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terça-feira, 15 de março de 2016

Crítica: O Inescrito - Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes

Spin-off de série da Vertigo prova, nos próprios tropeços, que às vezes uma grande história necessita de manter seus mistérios.

Por Marina Ammar.

Antes de mergulhar na crítica de O Inescrito: Tommy Taylor e o Navio que Afundou Duas Vezes, é necessário primeiro uma curta compreensão do que é “O Inescrito”, série de Mike Carey e Peter Gross.

A história (lançada atualmente em encadernados pela Panini), segue Tom Taylor, filho do renomado escritor de fantasia Wilson Taylor, que estourou no mundo literário e diversas outras mídias escrevendo as aventuras de Tommy Taylor, seu menino-bruxo (de propósito ou não, uma brincadeira óbvia com o sucesso de Harry Potter). Tendo publicado a primeira aventura de Tommy, e declarado a público o nascimento de Tom no mesmo dia, Wilson amarrou o filho ao destino imbatível de para sempre ser visto como a personificação de Tommy Taylor, o que gera para ele não apenas fama fácil, como uma eterna crise de identidade e uma relação entroncada com o pai, aparentemente mais interessado nos seus produtos literários do que Tom. O Inescrito logo mostra, porém, que as ações de Wilson Taylor foram calculadas, que Tom é muito mais e muito menos do que sabe ser, e que as histórias, com o poder daqueles que as apreciam, são muito mais reais do que aparentam.

Portanto, em O Navio que Afundou Duas Vezes, Carey e Gross trazem à tona páginas do diário de Wilson Taylor, entrelaçadas com a trama do que seria o primeiro livro de Tommy Taylor, homônimo ao encadernado.

E é aí, na escolha da revelação de qual seriam os conteúdos do mundo fantástico de Wilson Taylor, que Carey e Gross erram. Pois apesar de apresentados com ilustrações tão sensíveis e fantásticas, e de possuírem o costumeiro trio de personagens cativantes, as aventuras de Tommy são tão previsíveis quanto simplórias, remetendo demais a outros livros existentes, e tentando, em vão, criar uma mitologia própria (onde a maior parte das tentativas bem-sucedidas se deve ao fato das ilustrações serem suficientemente criativas e engajantes). Sendo assim, o mundo que antes era apenas mencionado no quadrinho se torna tão palpável quanto decepcionante, pois nada justificaria o sucesso que foi feito dentro do universo de O Inescrito.

A questão, porém, gera uma reflexão: o que fez, então, com que certos livros reais de fantasia tenham adquirido o nível de sucesso que até hoje, retém? Assim, desafiando o leitor a compreender o sucesso desbaratado do romance de Wilson Taylor, a história corta para os trechos do diário do autor, e afinal, mais do intelecto e dos sentimentos de um dos personagens mais distantes da série é revelado. Ainda que sua aflição seja tangível e seu planejamento impecável, Wilson não ganha a decência humana necessária, e entre uma figura de medo e planejamento impenetrável, Taylor tropeça através das páginas para contar ao leitor sua visão daquilo que criou, que apesar de um pouco mais humana, pouco justifica muito de sua postura ao longo dos acontecimentos.

O que poderia, porém, ser apontado como erro terminal – do personagem que não parece evoluir, ou se tornar nada que não um catalizador de ocorridos – funciona aqui de maneira perfeita, pois O Inescrito segue em sua trajetória apresentando personagens, inclusive seus protagonistas, que lutam eternamente contra confusões, ego e a falta de capacidade de expressar aquilo que realmente pensam ou sentem, dando a cada um, tanto uma humanidade incômoda quando a característica romântica que gera a capacidade de trespassar seus defeitos por um bem maior.

E nisso, O Navio que Afundou Duas Vezes oferece a frieza de Wilson e sua alienação a tudo que não seu propósito em paralelo com sua criação, Tommy, apesar de repleto de compaixão e vontade de fazer o que é correto, segue caminhos também devido apenas a gana própria, realizando o bem simultaneamente a si mesmo e aqueles ao redor mostrando que existem diversos caminhos para um fim; em sua história, os outros aprendem com as atitudes de Tommy, e em sua realidade, Wilson afasta ou prejudica todos aqueles que ama e que oferecem recíproca.

A história cria, enfim, o comparativo mais desafiador: seria Wilson, desumanizado por sua missão, o personagem mais altruísta da história, ainda que incapaz de passar adiante seus valores, ou seria o imaginário Tommy, dono de coragem e compaixão, mas amor próprio indestrutível, o verdadeiro ser altruísta? 
E o qual a diferença no âmago, afinal, quando são criador e criatura o mesmo ser, e realidade e história se misturam?

Carey e Gross entregam, portanto, mais uma história que instiga o leitor a deixar que o pensamento dê um passo adiante, e que a mente vá muito além das páginas dadas, e procure respostas naquilo que ainda não foi escrito.

Nota: 6/10

segunda-feira, 14 de março de 2016

Review: House of Cards - 4° Temporada

Política americana, novela mexicana, fórmula reiniciada.

Por Pedro Strazza.

Conforme o tempo passa e novas temporadas se somam às já existentes, fica cada vez mais claro que House of Cards se tornou uma série incapaz de traçar novos caminhos para a jornada de seu protagonista. Afinal, após chegar ao topo da pirâmide do poder da nação mais poderosa do mundo em meras duas temporadas, o vilanesco e corrupto político Frank Underwood (Kevin Spacey) parece não assumir de fato o poder para si e exercê-lo ao bel prazer para se preocupar com a questão de como mantê-lo, e o seriado soa como se estivesse dando voltas em um círculo eterno.

Só isso para explicar as decisões tomadas pelo showrunner Beau Willimon (que inclusive está de saída do programa) e seu time de roteiristas nesta quarta temporada, que antes de mais nada trata de reiniciar a fórmula criada no distante primeiro ano em chave muito mais caricatural do que antes. Como bem diz o próprio presidente Underwood em dado momento destes novos treze episódios, a política deixou de ser teatro para se tornar em puro entretenimento, e a série trata de seguir tal lema pela repetição de raciocínios anteriores. Próximo passo natural na estrutura do seriado, a problematização do poder em seu exercício é mais uma vez ignorada, em prol do retorno da temática da busca por este, mais imediata, atraente e dessa vez literal graças às eleições presidenciais.

Isso fica bastante claro nesta temporada pelos próprios esforços dos roteiristas em substituir as peças originais do seriado e ao mesmo tempo manter aquecida as engrenagens que tornam House of Cards no programa querido pelos fãs. Das disputas políticas ao triângulo amoroso, passando pelo impacto das ações dos poderosos no indivíduo comum - dessa vez o jornalista Tom Hammerschimdt (Boris McGiver) -, todas as estruturas são mantidas de alguma forma, sem receber qualquer acréscimo que dure mais de três episódios. O que soa de diferente no quarto ano mesmo são as constantes resvaladas - mas nunca abordadas de forma concreta - da história em temas socialmente relevantes, como o preconceito racial, o machismo inerente da sociedade e a rivalidade entre a elite e o povo (materializada no trabalho de Ellen Burstyn como Elizabeth Hale, a mãe de Claire), e a própria Claire, que é promovida de fato ao posto de protagonista e aqui em destaque por ter o maior arco de personagem - apesar de no fundo ser apenas mais um de provação ao marido.

Mas como realizar tal tarefa e impedir que a trama esfrie numa estratégia tão sem sal? Para a série, vale a tática da reviravolta, ferramenta recorrente do formato e nestes treze episódios utilizada tantas vezes a ponto do programa lembrar a dinâmica de uma típica novela mexicana, ainda mais com a crise no casamento dos Underwood na primeira metade da temporada e os delírios que tomam Frank após sua hospitalização (e que nada funcionam para os intentos do seriado, visto a inegável disparidade com sua proposta "realista"). Tentativa de assassinato, golpe político, sequestro e consequente negociação... os plot-twists são variados e de diferentes tamanhos, prontos para acontecer com frequência vigorosa e manter o público interessado na sucessão exaustiva de eventos.

O que salva House of Cards do desastre que (por enquanto) se forma no horizonte, porém, não é a necessidade constante de uma nova guinada, mas a eficiência dos roteiristas nestas trocas de peças no tabuleiro político. Pois se personagens como o chefe de segurança Edward Meechum (Nathan Darrow) - que há tempos dá sinais de ser mero acúmulo narrativo - tem seu papel minimizado ou limado em definitivo, a trama ganha acréscimos tão funcionais como o escritor Thomas Yates (Paul Sparks), apresentado no terceiro ano e com maior espaço neste quarto, ou a consultora política Leann Harvey (Neve Campbell), que oferece uma gama maior de possibilidades ao futuro da série mesmo não sendo aproveitada no momento.

Neste campo de substituições pontuais, a mais simbólica de todas talvez esteja representada em Will Conway (Joel Kinnaman), jovem candidato republicano à presidência e maior antagonista dos Underwoods na metade final da temporada. Figura de reposição ao presidente russo Petrov (Lars Mikkelsen) - que mantém o posto de melhor coadjuvante por ser o único a tentar projetar o tema do programa para frente -, ele a esposa Hannah (Dominique McElligott) servem de contraponto interessante aos protagonistas, tanto em sua proposta de serem versões Millennials do casal, dispostos a documentar cada instante de suas vidas nas redes sociais e assim ganhar a tão cobiçada simpatia do povo, como na inversão de valores na comparação de perfil dos dois candidatos - Will servindo como um republicano aos moldes do democrata John F. Kennedy, Frank um democrata de feições e atos similares ao do republicano Nixon. Os melhores momentos desta temporada, respectivamente a "reunião" para decidir o que fazer com uma facção terrorista e o penúltimo episódio inteiro, só acontecem graças a suas presenças.

Mas por mais bem feito que sejam, essas trocas não escondem do espectador o caráter rotativo que tomou a série de sobressalto. Enquanto ruma para o que parece ser uma grande crítica à guerra ao terror de outros governos (principalmente ao do mandato Bush, responsável pela criação do termo), House of Cards parece decidida neste quarto ano a abandonar de vez a realidade fantasiosa e a crítica política calcada na atualidade para mergulhar de vez no novelesco, de maneira tão caricatural quanto a elasticidade e a maquiagem no rosto de Kevin Spacey e a assepsia de seus cenários permite. Se o seriado não sair da inércia temática logo, entretanto, tal decisão pode vir a ser bastante danosa a seus próprios caminhos.

Nota: 6/10

domingo, 13 de março de 2016

Primeiras Impressões: Thor, A Deusa do Trovão

Mesmo misteriosa, nova Thor consegue driblar fase inicial de estranhamento.

Por Pedro Strazza.

Séries que juntas formam a recente mensal Novíssimos Vingadores no Brasil, os primeiros passos dados por Novíssimo Capitão América, Homem de Ferro Superior e esta Thor, A Deusa do Trovão são quase antagônicos entre si. Todas as três novas versões ao trio de heróis fundamental aos Vingadores, cada uma das edições encontra em seu primeiro capítulo uma maneira diferente de se firmar como contraponto ao original, tentando aproveitar no processo a principal mudança em sua concepção, seja esta a mudança de etnia (quem traja o escudo de Steve Rogers é Sam Wilson, o Falcão), de percepção (Tony Stark mostra-se mais maquiavélico) ou de gênero (o martelo de Thor é erguido por uma mulher agora).

Mas enquanto que a versão rejuvenescida do Capitão América e a obviamente espelhada nos bilionários do Vale do Silício do Homem de Ferro soam hesitantes a princípio neste ato de transformação, desviando em temas políticos neutros - o primeiro, ainda com a ligação mestre-aprendiz de Wilson com o agora envelhecido Rogers, mostrando-se mais interessado numa discussão que não envolva marginalizações, o segundo distraído numa questão de elite endinheirada versus os pobres incapazes de arcar com os custos de uma melhor qualidade de vida -, o início da trajetória da Thor abraça a mudança com um certo gosto, inclinada em suas páginas a tratar destas mudanças de forma central. O que não deixa de ser inesperado, visto que a protagonista só se manifesta aqui lá nas últimas duas páginas da revista.

A bem da verdade, quem assume o protagonismo nesta primeira edição é Freyja, esposa de Odin que se tornou a Mãe Suprema e assumiu o governo (e os eternos perrengues) da antiga Asgard após o marido desaparecer. Com o marido retornando ao posto e seu filho Thor incapaz de erguer o Mjolnir desde o fim da saga Pecado Original, ela acaba jogada para o escanteio pelo Pai Supremo, mas mostra-se bastante combativa em abandonar o poder conquistado em favor de Odin. Essa briga pelo poder é tratada com grande importância no roteiro de Jason Aaron, em igual passo à crise que o Thor tem de não poder levantar o martelo.

Aproveitando a brincadeira subjetiva implícita nesta última expressão, é inevitável então que este transtorno do herói com sua arma, em conjunto da ascensão da Thor, não deixe de emular um pouco da própria crise do macho no mundo contemporâneo, e Aaron e o desenhista Russell Dauterman (auxiliado pelas cores de Matthew Wilson, que por enquanto se basta em repetir o belo tom aquarelado do antigo ilustrador da série, o croata Esad Ribic) sabem lidar com isso muito bem. Cenas como a de Odin furioso tentando mover o martelo de maneira birrenta ou a própria figura do Thor depressivo de frente à arma são felizes em evidenciar o lado ultrapassado de tais relações da mitologia nórdica, principalmente quando se põe Freyja em uma posição tão austera e de autoridade em relação ao marido.

É uma preparação interessante e com certeza bem planejada, que serve aos propósitos da revista em introduzir a "controversa" e poderosa figura que é esta misteriosa Thor (cuja identidade já se foi revelada nos EUA, várias edições à frente da publicada no Brasil, e que preservo para manter a surpresa a quem desconhece). Aaron inclusive continua a desenrolar aqui a narrativa ecológica de sua fase na série - o maior vilão ainda é a poluente corporação Roxxon, bom lembrar -, afim de já estabelecer alguma temática inicial e evitar qualquer estranhamento com sua mais nova protagonista. E isso é ótimo, pois mesmo que só esteja chegando agora e carregue toda uma aura desconhecida, a personagem soa como se estivesse entre nós há tempos.

sábado, 5 de março de 2016

Crítica: Zoolander 2

Continuação mantém a mentalidade do original enquanto tenta se renovar.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser curioso que Zoolander 2, para colocar as suas peças em pontos de partida similares aos do original, tenha que apelar para uma longa introdução com tantas ou mais reviravoltas quanto seu próprio enredo. Já nesse prólogo, a sequência da comédia cult de 2001 admite a grande distância temporal do primeiro filme, reconhecendo um problema que logo em seguida será tornado por ele em temática central: como manter-se atual, mais de uma década depois, em um ambiente dominado pelo imediatismo cada vez mais acelerado?

Pois se há uma diferença principal de estrutura entre o primeiro e segundo capítulos, ela está nesta crise de adequação, antes uma consequência do arco vivido por seu protagonista e agora tornado em motor para os eventos. Desde que se aposentou das passarelas e salvou o mundo, há quase quinze anos, Derek Zoolander (Ben Stiller) teve sua vida virada de cabeça para baixo, perdendo no processo sua esposa (Christine Taylor), o filho (Cyrus Arnold), a sua instituição e mesmo o amigo e colega Hansel (Owen Wilson). Desaparecido nas montanhas como ermitão, ele decide voltar após receber um convite para fazer parte do desfile organizado por Alexanya Atoz (Kristen Wiig), no empenho de tanto retomar o estrelato quanto de recuperar o filho perdido. Além disso, Derek precisa ajudar a agente Valentina Valencia (Penélope Cruz) a solucionar o mistério envolto no assassinato de inúmeras celebridades, que antes de darem o último suspiro insistem em tirar uma selfie com uma das famosas poses com biquinho de Zoolander.

Não demora muito para o longa dirigido por Stiller - que também assina o roteiro ao lado de Justin Theroux, Nicholas Stoller e John Hamburg - esclarecer ao espectador que os choques culturais vividos por Zoolander e Hansel nesse retorno serão a principal linha narrativa da história. Dos contrastes mais escancarados (a comparação entre o celular minúsculo de Derek com os gigantescos das pessoas ao seu redor) às mudanças de comportamento mais sutis, o filme não esconde essa sua predisposição de encarar os anos 10 como um ambiente alienígena, ainda mais usando os dois modelos de QI baixo de trampolins para este humor rápido. De certa forma, é a mesma lógica empregada pelo original na personagem de Christine Taylor, dessa vez em caráter mais histriônico e definitivamente mais absurdo.

É também nesta comparação que Zoolander 2 acaba por se separar de seu antecessor, pois se este trazia a inadequação da jornalista de Taylor como ferramenta de sátira aos próprios tempos, aqui ela se faz pela recusa de ceder às inevitáveis mudanças. Como um jovem crescido nos anos 2000 e hoje adulto, Stiller trabalha seu protagonista para compensar o gap geracional, numa tentativa de renovar a imagem aos olhos de uma juventude em constante transformação e muito diferente da que ele conhecia, representada na figura do filho. E que maneira melhor de se resolver isso que o de salvar o dia mais uma vez, agora com o herdeiro de público para seus grandes feitos?

O que Stiller não percebe nesta construção, porém, é que ela não deixa de emitir um certo saudosismo, típico de alguém com dificuldades para aceitar o próprio amadurecimento e seguir em frente. Por mais que insista na possibilidade de sucesso desta renovação e termine a história com os dois protagonistas de novo cercados pelos holofotes e conseguindo soar naturais em suas inúmeras selfies, o longa parece se comportar como um indivíduo na crise de meia-idade, na retomada de uma juventude já passada e impossível de ser recuperada. Curiosamente, a produção parece reconhecer (com alguma irreverência) esse conflito temático quando põe Zoolander e Hansel em roupas identificadas como "velho" e "chato" sendo chicoteados pela modelo transsexual All (Benedict Cumberbatch), que voa com asas de anjo quase apocalípticas.

Outro problema gerado por essa contradição é o próprio humor do filme, que já parte datado do princípio. Apostando em uma progressão de sets dominadas mais e mais pelo absurdo - algo também seguido por Tudo por um Furo, outra sequência tardia de uma comédia do começo dos anos 2000 que é bem melhor executada - e participações especiais em notável acúmulo, as piadas não conseguem o mesmo respiro das do primeiro capítulo por estarem em claro segundo plano na narrativa, em um espaço mais limitado para brincar com a superficialidade do mundo de celebridades.

Se o humor de Zoolander 2 se deteriora com velocidade e torna-se incapaz de lidar com as situações abstratas que cria para situar seu arco principal, ele talvez sirva para atestar algumas das mudanças ocorridas na comédia estadunidense nesta última década quando comparado ao original, justamente por manter a mesma mentalidade de 2001. Na analogia desta justaposição, é possível perceber a preservação da piada física como central e até algum avanço na participação da mulher pelo maior papel de Wiig e Cruz em tais momentos cômicos, ainda que elas continuem a lutar "de maneira sexy" em trajes "provocantes" para agradar os homens que babam ao seu redor, tão infantis e com dificuldades para mudar quanto o filme que fazem parte.

Nota: 4/10

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Indicados e Vencedores

Em cerimônia auto-indulgente, Academia premia Mad Max e Spotlight.

Por Pedro Strazza.

Na noite deste domingo (28), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas realizou no Dolby Theater em Los Angeles a 88° cerimônia de entrega do Oscar. A premiação foi conduzida por Chris Rock, que tomou a polêmica questão do Oscar branco como tema único da festa e a tratou com ironia, errando mais que acertando. Os filmes, enquanto isso, pareciam ter sido deixados de lado, lembrados ocasionalmente no anúncio dos vencedores em meio a diversos esquetes e piadas em cima do tema do racismo na indústria.

Na distribuição das estatuetas, quem se deu melhor foi Mad Max. Tirando Efeitos Visuais - que inacreditavelmente acabou nas mãos de Ex Machina, talvez o longa com menor orçamento a levar na categoria - O faroeste pós-apocalíptico de George Miller arrebanhou seis estatuetas na parte técnica, todas praticamente concentradas no início da cerimônia. Nas principais, a maior reviravolta aconteceu com Melhor Filme, vencida por Spotlight mesmo o filme tendo levado apenas uma outra estatueta na noite (Melhor Roteiro Original). É a primeira vez que isso acontece desde 1953, quando O Maior Espetáculo da Terra levou os mesmos dois prêmios.

No resto, poucas surpresas, muita sensação de uma entrega de prêmios burocrática. DiCaprio emocionou o público ao enfim levar sua estatueta de Melhor Ator, emendando com um discurso correto e grato a todos que o ajudaram na carreira; Vikander e Brie Larson confirmaram o favoritismo nas de atuações femininas; Lubezki levou pela terceira vez o Oscar de Fotografia, batendo recorde na categoria e desbancando pela terceira vez consecutiva o eterno azarado Roger Deakins; Iñárritu se juntou a John Ford e Joseph L. Mankiewicz ao vencer por dois anos seguidos a categoria de Melhor Diretor; e Ennio Morricone finalmente levou uma estatueta competitiva, graças a seu trabalho em Os Oito Odiados.

Duas outras surpresas aconteceram em Melhor Canção Original e Ator Coadjuvante. Na primeira, Sam Smith acabou com o troféu, pouco depois de Lady Gaga arrebatar o público no Dolby Theater com uma performance emocionante de Til It Happens to You. Já Mark Rylance surpreendeu ao levar o segundo no lugar de Sylvester Stallone, tido como favorito até então desde o SAG Awards.

Entupido de piadas pouco eficazes e esquetes de puro merchandising (a participação dos minions e de C3PO, R2-D2 e BB-8, por exemplo), o Oscar 2016 soou como uma grande paródia de si mesmo, muito mais preocupado em sua imagem como premiação mais conhecida e pouco na importância da entrega dos prêmios em si. Enquanto Chris Rock, em seu terno branco, fazia piada sobre os problemas da Academia, a premiação da indústria cinematográfica mais conhecida no mundo parecia se afundar na própria ignorância.

Confira a lista completa abaixo. Os vencedores estão em negrito.

Melhor Filme

  • Brooklin
  • A Grande Aposta
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Quarto de Jack
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso
  • Spotlight – Segredos Revelados

Melhor Direção

  • Adam McKay (A Grande Aposta)
  • Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
  • George Miller (Mad Max – Estrada da Fúria)
  • Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack)
  • Thomas McCarthy (Spotlight – Segredos Revelados)

Melhor Ator

  • Bryan Cranston (Trumbo - Lista Negra)
  • Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
  • Leonardo DiCaprio (O Regresso)
  • Matt Damon (Perdido em Marte)
  • Michael Fassbender (Steve Jobs)

Melhor Atriz

  • Brie Larson (O Quarto de Jack)
  • Cate Blanchett (Carol)
  • Charlotte Rampling (45 Anos)
  • Jennifer Lawrence (Joy – O Nome do Sucesso)
  • Saoirse Ronan (Brooklin)

Melhor Ator Coadjuvante

  • Christian Bale (A Grande Aposta)
  • Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos Revelados)
  • Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
  • Sylvester Stallone (Creed – Nascido Para Lutar)
  • Tom Hardy (O Regresso)

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
  • Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
  • Kate Winslet (Steve Jobs)
  • Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados)
  • Rooney Mara (Carol)

Melhor Roteiro Adaptado

  • Brooklin
  • Carol
  • A Grande Aposta
  • Perdido em Marte
  • O Quarto de Jack

Melhor Roteiro Original

  • Divertida Mente
  • Ex Machina
  • Ponte dos Espiões
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Straight Outta Compton

Melhor Fotografia

  • Carol
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Os Oito Odiados
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém

Melhor Montagem

  • A Grande Aposta
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Trilha Sonora

  • Carol
  • Os Oito Odiados
  • Ponte dos Espiões
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Documentário

  • Amy
  • Cartel Land
  • The Look of Silence
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Melhor Animação

  • Anomalisa
  • Divertida Mente
  • As Memórias de Marnie
  • O Menino e o Mundo
  • Shaun, O Carneiro

Melhor Filme Estrangeiro

  • O Abraço da Serpente (Colômbia)
  • Cinco Graças (França)
  • Filho de Saul (Hungria)
  • Guerra (Dinamarca)
  • O Lobo do Deserto (Jordânia)

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay
  • Shok
  • Stutterer

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau: Beyond the Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah
  • A Girl in the River: The Price of Forgiveness
  • Last Day of Freedom

Melhor Animação em Curta-Metragem

  • Bear Story
  • Os Heróis de Sanjay
  • Prologue
  • We Can’t Live Without Cosmos
  • World of Tomorrow

Melhor Design de Produção

  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso

Melhor Figurino

  • Carol
  • Cinderela
  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso

Melhor Maquiagem e Penteados

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu
  • O Regresso

Melhor Canção Original

  • Earned It (Cinquenta Tons de Cinza)
  • Manta Ray (Racing Extinction)
  • Simple Song #3 (Juventude)
  • Til It Happens to You (The Hunting Ground)
  • Writings on the Wall (007 Contra Spectre)

Melhor Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Mixagem de Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhores Efeitos Visuais

  • Ex Machina
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força

Top 8: Oscar de Melhor Filme 2016

Do pior ao melhor, um ranking para a categoria mais importante da premiação mais conhecida.

Por Pedro Strazza.

E mais uma vez estamos aqui, em dia de entrega do Oscar. Seguindo a tradição dos últimos dois anos, organizo agora a categoria de Melhor Filme desse ano em um ranking pessoal, que vai do pior ao melhor dos indicados desse ano. Bom lembrar, TODOS os oito filmes nomeados pelos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ao prêmio máximo tem críticas no site, e você pode lê-las a qualquer instante clicando em seus nomes abaixo.

Também deixo o link para o ranking completo dos indicados ao Oscar 2016 que assisti, o qual você pode ver aqui.

Sem maiores delongas, vamos ao que interessa:

8) O Regresso

Talvez uma das maiores bombas a atingir a categoria desde O Discurso do Rei em 2010 e Extremamente Alto, Incrivelmente Perto em 2011, o novo trabalho de Alejandro González Iñárritu (que ficou em primeiro no ranking do ano passado, bom lembrar) é o filme que melhor simboliza o jogo de egos vigente em Hollywood e arrisca se tornar a produção predileta dos votantes da Academia para os próximos anos. Poucas coisas em O Regresso vão na contramão e realizam seu trabalho voltado para a construção do filme, enquanto no geral o que se vê são demonstrações constantes de cineastas que prezam por um cinema "superior" e "profundo" sem contudo nunca chegar a qualquer um destes.

É uma negação de gênero desgostosa, um faroeste incapaz de se assumir como tal, mais interessado em um existencialismo vazio e que dá voltas e voltas sem sair do mesmo lugar. Se o futuro do Oscar de Melhor Filme são produções assim, estamos prestes a entrar num período difícil da História cinematográfica estadunidense.

7) Spotlight - Segredos Revelados

Acho curioso que Spotlight, novo filme de Thomas McCarthy, esteja sendo venerado pela crítica e pelos fãs como "o filme que glorifica o Jornalismo". Claro que a produção, centrada no relato da investigação de uma equipe do Boston Globe sobre abusos cometidos por membros da Igreja, busca validar o processo jornalístico como algo sagrado (inclusive é inegável o tesão do longa pelo método old-school da profissão), mas a obra também não se segura em criticar as mais variadas instituições que formam e comandam a sociedade contemporânea, incluindo aí... o Jornalismo.

Um filme interessante, mas que no fundo não consegue fazer algo a mais da história além da proposta de recontar os acontecimentos com um grande elenco.

6) Brooklin

Quase uma versão soft do épico Era Uma Vez em Nova York de James Gray, Brooklin só funciona graças ao trabalho encantador de Saoirse Ronan, que conduz a narrativa do filme com a leveza e beleza necessárias. Como filme, o longa de John Crowley é bastante feliz em desarmar o espectador sobre qualquer tentativa de atribuir a história ao contexto histórico que se insere, apesar de no fim não resistir de fazer o mesmo com o triângulo amoroso que tem em mãos. Ainda que batido, é difícil não se envolver com a trajetória da protagonista, de suas perdas a suas vitórias.

5) O Quarto de Jack

Ousado em contar uma história pesada sob o viés de um conto de fadas realista, O Quarto de Jack sabe como ninguém se aproveitar do estupendo trabalho de seus dois protagonistas para se conectar com o espectador e no processo esconder suas falhas deste. É mais um filme de ator, com Brie Larson e Jacob Tremblay brilhando neste mais novo conto de libertação do diretor Lenny Abrahamson - que também se destaca na narrativa de espaços concebida.

4) Perdido em Marte

Com tantas ficções-científicas depressivas por aí (todas fruto da dupla Alien/Blade Runner, do próprio Ridley Scott), acho muito legal que uma mais otimista tenha chegado ao páreo de Melhor Filme esse ano. Porque apesar dos perrengues e provações, a jornada de Mark Watney para sobreviver ao planeta vermelho e voltar para a Terra em Perdido em Marte na verdade é uma grande celebração à sociedade (e à NASA, mas deixemos isso de lado), com várias pessoas fazendo de tudo para ajudar no resgate ao astronauta.

Não bastasse isso, Perdido em Marte ainda é um grande festejo sobre a ciência, talvez o maior no cinema em anos. Decerto é um filme para todos os tipos de público.

3) A Grande Aposta

Quem vê A Grande Aposta geralmente se concentra na questão do se as explicações do filme sobre como a crise de 2008 aconteceu são compreensíveis ou não, mas para mim o valor da produção não está aí. Acima de tudo, o longa comandado por Adam McKay brilha por conseguir ser um dos poucos a de fato trazer ao espectador a sensação de quem viveu este momento problemático da economia mundial, primeiro o tornando parte do caos que gerou a crise e depois o chocando com os efeitos dessa festança na vida das pessoas.

Pois mesmo que sejamos todos o personagem de Steve Carell lá no finalzinho, no caminho rimos de toda a loucura testemunhada pelos personagens, despreocupados se isso é algo ruim ou péssimo para a sociedade.

2) Ponte dos Espiões

Novo triunfo na carreira de Steven Spielberg, Ponte dos Espiões é o filme que finalmente faz com que o celebrado diretor acerte em sua trajetória recente pela análise do espírito americano. Com uma ajudinha básica dos irmãos Coen no roteiro e de Tom Hanks e Mark Rylance nas atuações, o longa problematiza a fabricação desse ideal nacional na Guerra Fria ao mesmo tempo que retoma o herói comum do cinema estadunidense clássico, confrontando ambos em um cinema talvez consciente demais de sua importância.

Isso parece não importar muito a Spielberg, que nesse seu esforço de entregar algo grandioso também se preocupa em focar na trajetória de seu protagonista, alternando entre o simples e o complexo com eficiência fabulosa. Ponte dos Espiões é o resquício de uma época antiga, mas que mesmo assim funciona muito bem, obrigado.

Mas assim, o Oscar de Melhor Filme esse ano deveria ir para...

1) Mad Max - Estrada da Fúria

É o filme que revolucionou o cinema de ação como conhecemos no ano passado. É o filme que deu o pontapé inicial na discussão sobre o papel da mulher no gênero cinematográfico e no próprio cinema como um todo. E ainda ficou em segundo lugar no Melhores do Ano de 2015, atrás apenas de Divertida Mente.

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ESPECIAL: Oscar 2016

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Crítica: Ponte dos Espiões

Spielberg encontra na ambiguidade da Guerra Fria uma salvação para sua visão sobre o espírito americano.

Por Pedro Strazza.

Logo em seus primeiros momentos, concentrados na rotina do britânico Rudolf Abel (Mark Rylance) em mais um dia em Nova York pouco antes de ser preso pelo governo estadunidense sob suspeita de trabalhar para os soviéticos, Ponte dos Espiões já revela a seu espectador a abordagem para sua história, e não apenas em um aspecto formal. Ao invés de elaborar a ação de prisão por um ponto de vista que favoreça os esforços dos agentes americanos, o longa investe na humanização de Abel, aproximando o espectador do personagem por meio de suas ações cotidianas, mesmo que estas sejam voltadas para seu verdadeiro serviço no país.

No fundo, este processo de ignorar o patriotismo subjacente e focar no humano é a grande tônica do filme, que junto de Cavalo de Guerra e Lincoln parece encerrar uma espécie de trilogia realizada pelo diretor Steven Spielberg nesta temática em cima dos Estados Unidos. Mas se nos dois predecessores esta metodologia se fazia em momentos históricos cujo campo era universal e claramente maniqueísta - os exércitos da Tríplice Aliança nunca se desvencilharam de alguma culpa pela Primeira Guerra Mundial, e os políticos a favor da escravidão... bem, eram a favor da escravidão - em Ponte dos Espiões ela se dá no exato oposto na figura da Guerra Fria, um período no qual o maior inimigo da nação americana nunca de fato alcançou o status de vilania ao qual o governo e seus líderes procuraram tanto adequá-lo.

Essa dualidade, presente na história do advogado James B. Donovan (Tom Hanks) sobre seus esforços em trocar o agente russo, designado seu cliente no julgamento nos EUA, por dois estadunidenses capturados pela União Soviética e a Alemanha Oriental, serve para o cineasta tanto como lógica narrativa quanto temática, permitindo que ele se aprofunde na problemática polarização política exercida pelo país por quase cinquenta anos de sua História. Não à toa, o diretor retrata membros do governo, seja de qual lado for, de uma forma bastante negativa, somente interessados em movimentos que privilegiem o avanço de seus respectivos países na briga silenciosa que se desenrola e inconsequentes sobre a perda de vidas no caminho. A paranoia é explícita em tempos assim, e o longa não se segura em mostrar isso em momentos como do corte de uma cena no tribunal para uma sala de aula com crianças recitando o hino nacional para registros de uma explosão nuclear.

Deste estado destrutivo das coisas, Spielberg e o roteiro de Matt Charman e dos irmão Coen resgatam o ideal do homem comum, herói típico das comédias do falecido Frank Capra e que tem no cerne de suas motivações essa busca pela humanidade no sistema. Personificado por Hanks com a dignidade necessária, Donovan se torna no contraponto ideal ao raciocínio natural da época, num primeiro momento incapaz de condenar à morte Abel e depois engajado na tarefa de trazer são e salvo os dois cativos norte-americanos, o oficial consciente de suas ações capturado no ato e o cidadão inocente pego no fogo cruzado e desinteressante para seu governo.

Assim, o que se vê acontecer em Ponte dos Espiões é um choque entre dois tipos de espírito americano, sendo um fabricado e voltado para o belicismo e o outro natural e motivado pela preservação da humanidade nas relações. Esse conflito, como é de praxe da carreira de Spielberg, não escapa de ser escancarado na narrativa ("Eu sou um homem comum"), mas é trabalhado com alguma delicadeza ao ser materializado na dinâmica espelhada dos planos da fotografia de Janusz Kaminski, colocando seu protagonista em lado oposto ao dos oficiais com quem conversa e culminante no clímax da ponte do título, ou naquela exercida nas conversas entre Donovan e Abel, que ressalta sem grande o alarde o que está mesmo em jogo ali com a mesma sutileza com a qual Rylance trabalha seu papel.

É claro que esta lógica na prática nunca chega a desconstruir o maniqueísmo elaborado da época por estar ligada à desconstrução do patriotismo seja pelo lado estadunidense ou soviético. O que importa mesmo a Spielberg no filme é esse antagonismo entre os interesses do indivíduo e da nação, nos mecanismos desta relação que permite ao primeiro submeter sua vida e dedicação aos objetivos do segundo sem se dar conta dos riscos representados por tal ato. A última troca de olhares entre advogado e cliente após o fim das negociações, cujo dilema se faz na própria ambiguidade das vantagens obtidas pelos soviéticos nesta, soa como uma resposta rápida à questão, mas também a prolonga em um caráter aflitivo.

Nota: 9/10

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ESPECIAL: Oscar 2016

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