Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Kelly Marcel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kelly Marcel. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Crítica: Venom

Venom é tosco, mas, sem hipocrisia, permanece fiel às origens do personagem.

Por Alexandre Dias.

O mercado do cinema de super-heróis está passando por uma fase semelhante a que os quadrinhos viveram pós Watchmen e O Cavaleiro das Trevas. Não é mais uma novidade, então há uma saturação natural, e o modo de pensar dos produtores se assemelha muito à indústria dos gibis nos anos 90; pensar que características adultas, muito visual ou, como é o caso, foco nos vilões e anti-heróis sejam uma espécie de subversão, sendo assim o caminho, segundo estes sujeitos. 

Esquadrão Suicida provou isso ao não apenas colocar vilões na posição de heróis, mudando a essência dos personagens, como por reciclar os vícios e tendências do momento (“Ah vamos fazer o nosso Guardiões da Galáxia”). Venom tem praticamente todos esses aspectos preguiçosos, porém se salva por não ser um projeto hipócrita, criando o mínimo de respeito para com os seus próprios elementos e o espectador, que em nenhum momento é enganado sobre o que está diante dele. 

O motivo da existência do simbionte está totalmente atrelado ao Homem-Aranha, portanto um longa solo dele não teria razão de acontecer. De fato, não tem. E sim, a sua nascença só ocorreu porque a Sony não tem mais como trabalhar com o universo do Cabeça de Teia , ao qual lhe pertence. Estaríamos em paz sem essa produção? Sim. Contudo, já que ela foi concebida, o sentido desse novo mundo está relacionado com a sua proposta e o seu material. Ambos são minimamente bem colocados.

A química de Eddie Brock (Tom Hardy) com o alienígena justifica tudo com o seu jeito caricato de ser. O ridículo (às vezes além da conta) é proposital, o que acaba por tornar aceitável uma falta de complexidade e até de lógica. É um parasita gigante que encontra o seu hospedeiro ideal em um fracassado. E pronto. Não há rodeios, logo o bizarro que é a zombaria que um faz com o outro, ou mesmo o apego dos dois, passa a se transformar no trunfo do filme, com alguns deslizes exagerados espalhados, é claro.

Vejamos o roteiro de Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel. É a mesma linha tradicional e clichê da história de origem, sem nada muito significante a ser notado. Entretanto, consegue-se compreender porque Venom escolheu Brock e Riot concentrou-se em Carlton Drake (Riz Ahmed). No final, a bobeira não é cercada de uma bagunça, como ocorreu com os vilões da DC em 2016. Nem por isso a atração principal deixa de ser o simbionte, o resto é mais do que esquecível: a ex que volta à cena – é impossível, até para quem conseguiu aceitar a galhofa, decidir se aquele beijo foi uma boa decisão ou não -, o empresário ganancioso, os coadjuvantes amiguinhos, etc.

Inclusive, muito deste tom excêntrico se deve ao diretor Ruben Fleischer. Acostumado com a comédia, ao exemplo de Zumbilândia, ele varia entre o sarcasmo e o humor tradicional dos blockbusters. Dessa forma, o cineasta acaba forçando a barra em alguns pontos, mas sem precisar se prestar a uma determinada obrigação, como uma referência a Peter Parker ou algo do tipo. Tom Hardy é igual. O Brock dele é (pasmem) um cara simpático no início, mas é surreal o modo que ele encarna a dupla personalidade com o monstro, tanto pelo bem como pelo mal.

A ação também sofre desse extremismo que depende de uma possível aceitação. Quase inteiramente cercadas de CGI, há uma cara de trash onde o tosco é a salvação. Riot e suas habilidades bizarras são a prova viva disso. Percebe-se que não estamos vendo algo bonito, porém há uma beleza nesse entulho, não observada em Deadpool 2, por exemplo – ver Venom, com todo o seu poder, em ação é muito mais legal do que Cable ou Colossus. 

Um projeto como Venom só poderia dar certo se fosse algo muito ousado e fora dos padrões do gênero. Só o fator de ser PG 13 (classificado como para maiores de 13 anos nos Estados Unidos) já indica um pouco que não é isso. No entanto, mesmo com esse molde genérico, o longa-metragem do simbionte tem uma identidade caricata viva, que já o põe em uma posição interessante como um filme de vilão. A possível sequência com o Carnificina e outros projetos de tal seguimento, como a futura origem do Coringa, dificilmente conseguirão se estabilizar na indústria com ideias que funcionam aos trancos e barrancos dessa maneira, mas, pela primeira vez, acredito que alguma coisa
possa sair desse mato sem cachorro.

Nota: 6/10

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Crítica: Cinquenta Tons de Cinza

O prazer sexual visto pelo machismo contido da contemporaneidade.

Por Pedro Strazza.

Embora seja uma indústria pautada pela liberdade de expressão, Hollywood ainda hoje se mantém um pouco mais conservadora em determinados temas, restringindo pela censura sua exibição nas obras cinematográficas que produz. Dentre estes tabus, o sexo surge em destaque, e em quase todos os casos é responsável por uma produção acabar com uma censura mais alta, mesmo que ela apenas toque no assunto por meio de um seio exibido ao fundo de uma cena. É algo que não deixa de ser curioso, se pensarmos no ato em si como parte de nossa essência natural.

É esse medo de mostrar mais deste nosso lado animalesco que tem grande parcela de culpa (mas não total, como explicarei adiante) no resultado final da adaptação de Cinquenta Tons de Cinza para o cinema. A história que começou como uma fan-fiction de Crepúsculo e terminou como uma trilogia erótica de sucesso nas livrarias - e agora muito possivelmente nas bilheterias - é tratada pela roteirista Kelly Marcel e a diretora Sam Taylor-Johnson com toda as restrições possíveis, geradas talvez por um conteúdo mais "picante" que o normal no cinema tradicional estadunidense. Com isso, o longa lima de sua narrativa o quesito com maiores chances de chamar a atenção do público para as salas de cinema e que o marketing do projeto fez questão de assinalar em suas peças publicitárias.

Não que o sexo esteja ausente no filme (porque se estivesse seria certo a indignação dos fãs), mas sua exibição é fria e mecânica. Nos poucos momentos em que é mostrado, o ato luxurioso é desprovido de alma ou sensualidade pela direção, que mesmo usando de todos os elementos possíveis para fazer o inverso prefere retratar o erótico como errado. É como se a transa exercida por Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) fosse apresentada ao espectador por um religioso ao mesmo tempo conservador radical e fã da carnalidade das músicas de cantoras como Madonna, Lady Gaga ou Beyoncé - esta última inclusive presente na trilha sonora e responsável por tentar trazer volúpia a um desses momentos "errados" da carne.

A sensação proibitiva imposta, porém, não se restringe apenas ao coito. A própria relação entre Anastasia e Christian surge nesse contexto, e é tratada pelo último como impossível de acontecer. O motivo? Seu lado negro escondido na dominação, o sexo abusivo que o tenta seguidas vezes a tomar a mulher com exclusividade para si e controlar todos os atos de sua vida, punindo-a se não aceitar sua demanda. Seria um ato bonito, se não fosse todo o machismo enraizado na mente doentia de tal personagem.

Porque Cinquenta Tons de Cinza é de fato uma obra conservadora e anti-feminista ao extremo, e isso só fica mais evidente na confusão que faz ao transpor o prazer sexual gerado quiçá pela relação entre dominador e submisso para o dia-a-dia dos dois. Enquanto Grey é um homem rico, poderoso, desejado por todas as mulheres e que "não faz amor, mas fode com força", Anastasia é a representação suprema da moça virginal, e é não somente tímida e ingênua como também desejosa apenas do príncipe encantado que a comande em todos os passos de sua vida - e Grey, para seu alívio, aparece galante e assustador na ameaçadora e imponente floresta de prédios de Seattle para satisfazer sua meta.

É um argumento fraco e sem sustentação, que logo se tornaria uma comédia de absurdos nas mãos certas. O problema é que este lado humorístico não é percebido e utilizado pela produção, e com rapidez se torna uma aborrecida sequência de diálogos supérfluos. No final, Cinquenta Tons de Cinza é uma longa, chata e conservadora discussão de uma relação, sendo provavelmente uma das mais duradouras da história do cinema.

E olha que eles nem estavam num relacionamento sério.

Nota: 1/10