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domingo, 6 de setembro de 2015

Crítica: O Agente da U.N.C.L.E.

Lado canastra da espionagem ganha homenagem à altura.

Por Pedro Strazza.

Não é preciso muita reflexão para entender qual o objetivo do diretor Guy Ritchie com O Agente da U.N.C.L.E., já que este aparece revelado de uma maneira quase descarada nos papéis dados a seu elenco multinacional. O caráter nacionalista da espionagem, ponto importante da esmagadora maioria das produções do subgênero, é completamente dissolvido pelas mãos do cineasta, que transforma atores britânicos em personagens estadunidenses, faz estadunidenses se passarem por russos, traz franceses como italianos e assim por diante.
Esta "brincadeira" é um indício do quão disposta a adaptação cinematográfica do seriado homônimo criado por Sam Rolfe está a se guiar pelo lado superficial de sua história que empreender um raciocínio mais aprofundado em cima desta. No mesmo ano em que Matthew Vaughn busca homenagear em Kingsman o subgênero em seu aspecto mais roteirístico, Ritchie faz um ato reverencialista similar em direção a esses tipos de história e seus ícones de ação, mas por sua faceta mais visual e de poses. Porque se há uma coisa que James Bond e seus colegas de profissão sabiam fazer no passado era aparecer bonito na foto.
Na trama escrita pelo diretor e Lionel Wigram, acompanhamos o charmoso Napoleon Solo (Henry Cavill) e o muscular Ilya Kuryakin (Armie Hammer), agentes respectivamente da CIA e da KGB que no auge da Guerra Fria são obrigados por suas agências a trabalhar juntos para deter os planos de um rico casal de simpatizantes nazistas em construir sua própria bomba nuclear. Para isso, eles precisarão de Gaby Teller (Alicia Vikander), uma russa jovem, bela e experiente com mecânica de carros cujas conexões com o cientista responsável pela criação do aparato serão decisivas para o cumprimento da missão.
A exemplo das descrições dadas acima aos personagens, o superficial se faz em O Agente da U.N.C.L.E. uma lei máxima da narrativa, e se baseia sem muitos rodeios nos ideais pregados pela cultura estadunidense: Se o Napoleon Solo de Cavill surge como a representação perfeita do celebrado herói bandido com sex appeal intensa e de tiques britânicos pouco sutis, o Ilya Kuryakin de Hammer é a máquina de matar descerebrada produzida pela demonizada União Soviética, cujos esforços ainda assim não são capazes de esconder dele o grande e apaixonado coração. O que impede a obra de ser danificada por isso é que Ritchie assume essa faceta canastrona sem medo para ela, em um esforço quase admirável de voltar aos tempos onde essa característica era regra.
É aí que o filme encontra sua maior força, mesmo que a muitos trancos e barrancos. Enquanto homenagem ao passado do subgênero, o longa encanta ao abraçar todo esse universo de estereótipos e trazê-las envoltas em ambientes aos quais foram criadas para funcionar (as festas luxuosas, as locações exóticas), mas em momento algum ele esconde do espectador esse seu lado de espetáculo raso. É na honestidade de sua futilidade, inclusive, que Guy Ritchie arranca o humor de sua produção, como prova a cena em que traz o personagem de Cavill na posição do público enquanto ele assiste a explosiva tentativa de fuga do colega russo com uma calma indiferente.
Mas enquanto O Agente da U.N.C.L.E. funciona para comédia ao admitir seus problemas, ele também entendia por não fazer da canastrice seu referencial. E nesse ponto, é extremamente claro no longa a falta do elemento recompensador em fundações vitais como a ação ou romance, que são sublimadas pelo diretor ao optar pelo imediato da coisa e o abandono de uma significação maior a sua estrutura. Mesmo o terceiro ato, momento onde os filmes de espionagem habitualmente marcam o espectador, se perde aqui em edições rápidas e de dinâmicas banalizadas, como se a obra se desinteressasse em apresentar o próprio desfecho.
É nos personagens, porém, que Guy Ritchie traz o ápice e o fundo do poço de sua aventura, com seus melhores momentos na divertida relação exercida por seus protagonistas, trabalhados com a canastrice necessária e planejada por Cavill e Hammer, e seus piores na tentativa frustrada de tirar o elemento feminino de sua posição antiquada em tais obras - e por mais que Vikander encante e sua participação na história seja interessante, sua situação princesa-no-castelo não passa nem um pouco despercebida. São eles, em última análise, que por bem ou mal sustentam O Agente da U.N.C.L.E., uma obra cujo senso de respeito em relação ao subgênero é vazio em essência.

Nota: 5/10

domingo, 16 de agosto de 2015

Crítica: Missão: Impossível - Nação Secreta

Crise do espião chega ao mundo globalizado em ação pelo espetáculo.

Por Pedro Strazza.

"Você é ele, né? Eu ouvi suas histórias" pergunta uma agente do IMF para o protagonista Ethan Hunt pouco antes deste conhecer sua próxima tarefa, logo no início de Missão: Impossível - Nação Secreta. É uma pergunta simples e direta, mas que, junto aos eventos ocorridos imediatamente após esta ação, serve para reforçar ao espectador o caráter lendário que o personagem interpretado por Tom Cruise criou em torno de si mesmo ao longo dos anos. Sua imagem, agora, é muito mais que a de apenas mais um espião; é a simbologia máxima do agente secreto, cujos atos são enxergados com admiração por outros.

E quem melhor do que a figura idealizada para entrar em conflito direto com o próprio sistema que representa?

Presente em Missão: Impossível desde o primeiro capítulo, este conflito entre indivíduo e organização toma enfim o centro do palco neste quinto capítulo da franquia, sendo representado por verdadeiras instituições em ambos os pólos. De um lado temos Hunt e sua equipe, que em seus integrantes encaixa todas as funções e estereótipos universais da espionagem para apoiar da melhor maneira possível seu herói nos esforços de salvar o mundo; no outro está o Sindicato, uma organização terrorista global que liderada por Solomon Lane (Sean Harris) se aproveita do caráter marginal para conseguir a derrocada do sistema e alcançar o controle político total, atuando da mesma forma que uma soberania em expansão.

É um combate maniqueísta e de certa forma um "Davi e Golias" clássico que o diretor e roteirista Christopher McQuarrie realiza aqui, mas potencializado por uma aproximação da realidade dos nossos tempos. Pois ao desvincular de vez a figura do agente da representatividade de uma nação e fazê-lo colidir com a mesma (Hunt não só precisa enfrentar o Sindicato mas também é perseguido pela CIA), o filme no fundo acende a questão do para quem o espião trabalha no mundo de hoje, marcado pela globalização e o esvaziamento de um nacionalismo racional. Talvez seja por isso que o Sindicato, uma instituição ascendente que age como uma verdadeira empresa transnacional, seja tão temerária à CIA e ao MI6, agências secretas cujos líderes são retratados no filme como peças ingênuas de um tabuleiro maior e muito mais sofisticado em relação ao passado.

Então aonde fica o espião nesse conflito macroestrutural? Sua lealdade está com quem? Qual é a sua missão nesse grande esquema das coisas? São perguntas que Hunt desesperadamente busca encontrar uma resposta enquanto tenta cumprir a missão da vez mesmo quando consciente da falta de importância que tem como ser humano nesse jogo de interesses disfarçado de gato-e-rato. Quem resume bem isso é Ilsa Faust (Rebecca Fergunson, excelente na primeira agente feminina da série a de fato ter uma participação maior na trama), outra agente em crise nesta questão de que "Sempre existirá um Solomon a ser derrotado e sempre haverão agentes como nós".

A solução encontrada por McQuarrie para esse dilema tão complexo é concentrar no objetivo humano, que posto em segundo plano neste conflito essencialmente político serve tanto para deixar ainda mais claro o reflexo de realidade do espelho fantástico como também põe em perspectiva qual o verdadeiro ponto de toda a disputa e da espionagem. Não à toa, o clímax do terceiro ato envolve primordialmente salvar uma vida e não aniquilar uma organização, que serve ainda para atestar a maior urgência do primeiro em relação ao segundo.

Mas se Missão: Impossível 5 é eficaz nessa abordagem mais política, ele também encanta por executar com excelência a ação descompromissada necessária ao gênero. Afinal, Nação Secreta traz em mãos o maior confronto entre vilão e mocinho da franquia nas figuras de Hunt e Lane, as idealizações máximas desse mundo complexo de espionagem que lutam com todas as forças para destruir o outro. Nesse ponto, a presença recorrente da cabine de fumaça se faz como lembrete literal do esquecimento consequente da derrota aqui, capaz de apagar da memória todos os grandes feitos realizados.

Além disso, McQuarrie é sagaz em fazer deste duelo existencial um verdadeiro espetáculo. Do embate de snipers na ópera em Viena à perseguição de motos no Marrocos, passando pelos planos mirabolantes empregados por Hunt e sua equipe, o diretor sabe conduzir a tensão decorrente sem se perder em exageros, e parece sempre disposto a entregar ao espectador tudo o que ele precisa saber para se entreter - e para sua sorte ele conta com Tom Cruise, um ator que vê nesse objetivo a maior de suas metas, no papel principal desse show de acrobacias.

É assim, nesta combinação sublime de atração e reflexão, que Nação Secreta se consagra como o capítulo mais interessante da série. Capaz de tornar as crises do agente dos Missão: Impossível de Brian De Palma e J.J. Abrams meros exercícios teóricos e de levar ao extremo o "mirabolantismo" das sequências de ação vistos nos episódios dirigidos por John Woo e Brad Bird, o quinto filme da franquia se usa de todos os elementos que consagraram a saga de Ethan Hunt para criar uma aventura completa, perfeita para tirar indivíduos cansados da mesmice burocrática e de seus videogames pouco imersivos.

Nota: 10/10

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Crítica: A Espiã que Sabia de Menos

Filme questiona machismo sem esquecer de divertir.

Por Pedro Strazza.

O humor funciona muito bem como elemento questionador de valores presentes nas histórias mais tradicionais, e os filmes de espionagem parecem ter voltado com tudo à pauta deste processo de desconstrução. Depois de Kingsman realizar sua homenagem paródica aos clássicos, é a vez de Paul Feig empregar a sua filosofia do "girl power da chacota" para demolir de vez em A Espiã que Sabia de Menos os pilares que sustentam o mundo dos espiões cinematográficos.

Mas enquanto o longa de Matthew Vaughn se basta em reverenciar com um sorriso o espião do passado, Feig não demonstra o mesmo respeito e vai na jugular do machismo inerente a essas histórias, característica presente no subgênero desde sua gênese. Nas aventuras vividas por James Bond e outros agentes secretos, afinal, há uma glorificação quase exagerada da figura masculina e uma consequente depreciação da feminina, relegada quase sempre à posição de bela secretária ou interesse amoroso superficial.

Assim, não chega a ser surpresa que A Espiã que Sabia de Menos apresente como protagonista uma antítese desse perfil, a pouco atraente e invisível Susan Cooper (Melissa McCarthy). Agente da CIA que trabalha atrás das mesas, ela cumpre sua função de "olhos e ouvidos" do galante e bem sucedido espião Bradley Fine (Jude Law) quase de maneira submissa, auxiliando-o em suas missões e resolvendo seus problemas domésticos sem pedir nada em troca. Mas quando Fine é morto na tentativa de resgate de uma ogiva nuclear e nenhum agente de campo pode cumprir a tarefa, é Cooper que assume o trabalho e sai de sua condição de inexistência para salvar o dia, tendo que enfrentar na mesma medida perigosos criminosos e a resistência de seus colegas.

É justamente desse choque com o sistema que o filme tira o humor da produção. Dos combates e perseguições às humilhações vividas por Susan, o longa usa do arco de crescimento vivido pela personagem para debochar das presunções do subgênero e da própria sociedade, retratando como imbecis rasos os agentes idealizados - papéis de Law e Jason Statham, este último acertadamente caricato para compor seu herói das lendas nunca vistas - e passando o protagonismo verdadeiro às mulheres. E essa mudança de papéis não é feita sem o prazer da descoberta, como bem indica as sucessivas surpresas do tipo "Uau, eu também posso fazer isso?" que as personagens femininas de McCarthy, Mirand Hart e Rose Byrne descobrem ao longo da história.

A comédia que o diretor e roteirista propõe fazer, porém, encontra problemas na própria escatologia. Ainda que esteja controlado, o humor gráfico de Feig ainda não encaixa como deveria na sua proposta, e soa por vezes artificial na sua execução - especialmente nos combates, onde surge para encerrar a cena apenas para dar maior ênfase cômica às situações apresentadas.

Nos dois primeiros trabalhos de sua parceria (Missão Madrinha de Casamento e As Bem Armadas), Feig e McCarthy ainda não entendiam muito bem como alinhar a sua história de viés feminista com a comédia por equivocadamente acreditar que o humor de tipos - o gordo é engraçado pela sua fisiologia, a mulher solteira é ranzinza, etc. - seria o caminho certo. Em A Espiã que Sabia de Menos, a dupla parece ter achado um rumo mais certo, pois encontra no subgênero ao qual ri tão descaradamente um material mais amplo e espaçoso para trabalhar sua questionadora inversão de gêneros, sem esquecer de entregar um bom entretenimento no processo.

Nota: 7/10

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crítica: November Man - Um Espião Nunca Morre

Filme procura separar protagonista de James Bond, mas cai em roteiro clichê

Por Pedro Strazza

É inegável a afirmação de que a carreira de Pierce Brosnan nunca decolou de fato. Dono de um charme britânico quase estereotipado, o ator construiu sua reputação à partir de várias participações em pequenas e médias produções até ser escolhido nos 90 para viver a quinta encarnação do agente 007 nos cinemas, que viveu em quatro filmes. O estrelato proporcionado pelo papel, porém, não se refletiu da mesma maneira em sua trajetória profissional, marcada de forma profunda pela ligação feita com James Bond e arruinada após o fim desta e uma sequência de personagens superficiais e muito fracos.
Agora, mais de doze anos depois de sua última aparição como o célebre espião britânico, Brosnan retorna ao gênero que o levou à fama, mas na pele de outro agente secreto baseado na literatura: Peter Devereaux, o protagonista do livro There Are No Spies, cuja história foi adaptada para as telonas sob o nome de November Man - Um Espião Nunca Morre. Dirigido por Roger Donaldson, o longa traz a Pierce um cenário bem similar aos filmes de Bond: Uma trama internacional, uma mocinha bem bonita a ser salva (interpretada pela -surpresa! - ex-bond-girl Olga Kurylenko), muitas reviravoltas, traições, pancadaria e, claro, espionagem.
Seria o caminho perfeito para o ator fazer o que mais sabe fazer de melhor e quiçá progredir enfim em sua carreira, se não fosse por um pequeno e grave problema central da própria produção. Consciente dos riscos de parecer uma cópia descarada das aventuras do personagem criado por Ian Fleming, a obra cinematográfica tenta a todo custo tornar seu herói em um alguém completamente distinto de 007, mas no processo esquece-se de contornar na história os clichês do gênero. E o resultado obtido desta tentativa é doloroso, pois November Man torna-se uma sequência inacreditável de clichês sem graça e óbvios, arruinando assim qualquer curiosidade do espectador em acompanhar a trama e seus desenrolamentos.
O desinteresse do público já se inicia à partir da maneira como é apresentado ao protagonista. Buscando afastar o personagem de seu próprio passado, Brosnan é obrigado a compor em sua atuação um Devereaux ríspido, sarcástico e arrogante, e torna impossível as chances do espectador se conectar com ele. Sobra no espião da vez frieza e até(!) crueldade sem sentido, e falta a ele emoção e humanidade.
A necessidade injustificável e os esforços de Brosnan em tentar tornar real essa distinção, porém, não se refletem em quase todos os outros aspectos do longa, que leva a cartilha do gênero de espionagem inadvertidamente ao pé da letra. Situações previsíveis acontecem, personagens superficiais se revelam ainda mais rasos, surpresas nada surpreendentes acontecem... tudo tenta soar como novo, mas é reciclado de inúmeras obras. Mesmo os principais coadjuvantes, interpretados com diferentes níveis de engajamento por Luke Bracey e Kurylenko, se perdem na obviedade - e nesse quesito é inacreditável ver como Olga trabalha aqui com um papel IDÊNTICO ao que fez em Quantum of Solace.
Pautado ainda por um roteiro repleto de erros de continuidade (que inclusive são apontados em cena, como o emblemático "É sério que você vai fazer isso com apenas seis agentes?") e cenas de ação pessimamente orquestradas, November Man se espatifa na tentativa superficial e mal-feita de não trazer uma identificação imediata com outro produto. Para o espectador, um filme genérica; para Brosnan, mais um erro em sua carreira.

Nota: 3/10

domingo, 12 de outubro de 2014

Crítica: O Homem Mais Procurado

Adaptação de obra de le Carré traz mais uma atuação brilhante de Philip Seymour Hoffman

Por Pedro Strazza

A espionagem é um assunto que o cinema parece ter um prazer em extrapolar para o fantástico. Das adaptações das obras de Tom Clancy às aventuras protagonizadas por James Bond, a indústria cinematográfica tem uma tendência natural em colocar nas inteligências de soberanias e suas histórias uma carga maior de ação e velocidade narrativa, visando dinamizar o ritmo da produção e o processo investigativo de tais operações. Esta necessidade, porém, oculta do espectador a dura realidade dos espiões e de seus chefes, que encaram no dia-a-dia uma rotina paciente e bastante cerebral.
Mas se a indústria imagina a espionagem como uma profissão repleta de cenas de ação, o escritor britânico John le Carré prefere encarar em suas obras o mundo como ele o é, e O Homem Mais Procurado prova mais uma vez esta sua posição realista. Nona adaptação da extensa obra do autor, o filme mostra este lado demorado e burocrático da profissão, aqui exemplificado por uma operação da inteligência alemã, liderada por Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman), em encontrar o imigrante checheno ilegal Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), que tem uma conexão importante com um esquema de lavagem de dinheiro, e usá-lo para capturar o chefe de tal crime.
Assim como no recente (e excelente) O Espião que Sabia Demais, O Homem Mais Procurado procura trazer ao público, através de sua narrativa lenta e de seus personagens visivelmente cansados, a sensação de insatisfação com o sistema e seus problemas. Vivendo na paranóia causada pela queda do World Trade Center, Günther e seus aliados, mesmo mostrando em vários momentos um esforço em fazer o certo, trabalham em um planeta onde a confiança já não existe e que cuja noção real de "bem" e "mal" perdeu-se por completo. Num momento tão conturbado quanto este, não se faz surpresa, portanto, que os cidadãos envolvidos pela inteligência na captura de Karpov mostrem-se tão relutantes em ajudá-los: A espionagem no século XXI está descreditada, e sua reputação negativa com a população só prejudica seu trabalho.
Mesmo com tantos obstáculos e em um ambiente desfavorável, entretanto, o processo empreendido pela inteligência alemã ainda encontra na produção maneiras de fascinar o espectador. Por sua extensa rede de agentes e informantes, Günther vai coordenando com impecabilidade seus "peixinhos" para que estes cumpram suas tarefas e, assim como dito por ele em determinado momento do filme, capturem a barracuda que apanhará o tubarão. Sob este aspecto, a direção do holandês Anton Corbijn é decisiva, pois a tensão do longa precisa ser trabalhada em atos simples como na assinatura de papéis ou na instalação de câmeras.
É na atuação de seu protagonista que a produção porém brilha com maior intensidade. Apoiado por um ótimo elenco de apoio - mesmo desperdiçando no caminho atores excelentes como Nina Hoss e Daniel Brühl em papéis pequenos -, o falecido Seymour Hoffman exibe em seu último trabalho completo uma performance invejável, atribuindo a seu Günther uma postura depressiva e pouco esperançosa. Sempre com uma bebida ou um cigarro na mão, o ator concebe em seu personagem toda a complexidade emocional do filme, e faz com que o espectador consiga se conectar com ele em sua jornada.
Pessimista quanto ao presente e o futuro da humanidade, O Homem Mais Procurado é eficiente principalmente por causa do talento de seu principal ator e do papel deste, pelo qual a produção estrutura toda a sua narrativa. Adaptado por Andrew Bovell, a qualidade do texto de le Carré entretanto não é subjugada pelo desempenho de Hoffman, e isto torna ainda mais profundo a obra cinematográfica e seu conteúdo realista.

Nota: 9/10