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quarta-feira, 22 de março de 2017

Crítica: T2 Trainspotting

Continuação se perde na nostalgia, mas encontra no choque de gerações uma maneira de prosseguir.

Por Pedro Strazza.

Lançado em meio à onda de refilmagens e continuações de sucessos do passado que a indústria cinematográfica se encontra nos dias de hoje, T2 Trainspotting carrega um misto de sinais contraditórios que acabam por representar mais o estado da indústria que do mundo. Se o Trainspotting original trazia impresso em sua comédia de humor negro e seus protagonistas viciados em heroína todos os traços do espírito de rebeldia e desencanto sistemático da juventude do pós-punk de meados dos anos 90, a sequência mira um retorno analítico e mais auto-consciente a esta geração e seus tipos, mas involuntariamente termina por tratar dos ecos e dificuldades de relação que as atuais obras "nostálgicas" de Hollywood tem com o próprio passado.

Os indícios desta virada, porém, só irão se manifestar à partir da metade no longa, que de início parece  com sucesso evitar as cacofonias de produções análogas e se assume de fato como uma continuação dos eventos mostrados no primeiro filme. Mais de 20 anos depois do dia que traiu seu grupo e fugiu com o dinheiro da venda de um carregamento de drogas, Renton (Ewan McGregor) retorna à Escócia para ver como anda o pai depois da morte da mãe e também para acertar as contas com os amigos, mas encontra um cenário difícil para todos. Enquanto o violento Begbie (Robert Carlyle) encontra-se preso, Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Spud (Ewen Bremner) ainda estão ligados a vícios e vidas à deriva - o último manteve-se na heroína e na vida miserável todos estes anos, ao passo que o primeiro trocou a droga para a cocaína enquanto administra um pub na região portuária e segue tocando esquemas de chantagem.

Se a princípio a trama em nada parece se relacionar com a do original é porque o diretor Danny Boyle e o roteirista John Hodge estão menos interessados na permanência dos vícios de seus personagens - uma temática que permanece presente pelo discurso de Renton sobre substituir "um pelo outro", mas é apenas coadjuvante na narrativa - e mais no efeito que o peso das últimas duas décadas tiveram neles, jovens de uma geração que prezava pelo imediato e inconsequente que não conseguiu escapar da passagem do tempo. É uma medida capaz de tornar a proposta deste novo Trainspotting ousada em termos de análise, ainda mais porque ela aproveita as mudanças do cenário econômico no Reino Unido depois da crise e do Brexit. Se estes homens quando jovens podiam desfrutar da estabilidade econômica como um eterno meio de escape à rotina de vício, na realidade atual eles são confrontados constantemente pela responsabilidade e as dificuldades financeiras de quem vive uma época instável e sem salvaguardas.

É uma questão que na direção de Boyle logo se transforma numa divertida comédia de choques geracionais, alimentada pela noção de que seus protagonistas, antes tão insurgentes, se tornaram numa versão distorcida de velhos conservadores. Da hilária cena do canto contra os católicos no pub unionista aos olhares perdidos de Renton e Sick Boy em uma balada, passando por todos os conflitos familiares de Begbie - que tenta sem sucesso ensinar o "ofício" do crime ao filho, esse "ingrato" que quer fazer a vida pela profissão da hotelaria -, o filme sabe tirar do verdadeiro abismo entre as mentalidades do passado e do presente um humor ácido e observador de costumes, invertendo relações para revelar as raízes do clima dominante de comportamentos extremos de hoje.

T2 poderia muito bem se manter auto-suficiente (e ser melhor que grande parte dos outros filmes sobre a crise europeia, como o vencedor da Palma de Ouro Eu, Daniel Blake) caso se centrasse nisso, mas a partir do momento que passa a abordar o passado suas ambições ficam todas desarranjadas. É um problema que parte da própria indecisão da produção sobre qual postura adotar para com o legado: se de início ela se afirma como uma sequência disposta a tomar os próprios caminhos, prosseguindo a história dos personagens e seus novos trambiques, depois de um tempo ele volta a adotar uma postura autorreferente, se bastando a reposicionar peças e emitir cacoetes nostálgicos do original. A derrapada só fica mais evidente na direção fora de tom de Boyle, cujo exageros estilísticos de planos inclinados, projeções na tela e rabiscos luminosos não são capazes de conciliar as tramas e se perdem na tentativa de emular um tom rebelde e explosivo que em nenhum momento se adequa à realidade vivida pelos personagens.

Se esta mudança de eixo gera uma quebra de narrativa das mais significativas - a partir do momento em que se percebe que tudo ali serve à nostalgia a situação de riscos proposta pela produção perde todo o sentido - ela também termina por servir como um reflexo meio maldito e necessário da síndrome do retorno ao passado ao qual muitas produções, artistas e estúdios se sujeitam nos dias de hoje. É uma condição que o próprio Traisnpotting parece perceber e usar a seu favor, conforme ele aos poucos parece encontrar em Spud, personagem que no longa passa por um arco de recuperação, mas também de percepção da necessidade de se recontar as histórias como forma de seguir em frente, o maior protagonismo.

Nota: 5/10

terça-feira, 19 de julho de 2016

Review: Stranger Things - 1° Temporada

Série de nostalgia vai além da volta ao passado.

Por Pedro Strazza.

Produto de uma nostalgia sobre a cultura estadunidense dos anos 80, Stranger Things tem na gênese de sua formação dois tipos de história bastante populares na década. De um lado, o terror de criatura, cuja manifestação misteriosa - seja a identidade de um assassino em série ou, nesse caso, a de um monstro - e seus sucessivos ataques em um curto espaço de tempo por si só já eram suficientes para aterrorizar as vítimas e, por consequência, o público; do outro, a aventura adolescente ou infantil, que tem no senso de bravura dessas idades o motor para suas tramas. A Matt e Ross Duffer, criadores, roteiristas e diretores da série, resta combinar e intercalar então os dois gêneros, apostando como principal gatilho na lembrança desse passado cada vez mais distante mas ainda tão fresco na memória coletiva.

Essa estratégia, mesmo limitadora em um sentido de ambição temática, se prova bastante eficaz na obra. Porque ao contrário de tantas outras tentativas de emulação da aura oitentista, que apostavam na repetição de um estilo exagerado, de elementos marcantes ou até mesmo da abundância de néones da época (e o filme que mais vem de imediato à cabeça nesse momento é o curta Kung Fury) como recurso primário ao disparo desse caloroso sentimento, o seriado dos irmãos Duffer mostra-se mais interessado em resgatar o que de fato impactava nesses produtos oitentistas.

Na trama, depois de uma partida de dez horas de RPG com os amigos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin), o menino Will Byers (Noah Schnapp) encontra uma assustadora criatura e desaparece na volta para casa. A partir do fato, a série acompanha o que acontece depois de seu sumiço, tanto nos efeitos quanto na investigação sobre o mistério: ao mesmo tempo em que seus amigos procuram achá-lo e lidam com a aparição inexplicável de uma garota com poderes chamada Eleven (Millie Bobby Brown), sua mãe Joyce (Winona Ryder), seu irmão Jonathan (Charlie Heaton), a irmã de Mike Nancy (Natalia Dyer) e o xerife da cidade Jim Hopper (David Harbour) confrontam cada um à sua maneira com estranhos acontecimentos à sua volta.

Esses personagens rapidamente se agrupam em três núcleos distintos e representativos de fases da vida (infância, adolescência e idade adulta), aos quais os irmãos Duffer sem muito esforço aproveitam para influir o valor nostálgico. De maneira discreta ou direta (os pôsteres nas paredes são rápidos na tarefa), Stranger Things recorre com frequência aos terrores e aventuras populares da época para se alinhar a estes logo em seguida, seja nos ataques do monstro ou nos estranhos fenômenos presenciados pelos personagens ou mesmo em atividades cotidianas. O seriado realiza esse movimento mirando na iconografia, com resultados aqui e ali bem sucedidos - os quais se destaca o uso dado por Joyce às luzes de Natal no terceiro capítulo.

O processo de resgate funciona, mas não deixa de causar alguns ruídos na estrutura. O formato de série desenvolvido pelos Duffer, estabelecido no uso de múltiplos pontos de vista para contar uma história, parece não conseguir comportar o desenrolar do mistério ao qual tanto se baseia, já que a cada episódio há a preocupação de ilustrar as ações tomadas pelo personagem de Matthew Modine e sua equipe para encobrir os traços do monstro que libertaram, suprimindo assim qualquer traço da paranoia de seus personagens. O uso desta mecânica, por outro lado, se traduz depois em uma didática um pouco excessiva, principalmente quando é para se explicar a origem de Eleven.

E se a série tivesse no mistério seu elemento mais forte, esses problemas seriam bastante fatais. A sorte é que a produção - talvez por causa da participação de Shawn Levy, cineasta conhecido por filmes feitos para a família (Gigantes de Aço, a série Uma Noite no Museu), na direção de dois episódios e na produção executiva - se esforça continuamente em trabalhar os dois gêneros ao qual se submete para a temática familiar, cuja moral de união é intrínseco à produção cultural estadunidense dos anos 80. Dessa maneira, conforme converge os núcleos de personagens a um ponto narrativo comum, o seriado também refaz a típica formação familiar em meio ao caos da televisão, quase recriando a disposição da Família Do-Ré-Mi a partir de estereótipos oitentistas atormentados (o xerife em luto, a mãe assombrada pela morte do filho, o jovem esquisito, a patricinha do colégio no desabrochar da adolescência, os meninos bullynados).

Tal qual Super 8, a retomada de tais valores dá uma liga interessante à história de Stranger Things, que também se iguala ao filme de J.J. Abrams no ótimo trabalho do elenco - Ryder está ótima em seus desesperos para reaver o filho, e todas as crianças sabem tirar o melhor de seus papéis. Os irmãos Duffer não acrescentam nem problematizam essa moral, deixando-a intocada para que desempenhe seu papel de encantamento, e isso talvez crie um desgaste a quem não tenha grande identificação com a década em pauta. O curioso, porém, é que para uma série de nostalgia tão dedicada a tal objetivo Stranger Things tenha uma ótima tendência a se desvencilhar desta para criar os próprios caminhos.

Nota: 8/10