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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Segunda Opinião: A Criada

Park Chan-wook traz novo olhar sobre relacionamentos lésbicos no cinema.

Por Isabela Faggiani.

Um desafio do cinema lésbico mundial é de fazer um filme que não explore a saída do armário, a auto-descoberta, a puberdade e a morte. Esses são os maiores clichês de qualquer filme que explore o relacionamento entre duas mulheres. E Park Chan-wook conseguiu se livrar de todos eles. Só por isso, A Criada já deveria ser um filme essencial no cinema lésbico.

A história se passa na Coreia do Sul dos anos 30 e o filme dura quase três horas. São dois fatores que podem assustar o público geral para longe das telas, mas Chan-wook conseguiu fazer um longa que te prende do primeiro ao último segundo. O filme é dividido em três atos e cada um deles está recheado de novos mistérios e descobertas que deixam o espectador querendo saber cada vez mais das vidas da rica japonesa Hideko e sua criada coreana, Sookee.

Nenhum filme é perfeito, é claro, e, enquanto A Criada foge dos maiores clichês lésbicos, cai em um outro: a fetichização do corpo feminino e do sexo lésbico. Mas, diferentemente de dezenas de outros filmes, a erotização em A Criada tem um propósito e é essencial para a história.

O trailer mostra apenas uma ínfima parte da aventura que é assistir a esse filme e a trama te surpreende a cada reviravolta (e são muitas. Eu parei de contar depois da terceira). Durante os 145 minutos de filme, é possível sentir toda sorte de emoções: da ternura à raiva ao medo.

Para começar, Sookee (Kim Tae-ri) vai à casa de Hideko  (Kim Min-hee) para ser sua criada, mas na verdade ela esconde o segredo de que é uma ladra disfarçada que está armando um plano para roubar toda a fortuna da nipônica junto do igualmente mentiroso Conde Fujiwara (Jung-woo Ha). Os planos da garota ficam abalados quando ela se apaixona por sua patroa, mas o espectador nunca sabe se ela decide abandoná-los e confessar seu amor ou ignorar seus sentimentos.

O conde, inclusive, é retratado como sendo um homem mentiroso, arrogante e vaidoso. Em nenhum momento do filme o vemos fazendo algo de positivo. Todas as suas ações são calculadas para o próprio bem. As dele e as do tio de Hideko, Kouzuki (Jo Jin Woong). É de acalentar o coração de qualquer mulher lésbica ver todos os homens do filme serem retratados como pessoas ruins e não como seres bacanas que roubam a cena e que mereciam que as garotas fossem heterossexuais (ou bissexuais) para ficarem com eles, como visto por exemplo no filme de 2010 Minhas Mães e Meu Pai.

Os homens definitivamente não têm vez nessa história, cujas duas personagens principais dividem toda a glória da atenção do público. (Inclusive, Academia, dois papéis principais podem, sim, ser de duas mulheres. Não cometam mais o erro que cometeram com Carol, de colocar uma das atrizes como coadjuvante. Não há como ter parte coadjuvante em uma história centrada no casal).

Esses quatro personagens fecham a trinca principal do filme e todos eles são muito bem construídos, complexos e misteriosos até o último minuto do filme. É quase impossível adivinhar o que acontecerá durante a história. E o que prende no filme é isso: saber qual será a sucessão dos fatos e não descobrir o final por si só. Há toda uma teia de mentiras, segredos e seduções que se fazem necessárias serem descobertas pelo espectador antes de chegar no final.

Não há, por exemplo, como ignorar a obsessão de Kouzuki por seus livros e não querer saber o conteúdo deles, ou os detalhes do plano sórdido de Fujiwara e Sookee. Negligenciar a aparente inocência de Hideko e seu desejo de se matar seria quase como matar o longa em si. Inclusive, uma das cenas mais memoráveis de todo o filme é quando a nipônica tenta se enforcar na mesma árvore em que sua tia se suicidou, mas falha quando Sookee aparece para salvá-la.

A Coreia de antes da guerra é o cenário perfeito para um filme misterioso, envolto em luxúria, paixão, ódio e artimanhas. E se deliciar com cada reviravolta e revelação é uma experiência única que traz à tona a pergunta: “por que esse filme não recebeu nenhuma indicação ao Oscar?”. O roteiro, a fotografia e as atuações estão páreo a páreo com alguns dos melhores do ano.

O longa respira arte e entrega mistério envolto em eroticidade. O romance entre duas mulheres na Ásia dos anos 30 é uma história que não deveria ter sido negligenciada pela Academia ou pelo grande circuito de cinema, que parece só ter olhos para os blockbusters estadunidenses.

Como uma mulher bissexual que procura assistir a todo e qualquer filme de temática lésbica que consigo, digo que A Criada é um dos filmes mais importantes, não apenas desse gênero, mas do ano de 2016. Uma revolução para o cinema lésbico e para o cinema mundial, que deveria abrir mais as portas para filmes como esse.

domingo, 23 de outubro de 2016

Crítica: Invasão Zumbi

Combinação de adrenalina e George A. Romero, terror é cartunesco e claustrofóbico em seus melhores momentos.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser um pouco transparente demais as influências que o sul-coreano Yeon Sang-ho teve ao conceber Invasão Zumbi, terror que estreou no Festival de Cannes e que vem ganhando atenção especial do público desde então. Cineasta emerso da animação, o diretor e roteirista adota como norte para o longa principalmente o ritmo frenético, ponto característico de sua área de experiência, e o flerte constante com a obra de George A. Romero, pai do gênero ao qual ele agora busca se encaixar.

São duas máximas que logo se convertem em convenções no longa, que segue um grupo de passageiros de um trem em busca de uma escapatória do apocalipse zumbi que acaba de estourar. Para isso, eles precisam chegar à estação da cidade de Busan, local onde em teoria há uma das últimas zonas de segurança contra a infecção de causas desconhecidas. O caminho até lá, porém, não será dos mais fáceis, e é nesse cenário que Sang-ho aproveita para trabalhar seus sets de ação desesperadores e da mais pura pretensão lúdica.

Nesse sentido, Invasão Zumbi é ao mesmo tempo um filme bastante honesto e recompensador no que faz. Com personagens estereotipados e uma alegoria social adequada à realidade coreana em mãos, a produção sabe se valer do ambiente claustrofóbico do trem onde a maioria da história se passa para imprimir tensão, ainda mais com uma dinâmica tão corrida e dotada de uma fisicalidade rara ao gênero hoje - os personagens não exatamente possuem muitos recursos além dos próprios punhos para se defender dos zumbis atléticos que os perseguem. O uso disso para criar imagens que remetem à questão do crescimento desenfreado da população no país ajuda a tornar tudo isso ainda mais único, diferenciando a obras de tantas outras no tema.

Mas em meio a essa habilidade em lidar com uma narrativa mais dinâmica o diretor talvez acabe por se apoiar demais nos próprios referenciais, o que não só leva o longa ao campo do óbvio como também o transforma num trem sem freio e desgovernado. Prova disso é o terceiro ato do filme, que longe das situações contidas oferecidas anteriormente usa demais dos clichês para resolver os arcos dos personagens em caráter quase sequencial, envolvendo questões de sacrifício e sobrevivência que parecem funcionar apenas no sentido de retardar o "frenetismo" da produção. Nesse momento, Sang-ho confunde o flerte com cópia, e assume um conjunto de resoluções que já foi levado à exaustão no cinema de Romero.

No fim, o que faz de Invasão Zumbi um trabalho tão divertido é essa mistura de uma ação mais cartunesca e típica da produção sul-coreana - os zumbis quase dançam break dance em suas poses e tremeliques - com a alegoria social típica do gênero, que preza por uma mensagem forte sem perder de vista o entretenimento. O exercício de conciliação dessas duas partes parece ser suficiente a Sang-ho, que no resto não pode fazer muito mais além de injetar adrenalina.

Nota: 6/10

Crítica: A Criada

Diretor de Oldboy faz mais uma obra de perversidade, agora de significações mais complexas.

Por Pedro Strazza.

De início, A Criada é um filme que ensaia combinar temas complexos. O novo trabalho de Park Chan-wook situa-se, afinal, na Coréia dos tempos de ocupação japonesa, um cenário histórico por si só de amplas possibilidades, e sua trama de romance entre duas mulheres tende a ocupar esse espaço político de rivalidade com naturalidade. Mas como qualquer obra de Chan-wook que se preze, essa estrutura esconde algo que vai muito além das aparências.

Baseado no livro homônimo de Sarah Waters, o longa acompanha a história de Sook-Hee (Tae Ri Kim), uma experiente e pobre vigarista coreana que é enviada por seu superior (Ha Jung-woo) para ser criada de Lady Hideko (Kim Min-hee), herdeira de uma grande riqueza. O plano é simples: criando intimidade com sua senhora, ela facilitaria os planos do golpista - disfarçado sob o nome de Conde Fujiwara - de dar o golpe do baú na mulher, casando-se com ela para depois trancá-la no hospício e ficar com o dinheiro. Sook-he, porém, começa a se apaixonar por Hideko, simpatizando com sua tristeza por estar isolada da sociedade pelo tio (Jo Jin-woong), que também planeja se casar com ela por motivos financeiros.

A partir deste ponto não vale a pena entrar em maiores detalhes da trama, até porque o filme se faz bastante em cima das sucessivas reviravoltas que produz. O que pode ser dito é que Chan-wook realiza aqui mais uma obra de intenções lúdicas, que se estrutura em cima de uma dinâmica repleta de perversidades sexuais e constantemente brinca com flashbacks e noções de duplos - no primeiro ato isso fica menos evidente, mas está presente no viés de O Príncipe e o Mendigo lésbico da amizade entre Sook-Hee e Hideko - para desestabilizar o público.

O ambiente é bastante propício ao diretor, cujo cinema já é conhecido por obras que tem no choque seu principal chamariz, mas A Criada acaba por sofrer abalos justo nisso que é seu ponto mais forte. Preocupado em traduzir para a tela a sua complexa rede de intrigas e traições, o longa não dá conta de manter em foco as temáticas manifestadas nas relações de dominação (seja sexual ou política) dos personagens, o que esvazia a trama de um impacto simbólico e a torna refém de suas viradas. A preocupação em não deixar ponto sem nó é tão grande que no fim ele se dedica somente a isso.

Não que A Criada se faça como um filme efetivamente vazio, de puro ludismo disfarçado de falsos significados; Chan-wook sabe manter o básico da coerência das questões propostas, até porque elas estão inseridas em seu jogo de perversidades e potencializam sua proposta - a relação das duas protagonistas, por exemplo, não deixa de emular a situação política da época nos momentos mais, vamos dizer, intensos. A dúvida é se a produção tem consciência do desenvolvimento natural dessa mecânica no roteiro (e portanto se deixar guiar por ela como forma de aumentar o impacto) ou se ela a possui como mero acessório de luxo.

Nota: 7/10

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Crítica: As Montanhas se Separam

Jia Zhangke estabelece pesos iguais a universal e local em filme sobre tradição e a dificuldade de se comunicar.

Por Pedro Strazza.

Filmes de panorama tem no âmago de sua concepção uma inclinação de se dedicar mais às alegorias que fabulam em detrimento dos personagens e situações elaborados para tal fim. Essa decisão não é ruim, dado a própria complexidade e grandiloquência de temas aos quais estas obras se sujeitam a explorar, mas pode surgir depois como uma espécie de efeito limitador da aproximação que esses longas podem chegar a ter com o espectador, restringindo seu alcance a um âmbito muito mais local que seus realizadores gostariam de início. Em As Montanhas se Separam, o diretor Jia Zhangke encontra uma solução interessante para este aparente paradoxo.

A produção se divide em três momentos históricos distintos, que ocupam identificações simbólicas de tempos passado, presente e futuro. No primeiro, situado na Fenyang da virada do século XX para o XXI, o público é apresentado a Shen Tao (Tao Zhao), uma jovem trabalhadora que tem seu coração disputado por Zhang Jinsheng (Yi Zhang), um rico proprietário de um posto de gasolina, e Liangzi (Jing Dong Liang), típico minerador pobre da região; depois, a trama pula quinze anos no futuro para acompanhar as consequências mais imediatas da decisão tomada por Shen, que incluem ter de lidar com a morte recente de um membro de sua família e se aproximar de seu filho pequeno, Zhang Daole (Zishan Rong); por fim, o longa se situa no futuro de 2025, onde um agora adolescente Zhang, renomeado Dollar (Zijian Dong) e cidadão australiano, encontra-se indeciso sobre que caminho seguir com sua vida e é atormentado por um passado do qual não consegue se recordar.

Ainda que se torne visível somente no terceiro ato, esse tormento passado por Dollar não é exclusivo do personagem, mas também serve ao filme como uma emoção recorrente. Da evolução progressiva da trama em seus três momentos, Zhangke faz um retrato da entrada da China no novo século guiado por uma amargura subentendida, estabelecida no choque da tradição cultural do país com a globalização à qual este abraçou no campo econômico e que depois possibilitou o crescimento de sua importância no cenário mundial. Tal choque, porém, implica uma tragédia implícita, que promove a derrocada das tradições que caracterizam a unidade nacional e limam valores dos quais a sociedade se baseou para a sua própria formação cultural, em ordem de substituir estas por outras mais universais - uma questão problemática comum deste processo político-econômico do qual vive o mundo contemporâneo.

Esse drama local, tema central do lado panorama de As Montanhas se Separam, ocupa esta sua posição de direito nos dois primeiros terços do roteiro, que deixa evidente seus esforços de maneiras distintas em cada realidade apresentada. Se nas cenas de 1999 Zhangke recorre com frequência a materiais filmados por ele mesmo na época, capazes de levar o espectador àquele tempo e também criar imagens de impacto (a cena do caminhão com carga de carvão atolado ou da multidão em dia de ano-novo, por exemplo), no presente ele prefere ressaltar a mudança naquela cultura pela tecnologia e o contraste com o cenário, mostrando várias vezes seus personagens portando celulares e tablets de forma ostensiva e ao mesmo tempo retomando lugares envelhecidos e carcomidos pelo tempo. O cineasta também abre espaço para elementos presentes nos três momentos, e a que mais chama a atenção nesse caso são duas músicas ("Take Care", cantada em cantonês pela artista pop chinesa Sally Yeh, e "Go West", hit dos Pet Shop Boys) cuja oposição simbólica serve de tema musical ao filme.

Mas por mais fundamental que seja essa grande análise sociocultural, é na parte fantástica que o longa de Zhangke de fato se desprende de suas amarras e ganha uma intensidade quase sobrenatural. Isso porque a mudança de eixo (seja de protagonismo, com Dollar assumindo o posto da mãe Tao, ou da transição de realismo para uma imaginação do futuro) possibilita ao diretor que consiga explorar dramas humanos em tom mais igualitário com o quadro geral, sem que este de fato sofra perdas significativas de conteúdo.

Assim, o mundo de amanhã da produção, dominado pela globalização e marcado pelo abandono de tradições fundamentais (até mesmo a língua chinesa parece minguante!), cria um espaço cinematográfico peculiar a esta. Ao mesmo tempo que o filme se transporta de um ambiente local para um mais global, ele também particulariza e torna mais íntimo as situações vividas por seus personagens, cujos dramas por sua vez parecem intensificações da atualidade.

Mas que dramas seriam esses, capazes de envolver tanto o dilema cultural proposto por Zhangke no primeiro ato (um grande prólogo, bem pontuado pelo surgimento do título ao seu fim) e o mundo de hoje? A dificuldade de se comunicar soa como um capaz de arregimentar o todo, dado a própria tendência do diretor em se dedicar a apresentar momentos que evidenciem a artificialização dos meios comunicativos - o conflito entre Jinsheng e Liangzi no passado, as conversas constantes de Daole com a madrasta (que nunca é apresentada) pelo Skype e o uso massivo de celulares no presente - e aprofundem o tema em momentos críticos, como na luta de Dollar para conversar em inglês com o pai (cuja identidade não será revelada aqui para preservar a trama) reticente em deixar de falar o chinês ou, depois, na natureza do relacionamento do protagonista com sua professora Mia (Sylvia Chang).

Dessa maneira, Jia Zhangke cria uma concomitância fascinante entre uma problematização de uma tema de ambientação local (a evaporação e a tentativa da preservação da tradição move a trama em todos os instantes) com a abordagem de questões universais e de fácil identificação. Isso tudo dentro do campo de uma imagem que, apesar de atualizada a cada pulo temporal, ainda é capaz de causar uma impressão e fazer o espectador questionar a própria natureza do objeto em real análise aqui: a tradição. Partindo de passado e presente para atingir o futuro, As Montanhas se Separam é um filme dotado de uma transcendentalidade temporal extraordinária e, felizmente, bastante única.

Nota: 10/10