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sábado, 18 de março de 2017

Crítica: A Bela e a Fera

Remake em live-action da animação falta em encantamento aquilo que tem de renovação.

Por Pedro Strazza.

Desde que descobriu com Alice no País das Maravilhas a verdadeira mina de ouro escondida nas adaptações live-action de suas próprias animações, a Disney vem testando e aprimorando o formato destas produções em busca da fórmula que ao mesmo tempo satisfaça as gerações de fãs dos trabalhos originais e evite cair em moralismos e lições de valor ultrapassados. É um desafio que só se complica quando se aborda as tradicionais histórias de princesa, contos de fadas clássicos cujas estruturas são mais do que inadequadas às discussões de gênero dos tempos de hoje.

Assim, se no ano passado o estúdio parece ter conseguido encontrar com Mogli e principalmente Meu Amigo, o Dragão um bom ângulo para guiar seus outros remakes em live-action, nas fábulas de personagens como Cinderela e Bela Adormecida ele ainda se encontra em uma cruzada para resolver este equilíbrio delicado entre a nostalgia do passado e a desconstrução do presente. É quase como um enigma da princesa, cujo ponto de resolução está na conciliação de partes a princípio nada relacionáveis entre si.

Neste sentido, a nova versão de A Bela e a Fera chega tanto para aliviar quanto para aprofundar os desafios do estúdio. Alivia porque o remake não deixa de ser uma aposta garantida: além de ser um dos maiores sucessos comerciais da Disney nos anos 90, a animação de 1991 dirigida por Gary Trousdale e Kirk Wise apostava na época na desconstrução de valores tradicionais dos contos de fadas sem destituí-los de seu encanto. São fatores que por si só facilitam o trabalho de adaptação para o live-action, que ao contrário de filmes como Malévola e Cinderela já possui uma linha de raciocínio bem clara a ser seguida.

Não é por acaso, então, que o longa dirigido por Bill Condon seja bastante fiel à história contada há mais de 20 anos, tanto em termos narrativos como também visuais. O roteiro escrito por Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos refaz os caminhos do amor entre Belle (Emma Watson) e o príncipe amaldiçoado como Fera (Dan Stevens) com leves alterações e adições pontuais para elucidar alguns pontos da trama e facilitar a transição do relacionamento ao romance (as visitas ao passado do casal e de seus pais, por exemplo, ajudam a explicar certos comportamentos do casal, principalmente do segundo), ao passo que Condon aproveita da desmistificação do ideal masculino intrínseco à história para torná-lo em uma questão de igualdade social. Isto acontece tanto pelo lado da hierarquia econômica (o reencontro final dos criados com a vila carrega um pouco desta lição de união) quanto pelo de gêneros, raças e credos, algo ressaltado pelo arco da sexualidade de LeFou (Josh Gad) mas também nos casais interraciais formados pela cantora (Audra McDonald) e o pianista (Stanley Tucci) do castelo e Lumière (Ewan McGregor) e Plumette (Gugu Mbatha-Raw) - a revelação desta última depois de aparecer o tempo inteiro como um espanador branco, inclusive, pode vir a ser uma agradável grande surpresa para quem desconhece a atriz ou sua escalação para o papel.

São boas intenções que o filme carrega porém apenas nas pontas, pois ainda que se proponha como exuberante e luxuoso este A Bela e a Fera prova-se uma tentativa tímida demais de se trabalhar o conto infantil. Culpa talvez da necessidade exagerada do estúdio em revisitar suas produções antigas pela nostalgia, mas também pela inabilidade do diretor: Se Jon Favreau em Mogli demonstrava ter um controle bastante presente sobre o visual da floresta e seus personagens, Condon aqui não consegue encontrar na narrativa um tom capaz de equilibrar a emulação dos cenários e vestimentas da animação com o design mais próximo do gótico que seu longa carrega. Aliado ao visual meio oscilante dos personagens criados em CGI - se a Fera tem uma figura muito pobre  e feia digitalmente, os objetos variam entre as soluções criativas (o Cogsworth de Ian McKellen, o armário) e mal resolvidas (o aspecto humano de Lumière, a face do piano) - e os números musicais pouco deslumbrantes - nem mesmo "Be our guest" escapa aos planos fechados -, esta dificuldade criativa de produção ajuda a promover na obra um sentimento de esquizofrenia que no fim barra seu avanço narrativo.

É no casal protagonista, entretanto, onde o filme de fato parece se bloquear em si mesmo. Enquanto Dan Stevens acaba preso dentro de uma Fera má concebida e que não consegue emitir nenhuma emoção, Watson fica refém do próprio papel ao não conseguir resolver a virada na sua relação com a criatura dentro dos ideais de empoderamento ao qual se propõe. Se Belle a princípio surge como uma mulher forte, independente e superior aos rituais ultrapassados do vilarejo onde mora, construindo aparatos e lutando contra preconceitos dos outros habitantes, esta noção se esvai por completo depois de feita a transição no romance com o príncipe no castelo, com Watson falhando em reobter este perfil após sua transformação para "dama" e o longa se restringindo no terceiro ato a realizar apenas a comparação dos perfis de cavalheirismo realizados pela Fera e Gaston (Luke Evans).

São problemas que terminam por tornar este novo A Bela e a Fera em uma espécie de oposto ao Cinderela de Kenneth Branagh, já que este optava por privilegiar no espetáculo aquilo que lhe faltava em atualização depois de também se valer da nostalgia como eixo da trama. É uma comparação que rende ramificações inusitadas dentro da proposta de reformulação ao qual ambas as produções estão no fundo submetidas: na ausência de uma opção capaz de conciliar as duas partes, mais vale a reafirmação com o encantamento de sua história ou a atualização necessária afim de evitar o anacronismo inevitável da moral nas adaptações modernas dos contos de fadas? Para Condon, esta dúvida é o que no fim põe em cheque todos os valores de sua abordagem.

Nota: 5/10

sábado, 25 de outubro de 2014

Crítica: Drácula - A História Nunca Contada

Vampiro vira super-herói na história que nunca deveria ter sido contada

Por Pedro Strazza

Não é de hoje que a Universal quer ressuscitar sua franquia de monstros. Conhecida no passado pela produção desses filmes (e que incluem aí versões famosas como a de Drácula com Béla Lugosi), o estúdio vem tentando, principalmente na última década, trazer de volta estas criaturas às luzes do sucesso, e para isso cometeu obras como a trilogia A Múmia. Mas os retornos cada vez menores de bilheteria do gênero levaram a empresa a progressivamente abandonar o projeto e procurar por novos, e os seres fantásticos do horror dessa maneira foram deixados para outro momento.
O sucesso da Marvel Studios em conceber um universo lucrativo nos cinemas levou a Universal, entretanto, a repensar o planejamento. Querendo uma mínima parcela do sucesso da empresa dona dos Vingadores, o estúdio resolveu tomar como base sua concorrente e transformar a sua franquia em um universo de monstros, de forma a potencializar o sucesso financeiro destes. E o primeiro capítulo desta nova fase das criaturas é Drácula - A História Nunca Contada, centrada justamente no famoso vampiro de Bram Stoker e sua origem.
O estúdio acreditou mesmo, porém, que o formato cinematográfico dos heróis da Marvel poderia ser aplicado passo a passo em qualquer tipo de gênero, e logo no início de seu universo cometeu um erro básico. Interpretado por um dedicado Luke Evans, o Drácula dessa história emana quase sempre os valores e características típicas de um herói dos quadrinhos, mas nunca o perfil do personagem original. Assim, sai de cena o vampiro sedutor e mortal, e entra o homem vítima dos acontecimentos à sua volta e que tenta ser bom da melhor maneira possível.
O roteiro de Matt Sazama e Burk Sharpless também sofre muito dessa interpretação superficial. A visão da guerra e das afetadas por ela, um dos temas centrais da trama, é rasa e prejudicada por metáforas óbvias - "Vocês marcharão sob meu comando com a visão obscurecida" diz em certo momento o vilão Mehmed (Dominic Cooper) -, e o arco trilhado pelo protagonista no longa carece de melhor formatação e execução. Em linhas gerais, o filme dá impressão de que Vlad Tepes (o futuro Drácula), mesmo insistindo no contrário, governe não por seu povo, mas por sua mulher (Sarah Gadon) e seu filho (Art Parkinson).
Ainda dirigido sem imaginação por Gary Shore nas cenas de ação e com um clímax perdido e sem nexo, este Drácula - A História Nunca Contada acrescenta nada novo e interessante ao vampiro mais famoso de todos e sua história. O potencial do universo iniciado, por outro lado, é visível no personagem de Charles Dance, que entre frases de efeito clichê e ações supostamente tenebrosas dá um caminho curioso para os monstros da Universal. Isso, pelo menos, se o estúdio der mesmo continuidade a seu projeto.

Nota: 3/10