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sábado, 8 de setembro de 2018

Crítica: Marvin

Filme francês reúne a luta contra a homofobia com o empoderamento através da arte.

Por Letícia Dauer.

Um jovem ruivo de olhos claros com traços femininos se analisa em frente ao espelho, penteia as sobrancelhas com uma pequena escova e dá um suspiro, antes de fazer um breve alongamento. Com o peso de uma vida nas costas, Martin Clement (Finnegan Oldfield), nascido Marvin Bijou, parece se preparar para correr uma maratona e realmente está. Em um teatro lotado, ele apresenta um monólogo sobre sua difícil e sofrida infância. 

Marvin, o novo filme de Anne Fontaine - que também dirigiu Coco antes de Chanel - discute as nuances da homofobia a partir da história do pequeno Marvin, criado dentro de uma conservadora comunidade no interior da França. A narrativa não é cronológica e linear, por isso é construída alternando períodos da infância e da juventude do protagonista, quando estudava em um conservatório de teatro. 

No decorrer da infância, Marvin sofreu múltiplas violências por diferentes instituições. Tanto na escola quanto em casa, sentia-se como um verdadeiro forasteiro e fugitivo. No ambiente escolar, já era rotina ser perseguido e agredido por colegas por mais que tentasse ser invisível. Enquanto no seio familiar, nunca encontrou de fato um lar. Os pais negligenciavam, ou talvez apenas ignorassem por vergonha e ignorância, a homofobia que o filho sofria. 

O pai Dany (Grégory Gadebois), no longa metragem, representa o desejo de seguir a norma, nesse caso a heteronormatividade, e banir aquele que é considerado diferente como o filho. A completa solidão e falta de identificação com o meio em que vive induzem Marvin a tentar se normatizar; ele até se relaciona com uma garota durante a puberdade. Como Marvin tem traços e comportamentos julgados femininos, ele também tenta performar a masculinidade para ser aceito pela comunidade. 

Na sociedade patriarcal, a masculinidade é inerente a violência que é uma demonstração de poder, por isso mesmo sendo vítima de violência, Marvin passa a reproduzi-la em menor escala contra outra minoria, as mulheres. Apresentando um comportamento bruto, por exemplo, há uma cena em que Marvin, enquanto bebe cerveja, xinga uma vizinha de “gorda” e “vagabunda” por reclamar da algazarra que ele e os amigos estão fazendo em frente a sua casa. 

Durante o processo de aceitação de sua orientação sexual, o teatro é o grande instrumento usado para externar seu sofrimento e para se redescobrir. Essa jornada só é possível com a ajuda de três mentores: a diretora do ensino médio Madeleine Clément (Catherine Mouchet) que lhe apresenta o teatro, o artista homossexual Abel Pinto (Vincent Macaigne) que é modelo e inspiração e a atriz Isabelle Huppert e lhe ajuda a concretizar a peça. 

O roteiro de Pierre Trividic e Anne Fontaine explora com êxito as dificuldades em se desconstruir a homofobia e a intersecção com outras opressões. Apesar da família de Marvin viver sob uma cultura conservadora e ignorante, o enredo não peca pelo viés naturalista e apresenta certo otimismo. Dany, no final, consegue reconhecer a identidade do filho e chega a questioná-lo se um dia irá se casar.

Nota: 8/10

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Crítica: A Câmera de Claire

De volta aos problemas da vida pessoal, Hong Sang-soo usa olhar distanciado para fazer filme pautado em reconciliações internas.

Por Pedro Strazza.

Embora a coincidência seja tratada pelos fãs e detratores pelas (justas) vias do humor, não deixa de ser uma conversão curiosa a nutrida pelo diretor Hong Sang-Soo em seus três trabalhos lançados no ano passado, respectivamente O Dia Depois, Na Praia à Noite Sozinha e este A Câmera de Claire. Claramente afetado pelo escândalo criado nos tabloides em 2016 por conta de seu caso extra-conjugal com a atriz Kim Min-hee (que não por acaso protagoniza os três projetos), o cineasta sul-coreano parece ter redirecionado a esfera de emoções complexas e provenientes deste momento de sua vida aos seus filmes, que de diferentes formas processam a questão pelas vias de histórias de conteúdos mais ou menos similares. Além de Min-Hee e do ano de produção, as três obras carregam uma mesma premissa de relacionamentos em crise proporcionado (e enxergado) por uma terceira via, a partir disso desenrolando cada uma à seu jeito as questões implícitas deste jogo semitragicômico sempre encenado pelo diretor.

Mas enquanto que O Dia Depois e especialmente o Na Praia à Noite Sozinha traziam para dentro da trama um tom ácido que refletia uma condição de auto-satirização do próprio autor, A Câmera de Claire caminha mais próximo de um processo curativo, não pela via da resolução do conflito mas sim pelo descarregamento de um sentimento de culpa levado pelo cineasta ao longo de quase todo este histórico recente. O longa nunca escapa de assumir um tom jocoso, mas seus desenrolares são muito menos pautados pelo enfrentamento do elefante na sala que pela reconciliação dos personagens consigo mesmos, uma medida por sua vez capaz de revelar um Hong determinado a aceitar sua própria condição perante o caso ou, pelo menos, de enxergar com um olhar mais inocente todos os acontecimentos que o cercaram.

Filmado durante a realização do festival de Cannes de 2016 - ou seja, um pouco antes da notícia do caso estourar nos jornais - o filme conta a história de Manhee (Kim Min-hee), uma assistente da equipe de um cineasta (presente no evento para debutar seu novo projeto) que de repente se vê demitida pela superior sem maiores explicações. Sem rumo após a inexplicável despedida, ela acaba conhecendo Claire (Isabelle Huppert), uma turista francesa na cidade que por meio de suas fotos amadoras acaba revelando sem querer a todos os lados as verdadeiras razões para tamanha confusão.

Por conta do diretor ter começado a trabalhar neste projeto um pouco antes do escândalo, o filme termina sendo menos focado no tema da traição e da perversidade por trás do ato em relação aos seus outros dois contemporâneos, um enfoque que diminui drasticamente qualquer pretensão à auto-chacota do autor. Ao mesmo tempo, porém, esta condição "divorciada" dos assuntos mais pesados permite a Hong que encontre um caminho curativo muito mais forte dentro da obra que se propõe, calcado no ambiente de valor intrínseco ao cinema e nos diversos retratos tirados por Claire ao longo da história. Como a personagem bem propõe na trama, a fotografia é usada pelo cineasta pelo viés do registro em seu tom mais místico, com cada foto transformando automaticamente o fotografado e despindo-o aos poucos da culpa e de quaisquer outros sentimentos ruins que carrega.

Isso não quer dizer, porém, que o diretor tenha abandonado por completo o humor característico de seu cinema em prol de um realismo "mágico" para proporcionar esta purgação de pecados. Seu estilo cômico, em outras instâncias tão voltado ao comentário ácido e subjetivo, assume aqui uma verve mais próxima das comédias de desconforto, ressaltado conforme a situação ao qual seus personagens se inserem vão se revelando cada vez mais ridículas e desprovida de qualquer propósito. Neste sentido, é curioso observar como Hong mais uma vez reinventa a abordagem sobre sua narrativa bem humorada e construída nos planos longos ditados pelo zoom, aproveitando a longa duração de suas cenas para reforçar este peso auto-imposto pelos personagens sob as vias da comédia - e isso chega a acontecer das formas mais descoladas da temática central da produção, a exemplo do primeiro encontro de Claire com o diretor que encontra a piada justo no excesso de cortesia e falta de conteúdo entre os dois.

Mas é na dualidade criada entre Claire e Manhee que Hong no fim encontra uma resolução final aos seus conflitos interiores, impulsionada por esta linha artística envolvendo toda a história. A princípio criado no próprio estranhamento das duas perante o mundo (e neste momento o filme parece acenar para a possibilidade um tanto enfadonha de fazer de Cannes um refúgio das agruras da realidade), o relacionamento entre as duas mulheres é conduzido de forma a proporcionar uma análise mais distanciada da situação passada pela coreana, que graças à amiga e suas fotos se vê livre de seu aprisionamento interior ao apenas enxergar o conflito pelo lado de fora e perceber a banalidade de tudo. Se aos olhos do diretor esta descoberta sirva (mesmo em caráter momentâneo) de conclusão simbólica  a um capítulo difícil de sua vida pessoal, para o espectador o que fica desta tomada de consciência é a alegoria final do que faz o cinema - e as artes - tão apaixonantes em sua efemeridade.

Nota: 8/10

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Crítica: Mais Forte que Bombas

Em mosaico desencontrado, Joachim Trier retrata as dores da construção da imagem.

Por Pedro Strazza.

Mais Forte que Bombas parte de uma contradição: Logo depois de confraternizar com a esposa o nascimento do filho na maternidade, o jovem acadêmico Jonah (Jesse Eisenberg) encontra por coincidência nos corredores do mesmo hospital a ex-namorada Erin (Rachel Brosnahan), que lamenta a morte da mãe. Após receber suas condolências, ela questiona Jonah sobre o porquê dele estar no local, e ele, ao invés de revelar as boas notícias sobre sua família, mente uma resposta vaga e que subentende uma condição de saúde precária de seu cônjuge.

Questões de educação à parte, esta introdução para o terceiro longa-metragem de Joachim Trier é um prenúncio à história que se seguirá, tanto em seu caráter de confrontação quanto do próprio disfarce ao qual o roteiro se submete a princípio. Porque apesar de se estabelecer na superfície como um drama de luto, pelo acompanhamento das vidas de Jonah, seu irmão Conrad (Devin Druid) e o pai Gene (Gabriel Byrne) nos meses após a morte da mãe, esposa e fotógrafa Isabelle (Isabelle Huppert), Trier aqui está muito mais interessado na construção da imagem que cerca esses personagens, em seus esforços para manter intactas as representações que tem de si mesmos e dos próximos.

É um tema que se delineia aos poucos na narrativa da obra, elaborada na forma de um filme mosaico desencontrado para despistar o espectador desta. Nas várias mídias apresentadas - os auto-retratos, os avatares do jogo - à mudança de perspectiva realizada logo no início (e que também revela o próprio julgamento que o espectador faz em cima dos personagens), Trier trabalha com parcimônia, dedicado a estabelecer os dramas vividos por seus três protagonistas em cima de uma fatalidade (a morte súbita de Isabelle) e suas consequentes revelações - as reais circunstâncias do falecimento, o caso extraconjugal - para depois colocar em rota de crise as imagens em voga de cada um sobre os outros e si mesmo.

Tal crise, que nunca chega a ser uma desconstrução no roteiro, traz reverberações interessantes a Mais Forte que Bombas e os arcos vividos por seus personagens, que ora ou outra podem soar rasos ou clichê mas nunca se deixam afetar por isso. O choque do que a mãe era com as lembranças formadas por seus filhos e marido permite ao diretor que trabalhe a temática em um espaço no qual abrigue sua complexidade e também seu lado mais humano, e Trier o aproveita para explorá-lo sob diversos pontos de vista. O coming of age de Conrad soa tolo e as recusas de Jonah e Gene em assumir suas novas responsabilidades não escapam da infantilidade, mas apenas porque o longa os usa como base para entender as fundações dessa representação ao invés de efetivamente seguir por estas como condutor de seu retrato.

É uma decisão que custa caro, mas fornece o necessário para que o filme se sustente. Dos momentos que cria - em especial naqueles protagonizados por Conrad e ancorados por suas conversas com o irmão - Trier manifesta a relação entre indivíduo e imagem nas mais diferentes formas, conectando-a bem ao mosaico desencontrado que estrutura sua narrativa e torna ainda mais pungente a dor envolvida nesta. Isabelle, nesse contexto, serve como ponto central do processo de evidenciação, mas também passa por ele mesmo depois de morta por possuir uma identificação neste estado a ser desfeita.

Não há dúvidas que a metodologia do cineasta dinamarquês ainda precisa de refino (até porque o filme no fim não consegue chegar a algum lugar concreto), mas nesta sua terceira incursão em longas o diretor e roteirista demonstra ser capaz de tratar e combinar temas difíceis de maneira palatável ao espectador. E isso fica claro não somente no dilema principal da narrativa, mas em um secundário, quando Conrad tem sua atração platônica pela colega Melanie (Ruby Jerins) desfeita em uma mijada na rua, na madrugada de um pós-festa.

Nota: 7/10