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domingo, 22 de maio de 2016

Crítica: X-Men - Apocalipse

Sexto capítulo da série enfim acerta o tom, mas recorre de novo ao passado.

Por Pedro Strazza.

Ainda que tenha sido responsável por estabelecer todos os tiques e maneirismos do subgênero de super-heróis neste início de século, a franquia X-Men sempre esteve em conflito interno no tocante à identidade a ser assumida em seus filmes. Se por um lado a imagem criada e consolidada pelo diretor Bryan Singer nos dois primeiros capítulos não foi bem incorporada nas sequências imediatas (O Confronto Final, X-Men Origens - Wolverine e Wolverine - Imortal) e se tornou ultrapassada com o passar do tempo, o reinício simbólico à partir de Primeira Classe não exatamente trouxe algo pela qual a série poderia se sustentar em cima, desembocando no pastiche preso na nostalgia que é Dias de um Futuro Esquecido.

Talvez seja por isso que X-Men - Apocalipse, sexto episódio de uma história já com nove longas, sirva a Singer (pela quarta vez no comando de uma produção da série) e o roteirista Simon Kinberg (em sua terceira participação) ao mesmo tempo como uma espécie de recomeço e última tentativa na franquia, uma forma de tentar impor de uma vez por todas às histórias dos mutantes um tom pelo qual estes possam ser conduzidos satisfatoriamente agora e no futuro. A solução encontrada pela dupla foi a de recorrer aos quadrinhos, e o resultado, pelo menos no que consta a essa questão, é bastante agradável.

Já se percebem as pequenas mudanças na proposta da grande ameaça a ser enfrentada pela escola de seres extraordinários de Charles Xavier (James McAvoy), o todo-poderoso Apocalipse (Oscar Isaac) do título. Na trama, depois de voltar à vida, o vilão ancestral quer destruir o mundo e retomá-lo, e para isso escolhe quatro mutantes - Magneto (Michael Fassbender), Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke (Olivia Munn) e Anjo (Ben Hardy) - para serem seus cavaleiros. Com Xavier sequestrado pelo ser e seus asseclas, resta a Mística (Jennifer Lawrence), Fera (Nicholas Hoult) e a agente Moira Mactaggert (Rose Byrne) liderar o restante do grupo nos esforços de derrotar o primeiro mutante.

Singer e Kinberg não escondem aqui que bebem bastante do tipo de narrativa usado e consagrado por Chris Claremont em sua extensa fase com os mutantes nos quadrinhos, incorporando o didatismo intercalado em múltiplos núcleos do autor para conseguir proporcionar o espaço necessário a todos os envolvidos em sua trama de ambições grandiloquentes. O lado bom disso é que nessa abordagem o diretor também parece assemelhar bem o porquê de Claremont propor tal dinâmica nos gibis, que é o de levar a ligação entre personagem e espectador/leitor como objetivo central das histórias.

Nesse ponto, em que a elaboração e o desenvolvimento dos personagens se faz tão vital, o filme encontra seus melhores momentos apesar dos tropeços ocasionais. Existe no longa um equilíbrio bastante delicado e preciso entre os arcos daqueles que já foram apresentados e seguem seu curso natural - os testes de fé de Xavier, o conflito emocional de Magneto, a sensação de não pertencimento a lugar nenhum de Mística - e os que estão sendo apresentados - a dinâmica dos jovens e excluídos Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner) e Noturno (Kodi Smit-McPhee), a melhor parte deste capítulo - que soa inédito e funciona muito bem como motor central da história. O diretor aqui deixa de lado uma visão dos mutantes como simples peças de um espetáculo superpoderoso (seu norte em suas outras três incursões pela série) para abraçar os perfis individuais de cada um, privilegiando as relações entre os elementos em detrimento do maravilhamento do público com seus dons. Um bom exemplo dessa tendência é o crescimento da participação de Mercúrio (Evan Peters), que mesmo protagonizando de novo mais uma (fantástica) cena de exibição de suas habilidades com velocidade ganha toques dramáticos em sua jornada em busca do pai.

Mas se por um lado o longa revigora a franquia na visão sobre os personagens, a maneira como ele os usa no plano geral não poderia estar mais desgastada. Embora ofereça um tipo diferente de ameaça no papel, Singer repete com Apocalipse a mesma alegoria dos mutantes como judeus e o Holocausto que já trata desde o primeiro X-Men, agora sob uma ótica religiosa que não se justifica de forma plena e dá a sensação de uma repetição enfadonha. As interações entre Magneto e o vilão, por exemplo, são usadas por Kinberg como interessante elemento central da evolução da trama e da pretensa relação entre Deus e homem, mas soa antagônico com o objetivo de aproximar espectador da história por soar desconexo por completo da realidade do público ao qual tanto busca se encaixar. A História do mundo dos X-Men avança a passos largos, mas ainda tem-se a necessidade de recorrer à mesma cena de Magneto, seus pais e o portão entortado de Auschwitz para reforçar um trauma superado por todos os envolvidos.

Essa falta de conciliação entre o antigo e o novo são o que levam o filme a se fragmentar, mesmo este sendo capaz de evitar o piripaque e manter tudo mais ou menos unido até o fim. O curioso são as discrepâncias ocasionais, algo do qual X-Men vive no cinema agora como algo comum: a destruição apocalíptica do mundo que em nada se equivale ao teor do clímax concentrado do terceiro ato (e lembra bastante Cavaleiros do Zodíaco na forma como põe mocinhos e vilões para se enfrentar), a macroescala que em nada se conecta com a micro, o drama dos mutantes que soa distante e ocasionalmente palaciano ao restante dos humanos... se em Primeira Classe e Dias de um Futuro Esquecido estes eram problemas rasos, Apocalipse os aprofunda em suas metas de buscar mais das relações e dos arcos em evidência.

E isso não é um problema, a bem da verdade. Os objetivos de Singer em X-Men - Apocalipse são nobres e bastante benéficos neste afã de (parafraseando o antagonista da vez) desbloquear o potencial dos personagens como reflexo da realidade e fonte de boas histórias, mas mais do que nunca está evidente o quão necessário é a iniciativa de realizar essa busca e, em simultâneo, o quão presa no passado a franquia se encontra no momento. Com Apocalipse, os mutantes estão efetivamente prontos para o mundo de hoje e seus temas. O que falta agora é dar o primeiro passo.

Nota: 7/10

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Crítica: Lugares Escuros

Filme sofre por elementos internos e externos, mas traz qualidades próprias.

Por Pedro Strazza.

É complicado assistir Lugares Escuros sem lembrar pelo menos uma vez ou duas de Garota Exemplar. Ambas adaptações de livros escritos por Gillian Flynn, o primeiro se assemelha muito ao segundo em estrutura, temas e até viradas, culpa em parte do fato de ser o antecessor imediato do best-seller de 2012 e de sua versão cinematográfica chegar pouco menos de um ano depois do lançamento do longa dirigido por David Fincher. As consequências de tal decisão se fazem imediatas, e o filme comandado por Gilles Paquet-Brenner sofre por essas comparações.
A história acompanha Libby Day (Charlize Theron na fase adulta, Sterling Jerins quando criança), única sobrevivente do assassinato de sua família que ficou conhecido na mídia como o "Massacre do Kansas" e que tem como culpado seu irmão Ben (Corey Stoll no presente, Tye Sheridan no passado). Sem rumo na vida e com dinheiro faltando, ela aceita o convite de um garoto chamado Lyle (Nicholas Hoult) para ajudar em sua sociedade de investigadores amadores, que acredita na inocência de Ben e busca solucionar a identidade do verdadeiro assassino.
Embora a produção não tenha envolvido Flynn na transposição do livro para a telona, é possível enxergar traços da autora por toda a narrativa. Os flashbacks, a protagonista detestável, o clima derrotista oriundo do reflexo da crise dos Estados Unidos... tudo em um estágio mais primário, que se usa de engrenagens mais simples e por vezes mais dada a falhas. Quem bem atesta isso é o próprio personagem de Lyle, que assume na narrativa desenvolvida por Paquet-Brenner um caráter simplório de fio condutor da trama.
A grande diferença entre Lugares Escuros e Garota Exemplar, na verdade, reside na instituição da qual o longa se dispõe a desconstruir. Enquanto que na obra de Fincher era o casamento o objeto de crise, o filme usa do mistério em mãos para expor as mazelas da família tradicional, principalmente pelo núcleo de personagens presentes nos flashbacks que do princípio mostram este contexto de fragmentação. Seja no pai ausente, no filho problemático ou nas dificuldades para manter a fazenda em posse, a família Day mostra ao longo de seu último dia de vida uma conjuntura de sinais de desabamento, e não chega a surpreender que a matriarca Patty (Christina Hendricks), grande pilar de sustentação do grupo, seja a única a perceber isso.
Mas por mais que seja uma crise de padrão global, é interessante ver como Flynn a transpõe mais uma vez para o próprio contexto estadunidense, algo que Paquet-Brenner compreende e reproduz com relativo sucesso. Nesse ponto, a história dos Day consegue criar uma distância mais clara da dos Dunne por possuir um maior pessimismo, pois Lugares Escuros não traz o antigo por uma ótica nostálgica como Garota Exemplar: privilegia-se tanto no passado quanto no presente uma valorização da decadência e do vazio (quando não tomado pela bagunça do consumismo, a exemplo da casa onde a Libby adulta vive), e não há qualquer sinal de esperança em nenhum dos horizontes que não seja considerado por todos uma bobagem infantil.
Se não fosse a proximidade com seu sucessor literário e sua trama tão oscilante - a resolução da investigação no terceiro ato frustra pela infantilidade e abusa de um deus ex machina dos mais absurdos -, Lugares Escuros talvez ganharia maior destaque pela profundidade temática ao qual se dispõe a realizar. Seus problemas, porém, são tão visíveis quanto seus méritos, e isto acaba por se tornar simultaneamente em sua maior vantagem e desvantagem.

Nota: 7/10

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crítica: Mad Max - Estrada da Fúria

Fúria narrativa e roteiro questionador lideram épico de ação de George Miller.

Por Pedro Strazza.

Desde seu primeiro filme, a trilogia Mad Max estabeleceu com sucesso novas maneiras de se fazer ação no mesmo ritmo que construiu a escalada para o absurdo de seu universo pós-apocalíptico. Na jornada de formação do cavaleiro solitário que é seu protagonista, o diretor George Miller inovou o cinema em diversas vertentes, trazendo a este ideias e conceitos que seriam repetidos à exaustão por outras histórias em décadas posteriores, além de sagrar-se bastião do ascendente cinema australiano da época.
Realizar uma nova continuação para uma franquia tão fundamental após tantos anos, portanto, seria uma loucura em quaisquer medidas, e envolveria uma alta responsabilidade de qualquer um que o tomasse como tarefa. Para a sorte do cinema, essa responsabilidade foi levada em conta, pois Mad Max - Estrada da Fúria mostra desde o primeiro minuto uma inclinação visível à progressão - seja esta de sua franquia, gênero ou da História.
Em desenvolvimento desde 2011 e contando com o retorno de Miller à direção e roteiro (escrito junto dos estreantes Brendan McCarthy e Nick Lathouris), o quarto capítulo usa da jornada de travessia - um tipo de história típico do faroeste - como premissa de sua trama simples. A carga a ser transportada aqui são as jovens esposas do líder religioso e industrial Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que fogem de seus domínios lideradas por Imperator Furiosa (Charlize Theron) em busca de um lugar seguro. Atrás de seus futuros herdeiros na barriga das mulheres e com um exército de homens e automóveis em seu controle, Joe inicia uma caçada pelo veículo dirigido pelo grupo, que terá o auxílio de Max Rockatansky (Tom Hardy) para sobreviver ao caminho perigoso.
De certa forma, a história de Estrada da Fúria não escapa do que foi visto nos três primeiros Mad Max, mas acrescenta a elas mecanismos importantes. Max continua a agir como o justiceiro vindo de longe que se envolve e resolve auxiliar a jornada das vítimas da região, mas desta vez as vítimas estão mais preparadas para sobreviver ao inimigo opressor. Em muitos momentos, Furiosa assume no longa a posição de personagem principal nas ações ocorridas e relega a Rockatansky um papel secundário, e com isso põe-se em conflito o próprio papel do protagonista e seu papel de cavaleiro solitário, algo que acaba por repercutir de maneira interessante por todo o roteiro e sua estrutura de gênero.
Cientes dessa elaboração narrativa, Theron e Hardy a incorporam e fazem seus papéis em cima desta. A atriz imprime os efeitos de um mundo tão duro na figura de autoridade e decisiva de sua Furiosa, enquanto o novo intérprete de Max constrói o herói da maneira mais animalesca possível, distanciando-se como pode do trabalho de Mel Gibson no personagem e colaborando para estabelecer o tom da produção.
Por outro lado, a construção do universo pós-apocalíptico concebido por Miller contribui efusivamente para a escalada de loucura da franquia. Feito em simbolismos escancarados (o volante virar um instrumento de culto e veneração, por exemplo), uniões constantes entre elementos mitológicos clássicos e cultura contemporânea (o "mcbanquete nos portões do Valhalla" é o grande objetivo dos "kamicrazys", para se ter dois exemplos) e um deserto monocromático berrante, o mundo estabelecido neste quarto filme é exageradíssimo, mas ainda assim orgânico e bastante funcional, capaz de fazer o espectador compreender seus mecanismos pelos movimentos expositivos mais discretos em uma narrativa que se atrela quase que por completo ao visual.
E é justamente no jeito de contar sua história que o diretor mais acerta nesta nova incursão. Acelerado ao extremo, Estrada da Fúria é ágil e ordenado em construir os personagens e as situações ao mesmo tempo em que combina o lado técnico com os elementos da trama. O ápice, claro, é o carro sonoro conduzido por um guitarrista, que simultaneamente se envereda pela trilha sonora de Junkie XL e constrói a figura arrogante de Immortan Joe - afinal, quem diabos seria capaz de construir um veículo do tipo apenas para dar um acompanhamento musical às ações de seu exército?
Toda a estrutura elaborada é feita para culminar sempre em cenas de ação, orquestradas com precisão milimétrica pelo cineasta australiano. Miller inclusive rejeita a tendência recente do cinema em filmar a ação por closes e planos que inserem o espectador na ação, e opta por planos fixos para explicitar a magnitude e brutalidade das perseguições, que ganham mais peso nas colisões reais protagonizadas pelos veículos montados. O mundo aqui sobreviveu ao fim e sua sanidade desapareceu, e o longa incorpora isso da melhor maneira possível.
Com identidade oitentista e execução contemporânea, Mad Max - Estrada da Fúria é na raiz uma experiência intensa, capaz de inserir o espectador na loucura de sua história sem se perder no caminho. Acima de tudo, porém, o filme respeita suas origens e continua a construir o protagonista em sua jornada pós-apocalíptica, que, se tudo der certo, continuará a ser feita no futuro.

Nota: 10/10

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