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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O Artist's Alley da CCXP 2016 (Parte 1)

Uma amostra das HQs e autores presentes na Comic Con Experience deste ano.

Por Marina Ammar.

As críticas que virão são um especial provindo das minhas explorações pelo Artist's Alley da Comic Con Experience 2016, uma sucessão de mesas para artistas - principalmente brasileiros, independentes e na maioria das vezes apoiados por crowdfunding - exibirem seu trabalho.

As obras sobre as quais escrevi não são necessariamente novas ou debutaram na CCXP 2016. Algumas estavam em seus últimos volumes, enquanto outras viam a luz do dia pela primeira vez.

Mas o importante aqui não é isso. O objetivo desta coletânea é o saber de que todas as obras comentadas são frutos de talentos brasileiros. É gerar discussões e promover nomes desconhecidos, ressaltar os conhecidos e, acima de tudo, reavivar sempre o conhecimento de que muito ainda pode nascer do Brasil nessa área tão querida.


Anderdogue, de Bruno Dinelli


A história de Bruno Dinelli segue Raul, um escritor em período de bloqueio, e o que ele vive para aos poucos vencer essa seca criativa. Paralelamente, a partir do momento em que ele volta a conseguir escrever, sua história é contada de maneira entrelaçada com aquela que Raul escreve.

Aparentemente determinado a permanecer na estagnação de sua mente, Raul é coagido por amigos a sair, para atender à um show de rock. Ele tenta convidar os amigos para acompanhá-lo, mas todos estão ocupados, e ele segue sozinho com a ignição de sua mudança. No show, ele conhece Cecília, uma mulher que está constantemente mudando de cidade devido ao emprego. Como ambos já sabiam que aconteceria, o curto relacionamento que desenvolvem acaba com Cecília precisando mudar-se de volta para a capital.

Enquanto Raul chega à constatação de que uma ignição é necessária para alterar os elementos de um sistema, narra-se o projeto pessoal que ele começa a escrever baseado na interiorização de suas próprias experiências. A história escrita por Raul segue Nicolas, que está sempre viajando, sem propósitos além de conhecer o mundo, novas pessoas e lugares. Em todas as paradas, ele entra em um táxi e pede para ser levado para algum lugar interessante, com música e cerveja de preferência.

Raul escreve sobre uma noite em especial na qual Nicolas acaba se envolvendo no transporte perigoso de uma caixa misteriosa. Ele é sempre seguido por uma moça de óculos escuros que provavelmente está lá para garantir que a caixa seja entregue. No fim da noite, ele é drogado e devolvido para onde começou. A moça de óculos escuros troca uma única conversa com ele, na qual diz que "no fim, tudo isso não passará de uma boa história que você contará para outras pessoas".

É essa a impressão inteira que Anderdogue gera.

As cores são tons de cinza chapados, quase nunca variando em luz e sombra, ao passo que o autor opta por ilustrar seus personagens sem pupilas para impedir o leitor de mergulhar completamente em suas mentes ou reações. Além disso, ele compensa o traço simples com um compasso cinematográfico na história, medindo muitos painéis com ângulos e progressões que lembram câmeras, construindo assim uma atmosfera pungente e ao mesmo tempo fugaz. A história nunca para, movendo-se depressa entre o diálogo curto e os painéis de relevância narrativa.

Anderdogue é uma espiada na vida alheia que causa uma cumplicidade simples e pouco aprofundada, porque no fim da história, assim como Cecília (e ele mesmo), nós logo vamos mudar de estrada - um paralelo marcado pela figura de um quadro de um cavaleiro solitário que Raul tem na sala de casa, sempre observado pelo escritor. É um conto rápido e claro sobre as conexões da vida, seus efeitos e as escolhas que fazemos em relação à ambos. Dinelli traça em suas páginas o cotidiano: claro, rápido, firme e extraordinário na medida certa.

Para conhecer o autor:
http://brunodinelli.tumblr.com/
https://www.behance.net/brunodinelli

Cerulean, de Catharina Baltar

Cerulean é míope. Sempre deixada para trás por suas colegas sereias - tanto por se distrair com facilidade quanto por estar batendo a cabeça por aí - ela explora o oceano na companhia de seu amigo axolote, Ollie.

Juntos, eles encontram uma caverna com um bolsão de ar e também uma caverna para a superfície, onde um explorador perdeu sua mochila. Em seu interior eles encontram um par de óculos, uma camiseta, um chocolate, uma lanterna e outros itens. Cerulean sai da água – revelando ao leitor que consegue assumir pernas humanas quando quer – e decide explorar mais da caverna com ajuda dos óculos (finalmente salva da miopia) e da lanterna. Os frutos de sua exploração são um celular e o interesse crescente pela tecnologia humana, que a levam a explorar a superfície com frequência constante, até uma tarde em que ocorre um acidente com um petroleiro enquanto ela está longe do mar.

Preocupada com Ollie, Cerulean corre para avisá-lo, mas acaba quase se afogando quando descobre que já não pode voltar a ser sereia. A história se encerra com Cerulean trabalhando em um centro de preservação de vida marinha e a ligação de uma amiga dizendo que os peixes estão voltando para a costa – então talvez Ollie esteja bem. 

Baltar, no entanto, presenteia o leitor com histórias curtas no final do volume, sendo a última a verdade sobre Ollie, que está bem e logo encontra sua amiga. 

Cerulean é mais uma versão do que ocorreria se criaturas mitológicas interagissem com o mundo humano e seus elementos, sejam estes bons ou ruins. Auxiliado pela arte em aquarela de cores suaves e emoções palpáveis, o roteiro é simples e gera simpatia não pela conexão entre os personagens, deixadas estranhamente para as histórias curtas no fim, mas sim pela forma como são desenhadas, de forma fofa e expressiva, em situações que qualquer um poderia compreender. No geral, é uma leitura agradável, que acaricia o olhar com seus desenhos, mas falha em entreter ou marcar o leitor além do momento da leitura. 

Para conhecer a autora:

EXE (Esplendor x Efêmero), de Jun Sugiyama e Danilo Franco

Com roteiro de Jun Sugiyama e arte de Danilo Franco, EXE segue a história da Suprema Executora Natasha, uma mulher de partes robóticas. Nada é explicado sobre Natasha ser uma ciborgue, androide ou qualquer outro ser, mas isso pouco importa. O foco de EXE é a visão de Natasha sobre seu mundo e suas obrigações como executora, tendo como plano de fundo uma curta conspiração política e sua rivalidade com o Executor Kojiro, que se tornará Supremo Executor com a “aposentadoria” (de circunstâncias pouco explicadas, mas tudo leva a crer que seja uma desativação) de Natasha. Ele, porém, se recusa a aceitar o título de mais forte desta maneira; ele deseja antes vencê-la de fato. 

As questões apresentadas por Natasha provêm da efemeridade da própria vida e das vidas que ela tira exercendo sua função. O esplendor do título, embora não mencionado, pode ser interpretado como a força do propósito ou da direção que cada ser dá à própria vida. A arte de Franco dá o tom de artificialidade ideal para a dicotomia a respeito de essências, mas duas falhas residem nas páginas de EXE.

A primeira são as questões apresentadas pelo roteiro de Sugiyama. Apesar das discussões sobre aquilo que é apresentado no título serem sugeridas como seu foco principal – sob a visão de Natasha – a subtrama da conspiração aliada a uma repentina chuva de personagens no momento no qual Natasha precisa ser perseguida causam um atropelamento na história, que se afasta de suas questões essenciais para tratar de outros temas. 

Aliado à magnífica arte de Franco, isso causa o segundo problema: Cada personagem possui um design tão único e possibilidades tão infinitas para suas histórias que é um golpe ao leitor vê-los surgir e desaparecer tão rapidamente, em tom quase irônico com o título. 

As falhas, entretanto, pouco atrapalham na leitura, que é interessante durante o complemento de seu curto decorrer e deixa para trás apenas o desejo de que EXE não tenha sido tão efêmero. Ainda há muito do esplendor a ser explorado. 

Para conhecer os autores:



Kimera - A Última Cidade, de Airton Marinho, Giovanni Pedroni, Felipe Coutinho, Alessio Esteves, Jun Sugiyama, Eduardo Capelo, Tiago P. Zanetic e Natan Nakel


Kimera é uma coletânea de histórias curtas, fruto dos trabalhos conjuntos dos nomes citados acima. Como ideia coletiva, a obra possui o necessário para o engajamento inicial – uma boa premissa, bons nomes, arte de capa impecável e páginas repletas de estilos diferentes que não se conflitam, bem separados pelos temas abordados pelos roteiros. A premissa é a história de Kimera, a última cidade da qual se tem notícia, uma megalópole interdimensional e intertemporal que reúne qualquer tipo de pessoa ou criatura, de qualquer dimensão ou tempo.

Na prática, porém, o quadrinho falha em garantir a qualidade do todo justamente por ser uma mistura de talentos diversos, além de não aproveitar a premissa de possibilidades quase infinitas apresentada para si. Sendo assim, é mais simples comentar o volume por histórias, a primeira sendo "Metal Resgate".


Com roteiro de Airton Marinho e arte de Giovanni Pedroni, "Metal Resgate" é a crônica de como foi formado o grupo de protagonistas, composto pela super-forte Hana, o hacker Ed e o homem-com-cabeça-de-carro Diesel. Eles são contratados por Karen para encontrar seu pai - um mutante poderoso - e a trama se desenrola rapidamente. Apesar da ideia poder tomar qualquer direção, o roteiro segue uma linha óbvia, declarando morto o pai de Karen, moça herdeira de seus poderes e novo membro do time, durante cenas de ação que não carregam o roteiro. Marinho falha em criar a conexão rápida necessária para engajar o leitor em uma curta narrativa e a arte de Pedroni marca o olhar pela falta de continuidade em cenas mais dinâmicas, com visível dificuldade para situar o leitor no local onde os atos se passam. 


A segunda história é "Controle de Pragas, Bom Dia!", com roteiro de Alessio Esteves e arte de Felipe Coutinho, que segue uma equipe de exterminação formada por Janine, Dana e Gooze. O trio é contratado pelo Major, prefeito de Kimera, para exterminar dragões que não param de sair de um portal que surgiu dentro de sua residência. Para tal, contam com a ajuda de Lady Lucy, ex-namorada de Gooze e profissional em batalhas contra dragões. 


Na narrativa, o ponto alto é o momento da narração, quando a ação chega ao seu ápice. Apesar disso, o decorrer corrido do roteiro, somado à arte que utiliza de tons escuros demais e contornos pesados, torna o momento tão passageiro quanto complicado de acompanhar, apagando por completo a adrenalina da leitura. A ideia permanece criativa, mas falta a capacidade de apresentá-la de maneira mais engajadora. 


"Rapsódia em 7 Vidas", terceira parte da obra, tem roteiro de Jun Sugiyama e Eduardo Capelo, e talvez tenha a sua brevidade (é a mais curta das histórias contadas) como sua maior vantagem. Apesar do pouco tempo para apresentar os personagens, Sugiyama encontra uma saída simples: faz da protagonista, Sofia, uma gata antropomórfica, tornando seu ponto de conexão com o leitor muito mais simples. Assim, em uma curta aventura, Sugiyama dá a Sofia uma breve visão de seu passado em uma vida antes de Kimera, concebida durante uma sequência onírica ilustrada de maneira belíssima por Capelo, que também abre a história com um quadro de página cheia mostrando Kimera capaz de situar melhor o leitor do que as histórias anteriores. 


A quarta e última parte é "Cadê Meus Braços", com roteiro de Tiago P. Zanetic e arte de Natan Nakel, que segue Carl Saco, um gambá que trabalha como assistente do cientista e inventor Doutor Castor. Em uma manhã qualquer o Dr. acorda e seu robô está sem os braços, e logo encarrega Carl de encontrá-los. Depois de alguma procura, ele acaba encontrando-os junto a uma civilização vitoriana escondida nos esgotos e liderada por uma mulher vingativa, Madame Fancí.


Carl é um personagem divertido de se seguir, criando a cada passo de sua tarefa uma narrativa heroica nada merecida e que ao mesmo tempo o caracteriza rapidamente, tornando-o simpático ao leitor sem muita dificuldade. Embora seja muito repentina, a estranha história de Madame Fancí é algo que se esperaria de uma cidade como Kimera, e o tom de comédia não falha em apresenta-la. As cores da arte de Nakel, porém, não traduzem isso propriamente, diminuindo a cidade e pintando-a com ar muito infantil. 


No todo, Kimera - A Última Cidade não deixa de ser o que sugere – uma amálgama de temas e personagens inusitados - mas ele falha ao prometer tanta liberdade e aproveitar tão pouco desta. As boas histórias estão presentes, mas infelizmente também lembram o leitor do que o volume poderia ter sido. Resta torcer para que Kimera seja revisitada, de forma a compreender melhor as possibilidades de si mesma. 

Lara, de Caio Martins

Escrito por Caio Martins, o quadrinho é centrado na vida de uma menina de galochas amarelas chamada Lara e acompanha um dia típico seu, desde seus sonhos antes de acordar até o fim de sua jornada escolar. No primeiro sonho, Lara ganha as galochas de uma misteriosa figura feminina. Depois de acordar, ela caminha para a escola com a mãe, interagindo com a chuva acompanhada de seu fiel guarda-chuva de coelhinho. No colégio, encontra um amigo com quem se distrai desenhando.

A partir daí a história se transforma. Distraída desenhando, Lara não vê seu guarda-chuva saltar da cadeira e escapar em pulinhos.  É avisada pelo amigo, que logo distrai a professora para que Lara possa perseguir o fugitivo. Perseguindo o guarda-chuva para dentro de uma árvore, ela acaba caindo em um mundo invernal, onde a mesma figura que a presenteou com as galochas aponta uma flor aprisionada. Lara liberta a flor e com essa, espalha a primavera pelo mundo nevado.

Lara é um dia na vida de uma criança repleta de imaginação e personalidade, um caminhar ao lado do imaginário infantil e de como uma criança ainda preenchida da confiança de sua visão sobre o mundo vive as experiências de seu dia-a-dia. Martins presenteia o leitor não apenas com galochas amarelas, mas com uma narrativa que sem uma palavra dói um mundo inteiro, do ponto de vista repleto de cores e maravilhas da dona das galochas e um traço dinâmico e tão lúdico quanto Lara vê seu mundo.

Para conhecer o autor:

Leia a Parte 2 e a Parte 3 do nosso Especial!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Guardiões da Galáxia Vol. 2 na CCXP

Painel do filme deixa claro abordagem visual mais estilizada e colorida.

Por Pedro Strazza.

Se havia alguma dúvida de que Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um dos filmes mais esperados pelo público brasileiro em 2017, ela foi dissipada no último painel de sábado do auditório Cinemark da Comic Con Experience 2016. A recepção das 3.500 pessoas presentes no salão ao diretor do filme James Gunn e aos trechos mostrados do filme foram de longe as mais explosivas da programação do auditório, fazendo o chão chegar a tremer em determinados momentos do painel dedicado à sequência da space opera super-heroica da Marvel Studios. Um fato que não passou despercebido por Gunn, que na sua conta no Instagram definiu o painel como um dos "grandes momentos de sua vida".

A animação do público presente não foi à toa. Além da divulgação do segundo trailer oficial (que você pode conferir logo abaixo), a apresentação de Guardiões da Galáxia Vol. 2 na CCXP contou com dois materiais inéditos, ambos provindos da Comic-Con de San Diego: Um trailer estendido, que mostra mais detalhes da produção e revela o visual dos papéis de Elizabeth Debicki, Sylvester Stallone e Kurt Russell; e uma cena, que parece combinar dois momentos da narrativa e mostra a fuga de Yondu (Michael Rooker), Rocket Raccoon (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel) da prisão dos Ravagers, grupo de mercenários antes liderados pelo primeiro e um dos vilões da história.

Nos três vídeos, o que impera são o humor e um visual estilizado, muito mais berrante na paleta em relação ao já colorido original. Como bem indica o topete tecnonógico protuberante de Yondu (que pelo trailer acentua seu controle sobre sua flecha dourada, agora muito mais rápida e letal), Gunn parece ter assumido aqui um cinema de poses para seu grupo de heróis desfuncionais, que com seus trajes tornam-se verdadeiras estrelas do rock. Isso fica claro não somente pelas silhuetas de Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana) e Drax (Dave Bautista) em ação no início do trailer divulgado mas também na fuga de Rocket, Yondu e Baby Groot: o slow motion é uma constante na cena, tanto para mostrar a ação da arma do antigo líder dos Ravagers como no momento em que os corpos dos bandidos caem enquanto o trio caminha em uma plataforma, em um daqueles planos definidores dos personagens como objetos cool.

A comédia, porém, ainda deve ser o elemento fundamental para que tudo funcione na história da equipe. Pelo menos nas imagens divulgadas, Groot, Rocket e Drax continuam sendo os pilares de sustentação para os momentos de desarme cômico da trama, ao passo que as novas adições ao elenco carregarão o humor em seus perfis. Gunn prometeu no painel que o personagem de Stallone, cuja identidade ainda é desconhecida, será protagonista de várias piadas no longa, enquanto o Ego de Russell e a Mantis de Pom Klementieff prometem divertir por perfis bastante distintos.

Ainda sobre Kurt Russell, é válido mencionar que seu papel de planeta vivo incorporado em um corpo humano deve proporcionar ao novo Guardiões da Galáxia oportunidades de se desenvolver tanto no drama quanto na comédia. Pai de Quill, o personagem protagoniza uma das cenas mais engraçadas do trailer da Comic-Con de San Diego, quando ao explicar para o grupo como seu receptáculo humano foi feito ele é interrompido por Drax com a pergunta sobre ele ter ou não ter um pinto. A resposta divertida de Ego ("Eu tenho um pinto, e dos mais respeitáveis vale dizer") e a vergonha de Quill com o teor da questão são elementos que evidenciam o potencial do Vol. 2 dentro dos futuros lançamentos da Marvel Studios e o porquê deste grupo ter ganhado tanto destaque entre o público.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O painel da Paramount na CCXP 2016

Estúdio traz o novo xXx e a adaptação de Ghost in the Shell para primeiro dia de evento.

Por Pedro Strazza.

A Paramount Pictures foi o primeiro grande estúdio a se apresentar na Comic Con Experience 2016, que começou nesta quinta (1) no São Paulo Expo e vai até o dia 4. Iniciando-se com dez minutos de atraso, o painel de pouco menos de uma hora e meia levou à loucura as 3.500 pessoas presentes no auditório Cinemark não apenas por trazer ao palco as estrelas Vin Diesel, Nina Dobrev e o lutador de UFC Michael Bisping mas também com materiais exclusivos de duas de suas produções de 2017, os filmes xXx - Reativado e Vigilantes do Amanhã - Ghost in the Shell.

Confira abaixo um resumo e opinião sobre os materiais divulgados no painel:

Vigilantes do Amanhã - Ghost in the Shell

Abrindo os trabalhos do painel, a Paramount apresentou duas sequências inéditas da adaptação estadunidense do mangá de Shirow Masamune para as telonas, as duas sendo exibidas pela primeira vez no Ocidente. A primeira é a sequência de abertura do longa, que ao som do tema musical do anime homônimo de Mamoru Oshii traz a montagem da protagonista, a ciborgue Major Motoko (Scarlett Johansson).

Já a segunda cena é uma de ação envolvendo o policial interpretado por Takeshi Kitano, que enfrenta um grupo de criminosos mascarados que fazem um atentado à sua vida. Depois de escapar da primeira saraivada de tiros a seu carro, ele entra em combate com os bandidos, um a um os abatendo com tiros e a mala que carrega. A cena termina com Kitano de pé perante ao último mascarado vivo, dizendo antes de matá-lo com um tiro e esvaziar seu revólver no morto que não se deve mandar coelhos para caçar uma raposa.

As duas sequências vem para mostrar o quão fiel a produção comandada por Rupert Sanders foi com a animação de Oshii. Principalmente a abertura do filme, que é idêntica à do anime, as cenas são plásticas e estilizadas, buscando e conseguindo exaltar a semelhança entre as duas obras. Pelo menos visualmente, os fãs da história cyberpunk estarão satisfeitos com o resultado.

A grande questão que fica para o filme neste campo, na verdade, é se o longa de Sanders conseguirá arranjar voz própria. As belas imagens até aqui divulgadas são bem claras nesta proposta de emulação, mas parecem estar tão atreladas ao anime de Oshii que não são capazes de se distinguir de outras produções hollywoodianas que abordam distopias. E com o desejo do estúdio de tornar a história em uma franquia, esse destaque é mais do que necessário.

xXx - Reativado

Além do painel com Diesel, Dobrev e Bisping e o material já existente na internet, a Paramount apresentou na CCXP os vinte primeiros minutos do filme, que apesar de algumas coisas ainda para serem finalizadas (os créditos iniciais e os gráficos surgem muito rápido) já apresenta o tom da continuação do longa de 2002.

O início de xXx é composto de três cenas. Na primeira, acompanhamos o Agente Gibbons (Samuel L. Jackson) apresentando e tentando recrutar para o projeto do título Neymar Jr., indo em dois segundos de um assalto frustrado pela ação heroica do jogador do Barcelona - que impede o crime chutando um porta guardanapo no assaltante (?) - à queda de um satélite com todas as explosões que a produção pode ter direito. Dali, o filme mostra uma reunião do governo promovida pela agente interpretada por Toni Collette no intuito de apresentar uma nova tecnologia de vigilância, mas que é roubada na hora por uma equipe liderada pelo personagem do artista marcial Tony Jaa, emendando em seguida com uma sequência radical que mostra Xander Cage (Vin Diesel) assaltando uma antena governamental - por motivos que não valem a pena serem revelados aqui - e fugindo de seus agentes através de esqui na terra e skate.

São vinte minutos que passam relativamente rápido e indicam o teor mais juvenil da produção, que brinca acima de tudo com as possibilidades extremas e irreais dos esportes radicais. Nesse sentido, o novo xXx parece ser bastante coeso com sua proposta: o diretor D.J. Caruso realiza suas sequências ditadas sobretudo pelo ritmo e as poses de seus personagens, com Diesel e Jaa não exitando em fazer caras e bocas em meio à ação que protagonizam, ao passo que a trama não parece possuir maior função que ser uma linha de condução a esses sets de ação. É um filme de exageros que se assume como tal, disposto a brincar sem maiores preocupações.

Ao mesmo tempo, porém, essa juventude do novo xXx dependerá muito da conexão que o público nutre com os personagens, algo que o longa parece só possuir com Diesel. Se o ator de 49 anos mostra carisma nas cenas que protagoniza (algo que repercute para a realidade, como a emoção do público perante a presença do ator na apresentação bem prova), o restante do elenco não mostra o mesmo vigor: Jaa soa mecânico nas piscadelas que dá ao espectador em meio à sua performance, enquanto Collette e Jackson estão a princípio presos em estereótipos governamentais. Já Neymar exala a inexperiência como ator em sua estreia em uma produção estadunidense, soando forçado nas poucas falas que diz e um pouco truncado em seus movimentos na cena que "divide" com Jackson.

Logo no início do painel de xXx - Reativado, Diesel foi enfático ao dizer que "estava morrendo de vontade de fazer um filme divertido" após o difícil momento emocional que viveu com a morte do amigo Paul Walker no meio das filmagens de Velozes e Furiosos 7. O termo "diversão" inclusive foi bastante repetido por ele e os outros dois atores no restante da apresentação na CCXP e está bastante presente nos momentos iniciais da produção. Resta saber se essa diversão será suficiente para suportar um longa-metragem de prováveis quase duas horas de duração.

sábado, 26 de novembro de 2016

Crítica: A Chegada

Villeneuve aposta no emocional em ficção-científica intimista.

Por Pedro Strazza.

É muito por causa do gênero ao qual ambas as produções se inserem, mas é inevitável comparar A Chegada - o novo longa do canadense Denis Villeneuve - com o Interestelar de Christopher Nolan. Os dois filmes, afinal, são a primeira incursão pela ficção-científica de dois cineastas acostumados com a materialidade da realidade (Os Suspeitos, Incêndios, a trilogia O Cavaleiro das Trevas) e as tramas labirínticas dos dilemas psicológicos (O Homem Duplicado, A Origem), que usam tramas aparentemente complexas para disfarçar estruturas lúdicas bastante simples. Villeneuve e Nolan são diretores apreciados pelo público e a crítica por saberem transitar muito bem entre esferas de narrativa básicas e intrincadas, mas também coletam posições contrárias às suas obras por não mostrarem o mesmo talento na hora de trabalhar o lado emocional da coisa.

O curioso é que é justo na ficção-científica - gênero habituado a trabalhar as emoções humanas da forma mais racional possível - que os dois vejam seu cinema entrar em um ponto semelhante de crise. Pois o foco inesperado que ambos os diretores dão a uma trama sentimental e na maneira como eles optam por trabalhar seus temas a partir desta base, tanto em seus erros quanto em seus acertos, é a maior semelhança que os dois trabalhos compartilham.

Escrito por Eric Heisserer, o filme acompanha a chegada de doze espaçonaves alienígenas a diversos pontos da Terra e as reações de diversos governos e indivíduos frente a este evento extraordinário. A protagonista da história é a doutora Louise Banks (Amy Adams), linguista que é chamada pelos militares estadunidenses para junto do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) tentar decifrar a linguagem e se comunicar com os alienígenas que habitam o estranho casulo localizado na região central do país. Quanto mais eles demoram para quebrar o código, porém, mais tensas ficam as relações entre as nações sobre a questão.

Não convém aqui dissecar a estrutura do longa e o formato ao qual a narrativa aos poucos adquire porque a grande surpresa da obra está justo nestas, mas é válido dizer que como ficção-científica A Chegada é um bom drama intimista. O arco de luto ao qual a personagem de Adams é submetida é o maior ponto de interesse do diretor no filme, com o resto da produção dedicado a alimentar e avançar no desenvolvimento de suas angústias.

Essa afirmação, entretanto, soa quase paradoxal ao gênero, que prescinde os conflitos interiores do indivíduo não para torná-los ainda mais interiorizados, mas sim de extrapolá-los ao campo do dilema existencial coletivo. É aí que Villeneuve se aproxima de Nolan: assim como Interestelar, A Chegada tem em mãos uma trama de relações ao qual busca firmar na ficção-científica, mas não exatamente almeja usá-la a seu favor, relegando-a no processo à função de um mecanismo que movimenta a história. Se a odisseia espacial de Matthew McConaughey aproveitava o lado racional apenas para chegar a um propósito fantasioso que não compreendia o lado lógico (é bom recordar, toda a situação no buraco negro se apoia no sentimentalismo barato), a história de Banks flerta a todo instante com o cenário político e o mistério em cima dos alienígenas para no fim somente usá-los para mover a trama. À obra só interessa mesmo a parte interior, a emoção em seu estado mais primário.

É um viés que se percebe aos poucos no roteiro, mas que ocorre justo nos momentos onde o longa mais tem chances de decolar e não o faz. Cenas como do clímax ou do primeiro encontro de Banks e Donnelly com os extraterrestres - a narrativa vai em uma escalada para privilegiar essa situação e no fim a suprime sem grandes retornos, algo infelizmente repetido em todos os momentos de contato da dupla com os aliens - e elementos como discursos políticos e últimas palavras antes da morte - usados mais para alimentar alguma tensão ocasional - servem como reforço da dedicação exclusiva do filme com a situação emocional de sua protagonista, que nunca chega a ser extravasada ou contamina o ambiente ao seu redor.

E esse sentimentalismo, no fim, também é usado por Villeneuve como artifício. Pois A Chegada, afinal, também é mais um filme do diretor em que a trama é mero dispositivo lúdico e onde a reviravolta é a grande arma para arrebatar o espectador. Mas se em outros trabalhos essa estrutura tinha uma justificativa (mesmo Sicario conseguia encaixar isso em seus sets de suspense), aqui ela apenas esvazia a proposta da história e torna seu lado emocional mais brega - um fim curiosamente parecido com o da ficção-científica de Nolan.

Nota: 5/10

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Apesar das boas intenções, derivado não encontra unidade entre narrativas.

Por Pedro Strazza.

Os filmes da franquia Harry Potter sempre funcionaram em um meio-termo estranho entre a grandiloquência e o drama particular, trabalhando a partir de histórias simples de colegial, crescimento e descobrimento do mundo cenários de grandiosos conflitos cujo formato se enquadraria melhor ao épico. Essa dicotomia de realidades - que atendia às necessidades do desenvolvimento do jovem protagonista e sua entrada no universo mágico sem deixar de lado sua jornada para se tornar "o escolhido" - no fundo foi a grande responsável por tornar a série tão bem sucedida nos cinemas, virando uma fórmula que agora busca ser reproduzida em seu derivado Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Pois mesmo que se localize em um momento histórico diferente e almeje outras questões, o filme dirigido por David Yates - que retorna à franquia depois de dirigir os últimos quatro capítulos - é uma grande tentativa de refazer essa estrutura em outros termos. A grande mudança proposta aqui pelo diretor e o roteiro de J.K. Rowling, autora dos livros da série, passa por uma troca de gêneros no núcleo mais íntimo: sai o drama adolescente refletida no coming of age, entra a temática mais adulta do preconceito, encarnado no clima de enfrentamento entre trouxas e bruxos nos Estados Unidos dos anos 20 que encontra seu ponto de crise quando o pesquisador inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chega ao país e deixa escapar de sua mala diversas criaturas mágicas proibidas pelo governo.

É dessa busca de Scamander por seus animais que Rowling e Yates então refazem a narrativa conhecida da série, enquadrando-a na trama de um estrangeiro perdido em um lugar desconhecido. A ideia parte do princípio simples da rápida conexão com o protagonista, que de início funciona em seus intentos - como Newt, o espectador não sabe como é o lugar onde se passa a história, e conforme ele é introduzido a este a falta de conhecimento do público se transforma em fascínio - mas aos poucos revela o quão inconsistente essa transfiguração  da estrutura da história se faz. Se nas aventuras anteriores a atribuição profética dada a Harry dava sentido a maiores inserções suas nos grandes acontecimentos do mundo bruxo, Scamander não poderia estar mais deslocado dos eventos ao seu redor, que envolvem desde grupos contra bruxos a magos terroristas.

Esse descompasso entre o que se passa com o protagonista e o cenário histórico habitado gera fraturas sensíveis na trama, que incapaz de conciliar as duas partes apela para ajustes e aumentos de ritmos na sequência de acontecimentos quando precisa realizar tais intersecções. O resultado é um filme desconjuntado, que almeja simultaneamente a alegoria social (os segundo salemistas, o arco do personagem de Ezra Miller, os simpáticos papéis de Dan Fogler e Alison Sudol), a mensagem ecológica (a busca pelas belas criaturas de CGI) e o drama de personagens (a referência ao relacionamento de Newt com a família Lestrange, situação deixada em aberto no longa) sem nunca conseguir de fato uni-los sob um mesmo objetivo. A impressão é que Rowling aqui escreve mais um de seus livros sobre o mundo bruxo sem antes adaptá-lo ao formato de um roteiro: existem tramas cuja relação com o filme soam muito periféricas (o núcleo liderado por Jon Voight, por exemplo) e mistérios com soluções escancaradas pelo visual dos elementos de cena.

Isso não impede a escritora, porém, de fazer bem aquilo que já provou no passado ser mestre. Embora a dissonância na narrativa imobilize a produção e a torne arrastada, Rowling concebe personagens carismáticos e um mundo bastante atrativo, ao qual Yates a trancos e barrancos preserva (ou, sob o viés da repetição, tenta emular o possível das obras de Chris Columbus na série) o senso de descoberta e maravilhamento com seu funcionamento. A franquia, afinal, também vive desse encantamento, e a produção mantém erguido este alicerce pela maleta de seu protagonista e nas criaturas e suas aplicações que são apresentadas por ele às irmãs Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Sudol) e o trouxa Kowalski (Fogler).

O deslumbramento com esses animais e até mesmo com a Nova York dos anos 20, entretanto, é um efeito passageiro. Por mais que busque tornar o encanto com o visual seu item central, Yates não consegue esconder o filme difuso que faz, cujas ambições a todo instante são frustradas pela inexistência de uma falta de escalada e concentração. Se o mundo bruxo de Animais Fantásticos e Onde Habitam provoca fascínio a primeira vista, por baixo dos cenários e seres belos parece existir um vazio sem rumo e de boas intenções desperdiçadas.

Nota: 5/10

domingo, 13 de novembro de 2016

Crítica: Pequeno Segredo

Representante brasileiro no Oscar 2017 é relato pessoal que busca a distância do impessoal.

Por Pedro Strazza.

Há muito de um propósito pessoal que reverbera por toda a estrutura de Pequeno Segredo, novo trabalho do diretor David Schurmann que se tornou centro das atenções na mídia após ser escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017. Pessoal não apenas porque o filme tem viés autobiográfico (ele é baseado em uma história de vida passada pela família de velejadores ao qual o cineasta pertence), mas também por causa da própria proposta da produção, que no fundo se faz como um drama de relações familiares cujos conflitos surgem e permanecem dentro de quatro paredes.

Essa necessidade de contenção nunca chega a ser uma temática, mas aos poucos se faz como uma regra involuntária da narrativa do longa, cuja premissa surge da promessa de intercalar duas tramas aparentemente sem qualquer relação. De um lado, a história de amor do neozelandês Robert (Erroll Shand) com a brasileira Jeanne (Maria Flor) e da relação complicada do primeiro com a mãe, Barbara (Fionnula Flanagan); do outro, o cotidiano dos Schurmann nos dias em que a filha caçula Kat (Mariana V. Goulart) volta à escola e entra na puberdade.

De certa forma, Pequeno Segredo sofre de um conflito eterno entre essas duas partes, ainda que não de forma direta. Mesmo que concilie as duas narrativas sem mostrar maiores problemas, Schurmann mostra-se ineficiente para mesclar o relato familiar com a dramatização, confundindo as necessidades do roteiro (escrito junto a Victor Atherino e Marcos Bernstein) com as suas de manter o respeito pelas pessoas retratadas.

O resultado é um filme de drama que a todo instante quer evitar o drama, restringindo-o à quatro paredes distantes das quais o espectador está inserido. É um paradoxo que nunca deixa de ser interessante: Quando a produção parece almejar algum conflito maior entre seus personagens, ele logo a dissipa e já pula para a situação seguinte como se nada tivesse acontecido. Ainda que existam cenas pesadas na história (incluindo aí um acidente de carro e o pequeno segredo do título), o longa insiste na sublimação e na permanência de uma realidade onírica, algo que por sua vez torna incoerente várias passagens da trama - o principal talvez seja o motivo da inclusão da personagem de Flanagan, cuja participação é das mais periféricas.

Porque no fundo Pequeno Segredo é um filme que insiste por buscar a serenidade do sonho em todos os momentos, evitando quaisquer nuvens negras formadas no horizonte. Se Barbara é feita de vilã, é porque os eventos que aconteceram em sua vida a levaram ao isolamento, e isso pode ser reparado; se Robert decide voltar para casa sem Jeanne e ao se arrepender ele volta somente para testemunhar uma tragédia, essa crise no relacionamento é logo resolvida; se Kat tem os problemas típicos da puberdade, eles também passam sem produzir qualquer cicatriz. E se a terra é um lar de dificuldades e conflitos, o mar está logo ali para trazer paz à alma de qualquer pessoa.

O longa então torna-se em uma cornucópia tola, que pressupõe todos os problemas com solução já definida mas não necessariamente precisando ser mostrada, como uma grande saudação a um pôr do sol inacabável. É claro que Schurmann toma esse relato (do qual nunca se envolve junto do irmão, os dois passando a história inteira sem rosto ou fala) como uma forma de homenagear a irmã falecida sem de fato envolver-se em questões mais profundas acerca de sua família, mas a justificativa para tanto nunca se apresenta de fato. Se há uma grande incongruência em Pequeno Segredo, é essa imposição de um trabalho pessoal que no final acaba por ser tornar o mais impessoal e distante possível dos eventos apresentados.

Nota: 4/10

Crítica: Snowden - Herói ou Traidor

Oliver Stone busca em analista de sistemas uma figura de contenção, mas se perde no equilíbrio entre real e ficção.

Por Pedro Strazza.

No Brasil, a cinebiografia de Edward Snowden estrelada por Joseph Gordon-Levitt ganhou o bizarro subtítulo Herói ou Traidor, uma referência direta ao debate midiático sobre o ex-agente da CIA e da NSA ter sido correto ou não ao revelar para o mundo o fato dos Estados Unidos estar quebrando as leis de vigilância próprias e de outros países para satisfazer suas preocupações com segurança. Um adendo bizarro e bastante incoerente com o teor do filme dirigido por Oliver Stone, já que este não está interessado em debater o posicionamento de Snowden em relação ao governo estadunidense e sim de consagrá-lo como herói por seus feitos contra um sistema ameaçador.

Para isso que aconteça, Stone e seu parceiro no roteiro Kieran Fitzgerald aproveitam a oportunidade de recontar a trajetória do agente - desde seu início frustrado no exército militar do país até o presente, centralizando-se nos momentos anteriores à publicação do artigo escrito por Glenn Greenwald (Zachary Quinto) com suas declarações - para torná-lo em uma figura de contenção, primeiro à favor das intenções do governo e depois como uma maldição de fato. A dramatização da história aqui se aproxima muito de uma via crucis de informação, onde Snowden é submetido a constantes provas de resistência a cada volume de dados sigilosos que recebe em ordem de perceber até que ponto ele é capaz de guardar para si esse material sem que se autodestrua - algo melhor evidenciado nos altos e baixos de seu relacionamento com a namorada Lindsay (Shailene Woodley).

Esse processo de interiorização, que passa por verdadeiros testes de limite físico (graças ao histórico médico de epilepsia do protagonista) e psicológico, serve a Stone para distanciar Snowden de sua imagem midiática e aproximá-lo de um perfil mais humano, alimentando a jornada de herói concebida por ele ao analista de sistemas. No fundo, o diretor cria aqui mais uma de suas típicas narrativas sinergéticas, que concilia os dramas pessoais de Snowden (a falta de conexão com o mundo, o isolamento social por essência) com o período histórico de crise ideológica passado pelos Estados Unidos do governo Bush e Obama. Tanto que a decisão do protagonista por ir contra o sistema ocorre na produção no momento no qual a vigilância chega a seu próprio território, numa das únicas cenas do longa capaz de emular bem a sensação de Big Brother criada pelos aparatos da NSA.

Stone, porém, mostra-se tão preocupado em ratificar sua posição política na obra que sua proposta com o personagem acaba por perder força. O filme muitas vezes interrompe o fluxo narrativo para dar explicações verborrágicas e criar dilemas rasos sobre as questões que trata, perdendo o foco no personagem para ilustrar a situação política. Uma operação um tanto quanto canhestra, já que no fundo ela prejudica o equilíbrio entre o cenário individual e geral e torna Snowden um personagem sem rumo definido na história.

Essa falta de direção também ocorre porque a "dramatização" dita por Stone no início do filme aos poucos se revela uma novelização disfarçada de documentário. A verborragia dos diálogos, que vem como forma de informar e aumentar a paranoia do espectador sobre os fatos, não esconde a dificuldade do longa em estabelecer uma unidade entre as situações de choque entre os personagens, dando a sensação de que todas as cenas funcionam à base do impacto imediato. Nem mesmo o relacionamento de Snowden com Lindsay (aqui retratada como mero apoio emocional) escapa desse problema: em um momento, o protagonista, sentindo a pressão do trabalho e do excesso de vigilância, briga com a namorada por sua responsabilidade em protegê-la "da verdade"; no outro, essa tensão se dissipa, dá lugar a um caso de falta de confiança e ciúme que ele tem com ela sem qualquer motivo aparente.

No fim das contas, Snowden - Herói ou Traidor sofre com o dilema de unir realidade com a ficção, tirando de uma realidade pungente e atual um processo imagético que transforme uma figura pública em um personagem de fácil conexão. Quando ao final do filme Stone substitui um Gordon-Levitt de voz forçada pelo próprio Snowden, essa problemática do roteiro se acentua: se a cena vem para consagrar o retratado como herói e dar peso "real" à história, ela apenas soa como uma cartada final desesperada, que ressalta a falta de recursos do diretor em dar conta do processo ao qual se submete.

Nota: 4/10

sábado, 5 de novembro de 2016

Crítica: Doutor Estranho

Filme segue a cartilha do estúdio, mas encontra bom equilíbrio entre humor e drama. 

Por Pedro Strazza.

Lidar com a estrutura já tradicional e imposta pela Marvel Studios é um peso que toda produção do estúdio precisa carregar, e no caso de Doutor Estranho essa regra prevalece. O longa centrado na figura de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é mais um a contar uma história de origem de um personagem egoísta que é introduzido a um mundo novo e precisa enfrentar um mal antigo para salvar o dia e ficar com a garota, tudo isso dentro de uma história que apesar de bastante séria é desarmada constantemente pelo humor.

Mas se em outras ocasiões essa adesão à fórmula só se provou prejudicial, tornando as obras um tanto quanto esquecíveis - dos últimos trabalhos do estúdio talvez só se salvem Homem-Formiga e Guardiões da Galáxia -, no filme dirigido por Scott Derrickson ela acaba por provocar o resultado contrário. Ainda que permaneça refém da pasteurização no processo, Doutor Estranho consegue se sobressair de outras produções da Marvel Studios por possuir alguma consciência das limitações que apresenta ao realizar tal movimento e de, mais importante, atuar no sentido de tentar reparar alguns dos problemas conhecidos  da estrutura dentro desta cerca ao qual se insere.

Esta tendência se percebe aos poucos na trama escrita por Derrickson, C. Robert Cargill e Jon Spaihts, que segue Strange a partir do fim de sua carreira como brilhante neurocirugião após um trágico acidente de carro e acompanha seu treinamento no Kamar-Taj sob a tutela da Anciã (Tilda Swinton), Mordo (Chiwetel Ejiofor) e Wong (Benedict Wong). O teor mais "adulto" do roteiro anuncia um filme pautado na temática da morte e nas formas de se lidar com o inevitável fim, algo que o longa constantemente busca equilibrar com o clima despretensioso e bem humorado que se vê obrigado a possuir.

E por mais artificial que essa combinação soe a princípio, ela funciona. Não apenas porque a produção carrega dentro de si uma influência escancarada pelo cartunesco, digno das insanidades visuais e cômicas de desenhos animados - o visual dos múltiplos universos apresentados e, principalmente, o Manto da Levitação, que em seu efeito de humor lembra o tapete do Aladdin das animações da Disney -, Doutor Estranho demonstra ter uma noção muito boa dos momentos em que precisa desenvolver o drama e a comédia. É um equilíbrio muito sensível e muitas vezes beira ao colapso - depois de uma tragédia no início do terceiro ato a tentativa de suavizar o trauma é muito equivocada -, mas Derrickson concebe uma narrativa capaz de manter uma uniformidade saudável entre as duas partes, algo que se prova cada vez mais raro dentro dos longas da Marvel.

Há outros elementos que também passam por essa reforma, principalmente na questão de figuras tradicionais dos filmes do estúdio - o vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen) mostra-se um personagem mais funcional que outros antagonistas por alimentar as questões de mortalidade presentes na trama, enquanto a doutora Christine Palmer (Rachel McAdams) é um interesse amoroso menos figurante -, mas a obra se sacrifica nesses momentos por estar preso ao já testado e por apostar no garantido. Aonde ela se destaca é no campo visual de seus clímaxes, onde a Marvel teima em deixar a ação no campo do real e no qual a produção tem espaço para ser criativo. Derrickson a todo instante cria maneiras divertidas de deixar aflorar o lado mágico do filme, inventando espaços de combate que se diferenciam uns dos outros e sempre fascinam o espectador - e o clímax final é o que mais se destaca por aproveitar de vez o viés de videogame da obra.

Doutor Estranho talvez soe como uma decepção para quem busca do longa um compromisso da Marvel com histórias mais sérias, muito porque a empresa agora embala uma sequência de tramas mais dramáticas e apocalípticas (Thor Ragnarok, Pantera Negra e a chegada de Thanos na franquia Vingadores) em compasso com outras de puro descompromisso (os novos Homem-Aranha e Guardiões da Galáxia). Não foi aqui que o "jeito Marvel de ser" mudou de fato, mas por trabalhar no intuito de tornar mais orgânica a estrutura consagrada e trazer peso a esta sem esquecer o que a torna tão especial Derrickson já proporciona algo de diferente nesse pequeno, fechado e repetitivo modo de produção.

Nota: 7/10