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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Crítica: Pantera Negra

Ryan Coogler direciona seu cinema de apropriação aos dramas de corte em filme sem grandeza dramatúrgica.

Por Pedro Strazza.

É um detalhe sutil, mas de muito efeito que Pantera Negra abra sua história em uma região pobre de Oakland do agora distante 1992. Mesmo que não se situe no palco central das rebeliões da época, é neste aceno rápido ao ano e estado de um dos maiores e mais violentos confrontos raciais da História dos Estados Unidos que o filme já toma para si as rédeas do contexto social em que se insere, assumindo do princípio este compromisso que a produção tem com a população negra neste ato simbólico de ser a primeira grande produção da hoje toda-poderosa Marvel Studios que é protagonizada e conduzida por cineastas negros.

Esta conotação entre simbologia, política e sociedade não é nem um pouco estranha ao diretor e roteirista Ryan Coogler, que já em Creed havia refeito a mitologia da franquia Rocky dentro da lógica das medidas de afirmação de posição da cultura negra e em Fruitvale Station mergulhava o espectador no cotidiano difícil das comunidades mais marginalizadas. Suas ambições com a adaptação das histórias do rei de Wakanda, porém, são muito maiores que os seus esforços bem sucedidos de ressignificação e assimilação dos trabalhos anteriores, adquirindo uma faceta um tanto quanto nobre de criar para o cenário uma nova classe de mitos, mesmo que à partir de elementos pré-estabelecidos.

Aos olhos do estúdio, essa decisão não poderia ser melhor. Se em todos os outros trabalhos a Marvel Studios prezou por um ecossistema interno e mais ou menos asséptico aos problemas externos, neste que é o seu 18° produto esta maior aderência à realidade proporciona à empresa um respiro de ineditismo à sua metodologia de entretenimento massificado, que vem sendo cada vez mais sentida pelo público nos últimos anos.

Pautado por estas questões, há de se valorizar de início a predisposição de Coogler em tornar a verve contextual de seu cinema em modus operandi máxima de Pantera Negra. Dos cenários futuristas ao perfil dos personagens, passando pela trilha sonora de Ludwig Göransson (alinhada com a curadoria musical dada pelo rapper Kendrick Lamar), tudo que circunda a cidade de Wakanda reflete esta noção de incorporação que o diretor busca traduzir às produções da Marvel. A medida traduz quase de imediato as intenções de representatividade propostas pelo longa: se no mundo o negro se encontra à margem, na realidade de Pantera Negra ele enfim pode ocupar posições centrais.

A força deste empoderamento é gigantesca, e é por estar consciente deste poder que o longa persegue aqui um dos gêneros mais tradicionais não só do cinema, mas das artes como um todo. Com base nas questões políticas e a própria deixa dada pelos acontecimentos de Capitão América - Guerra Civil, Coogler encena aqui um drama de corte dos mais tradicionais, centralizado nas disputas de poder geradas pela morte do rei de Wakanda T'Chaka (John Kani) e a ascensão de T'Challa (Chadwick Boseman) ao trono. O motor maior responsável por dar corpo a estas confrontações mora na ocupação de atores e atrizes negros nos principais papéis e na situação destes dramas em um contexto de origem africana, decisões que pelo menos a princípio soam ideais para potencializar todas as intenções da obra com suas raízes.

O que começa promissor, porém, vai se esgotando aos poucos perante uma estranha planificação dos momentos dramáticos do filme. Seja porque Coogler enfrenta algumas dificuldades com a escala (ao contrário de Creed e Fruitvale Station, Pantera Negra habita um cenário muito mais complexo e grandioso), com o CGI (a materialização de certas partes do mundo de Wakanda às vezes soam precárias e a ação falta em peso) ou com a própria fórmula pré-estabelecida do estúdio, a produção muitas vezes soa como se estivesse presa a elementos muito básicos de dramaturgia, que por sua vez parecem o capar de atingir os grandes momentos dramáticos necessários.

É um fenômeno curioso, pois embora o diretor e o seu co-roteirista Joe Robert Cole demonstrem na trama almejar personagens com múltiplas facetas no fim todos eles se revelam reduzidos a figuras deveras unidimensionais. Talvez o exemplo maior desta tendência more em Killmonger, que é vivido por Michael B. Jordan sob toda a aura de um vilão movido por traumas de perda claros mas depois acaba precisando ser justificado a todo custo pela trama como mal maior, algo que culmina em uma distorção pouco sutil. Se o antagonista parte como herdeiro negado de seu meio, sua trajetória termina confusa entre a aspiração à Malcolm X e a pose de mercenário enlouquecido em missão para desestabilizar o reinado que o agente da CIA branco vivido por Martin Freeman insinua.

Mais curioso, porém, é como todas estas complicações levam Pantera Negra a morar no pólo oposto ao do primeiro Thor, o outro exemplar de drama de corte que a Marvel Studios produziu nestes primeiros dez anos. Enquanto o longa dirigido por Kenneth Branagh compensava em dramaturgia aquilo que não tinha em contexto e ambientação - a Asgard fria e sem vida deve ter sido um dos maiores tormentos do estúdio na última década -, o filme de Coogler talvez precise se equilibrar demais em cima do cenário afrofuturista de Wakanda para desviar da falta de força das cenas de impacto. A comprovação desta tendência está no humor, característica primordial dos produtos Marvel e que em Wakanda surge naturalmente em alguns momentos e em outros mostra-se deslocada - e quando ela soa fora de tom, é justo no meio dos enfrentamentos e grandes diálogos da corte wakandense.

Nota: 6/10

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Crítica: Lady Bird - É Hora de Voar

Grandes performances de Saoirse Ronan e Laurie Metcalf ancoram filme de Greta Gerwig sobre o abandono do ninho.

Por Pedro Strazza.

É uma prática comum em filmes voltados a adolescentes que o universo colocado à disposição dos personagens seja retratado quase como um fantasia de consumo desta idade ou - no pólo exatamente oposto - com todo o teor cru da "realidade". Pelo menos no imaginário estadunidense, onde foi popularizado nos anos 80 e é mantido até hoje como um dos subgêneros dominantes da produção nacional, os chamados coming of age gostam de se manter atrelados a uma destas esferas pre-concebidas, reduzindo diferentes ambientações ao clichê dos bairros suburbanos ou daqueles marginalizados. A estas obras interessa muito mais o drama em sua raiz, traduzido no conflito entre seus personagens que no geral, apesar dos diferentes gêneros e abordagens temáticas, resulta nos mesmos arcos de amadurecimento ou de emancipação do conforto do lar.

Dentro desta equação, Lady Bird - É Hora de Voar à princípio não parece ter muito à oferecer além da conversão destes arcos a uma ótica feminina, acompanhando a protagonista Lady Bird (Saoirse Ronan) enquanto ela realiza as tradicionais descobertas do sexo e de outros prazeres da juventude no começo da década de 2000. Esta aparente premissa superficial, porém, é somente a base para o longa da diretora e roteirista Greta Gerwig, cuja condução está menos atenta aos cacoetes tradicionais deste tipo de história que nos elementos que circundam a trama e se inscrevem no pacato cenário de Sacramento, palco do filme e também a cidade natal da cineasta.

Esta conexão de Gerwig com a região prevalece na produção como uma estrela-norte, mas não dentro da lógica nostálgica tradicional. De caráter semibiográfico, o longa assume do início uma noção de dualidade para sua estrutura, permeando relações e espaços sobre a ambiguidade de atração e repulsa que culmina na relação contraditória sentida pela protagonista com sua origem, que busca a todo custo estudar em Nova York mas também mostra aspirar certos desejos regionais, desde suas grandes mansões até amizades e amores com a elite da cidade. O clima quente da região ajuda a dar este ar receptivo comum a todos os espaços, mas é o olhar de Lady Bird que determina se este "calor" de fato está materializado - e um bom exemplo disso talvez esteja no contraste dos retratos do quarto do namorado interpretado por Timothée Chalamet antes e depois da cena da primeira transa.

Gerwig trabalha estas aflições com o contorno adocicado do típico produto adolescente contemporâneo, mas mantém alternado na narrativa as projeções do olhar de Lady Bird com a realidade dura do cenário. Neste sentido, é interessante observar como esta dualidade reverbera como contestação às fantasias da protagonista, seja nas limitações financeiras que insistem em prendê-la ao chão ou nas dores alheias que a atingem em diferentes níveis - se o trauma do padre responsável pelo grupo do teatro (Stephen Henderson) passa quase desapercebido por ela, a depressão do pai (Tracy Letts) há de revelar parte de seu egoísmo com a família. Os dois namorados presentes na trama, enquanto isso, são responsáveis por este de materialização e destruição dos desejos da personagem: o de Lucas Hedges oferece o conforto da vida rica na cidade, o de Chalamet dá a opção de viver "à margem" ridicularizando revoltado toda as concepções de ideal social propagadas pelos pais.

No centro de todos estes cenários e relações, quem rege tamanha ambiguidade é a relação de mãe e filha, o lógico maestro maior da obra. Encenado por Gerwig com naturalidade e foco nas reações das duas atrizes, os sucessivos conflitos de Lady Bird com Marion (Laurie Metcalf) pautam essa dicotomia nostálgica ao mesmo tempo que operam dentro dela - outro sinal desta dualidade quase simbiótica do filme -, pontuando momentos emocionais vividos pela protagonista (a formatura do colégio, a perda da virgindade) e propondo a ela novas situações dramáticas (a cisão no fim). A medida é feita para dar ao longa um eixo maior que o permita se desviar constantemente nas diferentes subtramas, mas acaba responsável aqui por canalizar todo o sentimento de contradição do qual a produção busca se apoiar.

É claro que existe uma natureza conservadora implícita em toda esta proposta emocional (no fundo a grande mensagem por trás do longa exprime um certo saudosismo eterno pelo ninho), mas é por desejar a duplicidade irracional deste sentimento que Gerwig torna seu filme tão especial e permanente em seus efeitos. Não à toa, a relação central de Lady Bird começa e termina em olhares subjetivos e incapazes de serem resolvidos em afirmações frontais, seja o da mãe que precisa abrir mão da filha ou da filha que precisa abrir mão da mãe e do lar - e há de se valorizar a potência dos trabalhos de Ronan e Metcalf nesta hora, pois seus olhares em suas respectivas últimas cenas no filme exprimem toda a dor emocional envolvida nestes processos tão diferentes e ao mesmo tempo tão similares.

Nota: 8/10

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Crítica: Três Anúncios Para um Crime

Martin McDonaugh busca enquadrar questões sociais americanas dentro de dinâmicas irlandesas em filme povoado de inadequações.

Por Pedro Strazza.

Em tempos de extrema polarização social, a premissa de Três Anúncios Para um Crime mira a princípio atiçar um barril de pólvora. Indignada com a condução da investigação da morte brutal de sua filha, uma mãe (Frances McDormand) resolve alugar três outdoors em uma estrada abandonada para questionar as ações do xerife (Woody Harrelson) e o porquê do culpado ainda não ter sido encontrado pelas forças da lei. Sua ação, porém, desperta a ira da população da cidade pois o mesmo xerife possui um câncer pancreático maligno, o que faz com que a maioria dos cidadães, incluindo aí um policial com histórico permeado de casos de racismo (Sam Rockwell), se virem contra a busca por justiça da mulher.

Junto de outros enfrentamentos pequenos e dispersos na narrativa, são estes conflitos interpessoais que logicamente hão de pautar o filme como um comentário nada discreto sobre as relações de ódio que prevalecem nas interações sociais hoje. Emerso do meio teatral irlandês e estabelecido na indústria por seu Na Mira do Chefe, o diretor e roteirista Martin McDonaugh em teoria usa de seu humor negro em chave dramática para fins mais nobres, intensificando o gesto teatral para abordar de vez as grandes questões que seu cinema ensaia desde o seu primeiro trabalho - o curta Six Shooter - e por consequência absorvendo com maior entusiasmo a influência de gênero que tem dos filmes dos irmãos Coen - sob certo olhar, Três Anúncios não deixa de ser uma versão (ainda) mais violenta do tipo de história contado pela dupla já há algumas décadas.

Seria um produto pronto com resultados garantidos (uma afirmação verdadeira considerando o sucesso da obra na temporada de premiações) se McDonaugh não repetisse aqui a formatação básica de seus filmes, impondo deficiências estruturais no roteiro e na direção que antes já davam claros sinais de desgaste. O diretor continua a ter uma dificuldade palpável de conciliar drama e comédia nas situações que encena, orbitando as duas sem nunca conseguir encontrar um ponto de equilíbrio ideal para tratar de questões às quais claramente não tem o mínimo tato para colocar no roteiro ou executar na direção. Sobram em Três Anúncios cenas de confrontação que se dispersam em tiradas sarcásticas e tentativas de humor arruinadas pela dramaticidade do momento, lideradas por uma escrita pouco sutil que tenta guia emocionalmente seu espectador a trancos a barrancos pelos eventos contados na história. O longa no fundo parece estar querendo ser sarcástico e compreensivo a todos os lados dispostos nas múltiplas confrontações, e essa indecisão torna-se um motor involuntário da obra.

O problema central do filme, porém, está nessa abordagem de supostas grandes questões, que desabam frente a uma sobreposição de cenários para lá de inadequada. Além do desequilíbrio de tom, McDonaugh também busca trazer de Six Shooter e Na Mira do Chefe algumas noções de honra e cumplicidade do cinema de máfia irlandês para dentro do cenário sulista que é palco para a história de Três Anúncios, forçando nos personagens as mesmas relações de violência que permeiam a esmagadora maioria destas produções. A medida vem para diferenciar o longa de esforços similares, mas no fim acaba por corromper qualquer alegoria posta em jogo pelo filme, cujo manejo das situações soa como dos mais equivocados possíveis.

Essa narrativa falha se faz notar ao longo da produção, mas se acentua com maior propriedade no ato final quando todas as confrontações geradas na história passam a ser resolvidas com meros pedidos de desculpas e os dois protagonistas maiores - os personagens de McDormand e Rockwell - são postos em uma trajetória de reconciliação moral perante um inimigo maior. Neste momento explica muito que McDonaugh tenha escrito o roteiro de Três Anúncios oito anos atrás, pois se antes esta possibilidade de reunião das partes era tida como possível por alguns ela decididamente não se verifica nos tempos atuais, onde esta divisão de posicionamentos se converteu em pura intolerância. O filme, porém, mantém-se adepto do perdão maior, de uma busca por justiça cega capaz de unir grupos mesmo a medida não fazendo o mínimo sentido.

O que sobra então a Três Anúncios Para um Crime, além das "grandes" atuações (que no fundo estão tirando leite de pedra neste ato de conferir a grandiosidade a momentos inverossímeis) e a aura de prestígio que lhe foi conferida em sua trajetória? A mensagem equivocada sugere um conforto ingênuo frente ao ódio de tempos recentes, um alento de que sim, mesmo brigando no fundo somos todos irmãos de armas frente ao que "de fato" interessa. Mas é como o final bem sugere, é melhor manter misteriosa a identidade deste suposto vilão maior para impedir quaisquer novos questionamentos.

Nota: 4/10

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Crítica: Cinquenta Tons de Liberdade

Entregue aos dilemas do matrimônio, terceiro episódio assume o viés de produção B mas mantém-se apegada aos problemas de sempre.

Por Pedro Strazza.

Nascido na polêmica e criado na banalidade, a franquia Cinquenta Tons teve uma trajetória um tanto quanto insossa na sua previsibilidade. A adaptação dos livros da escritora E.L. James eram desde o seu anúncio contaminados pelo caráter extremamente problemático do conteúdo das obras, que de fanfics eróticas de Crepúsculo se tornaram em um fenômeno best seller no mundo literário, nutridos do relacionamento abusivo sofrido por Anastasia Steele nas mãos do milionário Christian Grey. Quem acabou com a bomba-relógio nas mãos foi o primeiro filme, cuja inabilidade para lidar com tamanhas questões de problematização levaram a série a uma remodelação criativa completa e ao caminho (talvez esperado) da ridicularização, um rumo tomado como tendência narrativa pelo segundo episódio.

O curioso dessa medida, porém, foi a disposição do diretor James Foley e do roteirista Niall Leonard para adotar este ridículo como DNA da franquia. Se Cinquenta Tons de Cinza foi duramente criticado pela péssima qualidade de seu material, os cineastas tornaram as continuações Cinquenta Tons Mais Escuros e este Cinquenta Tons de Liberdade em obras conduzidas pelo mal gosto, assumindo a precariedade dramatúrgica como blindagem e guiando o relacionamento abusivo de seus protagonistas sob a embalagem de um produto B de "alta" "qualidade", agora um conto de fadas de um amor sadomasoquista com estética de produto televisivo. Neste sentido, as duas sequências se comportam como um díptico bastante desconjuntado dentro da trilogia, um imperado por estas propensões recém-adquiridas de encarar o verdadeiro novelão do roteiro sob o olhar honesto de produção softcore de TV a cabo e cujo grande ponto de transformação reside no casamento de Anastasia (Dakota Johnson) e Christian (Jamie Dornan).

Ainda que seja restrito aos limites da sanidade (ou do senso de "correto" de seus produtores), é por este ângulo de "pornô para patrícios" que o terceiro episódio parece ter impulsionado todo o drama em torno do relacionamento dos dois personagens. Despido dos choques de primeiro impacto e ressignificação dos anteriores, Cinquenta Tons de Liberdade parece enfim estar livre para abraçar a sua vertente B e executar sua história de dominações moralmente questionáveis e falsas libertações com a propriedade purista de um entretenimento de baixo escalão. E o tema é bastante apropriado considerando o público pagante: o casamento, este eterno signo do fim do amor.

A posição central que o matrimônio assume na história não deixa de ser adequada à franquia, que pautada do início pelas "leis" (haja aspas para definir isso) de submissão das relações amorosas estava fadada a encarar esta instituição como o palco final do que é uma grande crise de relacionamento. As forças de atração e repulsão que movem Anastasia em direção a Christian, antes voltadas exclusivamente à violência de seus impulsos sexuais, são transferidas aqui para dentro das dinâmicas de um casal recém-casado, tratando o sexo "selvagem" como alegoria maior para o caminho cheio de choques do amor após sua oficialização. Se a paixão fervente dos protagonistas começa intensa, emendando uma montagem musical atrás da outra - devem acontecer umas cinco no primeiro ato - para repassar com velocidade sua lua-de-mel, a narrativa desenvolvida por Foley aos poucos entrega a vida do casal de volta ao cotidiano e, com ele, os problemas da vida comum - e por "vida comum" há de se entender "dramas de gente rica".

Não existe maior temor a qualquer relação amorosa padronizada, afinal, que o conforto do matrimônio e a revelação da permanência de hábitos idiossincráticos individuais que ameaçam a unidade do casamento, e com Christian e Anastasia isto não será diferente. O lado divertido desta inevitável DR conjugal, porém, é a maneira como Cinquenta Tons de Liberdade busca materializar isso das formas mais lúdicas dentro de sua abordagem dominada pelo mal gosto: se os dois personagens brigam, a tentativa fracassada da esposa em animar o marido no banho sinaliza o afastamento; quando uma "interesseira" é afastada à força por Anastasia, uma perseguição de carros de luxo há de culminar em transa; após um pesadelo, nada melhor que um sexo com sorvete - uma cena, bom demarcar, dentro de uma fuga para as montanhas afim de "reavivar o romance". O ápice desta lógica é a subtrama criminal, que não só parece muitas vezes estar à parte de tudo na trama como vem para servir de clímax à aceitação de Christian do fim de sua "selvageria carnal" por conta do advento de um... bebê.

Se fosse realizado apenas sobre estes grandes choques conjugais trajados de thriller B, Cinquenta Tons de Liberdade talvez conseguisse se elevar ao entretenimento baixo ao qual tanto aspira. O que o priva de alcançar tamanha meta é que, ao invés de se focar no casal em caráter igualitário, este último episódio no fundo ainda mantém como temática maior a tal desconstrução do "monstro interior" de Christian assistida por Anastasia, que por conta deste processo passa por uma jornada de "libertação sexual" - incluindo aí o desfecho da saga - em nada verdadeira. Não deixa de ser o signo maior do conjunto de sinais de mal gosto espalhados por Foley ao longo da trama, mas entre montagens pop, relações sexuais melosas banhadas pelo luar e revelações de nomes à altura de sua cafonice (a mãe de Christian se chama Ella?Sério?), este talvez seja o mais insosso por conta de seu caráter restritivo.

Nota: 4/10

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Crítica: A Forma da Água

Guillermo del Toro vai aos Estados Unidos da Guerra Fria para mais um desfile de referências.

Por Pedro Strazza.

Embora só agora tenha se manifestado como tendência nas temporadas de premiações, não é de hoje que a indústria cinematográfica estadunidense vê a própria História como meio para a glorificação de sua existência. Nascida no espetáculo e criada sob uma classe de prestígio, Hollywood é desde os anos 50 um local consagrado na forte reputação da "terra onde os sonhos se realizam", uma espécie de Disneylândia da realidade que é capaz de transformar o cidadão comum em uma celebridade multimilionária com um estalar de dedos. Sob certo ângulo, o cinema hollywoodiano é um prosseguimento da lógica das promessas de riqueza da expansão para o Oeste (que não por um acaso foi tornado em um de seus cenários clássicos): se você está infeliz com sua vida, este lugar mágico sem dúvida há de solucionar todos os seus problemas.

É claro que esta noção não demora a se comprovar tão falsa quantos os cenários dos sets dos estúdios, e é em cima deste choque de expectativas que grande parte da produção atual voltada ao tema funciona. Os novos (e celebrados) produtos pautados na visão sobre a indústria do entretenimento, porém, se diferem de seus antecessores por trazerem um ponto de vista exterior a todas as engrenagens da máquina e reconhecerem em parte os atrativos do cinema hollywoodiano, feitos por cineastas que de um jeito ou de outro observam este problemático oásis do lado de fora. Se antes este tipo de obra era concebido por diretores com décadas de trabalho nos estúdios - o que gerava por sua vez todo tipo de comentário ácido, desde Crepúsculo dos Deuses à Pânico 3 - a nova onda ainda é relativamente jovem dentro de Hollywood e prefere muito mais abordar as contradições desta indústria da arte.

Isso acaba valendo também para produções mais distantes do subgênero como A Forma da Água, filme de Guillermo del Toro que se princípio parece desvinculada do tema logo mostra-se bastante afiliada a ele. O longa, centrado numa história de amor entre uma jovem faxineira muda (Sally Hawkins) e uma criatura aquática aos moldes do Monstro da Lagoa Negra de 1954 (Doug Jones),  não se ambienta na Los Angeles dos anos 60, mas carrega esta disparidade entre sonho e real impresso em cada penduricalho do cenário retrô de sua Baltimore e serve de temática central ao conto de horror trajado de romance aqui disposto.

O que o cineasta mexicano busca encenar no longa não deixa de ser mais uma de suas paradas fabulescas e reverencialistas, no qual ele desfila toda a sua paixão por um gênero e múltiplos filmes inseridos nestes. Tal qual os antecessores Círculo de Fogo e A Colina Escarlate, A Forma da Água se aproveita muito do alto orçamento para se banhar em todo o tipo de referência do diretor, que desta vez foca suas atenções sobre o glamour da Hollywood clássica e os terrores de monstro norte-americanos tradicionais. O curioso da produção em relação a este aspecto é a frontalidade com a qual del Toro assume suas paixões desta vez, uma espécie de exagero estilístico que chega ao cúmulo de colocar um cenário em cima de um cinema e parar a narrativa para reproduzir números musicais.

Se esta decisão pelo pictórico por um lado intensifica a propensão plástica do cinema do mexicano (uma noção que só se fortalece no casamento sempre equilibrado entre efeitos digitais e práticos da filmografia do cineasta), ela também ajuda a produção a elevar o seu jogo de contradições ao nível do devaneio. Estabelecido no contexto da crise da normalidade dos subúrbios americanos, o longa contradiz constantemente estes esforços da padronização perante a lógica de seus personagens, que de diferentes formas são reduzidos pelo próprio cenário onde tentam se inscrever, desde a protagonista muda de Hawkins aos arcos dos coadjuvantes representantes de minorias vividos por Octavia Spencer e Richard Jenkins - mesmo o vilão interpretado por Michael Shannon tem seu mal justificado pela pressão do sistema sob sua identidade tradicional.

O que A Forma da Água busca neste sentido é um contraste da propaganda do american way of life com a realidade da Guerra Fria, um ambiente que por um lado queria a aniquilação da "ameaça comunista" e por outro era muito restrito nas imposições familiares que impunha sobre seus cidadãos. Alinhado a esta narrativa de exageros, esta proposta termina sendo movida por impulsos emocionais no filme, que se em alguns momentos sabe como direcionar estas batidas a seu favor (a relação entre os personagens de Hawkins e Jenkins, por exemplo, rende uma dramaturgia forte) em outros mostra-se um tanto quanto perdido - em especial em relação a toda a paranoia do período, oscilando entre contexto e mecanismo de roteiro sem nunca se decidir.

É uma pena, então, que del Toro termine rendido à própria nostalgia de sua obra, pois ainda que estes conflitos do emocional sejam responsáveis pelos melhores momentos do longa eles são responsáveis por levá-lo a uma trilha sentimentalista capaz de fazer a produção tropeçar repetidas vezes no próprio raciocínio. No fim, este olhar "de fora" que o diretor traz ao filme soa como uma ampla apologia inocente a Hollywood no reconhecimento de seus problemas mas no contínuo (e insistente) fascínio por sua "magia", tal qual a criatura que a certa altura da trama é encontrada no cinema hipnotizado com a tela gigante da sala e as histórias contadas nela.

Nota: 7/10

sábado, 27 de janeiro de 2018

Crítica: The Post - A Guerra Secreta

Spielberg usa de seu revisionismo cinematográfico para fazer caricatura explícita da realidade política americana.

Por Pedro Strazza.

Tem sido um exercício interessante acompanhar a carreira do celebrado e multipremiado Steven Spielberg nestes últimos anos. Pelo menos desde 2011 com Cavalo de Guerra, o homem que foi um dos grandes responsáveis pela formatação atual da indústria hollywoodiana encontra-se em uma fase tardia de revisionismo de seu cinema, voltando às raízes para uma investigação de sua própria formação como cineasta sob diferentes ângulos e perspectivas. Depois de sua adaptação hiperativa de As Aventuras de Tintim, o diretor vem contemplando trabalhos de abordagens mais tradicionais ou que usam da nostalgia como elemento temático, caso de O Bom Gigante Amigo e muito provavelmente do vindouro Jogador Número 1, uma história de fantasia virtual que retorna aos itens e temas dos anos 80.

É dos dramas tradicionalistas e de forma calculada, porém, que Spielberg vem ganhando maior reconhecimento nos anos 10, uma tendência anunciada por Cavalo de Guerra e continuada por Lincoln e Ponte dos Espiões. As quatro produções de época, indicadas a múltiplos Oscar (incluindo Melhor Filme), retomam cada uma os pilares da formação cinéfila do cineasta, servindo a ele tanto como um ato de reverência a diretores que o influenciaram (Ford, Capra, Wyler) quanto para exercitar aquilo que o seu cinema dito humanista apreendeu deles. É nos dois últimos longas, inclusive, que se percebe com maior clareza esta tendência de Spielberg à incorporação de seus mestres, algo a ser repetido agora com este The Post - A Guerra Secreta.

Mas se em Lincoln e Ponte dos Espiões o diretor mantinha o olhar revisionista como mantra maior e único de seu trabalho, a versão cinematográfica do vazamentos dos documentos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã passa por urgências que parecem reanimar seu lado mais jovial, do moleque que sempre viveu no interior de seus blockbusters aventurescos. Seja por fatores externos (a bastante reportada "pressa" com a qual ele produziu The Post afim de não perder o timing político) ou internos (a própria dinâmica da história se nutre de uma ansiedade narrativa maior), Spielberg parece enfim alinhar com The Post as duas facetas maiores de sua carreira - a do homem dos grandes espetáculos circenses e a do cineasta responsável pelos filmes ditos "de prestígio" - sob uma mesma pauta.

O longa segue a toada, porém, desta sua última sequência específica de trabalhos, partindo novamente da temática do cidadão comum que se descobre protagonista fundamental de uma história maior. Quem ocupa esta posição no caso é Katharine Graham (Mery Streep), dona do The Washington Post que precisa decidir se deve aprovar ou não a publicação de segredos de Estado presentes nos relatórios do amigo Robert McNamara (Bruce Greenwood) em seu jornal num momento em que se encontra acuada pela postura agressiva do governo Nixon e os acionistas de sua própria empresa. Do outro lado da moeda, seu editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks) e seus repórteres urgem a liberação das informações, num esforço que tanto coloca em risco suas carreiras como busca a defesa da autonomia da imprensa frente a um poder autoritário.

Este dilema de se decidir entre os privilégios da elite e a ética da verdade parte de um movimento inicial um tanto covarde do roteiro de abordar Graham como cidadã comum (seria o mesmo que tomar o rei como súdito de seu reino, pois a publisher sempre foi atrelada aos círculos sociais superiores e não a feminista a ser empoderada tão vendida pelo filme), mas a falta de uma estruturação melhor é só um dos vários indícios de que o que está se vendo na telona é o Spielberg da juventude operando o Spielberg maduro. Embora canalize aqui muito do cinema de William Wyler (em especial sua predisposição a abordar questões morais) para conduzir a história, o diretor mostra-se muito mais interessado na dinâmica narrativa dos fatos, usando dos diversos impasses entre advogados e jornalistas para realizar longos planos focados nestes pequenos enfrentamentos entre os interesses corporativos e públicos. Os paralelos da trama com a realidade política atual dos Estados Unidos surgem como claros interesses imediatos, e Spielberg se aproveita dos próprios objetivos para dar corpo a uma dramaturgia de câmara hiperbolizada, que dita as cenas e conflitos pela emergência da publicação do jornal por meio de longas sequências de diálogos e movimentos de câmera cada vez mais intrusivos no cenário.

A "pressa" do diretor às vezes soa um tanto destrambelhada e falta polir algumas arestas, mas esta lógica que preza pela grandiloquência crescente só fortalece as pretensões do longa. Ao elenco, estrelado da cabeça aos pés (os atores são coadjuvantes são quase um "procure o protagonista de seu seriado preferido"), resta trabalhar este raciocínio sob um enfoque quase maniqueísta de relações, uma noção que só acrescenta uma camada extra ao já ácido humor inerente a toda essa narrativa disforme e determinada do filme.

Spielberg pelo visto aprendeu com Lincoln que o peso da dramaturgia clássica é encarado hoje com ironia, pois a caricatura impera como comandante maior de The Post e impera para provocar fortes reações no público. Seja pelo sotaque grosseiro de Hanks como Bradlee ou naa hesitação performática de Streep, sempre traduzida na manipulação dos óculos de sua Graham, o drama funciona pelo aspecto passional quase exclusivamente - não à toa, a trilha de John Williams parece se impor no longa à partir da descoberta dos documentos pela redação -, uma postura que dentro da sátira e dos paralelos entre filme e realidade só pode se traduzir em uma abordagem um tanto mais cínica da trama - o que não deixa de ser um ato curioso porém inevitável por parte do diretor, defensor eterno das instituições que vê agora elas serem tomadas pelos tipos mais desprezíveis.

Nota: 7/10

domingo, 31 de dezembro de 2017

O Cinema em 2017: Melhores do Ano

Os melhores filmes do ano e algumas considerações finais sobre o ciclo que está para se encerrar.

Por Pedro Strazza.

Se 2017 foi o ano das tensões, com verdadeiros choques acontecendo em todos os campos do pensar e seções do cotidiano, sem dúvida o cinema não se concebeu como exceção. A lógica do enfrentamento prevaleceu desde os primeiros meses do ano e manteve-se como força motora do debate no segundo semestre, nunca perdendo o passo enquanto todo tipo de conflito se instaurava envolvendo a sétima arte.

Foi um ano que começou com o Oscar empreendendo mil e uma reviravoltas até o ápice com a entrega equivocada do prêmio de Melhor Filme a La La Land - Cantando Estações ao invés de Moonlight - Sob a Luz do Luar e que terminou embalado na onda de denúncias de assediadores e estupradores em Hollywood, levando para o além as carreiras de homens antes poderosos na indústria do entretenimento estadunidense como Harvey Weinstein e Kevin Spacey. 2017 foi o ano também do questionamento da representação das minorias no cinema, com Vazante e Zama se tornando centro de uma briga explosiva no meio do Festival de Brasília e Detroit em Rebelião sendo duramente criticado pelos meios de comunicação americanos por sua representação do negro.

No Festival de Cannes, estourou a briga do streaming com o circuito exibidor, com o festival instituindo a regra de só filmes com garantia de exibição no circuito comercial francês poderem participar da competição pela Palma de Ouro. O site agremiador de notas Rotten Tomatoes, enquanto isso, se viu no centro de uma polêmica gigantesca envolvendo a sua classificação dos filmes como apenas ruins e ótimos, uma dicotomia que terminou 2017 sob julgamento severo conforme foram reveladas manobras de grupos conservadores para derrubar a nota do público do novo Star Wars apenas porque o filme ameaçava uma suposta ordem natural das coisas.

Nem mesmo a produção cinematográfica do ano escapou deste ar de confrontação, pois as já acaloradas discussões entre cinéfilos foram levadas à temperatura máxima com a estreia de Mãe! e uma divisão radical entre aqueles que odiavam e os que amavam o novo filme de Darren Aronofsky. E no fim do ano, quando tudo parecia se acalmar, o debate sobre a validade do retorno de Twin Peaks como elegível às listas de fim de ano elevou os ânimos das pessoas mais uma vez.

Chegou-se até a estourar um confronto físico em uma das sessões da 41° Mostra de São Paulo, com direito a presença da polícia na sala de cinema!

Foi um clima de caos genuíno que se instalou no terreno da sétima arte, um que não se via manifestar desta forma já há muito tempo. Sob este clima de tensões e polarizações, deste "ame ou odeie" perigoso, o debate nunca foi tão importante para manter em vista o posicionamento de seus arguidores, uma determinação de espaços que passa longe da questão do "você está do lado de lá ou de cá?" e que reafirma a nossa humanidade perante os problemas do mundo. Nós podemos errar, mas é preciso reconhecer a validade de nosso erros e resolver o como proceder à partir disso.

É necessário esclarecer todo este cenário antes de partirmos para mais um Melhores do Ano porque esta lista no fim das contas mostra ser regida inconscientemente a este estado instável do mundo e do cinema. Cada uma das escolhas que compõe os 25 melhores filmes de 2017 mostra ter sido impactada por este tremores do debate, refletindo uma ou duas ou várias (ou nenhuma, é possível) destas questões em seu cerne estrutural. Foi um ano cheio de reviravoltas e de mudanças de julgamento, passos que tornam surpreendente algumas das produções presentes na lista.

Antes de prosseguirmos, algumas observações:

- Mantendo o que foi estabelecido em 2015, a lista deste ano põe em destaque 25 produções de forma a abranger um número significativo de filmes que ao meu ver marcaram este 2017 que se vai;

- O critério adotado para definir se este ou aquele filme entrou na lista, porém, mudou: agora, além dos filmes que estrearam no circuito exibidor das salas de cinema brasileiras e que foram produzidos nos últimos cinco anos, passam a contar também as produções originais e de outros estúdios deste ano que a Netflix colocou em seu catálogo. É uma medida provisória para dar conta de incluir esses produtos cinematográficos na lista, pois o canal de streaming indubitavelmente se tornou também um distribuidor chave da produção cinematográfica do ano aos olhos do público, lançando filmes que poderiam muito bem ter passado nas telonas;

- Dito isso, os filmes do catálogo da Netflix incluídos no ranking são: "A Babá", "Bright", "Creep 2", "Death Note", "Five Came Back", "Jim and Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton", "Jogo Perigoso", "Os Meyerowitz - Família Não se Escolhe", "Nossas Noites", "Okja", "War Machine";

- Mantendo o legado de 2015 em perspectiva, há algumas boas notícias, ainda que pequenas. Depois de ocuparem dois espaços na lista do ano passado, o número de diretoras presentes no Melhores do Ano cresceu para três, indo para sete se considerar o top 50; no campo do protagonismo feminino, porém, o número diminuiu para dez.

Posto tudo isso, vamos à lista. MAS ANTES há de se fazer uma pequena (e ao mesmo tempo estratosférica) menção honrosa:

Hors-Concours: Twin Peaks - The Return, de David Lynch

O retorno de Twin Peaks em 2017 tem absolutamente todos os motivos para não estar no Melhores do Ano (ele não é um filme propriamente dito, foi desenvolvido para a TV e não foi exibido no circuito de exibição brasileiro ou produzido pela Netflix, só para citar alguns exemplos), mas ao mesmo tempo seria um crime não destacar de alguma maneira a enlouquecedora produção audiovisual de David Lynch. Depois de se "aposentar" do cinema em 2006 e lutar por mais de um ano com o Showtime para obter total controle criativo sobre o produto final, o diretor entregou junto do roteirista Mark Frost uma das obras audiovisuais mais cabulosas e revolucionárias da última década. Twin Peaks - The Return vai além do mero revival da série homônima do começo dos anos 90 e transcende até a significação de série ou filme; é uma obra-prima, que serve tanto como retrato surrealista da decadência estadunidense, uma extrapolação sensorial quase apocalíptica do sentimento pessimista que tomou de assalto o novo século e suas gerações e um avanço notável da linguagem cinematográfica e da percepção que se tem sobre a televisão. Independente da polêmica discussão que se deu sobre The Return ser uma série ou um filme neste fim de ano, um fato permanece incontestável: depois destes dezoito episódios, nada no meio audiovisual permanecerá o mesmo.

Posto isso, vamos aos Melhores do Ano:

25) Em Ritmo de Fuga

Em Ritmo de Fuga é o filme mais metódico da carreira de Edgar Wright até o momento. Se em seus outros (ótimos) trabalhos o diretor se entregava a um caos quase espetacular regido por suas referências e montagem extremamente dinâmica, aqui ele reduz o hiperdinamismo a uma velocidade mais adequada para fazer uma história de assalto pautada pelo ritmo, um musical nada ortodoxo onde o balé acontece com os carros nas diversas perseguições, conflitos e tiroteios do roteiro. É uma proposta até simples que em outros casos poderia dar em uma produção bem contida em suas pretensões, mas a maneira como Wright a executa pensando em suas referências culturais torna o filme pulsante em seus gestos e caprichos estéticos. É um banho de juventude sincero, que faz menção a longas de perseguição de carro do final dos anos 60 e Monstros S.A. com a mesma paixão e claramente se diverte com isso.

24) Resident Evil 6 - O Capítulo Final

Paul W.S. Anderson já havia chegado a um glorioso ápice de sua carreira dentro da franquia Resident Evil com o quinto capítulo, onde ele desconstruiu seu cinema a seus valores essenciais e mais puros. Com este O Capítulo Final, que como bem indica o título serve por enquanto de fim à série, o cineasta buscou impulsionar sua metodologia a novos rumos, aliando-se ao montador Doobie White afim de alavancar sua estrutura labiríntica e de inspirações nos games para um status hiperdinamizado. Justapondo esta narrativa com o seu retorno à lógica de ação dentro do horror claustrofóbico e alimentado por uma dramaturgia responsável por dar liga a toda essa loucura, Anderson faz de Resident Evil 6 um trabalho de ambições curiosas mas que nunca abandona a identidade formada por ele para a franquia, ditando pelo movimento relações singelas entre o perfeito e o imperfeito dentro do combate final entre Alice e a corporação Umbrella.

23) A Trama

Quase dez anos depois de ganhar Cannes com seu Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet retorna uma vez mais aos seus grupos de jovens com A Trama, filme que também traz em suas estranhas alguns reflexos dos rumos políticos da França de hoje. Mas ainda que o palco esteja armado para um confronto de posições entre uma professora liberal e um aluno seduzido por movimentos ultra-conservadores no meio de um workshop, o longa evita o caminho fácil da alegorização de seus tempos; o interesse maior de Cantet está no descompasso geracional entre seus personagens, que aos poucos se assume como um diagnóstico subentendido desta crise ideológica vivida pelo país. É um estudo difícil, mas que rende discussões fascinantes ao diretor e seu público.

22) Paterson

Depois de adentrar pela fragilidade da imortalidade em 2014 com Amantes Eternos, o "papa" do cinema independente estadunidense Jim Jarmusch volta seus olhos ao ordinário com Paterson. Quase uma elegia ao homem comum, o longa protagonizado por Adam Driver é outro trabalho do diretor que está em busca de signos capazes de curar as feridas da sociedade norte-americana nesses anos posteriores à crise de 2008, encontrando-os agora nos pequenos hábitos e rotinas a serem eternizados pelas delicadas palavras de seu protagonista, um motorista de ônibus que é também poeta. Dotado de certo aspecto onírico, Paterson é sincero em seu otimismo acerca da superação dos pecados americanos.

21) Logan Lucky - Roubo em Família

Outro cineasta que resolveu ir atrás de soluções ao sentimento pós-crise dos Estados Unidos (e que curiosamente também contou com a ajuda de Adam Driver) foi Steven Soderbergh, de volta ao cinema depois de uma breve aposentadoria. Mas se Paterson busca a cura na rotina, Logan Lucky vai de fininho se aliar aos laços comunitários enquanto se faz como (e é) um dos trabalhos mais despretensiosos de seu diretor. Dentro desta lógica de desambição, porém, Soderbergh encontra uma purgação de pessimismo na simpatia que desperta com e entre seus personagens, incluindo aí a belíssima cena do concurso de talentos do colégio com a filha do personagem de Channing Tatum cantando John Denver, esse ícone americano que frequentou o cinema assiduamente em 2017.

20) Personal Shopper

Misto de suspense de perseguição com drama de luto, o novo filme de Olivier Assayas é no mínimo estranho em suas pretensões. Capitaneado por uma forte atuação de Kristen Stewart, a produção é uma salada de narrativas que muitas vezes soa como um mero exercício de intercalação de gêneros inusitado, mas é por meio das idas e vindas entre o sobrenatural e a realidade que o longa aos poucos vai estabelecendo relações de sofrimento que se complementam, paralelos entre as duas histórias contadas que no fim se revelam assustadoramente muito similares em suas particularidades. Personal Shopper é mais um desses filmes recentes que tratam das feridas do emocional como impossíveis de serem superadas, mas é a maneira como ele processa a dor tradicional a este tipo de obra que chama tanto a atenção para si.

19) Divinas Divas

Da safra de documentários que passaram este ano pelos cinemas brasileiros e se mostraram dispostos a realizar o seu próprio retrato singelo de um grupo muito específico, o Divinas Divas de Leandra Leal foi talvez aquele que tenha sido mais certeiro. E isso não ocorre apenas por conta da grande simpatia de suas personagens, parte da primeira geração de artistas travestis do país: ligada de maneira íntima à história dessas pessoas graças ao avô, que comandava um dos teatros onde essas atrizes tinham a possibilidade de trabalhar, Leal realiza um trabalho de intimidades muito difícil, colocando o seu espectador em contato frontal com suas entrevistadas ao mesmo tempo que evita qualquer tipo de auto-congratulação (para não dizer puxação de saco) sobre sua família. Dotado de uma ternura estimulante, o filme faz do seu palco uma homenagem sincera a essas artistas, donas de uma trajetória única dentro da narrativa de nosso próprio país.

18) Silêncio

Há décadas em planejamento, a adaptação do livro de Shusaku Endo pelas mãos de Martin Scorsese enfim chegou às telonas em 2017 e entregou toda a potência que prometia. Invertendo o direcionamento da obra literária (se lá era a temática da religião que impulsionava uma análise do contexto histórico, aqui é o contrário), o celebrado cineasta realiza mais um de suas produções sobre as instabilidades da fé, se alimentando das dúvidas de seu protagonista que entra numa verdadeira espiral de sofrimento capaz de fazê-lo questionar suas convicções. Mas se em outros trabalhos similares do diretor mirava-se uma reafirmação de valores, em Silêncio Scorsese se rende à indeterminação como moral final, uma atitude que potencializa seu cinema a novas alturas.

17) La La Land - Cantando Estações

A princípio uma grande homenagem ao gênero do musical e uma carta de amor asséptica a Los Angeles, o suave La La Land - Cantando Estações a bem da verdade funciona pela reafirmação de antigos valores que realiza em um cenário contemporâneo. Em meio ao seu desfile de cores e danças, o filme de Damien Chazelle parece ressuscitar o antigo sonho americano dentro da lógica individualista e extremamente egoísta dos tempos atuais, uma atitude que se por um lado gerou todo tipo de posicionamento de seu público (um efeito responsável por tirar o Oscar de Melhor Filme de suas mãos nos segundos finais do segundo tempo) também reflete as contradições por trás das consequências da busca pelo sucesso. É de angústias e questões mal resolvidas, inclusive, que o número final do filme se baseia, executado sob uma forma onírica destinada a se dissipar em um último gesto de adeus.

16) Mulheres do Século 20

Mulheres do Século 20 é um literal estudo dos choques geracionais, uma literalidade presente até na definição "literal" com sua bibliografia adjacente que pulsa na tela em determinados momentos. Ainda que o protagonista seja um garoto, o verdadeiro interesse do diretor Mike Mills está no contato das diferentes mulheres em torno deste homem, uma atitude que parece desvendar a mitologia do feminino que suporta o masculino mas no fundo revela as transformações de um século pela perspectiva delas. Annette Bening, Greta Gerwig e Elle Fanning estão fantásticas e as cenas de conflito ditadas por elas rendem momentos dignos do sublime - em especial a maravilhosa cena do jantar e o "menstruação".

15) Uma Mulher Fantástica

Novo produto de um certo realismo mágico do cinema latino-americano, o Uma Mulher Fantástica de Sebastián Lelio aposta no poder da metáfora para construir uma história de opressão por pequenos atos. É da história de luto e enfrentamento da transexual Marina (Daniela Vega, em atuação espetacular) que o cineasta chileno constrói as mais belas cenas alegóricas, num esforço de transmissão de dor ao seu espectador que passa por todo tipo de crise de identidade e do eu que acomete sua protagonista. Ainda que exista nessa metodologia um inchaço subsequente, Lelio mostra-se muito consciente das consequências de suas ações e as utiliza a seu próprio favor, uma medida que só potencializa o lado sensorial - e, portanto, a beleza - de sua obra.

14) Melhores Amigos

Se o Columbus de Kogonada foi o filme de 2017 que mais diretamente aludiu ao cinema de Yasujirô Ozu, Melhores Amigos foi aquele que soube melhor do que ninguém como incorporar os valores intimistas do mestre japonês a sua narrativa. A pequena produção de Ira Sachs realiza um estudo duro sobre o desfazimento de relações comunitárias sob a sombra do pós-crise, mas o faz dentro de uma lógica intimista e familiar que mergulha o espectador dentro da história e o torna senciente de todos os efeitos doloridos sentidos por seus personagens ao longo da narrativa. É uma desconstrução de valores bela, ainda que dominada pelo sabor amargo. 

13) Detroit em Rebelião

A América do Medo. Kathryn Bigelow seguiu sua fase de filmes sociais em 2017 com uma reencenação visceral e beirando ao exploitation da tragédia no hotel Algiers durante as revoltas de Detroit de 1967. A câmera da diretora não se interessa pela violência, porém, para entender o sofrimento das vítimas de racismo envolvidas no processo, mas sim para tratar das forças policiais que cercam e ditam os rumos daquela noite do mesmo jeito que o fazem nos dias de hoje. Da caracterização dos oficiais como verdadeiras crianças à atuação memorável de Will Poulter (quem diria?), Detroit em Rebelião é um filme de estrutura de cálice que não hesita em se debruçar sobre a brutalidade policial, aproveitando-se da claustrofobia intrínseca do cenário da tragédia que captura para tornar palpável o verdadeiro mal por trás dessas situações. E tudo se resume ao terror no olhar do personagem de Algee Smith conforme ele conversa com o padre sobre encontrar o refúgio final contra todo o seu enlouquecimento.

12) Okja

Um dos filmes que causou polêmica no Festival de Cannes deste ano, Okja é mais uma fábula de Bong Joon-ho que combina horror e conto infantil de forma natural. Mas ainda que a produção tenha chamado a atenção do público sobre sua mensagem contra a violência feitas aos animais na indústria dos alimentos, o filme traz emoções palpáveis na narrativa tocante que faz em cima do que é basicamente uma história de perda da inocência. É um lado da trama a ser percebido nos pequenos atos de ingenuidade como a perseguição no shopping ou o ato final da pequena garota protagonista interpretada por Ahn Seo-hyun para evitar que o rebelde de Paul Dano machuque seu animal de estimação no desfile, cenas que sem dúvida servem de grandes ápices para uma produção pautada pelo gesto dramático.

11) Star Wars - Os Últimos Jedi

O oitavo capítulo da saga Star Wars dividiu o público por suas decisões ousadas em relação à narrativa clássica da série, mas é justo por essa abordagem do eterno confronto maniqueísta da história que Os Últimos Jedi se destaca. Rian Johnson coloca em xeque na trama o posicionamento de diversos personagens, mas faz isso para ao final reforçar os pólos de bem e mal e evidenciar o quão impossível é a resolução de qualquer conciliação entre os dois lados, uma atitude que não só traz paralelos com a realidade atual (é uma problematização da polarização que não destitui a validade das posições) mas que reforça o signo de rebeldia que é vital à franquia desde Uma Nova Esperança. O episódio oito se destaca também por seu terceiro ato como um todo: todos os grandes momentos se enfileiram para entregar uma experiência de espetáculo visual digna das grandes audiências que Star Wars agremia, capaz de superar inclusive os problemas do inchaço narrativo que circundam a estrutura do longa. É uma obra tão sobrenatural quanto os caminhos da Força.

10) Na Praia à Noite Sozinha

Hong Sang-soo continua realizando filmes sobre a farsa por trás da reputação intocável dos grandes autores, mas em Na Praia à Noite Sozinha essa narrativa é levada ao limite. O diretor sul-coreano faz aqui uma obra de cunho metalinguístico, implodindo a sua própria figura enquanto filma a personagem de Kim Min-hee (sua namorada atualmente) sofrendo os efeitos de uma relação que ela teve com um cineasta. O humor de Na Praia à Noite Sozinha é ácido e mira a garganta, não deixando sobreviventes enquanto realiza cenas e cenas de longos embates entres seus personagens à partir dos zooms característicos de Sang-soo, que mantém um olhar pérfido sobre o próprio eu.

9) Bom Comportamento

Os irmãos Benny e Josh Safdie tomaram o ano de assalto com este thriller protagonizado por Robert Pattinson, cujas inspirações bebem principalmente da urgência do cinema de Sidney Lumet e Walter Hill. Situado em cenários dominados pelas classes pobres da sociedade estadunidense, o longa coloca em questão o privilégio branco dentro de uma estrutura pautada pela adrenalina do momento, da correria desenfreada de seus personagens atrás de suas libertações da autoridade. Pattinson entrega uma de suas maiores atuações até o momento, praticamente se tornando um camaleão perante a estética "suja" da câmera dos Safdie, se transformando a cada ambiente e ferrando quem precisar para alcançar os seus (pequenos) objetivos.

8) Manchester à Beira-Mar

Se o objetivo era derrubar no chão o emocional do público, Kenneth Lonergan sem dúvida alcançou a meta com seu Manchester à Beira-Mar. Pautada pelo arrependimento e a dor, o longa trabalha o drama de situações que já aconteceram há muito tempo, mas que se recusam a deixar o semblante de seus personagens, reunidos em torno de uma tragédia que destruiu as suas fundações familiares. Casey Affleck se torna neste contexto uma espécie de anjo da morte, um espírito condenado ao sofrimento pelo resto dos seus dias que habita os locais como um gigantesca penumbra, mas a cena que marca o filme a ferro em brasa é, claro, o desabafo da personagem de Michelle Williams para este seu ex-marido.

7) Aliados

Passou despercebido pelo circuito (e se não fosse a indicação ao Oscar não teria chegado mesmo), mas Aliados é talvez o maior trabalho de Robert Zemeckis nos últimos anos. O diretor enfim encontra um veículo capaz de acomodar suas relações entre efeitos visuais digitais com a dramaturgia, trabalhando este romance entre espiões sob o aspecto da dubiedade do olhar e confundindo seu espectador sobre o que é real ou não nesta narrativa. Contando com um Brad Pitt com trejeitos de Humphrey Bogart e uma Marion Cotillard disposta a assumir o tom duvidoso da trama a sua personagem, o longa trafega entre o romance e o suspense com habilidade e se utiliza muito bem do digital como elemento cênico, tudo isso consagrado na belíssima cena da tempestade de areia.

6) John Wick - Um Novo Dia Para Matar

Outro filme que soube utilizar o visual de elemento dramatúrgico como ninguém foi a explosiva continuação de De Volta ao Jogo. Pautado cena após cena pela ação, John Wick - Um Novo Dia Para Matar praticamente se faz como balé de tiros e socos enquanto vai desestabilizando os seus espaços de encenação, transformando a cidade num gigantesco lar de assassinos destinado ao descontrole. O clímax na exposição de espelhos do museu é daquelas sequências de ação tão memoráveis quanto a performance física de Keanu Reeves, o bailarino principal deste espetáculo circense cuja missão de vida parece ser a de provar ao seu espectador o quão frágil é a estrutura do palco onde atua.

5) Corra!

É difícil imaginar nos dias de hoje um debute na direção tão certeiro quanto o de Jordan Peele. O comediante combina humor e horror de maneira sublime num filme que se propõe a uma inversão de perspectiva pautada tanto pelo objetivo (o negro que vai visitar a família da namorada branca) quanto subjetivo. Corra! é um exercício fabuloso de tensão aliviado pelo terror e a comédia, um que não hesita em colocar o dedo na ferida e mergulhar seu espectador em uma espiral de temor pela própria segurança e fazê-lo entender de uma vez por todas o quão particular é o drama de ser negro num país que nunca conseguiu se livrar por completo do racismo. Como bem prova o crescimento da produção na corrida pelo Oscar, este é um filme que nasce grande e cresce ainda mais com o tempo. 

4) A Qualquer Custo

Outro grande diagnóstico dos Estados Unidos de hoje feito sob a chave da aparente despretensão do filme de gênero foi o A Qualquer Custo de David Mackenzie. Se Detroit em Rebelião e Corra! trabalham sumariamente com uma América do Medo, o roteiro de Taylor Sheridan aborda a América do Ódio, uma que despreza o próximo na mesma intensidade que se preocupa só com a segurança de si mesmo. A história de dois irmãos que roubam do sistema para se salvar dele é um faroeste de cenários representativos deste estado atual do país, sendo capaz de colocar os filhos do branco colonizador e do índio para discutir o país que herdaram de forma direta e franca. É desde já um dos grandes trabalhos cinematográficos destinados a compreender este clima de disparidades, esta raiva interior que vem ditando os rumos do país nos últimos anos.

3) Martírio

Dos filmes incontornáveis de 2017, Martírio é aquele que é mais significativo para o brasileiro, tanto como cinema quanto debate político-social. O longo documentário de Vincent Carelli sobre a luta das tribos Guarani-Kaiowá para sobreviver é daquelas produções cinematográficas feitas para traumatizar, algo alcançado na grande investigação histórica que seu diretor realiza sobre a opressão do índio no país e também no relato do próprio cineasta sobre os eventos que testemunhou e gravou com essas organizações. Não existe espaço para reconciliações aqui, apenas a luta pela salvação de uma população que já sofreu demais nas mãos da sociedade, do governo e das organizações privadas. Do cinema político, Martírio é a contribuição maior do ano que passou.

2) Z - A Cidade Perdida

James Gray retornou às telonas em 2017 com mais um gigantesco conto cinematográfico de alicerces clássicos. Depois de reencenar a grande saga americana em Era Uma Vez em Nova York, o diretor faz de Z - A Cidade Perdida a sua épica narrativa do descobridor, um retrato sublime da busca eterna do ser humano pelo desconhecido à partir da história real de Percy Fawcett. Gray transforma o explorador aqui na metáfora essencial de sua narrativa, que dá conta de escancarar ao espectador o incômodo inscrito no acomodamento e a paixão subentendida pela descoberta de novos caminhos. Se Z é um filme que ignora por completo a questão da colonização, é porque lhe interessa mais a compreeensão final do que basta à figura protagonista destas histórias, um sentimento sacramentado no final apoteótico em sua serenidade, deslumbramento e - acima de tudo - paz interior.

Mas um filme conseguiu ir além disso.

1) Toni Erdmann

Não são muitos os motivos que levam Toni Erdmann a ser o grande filme de 2017, mas esses poucos alicerces são poderosos demais para se deixar passar desapercebido a produção. Porque mesmo que o novo trabalho de Maren Ade seja pautado em cima de questões muito particulares da realidade europeia (ao qual ele se encontra muito disposto a desestabilizar pelo humor), esse confronto filmado pela diretora está muito inscrito na realidade do mundo de hoje: o descompasso europeu entre a herança ideológica do continente e a frieza calculista de sua postura com os assuntos mais delicados não deixa de emular o que é visto todos os dias nos outros cantos do planeta, uma decrepitude de relações que inevitavelmente atinge os espaços habitados. 

Resta então ao filme e seu protagonista de mesmo nome cumprir esta difícil missão de reconciliação, uma que se assume na produção como o reencontro emocional de pai e filha mas que em outros cenários poderia ser qualquer outra relação de amizade ou familiar (e fica aí a dica para o remake americano). Este processo de cura, de purgação dos pecados responsáveis pelas fraturas emocionais no fundo traz à tona este eterno combate do humano imperfeito contra a máquina que não erra, algo que talvez só o vexame gerado pelo humor pode servir de solução final para nossa vitória enquanto comunidade. E Ade segue essa narrativa à risca em Toni Erdmann, encontrando em cada gesto de humanidade (incluindo o da foto acima) um grande triunfo do emocional.

É um filme gigante, de fato.

Ranking final


A seguir, o ranking de cinema de 2017 do O Nerd Contra-Ataca:
  1. Toni Erdmann (10/10)
  2. Z - A Cidade Perdida (9/10)
  3. Martírio
  4. A Qualquer Custo
  5. Corra! (8/10)
  6. John Wick - Um Novo Dia Para Matar 
  7. Aliados
  8. Manchester à Beira-Mar
  9. Bom Comportamento
  10. Na Praia à Noite Sozinha
  11. Star Wars - Os Últimos Jedi
  12. Okja
  13. Detroit em Rebelião
  14. Melhores Amigos
  15. Uma Mulher Fantástica
  16. Mulheres do Século 20
  17. La La Land - Cantando Estações
  18. Silêncio
  19. Divinas Divas
  20. Personal Shopper (7/10)
  21. Logan Lucky - Roubo em Família
  22. Paterson
  23. A Trama
  24. Resident Evil 6 - O Capítulo Final
  25. Em Ritmo de Fuga
  26. O Castelo de Vidro
  27. Fragmentado
  28. Moonlight - Sob a Luz do Luar
  29. Até o Último Homem
  30. Roda Gigante
  31. Na Vertical
  32. Beduíno
  33. Minha Vida de Abobrinha
  34. Planeta dos Macacos - A Guerra
  35. Moana - Um Mar de Aventuras
  36. Eu Não Sou Seu Negro
  37. Guardiões da Galáxia Vol. 2
  38. Professor Marston e as Mulheres-Maravilha
  39. Perdidos em Paris
  40. Corpo Elétrico
  41. O Estranho que Nós Amamos
  42. A Criada
  43. Eles Só Usam Black Tie
  44. Logan
  45. A Garota Desconhecida
  46. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
  47. Columbus (6/10)
  48. Além das Palavras
  49. Mulher-Maravilha
  50. Creep 2
  51. Paris Pode Esperar
  52. Doentes de Amor
  53. Lion - Uma Jornada Para Casa
  54. Lumière! A Aventura Começa
  55. David Lynch - A Vida de um Artista
  56. Era o Hotel Cambridge
  57. Lucky
  58. Five Came Back
  59. Jogo Perigoso
  60. Una
  61. Rodin
  62. Pendular
  63. Nossas Noites
  64. Blade Runner 2049
  65. Eu, Daniel Blake
  66. Estrelas Além do Tempo
  67. Kong - Ilha da Caveira
  68. Jackie
  69. Homem-Aranha - De Volta ao Lar
  70. A Tartaruga Vermelha
  71. O Filme da Minha Vida
  72. Velozes e Furiosos 8
  73. Lego Batman - O Filme
  74. Cartas da Guerra
  75. Vermelho Russo
  76. De Canção em Canção (5/10)
  77. Antes que Eu Vá
  78. O Dia do Atentado
  79. It - A Coisa
  80. O Sequestro
  81. Os Meyerowitz - Família Não se Escolhe
  82. Terra Selvagem
  83. A Babá
  84. Vida
  85. Dunkirk
  86. T2 - Trainspotting
  87. Bingo - O Rei das Manhãs
  88. Jogos Mortais - Jigsaw
  89. A Morte te dá Parabéns
  90. Borg vs McEnroe
  91. Jim and Andy: The Great Beyond - Featuring a Very Special , Contractually Obligated Mention of Tony Clifton
  92. A Batalha dos Sexos
  93. Na Mira do Atirador
  94. Joaquim
  95. Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar
  96. A Bela e a Fera
  97. A Grande Muralha
  98. Fome de Poder
  99. Manifesto
  100. Elon Não Acredita na Morte
  101. Com Amor, Van Gogh
  102. A Cura (4/10)
  103. Atômica
  104. Um Limite Entre Nós
  105. O Círculo
  106. Feito na América
  107. Vazante
  108. Assassinato no Expresso do Oriente
  109. Como Nossos Pais
  110. O Apartamento
  111. Carros 3
  112. Annabelle 2 - A Criação do Mal
  113. O Rei do Show
  114. Kingsman - O Círculo Dourado
  115. Pitanga
  116. War Machine
  117. Amor, Paris e Cinema
  118. Liga da Justiça
  119. Alien: Covenant
  120. Assassin's Creed
  121. O Rastro
  122. Transformers - O Último Cavaleiro
  123. Colossal
  124. Uma Razão Para Viver
  125. Cinquenta Tons Mais Escuros
  126. A Lei da Noite
  127. Baywatch - S.O.S. Malibu
  128. A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell
  129. Sete Minutos Depois da Meia-Noite
  130. Um Instante de Amor
  131. Um Homem Chamado Ove
  132. Death Note (3/10)
  133. Power Rangers
  134. Bright
  135. Boneco de Neve
  136. Cães Selvagens
  137. Ao Cair da Noite
  138. Mãe!
  139. Suburbicon - Bem Vindos ao Paraíso
  140. Rei Arthur - A Lenda da Espada
  141. O Chamado 3
  142. Passageiros
  143. A Múmia
  144. Beleza Oculta

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