do filme foi a decisão mais acertada: focar na relação entre Marcelo D2 (Renato Goés) e Skunk (Ícaro Silva). O núcleo intimista dos primeiros integrantes da banda carioca cria margem para a elaboração de discussões sociais, culturais e políticas, pontos intrínsecos ao grupo desde o seu início, além do tranquilo desenvolvimento dos seus protagonistas, que, apesar de previsível por um lado, demonstra carisma e maturidade por outro.

Goés e Silva têm uma ótima química nos papéis dos músicos, seja na piada, na briga ou no talento. Os trejeitos que os atores atribuem aos artistas dão a impressão de improviso em determinadas ocasiões; tenha sido isso ou não, o espectador fica ávido pelo que ambos têm a dizer. Consequentemente, os outros personagens são completamente dispensáveis. As interações entre Skunk e Brennand (Ernesto Alterio) e Marcelo e Sônia (Marina Provenzzano), com raras exceções, são mecânicas para a trama, mesmo que haja uma ou outra cena nesse meio que arranque um sorriso ou um aperto no coração. Pelo foco da obra estar em outro lugar é compreensível, porém, nem por isso, deixa de ser perceptível.

O roteiro de Felipe Braga e L.G. Bayão é automático como um todo, especialmente para os fãs do Planet Hemp e aqueles já familiares com a sua trajetória. Contudo, esse direcionamento nos fundadores permitiu não só a abertura para a cinematografia de suas vidas, como de suas ideologias e artes. “Não é sobre maconha”, repete Skunk duas ou três vezes no longa. De fato, a descriminalização das drogas não é o centro dos debates nesse projeto e essa ausência é sentida um pouco, mas o encaminhamento da discussão para o tratamento da cultura no Brasil foi certeiro.

Não é uma pressão absurda nas feridas, porém é jogado um pouco de sal. Fica claro o quanto o nosso Estado não valoriza e não incentiva a música, a arte e as manifestações culturais. Pelo contrário, são vistas com olhos conservadores, dessa maneira os artistas são a linha de frente da resistência. Sem falar na leva de outros assuntos trazidos no meio da criação da banda, que envolvem racismo, desigualdade social e violência policial, por exemplo. Os percalços encontrados pela dupla, principalmente no primeiro ato, reúnem muitas dessas questões, como no momento em que Skunk é abordado pela lei ou na rotina de trabalho D2.

A fotografia acinzentada realça esse cenário brasileiro representado no Rio de Janeiro, enquanto a trilha sonora, composta pelo próprio D2, carrega o clima da produção, seja com os sucessos do Planet Hemp ou de suas influências. Há realmente um cuidado audiovisual singular em Legalize Já! e a linha tradicional que move essa obra para o mercado não diminui a cortesia com a qual ela foi concebida, a mesma que falta para com a cultura no Brasil.

Nota: 8/10

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Crítica: Venom

Venom é tosco, mas, sem hipocrisia, permanece fiel às origens do personagem.

Por Alexandre Dias.

O mercado do cinema de super-heróis está passando por uma fase semelhante a que os quadrinhos viveram pós Watchmen e O Cavaleiro das Trevas. Não é mais uma novidade, então há uma saturação natural, e o modo de pensar dos produtores se assemelha muito à indústria dos gibis nos anos 90; pensar que características adultas, muito visual ou, como é o caso, foco nos vilões e anti-heróis sejam uma espécie de subversão, sendo assim o caminho, segundo estes sujeitos. 

Esquadrão Suicida provou isso ao não apenas colocar vilões na posição de heróis, mudando a essência dos personagens, como por reciclar os vícios e tendências do momento (“Ah vamos fazer o nosso Guardiões da Galáxia”). Venom tem praticamente todos esses aspectos preguiçosos, porém se salva por não ser um projeto hipócrita, criando o mínimo de respeito para com os seus próprios elementos e o espectador, que em nenhum momento é enganado sobre o que está diante dele. 

O motivo da existência do simbionte está totalmente atrelado ao Homem-Aranha, portanto um longa solo dele não teria razão de acontecer. De fato, não tem. E sim, a sua nascença só ocorreu porque a Sony não tem mais como trabalhar com o universo do Cabeça de Teia , ao qual lhe pertence. Estaríamos em paz sem essa produção? Sim. Contudo, já que ela foi concebida, o sentido desse novo mundo está relacionado com a sua proposta e o seu material. Ambos são minimamente bem colocados.

A química de Eddie Brock (Tom Hardy) com o alienígena justifica tudo com o seu jeito caricato de ser. O ridículo (às vezes além da conta) é proposital, o que acaba por tornar aceitável uma falta de complexidade e até de lógica. É um parasita gigante que encontra o seu hospedeiro ideal em um fracassado. E pronto. Não há rodeios, logo o bizarro que é a zombaria que um faz com o outro, ou mesmo o apego dos dois, passa a se transformar no trunfo do filme, com alguns deslizes exagerados espalhados, é claro.

Vejamos o roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel. É a mesma linha tradicional e clichê da história de origem, sem nada muito significante a ser notado. Entretanto, consegue-se compreender porque Venom escolheu Brock e Riot concentrou-se em Carlton Drake (Riz Ahmed). No final, a bobeira não é cercada de uma bagunça, como ocorreu com os vilões da DC em 2016. Nem por isso a atração principal deixa de ser o simbionte, o resto é mais do que esquecível: a ex que volta à cena – é impossível, até para quem conseguiu aceitar a galhofa, decidir se aquele beijo foi uma boa decisão ou não -, o empresário ganancioso, os coadjuvantes amiguinhos, etc.

Inclusive, muito deste tom excêntrico se deve ao diretor Ruben Fleischer. Acostumado com a comédia, ao exemplo de Zumbilândia, ele varia entre o sarcasmo e o humor tradicional dos blockbusters. Dessa forma, o cineasta acaba forçando a barra em alguns pontos, mas sem precisar se prestar a uma determinada obrigação, como uma referência a Peter Parker ou algo do tipo. Tom Hardy é igual. O Brock dele é (pasmem) um cara simpático no início, mas é surreal o modo que ele encarna a dupla personalidade com o monstro, tanto pelo bem como pelo mal.

A ação também sofre desse extremismo que depende de uma possível aceitação. Quase inteiramente cercadas de CGI, há uma cara de trash onde o tosco é a salvação. Riot e suas habilidades bizarras são a prova viva disso. Percebe-se que não estamos vendo algo bonito, porém há uma beleza nesse entulho, não observada em Deadpool 2, por exemplo – ver Venom, com todo o seu poder, em ação é muito mais legal do que Cable ou Colossus. 

Um projeto como Venom só poderia dar certo se fosse algo muito ousado e fora dos padrões do gênero. Só o fator de ser PG 13 (classificado como para maiores de 13 anos nos Estados Unidos) já indica um pouco que não é isso. No entanto, mesmo com esse molde genérico, o longa-metragem do simbionte tem uma identidade caricata viva, que já o põe em uma posição interessante como um filme de vilão. A possível sequência com o Carnificina e outros projetos de tal seguimento, como a futura origem do Coringa, dificilmente conseguirão se estabilizar na indústria com ideias que funcionam aos trancos e barrancos dessa maneira, mas, pela primeira vez, acredito que alguma coisa
possa sair desse mato sem cachorro.

Nota: 6/10

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Crítica: 22 Milhas

Iko Uwais e o resto é resto.

Por Alexandre Dias.

Atirador, de 2007, é um dos únicos filmes de Antoine Fuqua realmente bons, fora a sua obra-prima Dia de Treinamento. Não espetacular, mas bom. O principal motivo é por recorrer à fórmula de ação das antigas, dos clássicos de brucutus dos anos 80, em que há uma premissa rasa, porém aceitável, e a pancadaria faz o resto. Um ou outro tema político, ou uma pequena reviravolta ainda se revelam, mas com uma certa moderação justamente porque Fuqua compreende o seu projeto.

Esse é o grande problema de 22 Milhas. Não sabemos se estamos vendo um thriller de ação, algo voltado para Jason Bourne, que, de fato, faz mais o estilo do diretor Peter Berg, ou um longa-metragem mais explosivo e menos denso. Apesar disso, pequenas características benéficas são tiradas dessa confusão resultante da quarta parceria entre Berg e Mark Wahlberg. E todas, sem exceção, envolvem uma pessoa: Iko Uwais. 

A produção é basicamente uma missão. É um contexto que permite os dois caminhos citados acima, inclusive, já tendo sido utilizado por Berg no passado com O Grande Herói, também com Wahlberg – um trabalho, muitos tiros e pequenos comentários políticos. No entanto, parece que o cineasta filmou às pressas um rascunho do roteiro de Lea Carpenter e Graham Roland. As intromissões de James Silva (Wahlberg) sobre a sua concepção do mundo, as cabeças dos presidentes norte-americanos e as bandeiras evocam todos os aspectos mais superficiais do diretor. Esta “seriedade” temática está lá por estar, não tem função.

É um dos pontos em que a comparação com Atirador vem a calhar novamente. A política patriota estadunidense representada pelo setor militar é muito polêmica para ser debatida desse jeito, assim Fuqua a usou a favor da sua história, só com o objetivo de promover a ação. Portanto, a junção desse traço reflexivo mal desenvolvido com a trama frenética ao modo Busca Implacável de 22 Milhas geram uma bagunça. Contudo, o elo do pouco sentido que é essa confusão, chamado Iko Uwais, garante alguns bons momentos.

O ator indonésio é um dos grandes artistas marciais do cinema desta geração. Ele estourou com a franquia Operação Invasão, de Gareth Evans, e protagonizou outras obras na mesma linha, como Merantau e Headshot. Toda a sua habilidade é uma das atrações à parte do longa, com certeza possuindo sua influência como coordenador por trás das câmeras – imaginem o que ele poderia fazer com Chad Stahelski em John Wick. Aliás, a melhor cena do filme é sem dúvida a sua luta contra uma tentativa de assassinato, que já introduz bem o que percorre o seu personagem. 

Porém, não são só os seus golpes que são bem-sucedidos. Li Noor, o alter ego de Uwais, é o mais desenvolvido de todos os outros papéis. O espectador fica interessado em saber quais são os seus objetivos e a atuação do indonésio, que mistura inteligência e bondade, contribui diretamente para isso. Aliás, a resolução de Noor é outro ponto do projeto que faz valer o ingresso, seja algo previsível ou não. Ele está a anos luz de distância em qualidade dos outros personagens. 

A começar por James Silva, que só tem o nome de legal. Parece que Wahlberg pegou o seu estilo bad boy de Os Infiltrados e Quatro Irmãos e injetou anabolizantes. Dessa forma, a sua ótima introdução por meio de fotos e documentos se perde e dá lugar a apenas um chefe babaca. O resto da equipe dos Overwatch é totalmente dispensável. Aliás, literalmente, pois Silva afirma que eles são chamados em situações extremas, mas parecem amadores, ainda que a reviravolta principal justifique isso. Pelo menos John Malkovich tem um ou dois momentos sendo... John Malkovich. 

As próprias cenas de ação demonstram a falta de integração do grupo. E o que há no destaque de Uwais distribuindo a pancadaria, falta nos outros agentes. Berg chegou a criar situações legais, como a infiltração no início, a perseguição de carros e o gato e rato no prédio abandonado, cenários parecidos com aqueles presentes em Operação Invasão. Entretanto, a execução em si foi destrambelhada, o que, mais uma vez, dá a impressão de pressa, porque em O Grande Herói ele soube como cadenciar a movimentação. 

Já há planos da STX para uma sequência. A cara de season finale dos últimos minutos de 22 Milhas geram curiosidade para essa possível continuação, mas se há tanto potencial visto pelos produtores, que essa nova marca seja melhor pensada do que uma explosão adoidada de vários elementos. E por favor, Stallone, chame Iko Uwais para o próximo Mercenários!

Nota: 4/10

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Crítica: Hotel Artemis

Ideia, elenco e nada mais.

Por Alexandre Dias.

Trabalhar com elencos grandes e já estabelecidos no mercado é muito difícil e, normalmente, indica uma insegurança do projeto desde a sua concepção. Quando não é um Quentin Tarantino ou um Terrence Malick, onde os devaneios dos autores tornam o filme “maior” que os seus atores, estamos acostumados com entretenimentos leves. Os Mercenários ou Onze Homens e um Segredo demonstram como essa proposta cria um álibi para o modo de lidar com os seus nomes.

Hotel Artemis, primeiro longa-metragem do roteirista Drew Pearce, responsável pelos textos de Missão: Impossível – Nação Secreta e Homem de Ferro 3, segue esta mesma linha de raciocínio. De fato, é um pensamento acertado e funciona até certo ponto. Porém, Pearce sofreu o baque do cargo na direção, em paralelo a uma história repleta de irregularidades, o que acabou deixando o seu trabalho à mercê de uma ideia eficiente e do talento da sua equipe de atuação.

Um hotel que acolhe criminosos – Keanu Reeves, cadê você? - em um futuro distópico. É um conceito quase que à prova de erros de tão legal. Além disso, é extremamente inteligente em termos de orçamento. Provavelmente gasto com metade do elenco, o pouco que vemos do mundo exterior convence com armas futurísticas e manifestações caóticas. Portanto, o título da obra realmente é um dos protagonistas, em teoria gerando um ambiente claustrofóbico, misterioso e agressivo. Percebe-se com clareza que o objetivo era misturar suspense com ação. Mais uma vez, isso tem êxito até certo ponto.

A sensação de que as coisas vão explodir a qualquer momento é melhor do que a explosão em si. Com exceção da cena do corredor de Nice (Sofia Boutella), não há nenhum tiroteio ou pancadaria que seja digno de nota. Pode-se dizer que houve um desperdício? Sim, afinal, as oportunidades de realizar isso são mostradas, como na expectativa gerada quando Everest (Dave Bautista) pega um machado e dá a impressão de que teremos um momento ao estilo Leônidas de Esparta.

Contudo, essa não utilização da ação não é um demérito. A circulação dos personagens pelo Artemis, um lugar desolado, porém com retoques tecnológicos, aumenta a sensibilidade das situações, visto as suas posições de profissionais do crime. A questão é que Pearce é totalmente dependente da cadência em lidar com o ambiente e os integrantes dele, ao invés de desenvolver e explorar as histórias que haviam ali.

O maior exemplo disso é Waikiki (Sterling K. Brown), que é um dos personagens principais do filme, mas não tem muito o que fazer nele, apenas não sendo completamente desinteressante por causa do seu ótimo intérprete. A relação do ladrão com Nice é muito superficial, quanto mais a com a Enfermeira (Jodie Foster), que brota do nada pelo fato dos dois protagonizarem o longa. Aliás, essa última ocorrência torna-se tão estranha justamente pela boa química que Everest teve com a idosa durante toda a produção.

Esta via de mão dupla do bom elenco com papéis rasos é igualmente clara no tom excessivo. O humor ácido e a violência funcionam em alguns momentos, como na interação entre Nice e o Rei Lobo (Jeff Goldblum, caricato na medida certa). Por outro lado, forçam a barra, esclarecendo a perda de controle de Pearce sobre o que ele tinha em mãos. Os personagens de Charlie Day e Zachary Quinto são a prova cabal disso; enquanto o primeiro, sempre na gritaria, tem muito tempo de tela para ser só um coadjuvante babaca, o segundo é um dos herdeiros mais chatos que eu vi no cinema nos últimos tempos.

Inclusive, é curioso como a obra parece ter noção do que ela é às vezes, pois quando o Rei Lobo dá uma “chamada” no filho é, sem dúvida, o sentimento do espectador se revelando. Entretanto, a participação de Quinto como Crosby também é hiperbólica. Quem sabe em uma possível sequência, sugerida pelo projeto na sua conclusão, haja um pouco mais de competência para o potencial de todas as suas qualidades manifestar-se por completo e sem máscaras.

Nota: 5/10

sábado, 8 de setembro de 2018

Crítica: Marvin

Filme francês reúne a luta contra a homofobia com o empoderamento através da arte.

Por Letícia Dauer.

Um jovem ruivo de olhos claros com traços femininos se analisa em frente ao espelho, penteia as sobrancelhas com uma pequena escova e dá um suspiro, antes de fazer um breve alongamento. Com o peso de uma vida nas costas, Martin Clement (Finnegan Oldfield), nascido Marvin Bijou, parece se preparar para correr uma maratona e realmente está. Em um teatro lotado, ele apresenta um monólogo sobre sua difícil e sofrida infância. 

Marvin, o novo filme de Anne Fontaine - que também dirigiu Coco antes de Chanel - discute as nuances da homofobia a partir da história do pequeno Marvin, criado dentro de uma conservadora comunidade no interior da França. A narrativa não é cronológica e linear, por isso é construída alternando períodos da infância e da juventude do protagonista, quando estudava em um conservatório de teatro. 

No decorrer da infância, Marvin sofreu múltiplas violências por diferentes instituições. Tanto na escola quanto em casa, sentia-se como um verdadeiro forasteiro e fugitivo. No ambiente escolar, já era rotina ser perseguido e agredido por colegas por mais que tentasse ser invisível. Enquanto no seio familiar, nunca encontrou de fato um lar. Os pais negligenciavam, ou talvez apenas ignorassem por vergonha e ignorância, a homofobia que o filho sofria. 

O pai Dany (Grégory Gadebois), no longa metragem, representa o desejo de seguir a norma, nesse caso a heteronormatividade, e banir aquele que é considerado diferente como o filho. A completa solidão e falta de identificação com o meio em que vive induzem Marvin a tentar se normatizar; ele até se relaciona com uma garota durante a puberdade. Como Marvin tem traços e comportamentos julgados femininos, ele também tenta performar a masculinidade para ser aceito pela comunidade. 

Na sociedade patriarcal, a masculinidade é inerente a violência que é uma demonstração de poder, por isso mesmo sendo vítima de violência, Marvin passa a reproduzi-la em menor escala contra outra minoria, as mulheres. Apresentando um comportamento bruto, por exemplo, há uma cena em que Marvin, enquanto bebe cerveja, xinga uma vizinha de “gorda” e “vagabunda” por reclamar da algazarra que ele e os amigos estão fazendo em frente a sua casa. 

Durante o processo de aceitação de sua orientação sexual, o teatro é o grande instrumento usado para externar seu sofrimento e para se redescobrir. Essa jornada só é possível com a ajuda de três mentores: a diretora do ensino médio Madeleine Clément (Catherine Mouchet) que lhe apresenta o teatro, o artista homossexual Abel Pinto (Vincent Macaigne) que é modelo e inspiração e a atriz Isabelle Huppert e lhe ajuda a concretizar a peça. 

O roteiro de Pierre Trividic e Anne Fontaine explora com êxito as dificuldades em se desconstruir a homofobia e a intersecção com outras opressões. Apesar da família de Marvin viver sob uma cultura conservadora e ignorante, o enredo não peca pelo viés naturalista e apresenta certo otimismo. Dany, no final, consegue reconhecer a identidade do filho e chega a questioná-lo se um dia irá se casar.

Nota: 8/10