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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Crítica: O Regresso

Iñárritu e DiCaprio buscam o destaque em egotrip disfarçada de busca existencialista.

Por Pedro Strazza.

Ainda que muito provavelmente tenha sido feito sem qualquer tipo de planejamento, parece ter se tornado uma constante na filmografia de Alejandro González Iñárritu o elemento do reconhecimento. Seja nos múltiplos protagonistas de Babel que eram incapazes de enxergar o sofrimento do outro ou no anseio dos atores egoístas de Birdman pela salva de palmas, os filmes do cineasta mexicano mostram uma necessidade incomum em evidenciar esse ato de distinção do indivíduo em relação à sociedade, primeiro em um aspecto mais social e, depois, em movimentos de pura egolatria. É algo bastante palpável na trajetória de seus trabalhos indicados ao Oscar de Melhor Filme, que encontra agora um angustiante novo capítulo na sua obra mais bem recebida pelo público e crítica estadunidense até o momento, O Regresso.

Esta importância desmedida de Iñárritu em satisfazer a si mesmo, que já se manifestava em Birdman com certo incômodo, acontece aqui com doses cavalares. Adaptação do livro de mesmo nome de Michael Punke (que por sua vez é inspirado em fatos), o longa, que conta a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), experiente caçador de peles que durante uma expedição em 1823 foi atacado por um urso e deixado para morrer pelos colegas, surge como uma espécie de oportunidade única para o diretor demonstrar suas técnicas "únicas" em uma obra cuja ambientação e estrutura remetem diretamente ao faroeste, um dos gêneros mais fundamentais na gênese do cinema estadunidense.

Mas como bem diz o próprio em entrevistas, o gênero para ele soa como algo irrelevante, que o atrapalha em seus objetivos de conceber suas produções cinematográficas únicas, e a partir daí as coisas começam a desandar. Porque ao recusar se enveredar pelo gênero no intuito de abordar com exclusividade os "profundos" temas universais, o diretor logo se vê na constante tarefa de negar ao filme quaisquer reflexos criados pela própria história.

É algo que se percebe, num primeiro momento, na construção narrativa do ataque indígena ao acampamento do Capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson), o primeiro gatilho da trama. Concebido como um dos vários e característicos planos-sequência de Iñárritu, essa cena de início parece ser puxada pela ação, o caos gerado pelo elemento surpresa do conflito, que pega os caçadores desprevenidos e os deixa desesperados por suas vidas. Mas assim que Henry anuncia a retirada da tropa e a consequente fuga pelo barco, a tônica da cena muda por completo: acompanhado pela trilha sonora climática de Alva Noto e Ryûichi Sakamoto, a câmera passa a focar no sofrimento daqueles que estão prestes a morrer, com um olhar reflexivo e dito superior, desinteressado da situação da qual tomava antes como principal.

Esta desnecessária luta interior entre gênero e mensagem, travada com tanta ferocidade e dominada pelo último em O Regresso, também serve de fachada para o descontrole egocêntrico que acontece no longa. A conexão do homem com a natureza ao seu redor, temática central e única da obra, é martelada à exaustão pelo diretor e seu parceiro no roteiro Mark L. Smith, que com situações de renascimento (o interior do cavalo, a cabana improvisada, a cova) e planos que miram o céu e a copa das árvores (em algum tipo de reflexão que nunca se concretiza) são incapazes de levar o assunto para algum lugar além da admiração imediata com a estética - e isso acontece também no fatídico ataque do urso, também filmado num plano-sequência cujo maior anseio é muito mais "o início do ciclo ao qual o protagonista se submete" e menos da construção dessa cena para a história.

E é de apuros estéticos com inclinação ao existencial que o filme sobrevive, mesmo que para isso tenha de sacrificar toda a sua estrutura e se entregar ao egotrip dos envolvidos. O curioso, entretanto, é que tais arroubos nunca conseguem escapar de fato do gênero ao qual estão submetidos e a tanto renegam por estarem realizando uma obra "de arte": Se por um lado a fotografia de Emmanuel Lubezki se dedica com paixão furiosa em aproveitar as paisagens naturais da Columbia Britânica para criar lindos e opressivos cenários, marcados pela plasticidade e o encanto com a luz natural dos ambientes, ela não escapa também da ligação inerente de tais locações com o faroeste, manifestados em momentos como o encontro de Glass com uma manada de bisões. Essa cena de imediato remete a Rastros de Ódio, célebre trabalho de John Ford também dotado de tal conexão entre ser humano e natureza (menos as pretensões ególatras) e junto dos trabalhos de Terrence Malick um exemplo dos filmes ao qual a trama de vingança parece se utilizar nos piores momentos narrativos.

O ápice de todo esse exercício auto-indulgente encontra-se, claro, na figura do ator protagonista, que tem para si a tarefa de carregar esse peso nada agradável. Para DiCaprio, entretanto, é um peso que logo se traduz em arma na sua já mitológica procura pelo Oscar: com um personagem que exige muito do corporal, pouco do diálogo e é auxiliado por coadjuvantes contentes em exercer seu papel secundário (Gleeson e principalmente Tom Hardy, únicos com bom senso neste mar tão individualista do filme), ele logo abandona qualquer aspecto de composição de atuação voltado ao personagem e a direciona para suas motivações pessoais, em uma performance que pouco faz pela história e se arrasta, a passos lentos e cuspindo sangue e saliva, em busca do clamor concedido pelas premiações.

É essa dedicação, essa entrega voltada para a congratulação posterior, pelo qual O Regresso acaba por se aproximar ainda mais da realidade vivida em Birdman. A diferença é que, se no filme de bastidores o egocentrismo inerente da história era tratado com um quê de ironia, um humor capaz de reconhecer mesmo de leve o ridículo das motivações de todos os seus personagens, aqui é como se estes mesmos personagens estivessem por trás e na frente das câmeras, comandando todos os esforços do filme para atender suas próprias ambições e entregar uma "fundamental" experiência transcendental.

Nesse processo, o público acaba por se tornar o mesmo que no filme anterior de Iñárritu assistia a peça de estreia do ator Riggan Thomson como diretor, inocente sobre o que acontece por trás dos panos. E tudo isso fica claro quando, no fim, o protagonista olha para a câmera e encara seu espectador em um misto de angústia e indecisão: o que se vê ali na tela não são os olhos de Hugh Glass em um dilema existencial após o fim de uma jornada de sofrimento e luto, mas sim os de DiCaprio, clamando desesperado pelo reconhecimento que há tanto tempo anseia. Se as palmas devem ou não acontecer, é algo que cabe ao espectador decidir.

Nota: 3/10

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Crítica: Trumbo - Lista Negra

Comédia baseada em fatos e contestadora do passado soa hesitante em se assumir como gênero, mas se segura no elenco.

Por Pedro Strazza.

A princípio, o paralelo mais natural de ser traçado a Trumbo - Lista Negra é com seu contemporâneo A Grande Aposta. Além de serem dois filmes baseados em livros, comandados por diretores muito mais conhecidos por comédias - Jay Roach ficou famoso por Austin Powers e Entrando Numa Fria, enquanto Adam McKay se fez com O Âncora - e que trazem um grande elenco branco de protagonista, ambos os projetos também se assemelham na maneira que se usam do humor para tratar de momentos inegavelmente bizarros da História da sociedade estadunidense. É como se a comédia fosse a melhor maneira encontrada pelos dois cineastas para retratar tais situações, cujo ridículo parece não ser percebido pelos indivíduos inseridos nestas.

Mas enquanto Mckay enxerga os alicerces da crise de 2008 quase como um documentarista da National Geographic, Roach segue pelo caminho da caricatura em sua abordagem da luta do roteirista Dalton Trumbo contra a Lista Negra de Hollywood. Da postura corporal cínica e bigode ridículo de falso, usados por Bryan Cranston para interpretar o vencedor de 2 Oscar condenado pelo governo por sua afiliação ao partido comunista, aos retratos escrachados de celebridades da época como John Wayne e Kirk Douglas, o longa não disfarça o escárnio com a paranoia gerada pela Guerra Fria e o macartismo, hoje algo absurdo mas na época tão levado a sério por diversos integrantes da alta sociedade hollywoodiana.

E tal qual um verdadeiro teatro de bonecos (que é inclusive mencionado em um dos vários diálogos repletos de punchlines do roteiro de Bruce Cook), não demora para o humor tomar conta da narrativa e da época em que se passa a história. Isso se torna um fenômeno curioso: a gravidade das ações tomadas, o peso das prisões e o horror do ostracismo proporcionado pela indústria àqueles que se recusam a se submeter à ordem é tratada no filme com um certo quê de ironia, incapaz de levar a delicada situação a sério e a encarando mais como uma perturbação de um sistema antes correto - bem resumido na cena no qual um furioso Frank King, interpretado exagerado e com precisão por John Goodman, confronta um dos censores com um taco de beisebol após este tentar intimidá-lo, num destes típicos quebra-tudo da comédia  tradicional.

Se por um lado esse exagero torna-se no melhor aliado do diretor para conduzir sua história, por outro ele também priva Trumbo de momentos dramáticos maiores, algo necessário dado a gravidade dos eventos ilustrados. É uma contradição crucial e o longa a ignora, prosseguindo com dramas familiares e éticos que lentamente empacam a trama ou a tornam episódica de forma involuntária, como na crise do pai-e-filha entre Dalton e Niki (Elle Fanning) ou os conflitos do protagonista com aqueles que o traíram. Tal qual McKay, Roach parece hesitante em realizar de fato uma comédia em cima dos fatos, mas aqui ele busca trazer maior peso ao terceiro ato como forma de compensar seus "equívocos" na interpretação dos eventos.

A sorte do longa é que, se a direção demonstra timidez na hora de se assumir plenamente no humor, seu elenco entende e incorpora o escracho sem nenhum arrependimento. Mesmo os atores e atrizes mais conhecidos pelos papéis "sérios" como Helen Mirren, Diane Lane e Adewale Akinnuoye-Agbaje se divertem na composição caricata de seus personagens, e se unem aos comediantes Louis C.K. e Michael Stuhlbarg tanto nos momentos mais leves como nos graves. Uma química invejável, capaz de segurar as pontas inclusive nos pontos baixos da obra.

A maior força de Trumbo, porém, é Cranston. Sua atuação teatral do roteirista workaholic nunca sai do tom, seja como personagem essencialmente cômico - quando é hostilizado por um desconhecido sendo encharcado por um copo de refrigerante ou quando beija um periquito pousado em seu ombro num close que não esconde de ninguém a maquiagem falsa - ou exigido de drama (a já mencionada relação com a filha mais velha, em ótima dinâmica com Fanning), que apesar de ser escancarada no overacting prova ser tão cuidadosa de composição quanto seus trabalhos mais delicados. Por ser protagonista ou pela qualidade de sua performance, ele termina por ser a melhor representação do teor estabelecido pelo filme, em sua silhueta marcada pelos ombros levantados e as pernas duras uma verdadeira afronta ao sistema e seu ridículo modo de operação.

Nota: 7/10

domingo, 31 de janeiro de 2016

Crítica: Anomalisa

O amor nos tempos da amargura.

Por Pedro Strazza.

Filmes que se usam da animação para contar suas histórias são famosos por possuírem um alto controle sob todo e qualquer tipo de elemento visual que empregam em cena, e isso tende a aumentar quando a metodologia é o stop-motion. Anomalisa, segundo longa-metragem do roteirista Charlie Kaufman como diretor e debute de Duke Johnson na função, segue à risca esse processo, aproveitando o perfeccionismo inerente à técnica para imprimir na narrativa o emocional instável de seu protagonista. A maneira como isso é realizado, porém, não necessariamente traz aquilo que os diretores planejam a princípio.

Baseado na peça de mesmo nome que Kaufman escreveu em 2005, o filme é protagonizado por Michael Stone (David Thewlis), um famoso escritor e analista de serviço de atendimento ao cliente que viaja a Cincinnati para dar uma palestra sobre o tema. Melancólico, Michael sente-se em um mundo uniforme e impessoal, onde todos à sua volta parecem ter a mesma atitude, rosto e voz, mas suas esperanças se reacendem quando conhece Lisa Hesselman (Jennifer Jason Leigh), uma típica garota do interior que parece ser a única a ter alguma personalidade no universo do hotel.

Levemente disfarçada de romance, a temática central da trama é trabalhada pelo filme com sutileza encantadora, e não apenas por causa de seus elementos de efeito mais imediato ao qual tanto se aproveita, como o fato de todos os personagens em cena à exceção do casal protagonista possuírem a mesma identidade visual e serem dublados por Tom Noonan. Kaufman e Johnson são simples na organização espacial dos cenários se comparados aos trabalhos de estúdios como a Aardman ou a Laika, mas se aproveitam muito bem do stop-motion para dar a estes a artificialidade necessária, que compõe o mundo paranoico de Michael nas coisas pequenas (o balde de gelo, a revista que vende chili na capa) e grandes (a sex shop e a divertida uniformidade de seus consolos).

É uma atmosfera delicada e impressionante, mas não tão bem utilizada pelo roteiro. Em muitos momentos soando como uma história curta que foi esticada para ocupar os noventa minutos de um longa-metragem, Anomalisa não demora muito a repetir sem criatividade os maneirismos de Kaufman, que refaz sua estética depressiva em um trabalho de maior controle. E se o maior domínio por um lado permite ao diretor executar seu roteiro como bem entende, ele também impede a obra de alçar voos maiores por estar preso a seus mecanismos.

Neste quesito de dominância, a comparação com Sinédoque, Nova York, primeiro trabalho do cineasta, permite uma maior elucidação do caso. Também um típico trabalho de roteirista no comando, o filme protagonizado por Philip Seymour Hoffman com velocidade se entrega a jogos metalinguísticos complexos, e o eventual descontrole que se sucede na narrativa é o que o permite se expandir em temáticas mais difíceis e existenciais. Em Anomalisa, o sufocamento provoca o contrário, particularizando a trama em temas que apesar de sugeridos nunca chegam a ser explorados de fato pelo roteiro.

E se o particular em outras obras trabalha a favor, aqui ele só ressalta o estranho viés adolescente de sua história de amor. Pois apesar de a todo momento posar e insistir na imagem de ser uma animação adulta - deve ser a primeira vez que um longa em stop-motion abusa tanto de cenas com cigarros, bebidas alcoólicas, partes sexuais do corpo humano e sexo oral - Anomalisa não consegue escapar de questões conhecidas da juventude, como a da busca da identidade na sociedade ou da procura pelo amor perfeito. E Charlie Kaufman, em uma síndrome ou de adolescente que se recusa a crescer ou de adulto amargurado e saudoso dos dilemas juvenis (que em ambos os casos traz fácil identificação com as gerações mais jovens), acaba por se comportar como uma espécie de John Green da depressão.

Nota: 6/10

sábado, 30 de janeiro de 2016

SAG Awards 2016: Indicados e Vencedores

Spotlight e diversidade são os grandes vencedores da noite.

Por Pedro Strazza.

A corrida pelo Oscar de Melhor Filme ficou ainda mais acirrada. O SAG Awards, prêmio concedido pelo sindicato de atores e atrizes de Hollywood e um dos grandes termômetros ao prêmio máximo e de atuação da Academia, concedeu sua a honraria de Melhor Elenco a Spotlight na última noite de sábado (30), confirmando o filme sobre jornalismo como um dos grandes favoritos do Oscar 2016. O resultado, porém, difere ao do sindicato de produtores, outro termômetro da estatueta e que deu a A Grande Aposta seu troféu de Melhor Filme, colocando um ponto de interrogação ainda maior na disputa do maior prêmio da indústria hollywoodiana.

O SAG também mostrou os primeiros sinais do impacto da polêmica do "Oscars So White", o debate sobre a predominância de brancos na produção cinematográfica e do pouco reconhecimento para o trabalho de atores e atrizes negros na indústria. Além dos vários discursos que fizeram referência ao assunto - principalmente nas categorias de série de comédia, que foram dados a uma negra (Uzo Aduba, Melhor Atriz em Série de Comédia por Orange is the New Black), um ator que faz o papel de um transsexual (Jeffrey Tambor, Melhor Ator em Série de Comédia por Transparent) e a um elenco de ampla diversidade étnica (Orange is the New Black, Melhor Elenco em Série de Comédia) - e do domínio de atrizes negras nas categorias femininas de televisão, a premiação surpreendeu ao dar dois SAGs de performance individual para o ator Idris Elba, que se torna o primeiro ator na história a realizar tal feito na mesma noite. Ausente no Oscar, Elba ganhou nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Beasts of No Nation) e Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme (Luther).

Ainda em relação à Academia, o sindicato de atores confirmou os favoritos aos quatro prêmios de atuação na cerimônia do dia 28 de fevereiro: Brie Larson, Leonardo DiCaprio e Alicia Vikander ganharam em suas respectivas categorias, e com Mark Rylance e Christian Bale perdendo para Elba, o troféu de Melhor Ator Coadjuvante parece estar nas mãos de Sylvester Stallone. As surpresas podem acontecer, é claro, mas a cada dia que passa elas minguam mais e mais.

As grandes reviravoltas aconteceram mesmo na televisão. Com as produções da Netflix e da Amazon ampliando o domínio no prêmio (foram 3 para a primeira e 1 para a segunda), o SAG surpreendeu ao ignorar Jon Hamm - que nunca levou o trófeu por performance individual - e Mad Men para conceder Melhor Ator em Série Dramática e Melhor Elenco em Série Dramática a Kevin Spacey (House of Cards) e Downton Abbey, respectivamente.

Confira abaixo a lista completa de indicados e vencedores (em negrito) do SAG Awards 2016:

Cinema

Melhor elenco
  • Beasts of No Nation
  • A Grande Aposta
  • Spotlight: Segredos Revelados
  • Straight Outta Compton - A História do N.W.A.
  • Trumbo
Melhor atriz
  • Cate Blanchett - Carol
  • Brie Larson - O Quarto de Jack
  • Helen Mirren - A Dama Dourada
  • Saoirse Ronan - Brooklyn
  • Sarah Silverman - I Smile Back
Melhor ator
  • Bryan Cranston - Trumbo
  • Johnny Depp - Aliança do Crime
  • Leonardo DiCaprio - O Regresso
  • Michael Fassbender - Steve Jobs
  • Eddie Redmayne - A Garota Dinamarquesa
Melhor atriz coadjuvante
  • Rooney Mara - Carol
  • Rachel McAdams - Spotlight: Segredos Revelados
  • Helen Mirren - Trumbo
  • Alicia Vikander - A Garota Dinamarquesa
  • Kate Winslet - Steve Jobs
Melhor ator coadjuvante
  • Christian Bale - A Grande Aposta
  • Idris Elba - Beasts of No Nation
  • Mark Rylance - Ponte dos Espiões
  • Michael Shannon - 99 Homes
  • Jacob Tremblay - Room

Televisão

Melhor elenco de série dramática
  • Downton Abbey
  • Mad Men
  • Game of Thrones
  • Homeland
  • House of Cards
Melhor atriz de série dramática
  • Claire Danes - Homeland
  • Viola Davis - How to Get Away with Murder
  • Julianna Margulies - The Good Wife
  • Maggie Smith - Downton Abbey
  • Robin Wright - House of Cards
Melhor ator de série dramática
  • Jon Hamm - Mad Men
  • Peter Dinklage - Game of Thrones
  • Rami Malek - Mr. Robot
  • Bob Odenkirk - Better Call Saul
  • Kevin Spacey - House of Cards
Melhor elenco de série cômica
  • The Big Bang Theory
  • Key & Peele
  • Modern Family
  • Orange is the New Black
  • Veep
Melhor atriz de série cômica
  • Uzo Aduba - Orange is the New Black
  • Edie Falco - Nurse Jackie
  • Ellie Kemper - Unbreakable Kimmy Schmidt
  • Julia Louis-Dreyfus - Veep
  • Amy Poehler - Parks and Recreation
Melhor ator de série cômica
  • Ty Burrell - Modern Family
  • Louis C.K. - Louie
  • William H. Macy - Shameless
  • Jim Parsons - The Big Bang Theory
  • Jeffrey Tambor - Transparent
Melhor atriz em minissérie ou filme feito para a TV
  • Nicole Kidman - Grace of Monaco
  • Queen Latifah - Bessie
  • Christina Ricci - The Lizzie Borden Chronicles
  • Susan Sarandon - The Secret Life of Marilyn Monroe
  • Kristen Wiig - The Spoils Before Dying
Melhor ator em minissérie ou filme feito para a TV
  • Idris Elba - Luther
  • Ben Kingsley - Tut
  • Ray Liotta - Texas Rising
  • Bill Murray - A Very Murray Christmas
  • Mar Rylance - Wolf Hall

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Crítica: Joy - O Nome do Sucesso

David O. Russell brinca com a estrutura da novela para entregar mais uma atuação de excessos de Jennifer Lawrence.

Por Pedro Strazza.

Desde que voltou a trabalhar como diretor e se tornou peça-chave nas corridas anuais aos Oscar de atuação, David O. Russell tem mostrado cada vez mais interesse nas histórias que fizeram sucesso em Hollywood e a mantiveram como a indústria milionária que conhecemos. Do filme de boxe ao romance água-com-açúcar, além da trama de roubo, o cineasta tem demonstrado em seus trabalhos recentes uma predisposição incomum de repetir tais estruturas por pura admiração, como o típico adulto que, crescendo em meio a obras desse tipo, busca mantê-las vivas nos dias de hoje passando-as para a próxima geração. Mas ao invés de fazer isso pelos filhos, O. Russell trabalha essa necessidade através de seus filmes.

Com isso em mente, é mais fácil de entender algumas das escolhas do diretor com Joy - O Nome do Sucesso, relato da ascensão da inventora Joy Mangano como poderosa empresária no começo dos anos 90. Com clara inclinação ao novelesco conhecido das soap operas televisivas - presente desde o seu início com a reencenação de uma - o filme se aproveita da trajetória de sua protagonista para refazer o que talvez seja um dos maiores arcos do cinema estadunidenses: o de superação, da realização do sonho americano e no fim a história de transformação por essência.

E como em seus outros trabalhos, ele realiza esse caminho tão conhecido pela metodologia do exagero. Seja nos já famosos grandes espaços narrativos para overacting de seu elenco ou na fotografia inquieta e alternante entre a palidez fria e o estouro de cores de Linus Sandgren (também parceiro do cineasta em Trapaça), O. Russell mais uma vez dá a entender que opera pelo excesso para chamar mais atenção à trama, em um tipo de manobra que mais uma vez demonstra seu fascínio pelo cinema intenso de seu ídolo Martin Scorsese. Por consequência, o melodrama se torna em ferramenta primordial de execução narrativa.

Em uma primeira instância, essa visão do diretor soluciona algumas das problemáticas mais superficiais do longa, como a falta de nexo na conexão da dramaticidade exacerbada da soap opera com a cinebiografia ou o fato de Jennifer Lawrence ser dez anos mais nova para interpretar a protagonista. Mas conforme se aprofunda na história que conta, o exagero consegue aos poucos dar maior naturalidade aos exercícios narrativos que Joy ora ou outra se submete (os flashbacks ocasionais, por exemplo) e, principalmente, ao ato de revelação concedido à protagonista em sua metamorfose de dona-de-casa endividada à empresária, que alcança um primeiro clímax bastante funcional em sua visita ao estúdio de infomerciais do empresário vivido por Bradley Cooper.

O problema é que se Scorsese mostra-se sempre em controle das situações que proporciona em seus filmes, O. Russell parece não ter a mesma sorte. E se Trapaça acabava por ficar à deriva das próprias reviravoltas, aqui ele tenta solucionar essa dificuldade assegurando constantemente seu controle, mesmo quando não é necessário. Assim, por mais que ofereça aqui e ali alguns bons momentos, o arco de emancipação de Joy da família que a atrasa e a puxa para baixo nunca consegue alcançar o impacto necessário, muito em parte porque seu diretor não deixa de pesar a mão e torna o filme maciço sem precisar.

Mas se no geral o longa afunda conforme os eventos se desenrolam, na performance de sua protagonista ele parece encontrar algum ponto de equilíbrio. E no fundo, talvez seja o filme de ator que O. Russell tanto procure em suas produções extravagantes e agora entregues de fato ao novelesco, depositando em Lawrence as esperanças de uma grande performance. Para a atriz isso não incomoda tanto, já que permite a ela o espaço necessário para praticar seu overacting e (por enquanto) carimba sua visita às principais premiações da indústria cinematográfica estadunidense.

Nota: 5/10

domingo, 17 de janeiro de 2016

Crítica: Carol

Todd Haynes traça história de amor pela sutileza da imagem.

Por Pedro Strazza.

Em determinado momento do primeiro ato de Carol, a protagonista Therese (Rooney Mara) conhece em uma sala de projeção de cinema um jornalista apaixonado por filmes românticos. Após confessar já ter visto mais de cinco vezes a película que ambos assistem, ele emenda afirmando que está estudando quais são as mensagens passadas pelos personagens em seus gestos e expressões faciais, a fim de desenvolver sua teoria de que o que o ser humano não consegue manifestar em palavras ele o realiza em tais movimentos. Muito mais tarde na história, Therese avista este mesmo personagem em uma festa, sentado de frente à uma televisão e anotando sobre possivelmente um filme em companhia de uma garota que descansa a cabeça em seu ombro.

Embora seja um personagem de nula importância à trama e quase figurante na narrativa, esse jornalista consegue resumir em pouquíssimos segundos de tela o objetivo central do diretor Todd Haynes com esta adaptação do livro homônimo de Patricia Highsmith. E apesar de a princípio parecer se comportar como uma obra cinematográfica de base literária, Carol logo se desfaz dessa contratualidade subjetiva de produções do tipo para abraçar as oportunidades que o cinema lhe oferece e contar a história do romance entre a trabalhadora Therese Belivet e a rica dos subúrbios Carol Aird (Cate Blanchett).

Isso se torna palpável na maneira gradual pela qual o longa revela o que privilegia em cena. Os diálogos roteirizados por Phyllis Nagy aos poucos se tornam em um palco na narrativa, pelo qual Haynes e o diretor de fotografia Edward Lachman filmam os personagens em busca do que estes realmente sentem naquele instante. Como o jornalista do cinema, o filme trabalha com frequência na diferenciação da expressão pela fala da pelo gesto corporal, com clara preferência ao último. Pois para o diretor e à produção, o que interessa é o que está sendo dito pelo corpo, como bem esclarece o uso do plano detalhe para destacar o olhar, o manuseio de um objeto ou, em particular, no toque entre pessoas.

Mas enquanto que em outras produções do tipo esta metodologia logo desemboca no exagero, que procura expor qualquer movimento como essencial, Carol se destaca por realizar o exato movimento contrário. Aproveitando-se da postura de interiorização adotada como bons modos dos anos 50, o longa parece impor ao elenco a prática do disfarce, do movimento de esconder os sentimentos e reais intenções dos personagens nos diálogos realizados. São raros as situações da obra em que um dos personagens explode e exprime suas sensações, mas quando estes o fazem (por um acesso de choro, de ira ou de paixão) seu impacto é devastador, de maneira a reforçá-lo sem maior alarde.

Aplicados com parcimônia, estes momentos de intensidade emocional, assim como seu constante aprisionamento, também são destacados na elaboração espacial das cenas. Estruturados como uma realidade onírica pela iluminação e a estética vintage do design de produção de Judy Becker, os cenários são compostos ou em linhas e ambientes que aprisionem os personagens e os separem do resto das pessoas com que contracenam, de forma a realçar seu sufocamento emocional, ou em duas ou mais camadas, que situando a ação no mais distante deles evidencia a distância entre os indivíduos retratados.

O resultado é um conjunto de relações que nos diálogos parecer soar fria e distante, mas nas ações mínimas se revela um filme de intensidade ímpar, e grande culpa disso recai no trabalho soberbo das duas atrizes que o protagonizam. Conscientes do poder da mínima demonstração corporal na obra, Mara e Blanchett trabalham seus papéis na sutileza, privilegiando com sabedoria as rápidas e pequenas interações físicas entre Therese e Carol com olhares cúmplices e a timidez necessária. E se a primeira acerta na composição centrada no eventual arco de amadurecimento que sua protagonista experimenta na história, Blanchett faz a sua característica pose sólida e típica do indivíduo privilegiado com a atitude de alguém que está no auge da carreira e sabe muito bem disso.

Mas por que compor o filme dessa maneira, se Carol nunca chega a se interessar ou entrar de fato na questão da relação homoafetiva em um parâmetro social (a única exceção talvez seja na cena em que Carol confronta no divórcio a postura de seu marido, muito bem trabalhado por Kyle Chandler)? Para Haynes, independente da forma pela qual se manifeste, o amor funciona como uma linguagem universal, cuja concepção pode ser expressa em qualquer forma de comunicação. Ao traduzir isso através da imagem e não do diálogo, porém, o diretor evidencia na tela o amor das duas protagonistas com sensibilidade impressionante, ao mesmo tempo em que demonstra no particular a confluência de sensações diferentes que o cinema abrange e o diferencia das outras artes, traduzido em um ápice tocante de uma troca de olhares rápida, incisiva e capaz de passar toda a emoção do momento sem dizer uma palavra.

Nota: 10/10

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Crítica: A Grande Aposta

Filme de desilusão encara crise de 2008 com humor e olhar documental.

Por Pedro Strazza.

Apesar de incluir um animal pra valer só no fim do primeiro ato de A Grande Aposta, é peculiar a maneira como o diretor Adam McKay e seu diretor de fotografia Barry Ackroyd estabelecem com velocidade na narrativa o seu viés de documentário típico do National Geographic. A alternância constante entre planos abertos e fechados em planos tremidos, auxiliados pela montagem esperta de Hank Corwin, serve para dar ao espectador a mesma sensação que ele experimenta ao assistir esses filmes sobre a natureza, em que o didatismo é peça central para ele entender as relações predatórias primordiais e "a beleza desses belos animais selvagens em seu habitat natural" enquanto as encara de longe. Mas ao invés de ferozes onças e gigantescos elefantes, ele oferece um tipo de fera bastante diferente.

Baseado em um livro escrito por Michael Lewis, o filme conta a história de vários grupos de especialistas econômicos que previram o advento da crise financeira e imobiliária de 2008 e tiraram proveito dela, investindo em inúmeros CDSs (Credit Default Swaps) que apostavam contra os bancos responsáveis pelo colapso. Recorrendo a exposições constantes nos diálogos exercidos pelos três principais núcleos - liderados por Steve Carell, Christian Bale, Ryan Gosling e Brad Pitt - a obra se comporta como tantas outras dispostas a se debruçar sobre o tema, explicando como foi possível que essa Grande Recessão mundial ocorresse.

A maior mudança, aqui, é de tom: ao invés de manter constante o tom de tragédia sobre os acontecimentos, o roteiro de McKay e Charles Randolph prefere empurrar essa consciência mais pesada para o terceiro ato, e ocupa os dois primeiros terços da trama de um humor sarcástico e focado nos absurdos que o longa apresenta ao longo do caminho. E como Nero tocando a harpa do alto de seu palácio enquanto Roma se consumia em chamas, o espectador rapidamente se diverte com os choques de realidade que ele e os protagonistas recebem ao se dispor a olhar o estado geral da economia estadunidense antes de tamanho desastre.

O curioso dessa abordagem é que A Grande Aposta parece reconhecer o universo que adentra com a mesma estranheza com a qual o homem da cidade encara a vida selvagem na televisão, e isso não acontece apenas pelos maneirismos documentais da fotografia. As constantes quebras de quarta parede para reafirmar a veracidade (ou não) dos fatos e o uso de estrelas conhecidas por atributos de valor imediato (Margot Robbie, Selena Gomez, o famoso chef de cozinha Anthony Bourdain) servem não só para o filme chamar a atenção do público para seu conteúdo e impedi-lo de ficar preso à sua estética dinâmica - em nenhum momento incômoda, vale acrescentar - como também funciona em seu esforço de mostrar a este o nível de delírio que a sociedade estadunidense chegou em sua eterna ambição pelo lucro, eternizadas nas intercalações rápidas de imagens de uma cultura dominada pelo irreal.

Talvez seja por essa motivação que ele se permita a se levar pelo contraponto traumático ao começar a mostrar os efeitos da crise na população. Seja quando o personagem de Pitt repreende a comemoração de seus parceiros (interpretados por John Magaro e Finn Wittrock) ou na depressão que abate o investidor interpretado por Carell e sua peruca sempre descabelada, essa mudança repentina na narrativa acaba reforçando no longa o impacto da ação devastadora da crise, e traumatiza o próprio espectador por rir da trajetória que levou àquilo.

E é isso que encanta. Mesmo que assuma no fim a sua estrutura de filme de desilusão, A Grande Aposta sabe diluir isso em uma de impacto, muito mais eficaz no choque em relação à melancolia, e promover uma mistura funcional de olhares quase antagônicos - humor, documental e dramático - em torno de uma trama quase de Alice no País das Maravilhas. E ainda que o espectador termine como o personagem de Carell, em um misto de arrependimento por seus atos e de revolta pela natureza do sistema, é fascinante a forma como McKay o prende sem este conseguir compreender mais de 50% do que é dito pelos personagens em cena.

Nota: 9/10

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Crítica: Steve Jobs

O personagem por trás do mito.

Por Pedro Strazza.

Ícone da tecnologia e responsável pelas maiores revoluções de nosso cotidiano, Steve Jobs tem se provado um objeto difícil de estudo no cinema. Muito em parte por causa da própria aura messiânica que ele e a Apple criaram em sua figura, os documentários sobre sua pessoa e as duas cinebiografias lançadas falharam na tentativa de traduzir para as telas tanto o motivo dele ser considerado por muitos um gênio quanto sua personalidade difícil, marcada por um comportamento agressivo e capaz de acreditar nas próprias verdades que inventava. No caso das obras ficcionais sobre sua pessoa, percebe-se uma predominância dessa primeira faceta: Jobs e Piratas da Informática nunca conseguiram se desviar de fato da idolatria, se perdendo na hora de mostrar (ou omitindo, no caso do primeiro) o outro lado da moeda.

No caso de Steve Jobs, essa é uma problemática que nunca chega a acontecer. Com base na biografia oficial do empresário e determinado a explorar o homem por trás do mito, o roteirista Aaron Sorkin busca estabelecer nesta terceira cinebiografia uma análise em cima da pessoa difícil que era Jobs, sem se preocupar contudo com a veracidade dos fatos. Pois a partir do momento que o protagonista de ascendência síria é interpretado por um alemão e o papel de seu pai cabe a um ator de traços sírios, o filme descola da realidade.

Isso fica claro já na estrutura adotada por Sorkin no roteiro e que é traduzida pelo diretor Danny Boyle da melhor maneira que ele acha ser possível. Inteiro passada nos bastidores de três apresentações de produtos lançados por Jobs (o Macintosh, o NeXT e o iMac), o filme assume o tempo todo um ar de teatralidade semelhante ao de Birdman, onde é mais importante assistir ao que acontece por trás dos panos que o espetáculo em si - algo reforçado pelo protagonista quando diz "Não gosto da estética circense". Ao invés do show, o longa apresenta o drama, centrado nas relações de Steve (Michael Fassbender) com sua diretora de marketing Joanna Hoffman (Kate Winslet) e sua filha Lisa (Makenzie Moss aos 5, Ripley Sobo aos 9 e Perla Haney-Jardine), além do antigo CEO da Apple John Sculley (Jeff Daniels), a mãe de Lisa (Katherine Waterston) e os colegas Steve Wozniak (Seth Rogen) e Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg).

A princípio, a estratégia do roteiro mostra ser mais eficaz comparada a das outras duas cinebiografias. Ao abandonar a convencionalidade de retratos do tipo e apostar em um cenário mais dramatúrgico, partindo dos produtos que marcaram Jobs como ídolo dos entusiastas da tecnologia, a produção se desprende da necessidade de evidenciar o tempo todo a importância do protagonista e de sua genialidade, livre para explorar sua pessoa do jeito que preferir. E experiente no diálogo rápido e incisivo que o é, Sorkin é capaz de desconstruir Steve em seus pontos mais polêmicos, como na relação com a filha (que por um bom tempo negou ser sua) ou no tratamento dado aos empregados de sua empresa.

Mas é com velocidade que o filme logo começa a desandar em sua própria proposta, e prova-se limitado em questões importantes. Além da decisão equivocada de manter os mesmos personagens coadjuvantes em todos os três momentos do longa, insistindo em manter algumas participações que com o tempo se tornam irrelevantes ao invés de substituí-las por outras tão interessantes quanto (a interação de Sculley com Jobs no lançamento do iMac, por exemplo, acaba por ser uma gordura), Steve Jobs em muitos momentos hesita entre manter o tom de encenação - alterando e inventando fatos, ignorando figuras importantes ao longo do caminho - e o de provar seu realismo, e preenche falas inteiras de exposição com base no livro escrito por Walter Isaacson. E para quem leu a obra, é ainda mais claro como Sorkin parece transferir informações inteiras para os diálogos, realçando ainda mais o caráter artificial de seus cenários antissépticos.

Por outro lado, a produção se perde ainda mais na direção de Boyle, que não resiste à tentação de preencher o longa com seus exibicionismos típicos. Constantemente desequilibrado na trilha sonora, o filme exagera ao conferir dados e imagens de arquivo nas paredes dos anfiteatros e conferir closes desnecessários em objetos irrelevantes à narrativa, enquanto a montagem é ávida em dar o maior número de informações possíveis por segundo. Boyle, enquanto isso, tem dificuldades constantes de tornar palpável a tensão entre os personagens, investindo em planos abertos e inclinados ao bel prazer e sem motivo maior, tal qual sua decisão por diferentes câmeras para diferentes épocas.

O que salva a obra desse colapso geral são Fassbender, Winslet e as três intérpretes de Lisa, que graças ao espaço dado por Sorkin tem a capacidade de transformar um filme de roteiro em um de ator. Nos diálogos de Steve com Joanna e Lisa, percebe-se no texto de Sorkin uma propensão de evidenciar entre os três a formação de uma unidade familiar criada no trabalho, lugar onde o protagonista sempre manteve a cabeça. Para o roteirista, é essa propensão ao workaholic puro que torna Jobs, o "maestro da orquestra", em uma pessoa diferente das demais, incapaz de se conectar emocionalmente com os outros. O problema é que essa visão parece ser a única em Steve Jobs, no mais um filme sem a ambição necessária para ir mais fundo em seu retratado.

Nota: 6/10