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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Oscar 2017: Indicados e vencedores

Sob clima de auto-homenagem, edição deste ano confirma novos rumos da premiação.

Por Pedro Strazza.

Há exatos quarenta e nove anos, Warren Beatty e Faye Dunaway eram protagonistas de Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas, um dos cinco indicados ao prêmio máximo de um Oscar notável pelas mudanças, que via simultaneamente o progressivo fim da Velha Hollywood em contraste com o nascimento da Nova em meio ao ápice do movimento negro comandado por figuras como Malcolm X e Martin Luther King Jr. - este último cujo assassinato fez com que a cerimônia de premiação fosse adiada em alguns dias. Vencido por No Calor da Noite, o Oscar de 1968 foi um ponto de virada importante para a mentalidade dos votantes da Academia, que se em anos anteriores vinha consagrando grandes produções - como épicos históricos e musicais hollywoodianos - nas edições seguintes mudou por completo sua mentalidade, passando a eleger como filme do ano obras como Operação França, Perdidos na Noite e Rocky - O Lutador.

Nada mais justo então que quase cinquenta anos depois Beatty e Dunaway, símbolos de uma geração que "salvou" Hollywood de uma de suas maiores crises, também fossem protagonistas de uma das maiores confusões da História do prêmio. Escolhidos para realizar o ato final (justo por causa do aniversário de Bonnie e Clyde), a dupla anunciou na noite de ontem (26) o filme errado como vencedor do Oscar de Melhor Filme no final da cerimônia realizada no Dolby Theater. Os dois não tiveram culpa no processo - a organização forneceu erroneamente a eles um envelope reserva da categoria de Melhor Atriz - mas o verdadeiro papelão que aconteceu ao redor deles talvez tenha sido um dos atos mais simbólicos de uma nova mudança de mentalidade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e seus votantes, até porque os longas envolvidos na troca representam dois tipos de produção que vem sendo centrais nas últimas edições da premiação.

Antes disso, porém, é preciso repassar a cerimônia. Com a audiência em queda livre já há alguns anos, o Oscar este ano apostou em Jimmy Kimmel para reformular a cerimônia e torná-la mais atrativa a todos os públicos, adequando as quase quatro horas de apresentação ao formato de um episódio do talk show comandado pelo apresentador, o Jimmy Kimmel Live. Com esquetes e piadas internas do programa incorporados aos números musicais e discursos de agradecimento - teve desde o famoso quadro Mean Tweets à eterna rivalidade de Jimmy com o ator Matt Damon - a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas viu seu principal evento acentuar os altos e baixos, já que ao mesmo tempo que tirava proveito da desenvoltura de seu host como mestre de cerimônias (o monólogo de abertura em especial foi um grande acerto) ele também sofria com esquetes forçados e mal encaixados entre as categorias - a brincadeira dos turistas aparecendo na cerimônia, por exemplo, pareceu como mais uma tentativa desesperada do Oscar de relembrar o sucesso viral do ano comandado por Elle DeGeneres, pelo menos em termos comerciais e midiáticos a apresentadora de maior sucesso das últimas edições.

Tudo isso foi envolto em um clima de solenidade bastante marcante para com a História da premiação, alto até mesmo para os padrões altamente narcísicos  da Academia. Depois de se render à sátira com a própria imagem no ano passado, o Oscar em 2017 foi do começo ao fim dedicado a relembrar os grandes momentos do prêmio, desde os clipes com os principais ganhadores das categorias de atuação (que precederam o anúncio de cada um dos quatro vencedores da área) às declarações de oscarizados sobre os filmes que marcaram suas vidas.

Enquanto este tom reverencialista apontava para uma permanência das tradições que circulam sobre a cerimônia desde sempre, a entrega dos prêmios em si trouxe várias surpresas, fruto talvez da mudança brusca do perfil dos votantes depois da medida tomada pela organização no ano passado de aumentar a diversidade de seus membros. Ainda que La La Land - Cantando Estações tenha saído da noite no fim com o maior número de prêmios - foram seis, incluindo o de Atriz para Emma Stone e o de Direção para Damien Chazelle - as primeiras categorias anunciadas já indicavam grandes reviravoltas, desde a inesperada vitória de Esquadrão Suicida em Melhor Maquiagem e Penteados (a primeira de um filme de super-herói no Oscar desde O Cavaleiro das Trevas em 2009) às duas estatuetas conferidas a Até o Último Homem, não apenas por ser um filme do recém-redimido pela Academia Mel Gibson como também por ter premiado em Mixagem de Som Kevin O'Connell, recordista de derrotas na categoria com 20 nomeações.

O fim do suplício de O'Connell foi o maior indicativo do quão propensa a Academia estava para justiças históricas na noite de domingo, seja presente ou passada. As vitórias de Mahershala Ali e Viola Davis em Ator e Atriz Coadjuvante puseram fim à onda do "Oscars So White" que assombrava a Academia já há dois anos; impedidos de comparecer à cerimônia por terem sua entrada no país barrada pelo presidente Trump, os realizadores de White Helmets e o celebrado cineasta Asghar Farhadi foram agraciados respectivamente com as estatuetas de Documentário em Curta-Metragem e Filme Estrangeiro, talvez por terem sido vítimas dos desmandos do governo; com o anúncio de Animais Fantásticos e Onde Habitam como grande vencedor da categoria de Figurino, a franquia Harry Potter enfim levou um Oscar para casa; e por causa de Piper - Descobrindo o Mundo a Pixar enfim conseguiu vencer a categoria de Animação em Curta-Metragem depois de mais de quinze anos na seca.

Isso nos leva, claro, ao principal prêmio da noite. Depois de ter confirmado seu favoritismo em Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado, Moonlight - Sob a Luz do Luar saiu com o Oscar de Melhor Filme, se tornando o primeiro filme LGBT da História do prêmio a receber a maior honraria da noite. A vitória do longa dirigido por Barry Jenkins soa como uma espécie de redenção a produções centradas na temática, principalmente Brokeback Mountain que, em 2006, teve suas grandes chances de levar a principal estatueta frustradas pelo fraco Crash - No Limite, tido por muitos como a escolha mais absurda feita pela Academia nos últimos anos.

Antes de saber que tinha vencido, porém, Moonlight acabou vendo o prêmio ser erroneamente anunciado por Beatty e Dunaway para La La Land, cuja grande quantidade de estatuetas arrebanhadas durante a noite - apesar de em número muito menor que esperado - reforçou a ideia de que sua vitória fosse natural.

É neste ponto que fica evidente o quão importante a confusão do anúncio foi para a compreensão do que pode ser a mais nova mudança de eixo da premiação dos melhores da indústria cinematográfica estadunidense. Nesta última década, o Oscar de Melhor Filme pertenceu em pelo menos três ocasiões (no caso O Artista, Argo e Birdman) a produções que de alguma forma faziam referência à Hollywood de forma a reverenciá-la, o que reforçava por sua vez a tendência dos votantes de consagrar o musical de Chazelle na categoria este ano. A vitória de Moonlight, entretanto, vai contra esses "princípios" até então dados como certos para os rumos atuais da premiação, que caía cada vez mais na celebração autoindulgente de seu passado e se tornava por consequência ultrapassada.

O filme de Jenkins a bem da verdade possui maior afinidade com outro vencedor recente da categoria, o campeão do ano passado Spotlight - que também levou poucas estatuetas na edição de 2016. Como no longa sobre Jornalismo de Tom McCarthy, impera em Moonlight a predominância de temáticas que muitos elogiam como "importantes" para o mundo de hoje, algo que acaba por prevalecer na mentalidade coletiva sobre as duas obras e as impulsionou para fazer História no Oscar. São trabalhos que atingem o status de grande obra por uma atribuição que sua qualidade em nada influencia: só de tocar em temas importantes e espinhosos às alas mais conservadoras (para Spotlight o abuso sexual em crianças, em Moonlight a homossexualidade e o negro) sua condição se eleva.

Assim posto, começa a se formar na temporada de premiações um novo cenário. Pelo menos nos próximos cinco anos, pode se esperar do Oscar e das instituições ligadas a ele a tendência de suas principais categorias escolherem produções que carreguem este signo de importância, uma suposta vitalidade à discussão pública e os assuntos vitais que regem seu funcionamento. A dúvida é o quão disposta a Academia e seus votantes estão de se empenhar nisso, porque pelo menos nestas últimas duas edições o que se viu foi um verdadeiro festival de hipocrisia (culpa talvez do clima solene que tanto permeia a premiação): quando se celebrou a importância do Jornalismo, o Oscar teve o perfil mais branco de indicados dos últimos quinze anos; enquanto se glorificava um filme considerado negro e de temática LGBT, dava-se prêmios a um filme comandado por um (ótimo) cineasta até então renegado na indústria por sua atribuição de anti-semita e racista e a honraria de Melhor Ator a Casey Affleck, que em tempos recentes viu ressurgir na imprensa acusações de assédio. Mesmos os discursos dos vencedores desta 89° cerimônia de premiação falharam em possuir uma maior carga política, com os campeões das categorias principais se restringindo a agradecimentos pessoais e emocionais.

Isso sem contar o fato de que há certas justiças históricas pendentes que mais uma vez foram frustradas pela Academia, incluindo aí o fato de nenhum negro na História do prêmio ter levado a estatueta de Melhor Diretor.

No fundo, a confusão iniciada por Beatty e Dunaway foi positiva por dois grandes motivos. O primeiro é que o caráter inusitado da zona deu à premiação um bem vindo respiro de autenticidade em meio à armação falsamente disfarçada de surpresa por Kimmel e seu talk-show montado em cima da cerimônia - que no próximo ano deve testar novos formatos depois de ver sua audiência cair de novo. A segunda vem da própria transição escancarada na passagem de estatuetas entre os indicados, que não apenas revelaram um senso de camaradagem - tirando a atitude nada agradável do produtor de La La Land Fred Berger, que mesmo consciente da derrota resolveu fazer um discurso de agradecimento, os responsáveis pelos dois filmes se mostraram muito conscientes da situação delicada em que se colocavam - mas também representaram ao vivo a passagem de bastão que a Academia aos poucos se encaminha enquanto os reais vencedores chegavam ao palco. Graças a um erro, o momento ali com certeza uniu para sempre os rumos de ambos os filmes.

Confira abaixo a lista completa da 89° edição do Oscar. Os vencedores estão em negrito.

Melhor Filme


Melhor Direção


  • Mel Gibson (Até o Último Homem)
  • Dennis Villeneuve (A Chegada)
  • Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
  • Barry Jenkins (Moonlight - Sob a Luz do Luar)

Melhor Roteiro Adaptado


  • A Chegada
  • Estrelas Além do Tempo
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Um Limite Entre Nós

Melhor Roteiro Original


  • Mulheres do Século 20
  • La La Land - Cantando Estações
  • O Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • A Qualquer Custo

Melhor Ator


  • Andrew Garfield (Até o Último Homem)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
  • Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)
  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)

Melhor Atriz


  • Isabelle Huppert (Elle)
  • Meryl Streep (Florence - Quem é Essa Mulher?)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land - Cantando Estações)
  • Ruth Negga (Loving)

Melhor Ator Coadjuvante


  • Michael Shannon (Animais Noturnos)
  • Dev Patel (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Mahershala Ali (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo)

Melhor Atriz Coadjuvante


  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
  • Naomie Harris (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Nicole Kidman (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

Melhor Animação


  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Minha Vida de Abobrinha
  • Moana - Um Mar de Aventuras
  • The Red Turtle
  • Zootopia - Essa Cidade é o Bicho

Melhor Animação em Curta-Metragem


  • Blind Vaysha
  • Borrowed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper - Descobrindo o Mundo

Melhor Documentário


  • A 13° Emenda
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Fogo no Mar
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America

Melhor Documentário em Curta-Metragem


  • 4.1 Miles
  • Extremis
  • Joe's Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Melhor Filme Estrangeiro


  • O Apartamento
  • Land of Mine
  • Tanna
  • Toni Erdmann
  • Um Homem Chamado Ove

Melhor Fotografia


  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Silêncio

Melhor Montagem


  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • A Qualquer Custo

Melhor Trilha Sonora


  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Passageiros

Melhor Canção


  • "The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story)
  • "Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land - Cantando Estações)
  • "City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)
  • "How Far I'll Go" (Moana - Um Mar de Aventuras)
  • "Can't Stop The Feeling" (Trolls)

Melhor Design de Produção


  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Ave, César!
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Passageiros

Melhor Figurino


  • Aliados
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Florence - Quem é Essa Mulher?
  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações

Melhor Maquiagem e Penteados


  • Esquadrão Suicida
  • Star Trek - Sem Fronteiras
  • Um Homem Chamado Ove

Melhores Efeitos Visuais


  • Doutor Estranho
  • Horizonte Profundo - Desastre no Golfo
  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Mogli - O Menino Lobo
  • Rogue One - Uma História Star Wars

Melhor Edição de Som


  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • Horizonte Profundo - Desastre no Golfo
  • La La Land - Cantando Estações
  • Sully - O Herói do Rio Hudson

Melhor Mixagem de Som


  • 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi
  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Rogue One - Uma História Star Wars

Melhor Curta-Metragem


  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Top 9: Oscar de Melhor Filme 2017

Por Pedro Strazza.

Pois é, o ano passou, filmes vieram e foram, o mundo mudou (bastante), a temporada de premiações passou voando e agora vai chegando a hora de mais uma entrega do Oscar. Mantendo a tradição dos últimos três anos, reorganizo os nove indicados ao prêmio de Melhor Filme em um ranking pessoal, indo do pior nomeado àquele que, se tivesse a oportunidade, colocaria no topo da minha cartela de votação. Também fiz uma lista com todos os indicados que assisti (dos 62, vi 52 antes da cerimônia), ao qual você pode conferir aqui.

Sobre a edição deste ano, admito que desta vez nenhum dos indicados ao prêmio de Melhor Filme foi para mim aquilo que muitos classificam como "O filme do ano", mas isso não quer dizer que a qualidade das nove produções lembradas pelos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi baixo. Tanto que, dos nove longa-metragens selecionados, pelo menos três eu considerei como ótimos e sete foram classificados aqui como bons trabalhos, restando a apenas dois indicados o que alguns consideram ser notas baixas.

O bom é que nenhum dos filmes foi um O Regresso, então está tudo bem (risos).

Enfim, vamos à lista. Antes, é bom lembrar que TODOS os nove indicados ao principal prêmio da noite ganharam críticas no site, às quais você pode conferir clicando em seus nomes abaixo.

Os indicados são:

9) Um Limite Entre Nós

Dentre os nove, o que eu achei o mais fraco de todos foi definitivamente a adaptação cinematográfica da peça de August Wilson pelas mãos de Denzel Washington. Adaptação que na verdade está mais para transposição: de tanto respeitar o ótimo material em mãos, Washington acabou por realizar um filme que tenta a todo custo se comportar como uma peça de teatro, algo que tem lá sua força mas também traz consequências irremediáveis à produção. Pelo menos o ótimo elenco mantém as coisas funcionando.

8) A Chegada

Gosto de Denis Villeneuve (seu Os Suspeitos inclusive marcou presença em um dos Melhores do Ano), mas seus últimos trabalhos tem me frustrado. Se Sicario acabou se revelando um filme desconjuntado em meio aos bons sets de ação que promove, este A Chegada almeja unir o lado alegórico da ficção-científica com o bom drama intimista de sua protagonista para no fim revelar o primeiro como um mecanismo submetido ao segundo. O longa vira então um exercício frustrado, cuja única grande força acaba por residir no trabalho de Amy Adams - que sequer chegou a ser a lembrada pela Academia, mesmo o filme ganhando inacreditáveis oito nomeações.

7) Estrelas Além do Tempo

Talvez a grande força de Estrelas Além do Tempo resida no fim na potência natural de sua história e no perfil de suas três protagonistas, mas é fato que Theodore Melfi foi competente o suficiente para executar o filme e sua mensagem. Separando a História dos Estados Unidos em duas, o longa consegue evidenciar muito bem a forma como o processo histórico do país funciona, fazendo o diagnóstico do racismo no país que já é típico de produções do gênero. Somado ao bom trabalho de seu elenco, isso me parece bastar.

6) Lion - Uma Jornada Para Casa

É o melodrama bem executado, ainda que a canção da Sia ali no fim quase estrague. Garth Davis é capaz de alinhar as duas partes de seu filme sem que algo se perca na transição, além de saber usar o ótimo elenco em mãos. Lion talvez me frustre um pouco por não perseguir o belo filme de espaços que tem em mãos, mas só de saber realizar o arroz e feijão sem pesar o sal ele já sai no saldo positivo comigo.

5) Moonlight - Sob a Luz do Luar

Bastante querido por muitos, Moonlight foi pra mim um filme que soube muito bem evidenciar o quão frágil a masculinidade (e sua formação) pode ser. Com elenco afiado, Barry Jenkins soube traduzir a jornada de Chiron em uma experiência intimista intrigante e nova, apesar de ali e aqui se render a figuras e elementos genéricos que prejudicam seu conto. De qualquer forma, é uma produção que se destaca.

4) Até o Último Homem

Apesar do tom inicial de Forrest Gump versão ridícula, o retorno de Mel Gibson a Hollywood se provou um filme dos mais intensos e curiosos da temporada. Reformulando o ideal patriótico dos Estados Unidos sob um ideal de fé cristã, o cineasta faz de Até o Último Homem uma obra de provações sem pesar o sofrimento (alô, A Paixão de Cristo...), conseguindo arrancar ótimas atuações de atores como Sam Worthington e Luke Bracey e fazendo da figura franzina de Andrew Garfield um herói de força descomunal. Alguns erros básicos, mas no geral ele é extremamente feliz na execução de sua proposta.

3) Manchester à Beira-Mar

Ficou com a medalha de bronze o drama de dor e sofrimento de Kenneth Lonergan, que com toques de humor negro e alta melancolia trata de uma história de arrependimento das mais pesadas. Guiando o ótimo elenco com perspicácia e com momentos que são verdadeiros socos no estômago (a cena do desmonte da personagem de Michelle Williams quase me leva junto nas lágrimas), Manchester à Beira-Mar é uma experiência das mais tristes e recompensadoras nestes termos, sabendo se valer muito bem da figura de "anjo da morte" que Casey Affleck parece incorporar com tanta tranquilidade.

2) La La Land - Cantando Estações

Item mais polêmico e grande favorito ao prêmio principal da noite, o musical de Damien Chazelle me foi uma experiência das mais fascinantes por conseguir reiniciar a crença no inalcançável sonho americano. Em tempos difíceis e de individualismo extremo, La La Land soube como poucos atualizar e manter acesa a esperança no sucesso e estrelato, algo que fica a cargo principalmente do magnífico trabalho de Emma Stone. Há quem chame o filme de ingênuo e uma "grande ameaça à credibilidade do Oscar" quando este precisa reafirmar sua posição no cenário, mas o longa está longe de ser um O Artista ou O Discurso do Rei para destruir a premiação em qualquer uma destas frentes.

Mas o melhor filme da categoria de Melhor Filme em 2017 é...

1) A Qualquer Custo

A América do ódio, do preconceito, da ganância e da vingança, tudo isso em plena atualidade. A missão de A Qualquer Custo parece ser muito fácil, mas com certeza não o é. Transpor o Velho Oeste para a realidade de hoje e reafirmar a validade de suas leis enquanto se presta a executar o gênero é um fruto valiosíssimo, gerado a partir de um roteiro afiado de Taylor Sheridan e a direção eficiente de David Mackenzie. Some isso a um trabalho de elenco formidável (Jeff Bridges, Ben Foster, Chris Pine e Gil Birmingham estão altamente sintonizados entre si) e temos um filme que é ao mesmo tempo um retrato exato do momento atual do país e também um faroeste para não botar defeito, por si só um verdadeiro espetáculo.

ESPECIAL: Oscar 2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ESPECIAL: Oscar 2017

Tudo sobre a 89° edição dos Academy Awards!

Outros indicados

Edições anteriores

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Bolão do Oscar 2017

Os favoritos, as possíveis zebras e o panorama geral da corrida pela estatueta.

Por Pedro Strazza.

Pode não parecer, mas vai chegando a hora de mais uma entrega do Oscar, o troféu concedido por Hollywood aos melhores da indústria cinematográfica  e também um dos prêmios mais conhecidos (e cobiçados) no mundo. Com o apresentador Jimmy Kimmel de mestre de cerimônia, a 89° edição dos Academy Awards se aproxima de sua realização com várias perguntas: quem será o grande vencedor da noite? Quantos Oscar La La Land é capaz de levar para casa? Viola Davis enfim será reconhecida pelos votantes? Será que as longas três horas de duração da cerimônia passarão rápido desta vez?

A última pergunta só vai dar pra saber mesmo no domingo, mas com as outras questões já dá pra ir brincando. Em sua quinta edição e com preposição nova no nome, o Bolão do Oscar vem para ajudar quem está com dificuldades para montar sua lista de apostas para o prêmio e tentar mapear o cenário da corrida pela estatueta em todas as categorias. São previsões que podem ou não se provar corretas, mas que já ajudam a esclarecer quem é quem nas múltiplas disputas em curso na premiação.

Vamos aos indicados:

Legenda

  • Negrito: Grande(s) favorito(s)
  • Itálico: Ainda na disputa
  • (0): Sem chances de vitória
  • (F): Favorito pessoal

Melhor Filme

La La Land pode ter despertado o ódio em alguns, mas definitivamente é o grande favorito para a principal estatueta da noite. O musical ambientado em Los Angeles de Damien Chazelle vem dominando todos os prêmios desde o Globo de Ouro, levando prêmios de importantes sindicatos como dos produtores (o PGA) e dos diretores (o DGA) no processo. 

Seus principais oponentes na disputa são Moonlight e Estrelas Além do Tempo, mas ambos estão longe. O filme de Barry Jenkins começou a corrida como forte candidato, mas não conquistou nenhum grande título na temporada de premiações (nem mesmo o BAFTA) além do Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama (ao qual não corria junto de La La Land) e acabou perdendo força. Já a cinebiografia de matemáticas negras que foram vitais para a corrida espacial nos anos 60 ganhou algum espaço depois da inesperada vitória no sindicato de atores (o SAG), mas as poucas indicações na premiação - junto de sua inexpressividade nos outros sindicatos - o impedem de almejar o prêmio pra valer.

Ainda que suas chances sejam tão mínimas quanto o resto dos indicados, Manchester à Beira-Mar e A Chegada ainda mantém seu lugar na corrida, podendo talvez tirar votos importantes que possam decidir uma virada totalmente inesperada na reta final do prêmio. A mão que ergue o Oscar, porém, treme forte para La La Land.

Melhor Direção

  • Mel Gibson (Até o Último Homem) (0)
  • Dennis Villeneuve (A Chegada)
  • Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar) (F)
  • Barry Jenkins (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
Como em outros anos, a categoria de direção repete mais ou menos a disputa de Melhor Filme. Chazelle é favorito máximo para levar o prêmio, mas suas chances de vitória estão ameaçadas pelo trabalho de Jenkins em Moonlight. Kenneth Lonergan e Denis Villeneuve seguem mais atrás, enquanto Mel Gibson já chega à cerimônia contente de ter sido resgatado do ostracismo pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Melhor Roteiro Adaptado

  • A Chegada
  • Estrelas Além do Tempo
  • Um Limite Entre Nós (0)
  • Lion - Uma Jornada Para Casa (0)
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)

Melhor Roteiro Original

  • La La Land - Cantando Estações
  • O Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • Mulheres do Século 20 (0)
  • A Qualquer Custo (F)
As categorias de roteiro este ano vem com uma carga de mistério maior graças à confusão gerada por Moonlight na premiação do sindicato de roteiristas - o filme, embora seja a adaptação de uma peça nunca encenada, foi indicado e venceu em Melhor Roteiro Original no WGA Awards.

A passagem entre categorias do longa escrito por Jenkins no sindicato, porém, ajuda a esclarecer um pouco melhor quem ainda está na disputa para Melhor Roteiro Adaptado, onde Moonlight é o franco favorito. A vitória de A Chegada no WGA só comprova que a ficção-científica roteirizada por Eric Heisserer segue de perto o drama negro. Quem pode surpreender aqui é Estrelas Além do Tempo, que deposita na categoria todas as suas chances de ganhar força para o prêmio de Melhor Filme.

O prêmio de Roteiro Original, enquanto isso, está dividido. Manchester à Beira-Mar mantém a frente desde o início, mas conforme ele foi perdendo na temporada o destaque que tinha no início as chances de La La Land arrebanhar mais uma estatueta aqui aumentaram consideravelmente. A Qualquer Custo e O Lagosta podem até surpreender, mas Mulheres do Século 20 com certeza ocupa o último lugar da corrida. 

Melhor Ator

  • Andrew Garfield (Até o Último Homem) (F)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico) (0)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
  • Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)
  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

Melhor Ator Coadjuvante

  • Michael Shannon (Animais Noturnos) (0)
  • Dev Patel (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Mahershala Ali (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo) (F)
Em 2017 a briga é muito boa em Melhor Ator. Embora Casey Affleck seja o principal candidato ao prêmio desde o começo, a vitória de Denzel Washington no SAG bagunçou e polarizou a corrida entre os dois atores. Por causa da força de La La Land na premiação Ryan Gosling ainda pode arrancar uma vitória de última hora, ao passo que Andrew Garfield e principalmente Viggo Mortensen parecem bem conformados em sair da cerimônia de mãos abanando.

Já Melhor Ator Coadjuvante parece estar bem resolvido, pois Mahershala Ali dominou a temporada de premiações do começo ao fim. Dev Patel segue na esperança graças ao prêmio recebido no BAFTA, mas sinceramente? Se for para apostar em alguém aqui, vá de Ali e Moonlight.

Melhor Atriz

  • Isabelle Huppert (Elle) (F)
  • Meryl Streep (Florence - Quem é Essa Mulher?) (0)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land) (F)
  • Ruth Negga (Loving)

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar) (F)
  • Naomie Harris (Moonlight - Sob a Luz do Luar) (F)
  • Nicole Kidman (Lion - Uma Jornada Para Casa) (0)
Falando em categorias bastante resolvidas, a estatueta de Atriz Coadjuvante já deve estar a essa altura com o nome de Viola Davis impresso na base. A atriz dominou de cabo a rabo uma categoria que este ano está bastante forte e com tantas atuações excelentes, além de com grande diversidade étnica.

Melhor Atriz também aparenta estar fechada com a performance de Emma Stone em La La Land, mas neste caso paira a dúvida sobre o quão forte chegará Isabelle Huppert na competição. Apesar desta ser a primeira oportunidade da Academia premiar a veterana atriz francesa, que sem dúvida teve em 2016 um ano brilhante, pesa contra Huppert a resistência de uma parcela dos votantes em assistir o filme pelo qual ela foi indicada, o polêmico Elle do sempre polêmico Paul Verhoeven. A briga é boa, ainda mais porque Meryl Streep está bem de fora.

Melhor Animação

Melhor Documentário

  • A 13° Emenda
  • Fogo no Mar (0)
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America (F)

Melhor Filme Estrangeiro

Categorias que sempre trazem títulos interessantes para o Oscar, as corridas pelas estatuetas de Animação, Documentário e Filme Estrangeiro este ano possuem status bastante distintos. A primeira, por exemplo, já está consumada pela vitória de Zootopia, novo filme da Disney cuja temática do preconceito agradou a ampla maioria dos votantes. Quem pode estragar a festa, porém, é Kubo e as Cordas Mágicas, grande animação do estúdio Laika que tem uma boa parcela de fãs na Academia.

Na briga pelo Oscar de Documentário, o prêmio é incerto justamente pelo nível de aceitação dos votantes com o gigante O.J.: Made in America, documentário de oito horas da ESPN sobre o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson. O longa, afinal, tem sido objeto de discussão sobre ser ou não ser um filme por ter seu formato enquadrado como o de uma série de episódios, e este debate pode aumentar as chances dos outros indicados. Entre eles, o que ganha mais fôlego na corrida é o Life, Animated de Roger Ross Williams, que por ser o único documentário "inofensivo" nomeado - os outros quatro tratam de temas políticos pesados como a questão racial nos EUA e da imigração na Europa - se enquadra perfeito no padrão dos vencedores da categoria nos últimos anos.

Política, vale dizer, é o grande fator a confundir as apostas para Melhor Filme Estrangeiro este ano. A princípio tido como dividido entre o alemão Toni Erdmann e o dinamarquês Terra de Minas, o favoritismo do prêmio de súbito se deslocou para o iraniano O Apartamento depois da medida de barrar a entrada de pessoas do país nos EUA empreendida pelo presidente Donald Trump impedir que o celebrado cineasta e autor do indicado Asghar Farhadi marcasse presença na cerimônia. Uma vitória de O Apartamento com certeza se traduziria na resposta de Hollywood ao governo, mas não dá pra saber o quão empenhado politicamente os votantes estão com esta proposta.

Melhor Animação em Curta-Metragem

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • 4.1 Miles (F)
  • Extremis (0)
  • Joe's Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode
As categorias de filmes em curta-metragem sempre são um mistério por causa da grande dificuldade de acesso aos indicados, mas eles também tem seus favoritos. Em documentário, Joe's Violin segue a cartilha inofensiva do gênero dentro da premiação e por isso mesmo tem de tudo para levar a estatueta; na animação, a briga é boa entre o fofo curta da Pixar Piper e o filme em 360° Pearl; na principal do formato, o dinamarquês Silent Nights é apontado entre os especialistas como grande favorito.

Melhor Fotografia

  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)
  • Silêncio (0)

Melhor Montagem

  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar (F)
  • A Qualquer Custo (0)
As categorias de montagem e fotografia em 2017 são idênticas no status da corrida: La La Land e A Chegada estão na frente e em pé de igualdade, mas podem ser atropelados por um terceiro elemento. No caso da montagem, este terceiro é Moonlight, que pode ganhar pontos para Melhor Filme aqui; para fotografia, a vitória de Lion na ASC Awards (o prêmio da Sociedade Americana de Diretores de Fotografia, que nos últimos dez anos coincidiu com o Oscar em seis ocasiões) o garante lugar na briga. 

Melhor Trilha Sonora

  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa (F)
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Passageiros (0)

Melhor Canção

  • "The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story) (0)
  • "Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land - Cantando Estações)
  • "City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)
  • "How Far I'll Go" (Moana - Um Mar de Aventuras)
  • "Can't Stop The Feeling" (Trolls) (F)
Nas categorias musicais do Oscar a probabilidade de La La Land dominar é gigantesca. O curioso, porém, é que enquanto o prêmio de Trilha Sonora soa como algo garantido (o esforço do compositor Justin Hurwitz, que passou cinco anos aperfeiçoando as músicas do filme, é o tipo de história que agrada muito os ouvidos dos votantes), a estatueta de Melhor Canção encontra-se ameaçada por uma possível divisão nos votos das duas músicas pelo qual La La Land foi nomeada, algo que pode favorecer muito Moana e Lin-Manuel Miranda, nome atualmente muito forte na indústria por causa do sucesso estrondoso de seu musical Hamilton.

Melhor Design de Produção

Melhor Figurino

  • Aliados (0)
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Florence - Quem é Essa Mulher?
  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações (F)
As chances de rapa de La La Land continuam altas em Figurino e Design de Produção. A reconstituição histórica de filmes de época como Jackie, Ave, César! e Animais Fantásticos e Onde Habitam e o visual clean de A Chegada se posicionam nestas categorias como maiores oponentes, mas é difícil ver os votantes saírem do transe proporcionado pelas cores do musical para votar em outros nomeados.

Melhor Maquiagem e Penteados

Melhores Efeitos Visuais

As corridas de Maquiagem e Penteados e Efeitos Visuais este ano são acirradas porque elas, ao contrário de edições anteriores, não tem em 2017 um favorito absoluto. Claro que o trabalho de envelhecimento do sueco Um Homem Chamado Ove dificilmente perde a primeira estatueta para o último Star Trek e a briga no segundo se resume entre os animais fotorrealistas de Mogli e as criaturas e o Tarkin de Rogue One, mas nas duas há grande potencial para reviravoltas.

De garantido mesmo só a impossibilidade de Esquadrão Suicida levar um Oscar, um evento/vexame pra lá de improvável.

Melhor Edição de Som

Melhor Mixagem de Som

La La Land, de novo? É verdade que o filme também é favorito para as categorias de som e pode ampliar o número de prêmios aqui, mas estas são vitórias nem um pouco definidas. Mesmo que azarões como Sully, Horizonte Profundo e 13 Horas sejam improváveis, as presenças de A Chegada e principalmente Até o Último Homem se fazem ameaças reais para o musical, podendo roubar as duas estatuetas na hora H.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Oscar 2017: Indicados

Academia repara erros e traz surpresas em sua 89° edição.

Por Pedro Strazza.

Na manhã desta terça-feira (24), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou a lista de indicados à 89° edição do Oscar. A divulgação dos filmes nomeados, feita por meio de uma transmissão nas redes sociais, confirmou a presença de obras favoritas ao prêmio como La La Land - Cantando Estações e Moonlight - Sob a Luz do Luar nas principais categorias e trouxe grandes surpresas, além de atender os pedidos de muitos na questão de diversidade racial.

Grande exemplo disso está nas categorias de atuação, que depois de dois anos com somente indicados brancos trouxeram em 2017 forte presença negra. Denzel Washington, Ruth Negga e Mahershala Ali foram lembrados respectivamente em Melhor Ator, Atriz e Ator Coadjuvante, ao passo que a trinca formada por Viola Davis, Octavia Spencer e Naomie Harris dominou as nomeações de Atriz Coadjuvante - que conta ainda com Michelle Williams e Nicole Kidman no páreo. Em Melhor Filme, uma grata surpresa: Dos nove indicados, três produções são protagonizadas por negros, o que por si só já evidencia a maior heterogeneidade das obras escolhidas como melhores do ano.

Nos números, quem dominou as atenções foi La La Land. Graças à lembrança dupla na categoria de Melhor Canção, o musical de Damien Chazelle chegou ao recorde de nomeações para um mesmo filme, empatando no histórico da premiação com A Malvada e Titanic com 14 indicações. Atrás dele ficaram Moonlight e A Chegada (que teve a nomeação para Amy Adams em Melhor Atriz esnobada), com 8 indicações, e Manchester à Beira-Mar, Lion - Uma Jornada Para Casa e Até o Último Homem, com 6.

Falando em Até o Último Homem, o filme foi protagonista de uma das grandes surpresas da manhã com sua indicação inesperada para Melhor Diretor - Mel Gibson, afinal, não é lá tão querido assim na indústria graças às suas inúmeras polêmicas nos últimos anos. Outras entradas de última hora foram Isabelle Huppert em Melhor Atriz - cuja vitória no Globo de Ouro impulsionou sua nomeação, apesar da interminável polêmica com relação ao filme que protagoniza, Elle -, Michael Shannon por Animais Noturnos em Melhor Ator Coadjuvante, a dupla indicação de Passageiros (para Trilha Sonora e Design de Produção!) e Esquadrão Suicida (?!) em Melhor Maquiagem e Penteados.

Os 62 filmes nomeados saberão se levaram a estatueta mais cobiçada de Hollywood na noite do dia 26 de fevereiro. Confira abaixo a lista final de indicados do Oscar 2017:

Melhor Filme

Melhor Direção

  • Mel Gibson (Até o Último Homem)
  • Dennis Villeneuve (A Chegada)
  • Damien Chazelle (La La Land - Cantando Estações)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
  • Barry Jenkins (Moonlight - Sob a Luz do Luar)

Melhor Roteiro Adaptado

  • A Chegada
  • Estrelas Além do Tempo
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Um Limite Entre Nós

Melhor Roteiro Original

  • Mulheres do Século 20
  • La La Land - Cantando Estações
  • O Lagosta
  • Manchester à Beira-Mar
  • A Qualquer Custo

Melhor Ator

  • Andrew Garfield (Até o Último Homem)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
  • Ryan Gosling (La La Land - Cantando Estações)
  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)

Melhor Atriz

  • Isabelle Huppert (Elle)
  • Meryl Streep (Florence - Quem é Essa Mulher?)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land - Cantando Estações)
  • Ruth Negga (Loving)

Melhor Ator Coadjuvante

  • Michael Shannon (Animais Noturnos)
  • Dev Patel (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Mahershala Ali (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo)

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
  • Naomie Harris (Moonlight - Sob a Luz do Luar)
  • Nicole Kidman (Lion - Uma Jornada Para Casa)
  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

Melhor Animação

Melhor Animação em Curta-Metragem

Melhor Documentário

  • A 13° Emenda
  • Eu Não Sou Seu Negro
  • Fogo no Mar
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • 4.1 Miles
  • Extremis
  • Joe's Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

Melhor Filme Estrangeiro

Melhor Fotografia

  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Silêncio

Melhor Montagem

  • Até o Último Homem
  • A Chegada
  • La La Land - Cantando Estações
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • A Qualquer Custo

Melhor Trilha Sonora

  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações
  • Lion - Uma Jornada Para Casa
  • Moonlight - Sob a Luz do Luar
  • Passageiros

Melhor Canção

  • "The Empty Chair" (Jim: The James Foley Story)
  • "Audition (The Fools Who Dream)" (La La Land - Cantando Estações)
  • "City of Stars" (La La Land - Cantando Estações)
  • "How Far I'll Go" (Moana - Um Mar de Aventuras)
  • "Can't Stop The Feeling" (Trolls)

Melhor Design de Produção

Melhor Figurino

  • Aliados
  • Animais Fantásticos e Onde Habitam
  • Florence - Quem é Essa Mulher?
  • Jackie
  • La La Land - Cantando Estações

Melhor Maquiagem e Penteados

Melhores Efeitos Visuais

Melhor Edição de Som

Melhor Mixagem de Som

Melhor Curta-Metragem

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Silent Nights
  • Sing
  • Timecode

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land - Cantando Estações

O sonho americano em tempos de individualidade extrema.

Por Pedro Strazza.

Único número musical a envolver de fato um grande número de pessoas na coreografia, a canção "Another day of Sun" abre La La Land - Cantando Estações com um prenúncio daquilo que será tratado no filme. Em mais um típico congestionamento nas estradas dos arredores de Los Angeles, motoristas e passageiros saem de seus carros para cantar e dançar os sacrifícios que fizeram em suas vidas para tentar conquistar os sonhos que tanto almejam. Com a Cidade dos Anjos ao fundo servindo como espécie de Meca a suas respectivas buscas por fama e sucesso, a câmera passeia por dançarinos e dançarinas enquanto estes pulam em carros, descobrem bandas no interior de caminhões e saúdam o cenário ao qual se inserem para no fim voltarem a entrarem em seus carros e baterem as portas, retornando ao status original de buzinas e xingamentos por causa da lentidão.

É uma abertura bastante simples - o visual lembra muito os clipes criativos e cada vez mais batidos da banda OK Go - e que evidencia a questão do sonho americano, uma utopia que se no passado foi fundamental a Hollywood e o cinema estadunidense hoje está em declínio absoluto, ainda que tenda a permanecer no imaginário popular. Mas será que ainda é possível perseguir o estrelato, a riqueza e a vida perfeita prometida nos filmes antigos no mundo contemporâneo? 

No fundo, esta é a grande questão a ser respondida pelo musical dirigido e escrito por Damien Chazelle, que começa retomando valores desse grandioso passado afim de levantar tais perguntas. Seus dois protagonistas, afinal, vivem dessa nostalgia frustrada pelo tempo: Enquanto a jovem Mia (Emma Stone) busca a carreira de atriz e se decepciona com cada "não" tomado, o pianista Sebastian (Ryan Gosling) persegue o sonho de ter o próprio clube de jazz em um cenário onde o gênero musical encontra-se em extinção, vendo seus grandiosos templos serem substituído por bares de samba e tapas. Após se esbarrarem repetidas vezes no curso de poucos dias, os dois se apaixonam e passam a apoiar um ao outro em suas metas aparentemente impossíveis.

Se La La Land a princípio se faz como um musical feito das memórias do que veio antes, uma grande homenagem a um gênero que no passado dominou atenções, ele aos poucos dissolve esta suspeita no rumo do relacionamento dos protagonistas e nas dificuldades que eles passam para alcançar seus objetivos. Se no primeiro ato o longa é dominado pela invasão de elementos tradicionais deste tipo de cinema na atualidade - algo muito evidente nos números musicais, mas também presente nas referências visuais a pontos turísticos de Los Angeles - o filme gradativamente incorpora essa mistura do nostálgico com o contemporâneo a um tom mais visual, dando lugar (pelo menos até o balé final) a (muito melhor resolvidas) danças silenciosas e canções quase em formato de serenata que guiam o romance de Mia e Sebastian com poucas palavras.

Isso porque Chazelle está menos interessado no musical como fim e mais como meio para o desenvolvimento de seus personagens e suas respectivas jornadas. O diretor repete de seu longa anterior (Whiplash) aqui o alienamento obsessivo dos protagonistas e o uso da música como uma ferramenta de trama, imprimindo ao casal uma sede individualizante e uma nostalgia anacrônica que são condizentes ao mundo que os permeiam afim de torná-los em avatares universais de uma busca por um sonho ultrapassado e em pleno desfalecimento. O "Eles adoram tudo e valorizam nada" que Sebastian diz para Mia em tom de desabafo durante um passeio pelas instalações vazias de um dos grandes estúdios, seguido posteriormente pela cena onde ela vê o cinema que serviu de local para o primeiro encontro com ele ser fechado, serve de lembrete a esta transformação natural em curso, uma mudança nas formas e caminhos aos quais eles terão de se submeter para alcançar seus objetivos.

Que o individualismo, para bem ou para mal, sempre esteve ligado ao sonho americano está claro desde sempre, mas é no atestamento do crescimento de sua necessidade que torna o musical tão atraente. Mesmo que o relacionamento de Mia com Sebastian seja marcado por poucos conflitos, La La Land torna evidente a fragilidade da relação dos dois devido a suas próprias ambições, aos poucos desfazendo as possibilidades de sucesso de seu namoro por movimentos simples enquanto ambos parecem encontrar apenas becos sem saída em suas jornadas. No processo, Emma Stone é quem melhor incorpora as dores e as perdas sentidas a cada passo dado, envolvendo o espectador a cada derrota e conquista por todos os métodos possíveis, seja na dança, no choro ou no olhar.

Assim, quando o filme chega a sua parte final e o público reencontra os dois personagens cinco anos depois com seus objetivos alcançados, a fama e o sucesso atingidos e o sonho americano de certa forma realizado (uma licença poética que para muitos deve soar um tanto quanto ofensiva) graças a suas ambições individuais - Mia só consegue o primeiro papel graças a seu monólogo, enquanto dá-se a entender que Sebastian abandonou a banda do amigo Keith (John Legend) para fundar o seu bar - a grande pergunta que permanece sem ser respondida é se o sacrifício do relacionamento por esse sonho valeu a pena. O belíssimo balé final orquestrado por Chazelle, seguido pelo olhar cúmplice entre os dois, vem então não apenas para responder esta questão como também para reafirmar a força da busca pelo sonho americano em um mundo - e também uma Los Angeles - onde tal esperança parecia ter se desvanecido por completo.

Nota: 9/10