sábado, 27 de janeiro de 2018

Crítica: The Post - A Guerra Secreta

Spielberg usa de seu revisionismo cinematográfico para fazer caricatura explícita da realidade política americana.

Por Pedro Strazza.

Tem sido um exercício interessante acompanhar a carreira do celebrado e multipremiado Steven Spielberg nestes últimos anos. Pelo menos desde 2011 com Cavalo de Guerra, o homem que foi um dos grandes responsáveis pela formatação atual da indústria hollywoodiana encontra-se em uma fase tardia de revisionismo de seu cinema, voltando às raízes para uma investigação de sua própria formação como cineasta sob diferentes ângulos e perspectivas. Depois de sua adaptação hiperativa de As Aventuras de Tintim, o diretor vem contemplando trabalhos de abordagens mais tradicionais ou que usam da nostalgia como elemento temático, caso de O Bom Gigante Amigo e muito provavelmente do vindouro Jogador Número 1, uma história de fantasia virtual que retorna aos itens e temas dos anos 80.

É dos dramas tradicionalistas e de forma calculada, porém, que Spielberg vem ganhando maior reconhecimento nos anos 10, uma tendência anunciada por Cavalo de Guerra e continuada por Lincoln e Ponte dos Espiões. As quatro produções de época, indicadas a múltiplos Oscar (incluindo Melhor Filme), retomam cada uma os pilares da formação cinéfila do cineasta, servindo a ele tanto como um ato de reverência a diretores que o influenciaram (Ford, Capra, Wyler) quanto para exercitar aquilo que o seu cinema dito humanista apreendeu deles. É nos dois últimos longas, inclusive, que se percebe com maior clareza esta tendência de Spielberg à incorporação de seus mestres, algo a ser repetido agora com este The Post - A Guerra Secreta.

Mas se em Lincoln e Ponte dos Espiões o diretor mantinha o olhar revisionista como mantra maior e único de seu trabalho, a versão cinematográfica do vazamentos dos documentos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã passa por urgências que parecem reanimar seu lado mais jovial, do moleque que sempre viveu no interior de seus blockbusters aventurescos. Seja por fatores externos (a bastante reportada "pressa" com a qual ele produziu The Post afim de não perder o timing político) ou internos (a própria dinâmica da história se nutre de uma ansiedade narrativa maior), Spielberg parece enfim alinhar com The Post as duas facetas maiores de sua carreira - a do homem dos grandes espetáculos circenses e a do cineasta responsável pelos filmes ditos "de prestígio" - sob uma mesma pauta.

O longa segue a toada, porém, desta sua última sequência específica de trabalhos, partindo novamente da temática do cidadão comum que se descobre protagonista fundamental de uma história maior. Quem ocupa esta posição no caso é Katharine Graham (Mery Streep), dona do The Washington Post que precisa decidir se deve aprovar ou não a publicação de segredos de Estado presentes nos relatórios do amigo Robert McNamara (Bruce Greenwood) em seu jornal num momento em que se encontra acuada pela postura agressiva do governo Nixon e os acionistas de sua própria empresa. Do outro lado da moeda, seu editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks) e seus repórteres urgem a liberação das informações, num esforço que tanto coloca em risco suas carreiras como busca a defesa da autonomia da imprensa frente a um poder autoritário.

Este dilema de se decidir entre os privilégios da elite e a ética da verdade parte de um movimento inicial um tanto covarde do roteiro de abordar Graham como cidadã comum (seria o mesmo que tomar o rei como súdito de seu reino, pois a publisher sempre foi atrelada aos círculos sociais superiores e não a feminista a ser empoderada tão vendida pelo filme), mas a falta de uma estruturação melhor é só um dos vários indícios de que o que está se vendo na telona é o Spielberg da juventude operando o Spielberg maduro. Embora canalize aqui muito do cinema de William Wyler (em especial sua predisposição a abordar questões morais) para conduzir a história, o diretor mostra-se muito mais interessado na dinâmica narrativa dos fatos, usando dos diversos impasses entre advogados e jornalistas para realizar longos planos focados nestes pequenos enfrentamentos entre os interesses corporativos e públicos. Os paralelos da trama com a realidade política atual dos Estados Unidos surgem como claros interesses imediatos, e Spielberg se aproveita dos próprios objetivos para dar corpo a uma dramaturgia de câmara hiperbolizada, que dita as cenas e conflitos pela emergência da publicação do jornal por meio de longas sequências de diálogos e movimentos de câmera cada vez mais intrusivos no cenário.

A "pressa" do diretor às vezes soa um tanto destrambelhada e falta polir algumas arestas, mas esta lógica que preza pela grandiloquência crescente só fortalece as pretensões do longa. Ao elenco, estrelado da cabeça aos pés (os atores são coadjuvantes são quase um "procure o protagonista de seu seriado preferido"), resta trabalhar este raciocínio sob um enfoque quase maniqueísta de relações, uma noção que só acrescenta uma camada extra ao já ácido humor inerente a toda essa narrativa disforme e determinada do filme.

Spielberg pelo visto aprendeu com Lincoln que o peso da dramaturgia clássica é encarado hoje com ironia, pois a caricatura impera como comandante maior de The Post e impera para provocar fortes reações no público. Seja pelo sotaque grosseiro de Hanks como Bradlee ou naa hesitação performática de Streep, sempre traduzida na manipulação dos óculos de sua Graham, o drama funciona pelo aspecto passional quase exclusivamente - não à toa, a trilha de John Williams parece se impor no longa à partir da descoberta dos documentos pela redação -, uma postura que dentro da sátira e dos paralelos entre filme e realidade só pode se traduzir em uma abordagem um tanto mais cínica da trama - o que não deixa de ser um ato curioso porém inevitável por parte do diretor, defensor eterno das instituições que vê agora elas serem tomadas pelos tipos mais desprezíveis.

Nota: 7/10

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