Tradição e honra no kung fu
Por Pedro Strazza
Através de uma narrativa extremamente complexa (e confusa em diversos momentos), Wai Wong relaciona na história de seus dois personagens principais o tratamento que ambos dão aos seus estilos de luta e dos outros. Se Ip Man, por um lado, procura ensinar a seus alunos o Wing Chun e admirar em outros mestres suas artes de combate, Gong Er é uma mulher que está sempre atrás da preservação da honra de sua família e sua técnica, cuja existência já perdura por séculos. Para obter isso, ela chega até a ignorar as últimas palavras de seu pai - ''Não procure vingança" - para derrotar o ex-mestre-das-armas da família, Ma San (Jin Zhang), e reobter o domínio de um bem roubado.
Essa questão, por outro lado, cai em pontos delicados: Seria necessário mesmo reconquistar a honra em prol da satisfação histórica ao invés de perpetuar os valores ensinados? A tradição é um bem que independe da honra? Existe um meio de repassar os ensinamentos sem esta última? Procurando responder esses questionamentos, a direção torna uma biografia linear em um extenso panorama social das três décadas abordando, explorando linhas narrativas que nem sempre serão encerradas - O caso máximo disso é a trajetória de Razor (Chang Chen), cuja participação no roteiro é incompreensível se pensarmos no filme por uma visão biográfica.
Para captar esses acontecimentos e ideias, Wai Wong atinge a excelência técnica em O Grande Mestre. Com uma fotografia estilizada e uma trilha sonora bem trabalhada, o diretor traz na coreografia das lutas um peso consistente, criando em cada soco e chute todo o seu impacto - O combate inicial entre Ip Man e dezenas de lutadores constitui um começo poderoso à narrativa. Essa tendência também se repercute nos diálogos, conduzidos por uma câmera que procura focar o tempo todo na reação de seus personagens em relação ao que ouvem.
É pintando com exagero que O Grande Mestre portanto faz sua análise da importância da tradição no seu país de origem e como isso afeta os indivíduos que mais se esforçam para manter os valores originais de seu povo. Completamente antagônicos em essência, Ip Man e Gong Er são o reflexo da continuidade e do fim dos mais inúmeros valores que já existiram e coexistiram no planeta, numa espécie de vencedor e derrotado da História - que, como no kung fu (a grande metáfora da produção), são representados pelo vertical e horizontal, respectivamente.
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