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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Crítica: Evereste

Com dificuldades para lidar com grande elenco, relato ganha fôlego somente nos minutos finais.

Por Pedro Strazza.

Filmes de sobrevivência são conhecidos por conseguirem aproximar com maior facilidade o espectador de seus protagonistas, numa lógica batida de que o sofrimento passado pelo personagem pode ser repercutido para quem o assiste desde que este tenha a oportunidade de conhecer e entender suas motivações e desejos. O emocional, falando-se em obras deste nicho, é um pilar bastante importante a ser respeitado por quem busca se aventurar neste tipo de trama, independente de suas intenções com o projeto.
No caso de Evereste, porém, tal característica vital parece ter se perdido ao longo da produção, que reproduz na tela os acontecimentos da tragédia ocorrida sobre três expedições ao pico mais alto do mundo em maio de 1996, quando foram pegas por uma fortíssima tempestade de neve enquanto escalavam a montanha. Preocupado demais com o plano geral da história, o longa dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur esquece de dedicar tempo aos alpinistas e às pessoas envolvidas na situação, e no fim acaba por pagar um preço alto.
Já se percebe os equívocos cometidos pelo filme no primeiro ato, momento em que apresenta ao público os personagens que irão acompanhar pelas próximas duas horas. Além de indeciso na questão do protagonismo de cena - dividido entre os papéis de Jason Clarke e Josh Brolin, a dúvida ainda perdura durante todo o percurso da escalada - Kormákur e os roteiristas William Nicholson e Simon Beaufoy dão claros sinais de não conseguirem lidar com o vasto e rico elenco em mãos (é muito estranho ver nomes como Michael Kelly, John Hawkes, Emily Watson, Keira Knightley, Robin Wright e Jake Gyllenhaal em posições coadjuvantes para baixo na história), criando um constante desequilíbrio de tempo entre eles e incapazes de desenvolvê-los o suficiente.  Isso mais tarde se torna prejudicial à curva de destruição pelo qual os alpinistas passam na montanha, sendo que até algumas das mortes passam batidas pela ausência de um mínimo fator emocional.
Se a má elaboração das peças prejudica o processo, o pouco aproveitamento do tabuleiro acentua ainda mais os problemas. Na fotografia escura e de muitos planos aéreos de Salvatore Totino, o Evereste do filme é reduzido a um espectador do desmoronamento humano ao invés de ser explorado como real ameaça, banalizado pelos avanços do turismo agressivo em suas inclinações e regiões congeladas. "O Evereste é uma criatura completamente diferente" diz de início o líder de uma das expedições, mas no fundo o que parece realmente assustar os mais experientes em escalar a montanha é o número de clientes e grupos dispostos a encarar tal tarefa.
Apesar de problemático para os objetivos do longa na questão de gênero, esse viés do excesso de consumo como grande responsável pela tragédia funciona com algum sucesso no esforço de garantir ao terceiro ato o peso dramático necessário às consequências sofridas pelas vítimas. Nesse momento, Kormákur se aproveita bastante dos efeitos da estadia prolongada dos sobreviventes em uma região inabitável e da morte dolorosa dos últimos falecidos para enfim provocar no espectador alguma emoção pelos personagens. Um esforço quase hercúleo e pouco disfarçado, pois além de demorado essa vinda vem em tons pesadamente melodramáticos.
O problema é que enquanto o desfecho não chega Evereste se encontra inoperante, com dificuldades para encontrar tarefas para desempenhar na narrativa. O marasmo de sua jornada de poucas ações torna dessa maneira pouco recompensador os fins dados aos seus múltiplos personagens, que destituídos de propósito maior são mais vítimas da narrativa que da montanha em si.

Nota: 5/10

terça-feira, 3 de março de 2015

Review: House of Cards - 3° Temporada

Tom caricatural funciona tanto para bem quanto para mal no primeiro mandato de Frank Underwood.

Por Pedro Strazza.

É com uma mijada no túmulo de um de seus antepassados que Frank Underwood inaugura a terceira temporada de House of Cards mostrando a solução da série para seus problemas narrativos inevitáveis. Com esse simbolismo claro e grosseiro (característica essa bastante presente na produção desde seu princípio), a versão estadunidense da minissérie da BBC oficializa ao espectador uma mudança radical de tom para contar sua história de poder e desejo, e no processo distancia-se de toda a construção feita no primeiro ano e preservada em alguns pontos no segundo. Se antes a política era tratada com seriedade e com algumas pontadas de ironia, ela agora é satirizada e ridicularizada a todo momento possível.

A alteração não é à toa. Depois de duas temporadas armando esquemas e fazendo intrigas, Underwood (Kevin Spacey) enfim conseguiu o que queria e chegou à presidência dos Estados Unidos, o topo da cadeia política do país. Mas não há tempo para celebrações, pois Frank, junto de sua esposa Claire (Robin Wright), precisa lidar com todo tipo de questões para salvar seu governo e garantir o segundo mandato, e isso exigirá tudo. A manutenção do poder é muito mais complicado que alcançá-lo, e os 13 episódios usam do exagero para evidenciar esse contraste.

Para grande parte de sua trama, essa abordagem funciona muito bem. Apesar de nunca alcançar a qualidade atingida no primeiro ano, o terceiro consegue pelo menos se sair melhor que o segundo ao aceitar o ridículo que se tornou, e o emprega para brincar com o panorama atual do país.

Assim, se na temporada passada era visível o incômodo e a indecisão em separar o debate político da bobagem sensacionalista, a série aqui se sente confortável em misturar as duas coisas e tratá-las com humor como uma só, obtendo a partir disso momentos tanto fascinantes em sua concepção como divertidos por seu absurdo. Quem melhor se aproveita disso é Lars Mikkelsen, que entende essa visão para fazer de seu presidente Petrov ao mesmo tempo uma caricatura muito bem feita de Vladimir Putin e um antagonista mais interessante que o Raymond Tusk de Gerald McRaney.

A "política do exacerbamento" também se faz eficiente com os personagens coadjuvantes, pois encontra neles um espaço amplo para trabalhar. Do arco de recuperação vivido por Doug Stamper (Michael Kelly), destacado sem muita sutileza pela temporada, às pequenas trajetórias de personagens como a de Heather Dunbar (Elizabeth Marvel) ou Remy Danton (Mahershala Ali), o elenco periférico mantém sua qualidade por conseguir trabalhar no caricato seus papéis rasos e unidimensionais para torná-los minimamente interessantes.

A dupla protagonista, por outro lado, sofre com esses excessos por já estarem nessa posição caricatural desde o início da série. A crise de relacionamento gerada pelo poder é um tema muito batido para um casal frio e racional como o de Frank e Claire, e mesmo que este gere episódios fantásticos - o sétimo capítulo pode cometer erros em sua temporalidade, mas é certeiro ao explorar mais a fundo e com sensibilidade a dinâmica dos dois - e um personagem tão bem encaixado entre os dois como é o escritor vivido por Paul Sparks, na maioria das vezes ele resulta em situações patéticas, e os últimos episódios da temporada (além do gancho para a quarta) são prova disso. Nesse meio tempo, as atuações de Spacey (mais caras e bocas impossível, apesar de quebrar menos a quarta parede) e Wright passam do limite e tornam-se canastrãs, graças aos diálogos fracos realizados entre os dois.

Mesmo superior ao ano anterior e ser parcialmente feliz em sua aposta drástica, a terceira temporada de House of Cards não consegue fazer muito mais que manter ao mínimo a qualidade da série, e evidencia o desgaste cada vez maior da obra. A cada nova leva de episódios, o seriado criado por Beau Willimon soa mais e mais como uma paródia de si mesmo, e tornar cômico o tom da narrativa ou exagerar na composição de seu protagonista não são capazes de esconder esse problema.

Nota: 7/10