Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador John Goodman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Goodman. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Crítica: Transformers - O Último Cavaleiro

Quinto capítulo leva modo de operação da franquia a seu limite.

Por Pedro Strazza.

Primeiro filme que é fruto de uma sala de roteiristas criada pela Paramount e a Hasbro para esboçar o futuro da franquia, Transformers - O Último Cavaleiro não é muito discreto na hora de exibir os resultados desse esforço do estúdio em "organizar" a mitologia da série e prepará-la para o futuro. Depois de quatro episódios que mergulharam a trama do conflito entre Autobots e Decepticons em um verdadeiro caos de contradições e visitas cada vez mais distantes no passado, o quinto capítulo busca esboçar uma coerência na cronologia pela repetição da mesma metodologia elevada à décima potência, acumulando flashbacks dispostos a mostrar mais da relação a essa altura quase simbiótica entre a humanidade e transformers na História.

Não deixa de ser uma medida feita com boas intenções por parte dos realizadores, porém essa necessidade de estabelecer uma mitologia é no fundo o grande motor contraprodutivo que sabota não apenas as ambições deste filme mas também de toda a série. Presa à lógica de aumentar a escala de seu espetáculo sem se importar com as consequências, Transformers nunca mostrou vocação para estabelecer uma continuidade entre seus episódios mas sim para a grandiosidade de atos epopeicos, duas noções que visivelmente se confundem a todo instante nos inúmeros macguffins e histórias secretas reveladas em toda a franquia. A síntese de todo este enrolo rocambolesco está na figura de Optimus Prime (Peter Cullen), líder dos Autobots que embora seja o mais poderoso do panteão dos robôs ainda consegue saber quase nada sobre a história de Cybertron e de seus inimigos.

O que O Último Cavaleiro faz à partir disso é levar essa questão a seu limite pela ampliação do escopo do conflito, uma medida feita não só para atender à demanda megalomaníaca crescente da série como para acomodar todos os apêndices históricos enxertados pelo roteiro escrito por Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan em qualquer oportunidade possível. O resultado, como é de se esperar, é um longa exaustivo, cujo inchaço já bastante visível é potencializado por tabela na direção fadada a excessos de Michael Bay: a trama de perseguição, que basicamente envolve Cade Yager (Mark Whalberg) e os Autobots de novo correndo contra o relógio para salvar o mundo enquanto são caçados pelos Decepticons, está a todo momento mudando seus objetivos na mesma velocidade com que troca de cenário (num piscar de olhos vai-se da situação de guerra à cidade pequena e da viagem submarina à batalha campal), em um caso de total falta de concentração amplificado pela sede do texto em amarrar pontas mesmo elas não fazendo o menor sentido - uma operação que chega ao cúmulo quando Transformers 5 revela uma linha hereditária de heróis composta por todo tipo de figura histórica apenas no intuito de justificar a importância dada a seus protagonistas.

Posto dessa maneira, não seria muito difícil do filme entrar em estado de inanição completa em suas quase duas horas e meia de duração, mas Bay, dentro do que é possível na obra e em sua direção, consegue fazer todo o caos soar menos sofrível do que ele é. Embora esteja disposto a dar ao longa toda a sensação de grande escala pelo qual ele tanto implora, o diretor mostra-se até controlado na maneira como orquestra os grandes conflitos entre robôs da vez, diminuindo cacofonias tradicionais de seu cinema - o número de bandeiras estadunidenses é sensivelmente menor e seu fetiche pela cultura militar transparece menos, por exemplo - para se concentrar em seu objetivo de tirar dos cenários de ação a maior plasticidade que eles lhe oferecem. Isso tudo, é claro, dentro dos limites do possível em seu cinema, que exibe a lógica disfuncional de sempre nas relações de amizade masculinas exacerbadas e no acúmulo de imagens dentro do plano - uma atitude aqui apenas em parte responsável por fazer a produção ser tão exaustiva.

A verdade é que mesmo tendo se consolidado na carreira no comando de blockbusters de ação gigantescos e milionários, Bay como diretor se sai melhor quando abraça as contradições pungentes de seus filmes, uma condição que na franquia Transformers ele conduz de maneira quase inconsciente. E neste quinto episódio isso não é diferente: embora flerte a todo instante com a possibilidade de levar as lendas arturianas da Inglaterra para dentro do centro do conflito da série (uma ambição materializada no paralelo do prólogo com o clímax final) e imponha uma gravidade constante a seus atos, o longa não hesita em admitir o próprio ridículo de suas intenções ou de jogar alívios cômicos a todo instante, alternando-se entre esses dois pólos com a mesma constância com a qual trata o lorde interpretado por Anthony Hopkins e seu mordomo Cogman (Jim Carter) como figuras de peso e de comédia. O próprio trabalho de Hopkins na produção, que começa em tom solene para terminar em sandice total (com direito ao ator mostrando o dedo do meio e gritando silêncio em uma biblioteca), orbita esse jogo ditado pela falta de noção e uma ideia muito errada de humor que Bay conduz de forma caótica.

O que está no epicentro do caos e do inchaço de Transformers 5 - além da falta de coordenação para contar uma história coerente, a exemplo da "importante" participação do último cavaleiro do título - é um descompasso claro entre diretor e roteiro, cujas ambições colidem a todo instante na narrativa para gerar um filme no mínimo desconexo e no máximo confuso. É um caos, porém, que ainda que canse bastante o público nunca deixa de ser interessante, até porque Bay parece ser o único a ver algum sentido dentro deste verdadeiro furacão e seu comprometimento de fazer transparecer sua mensagem é no mínimo um esforço tocante. E se há algo que sua passagem pela franquia ensinou é o de valorizar esta dedicação mesmo ela sendo incompreensível por completo.

Nota: 4/10

sábado, 9 de abril de 2016

Crítica: Rua Cloverfield, 10

Continuação se consagra na consciência e equilíbrio de sua estrutura.

Por Pedro Strazza.

Dos poucos paralelos que podem ser traçados entre Cloverfield: Monstro e esta sua sequência Rua Cloverfield, 10, o que talvez melhor se sobressaia no desenrolar dos eventos do segundo é a similaridade de ambos na maneira como estabelecem o horror a ser enfrentado pelos personagens. Mesmo que sejam completamente diferentes em estrutura, narrativa e até proposta, os dois filmes tem no âmago de suas histórias a busca pela resposta de uma pergunta hipotética e também bastante realista: quando tudo for pelos ares e o mundo que conhece cair em chamas, para onde o indivíduo irá recorrer? Em qual instituição social ele irá se apoiar para manter a sua ordem intacta?

É a partir deste ponto que as duas obras tomam caminhos distintos, pois enquanto que no longa de 2008 a questão era tratada sob o ponto de vista do relacionamento - com duas pessoas procurando reunir o amigo com seu amor não consumado em meio ao caos de uma invasão avassaladora de um monstro à cidade de Nova York como forma de reparar a própria perda de seus parceiros - a continuação a trabalha pela temática familiar, ou, pelo menos, da fabricação desta em tempos de crise. A característica fundamental para o segundo Cloverfield se diferenciar do primeiro, porém, está na forma como ele se aproveita desta temática para a narrativa, desenvolvendo um simples mas difícil jogo de paranoia à partir do momento em que a protagonista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) acorda presa em um dos quartos do bunker construído por Howard (John Goodman).

Desde sempre tão vital aos filmes de câmara do qual Rua Cloverfield, 10 pertence, essa paranoia é elaborada pelo diretor Dan Trachtenberg tanto pelo que ocorre no lado de dentro do confinamento, com a figura misteriosa do dono do bunker servindo de guia para as reviravoltas do roteiro de Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle, como pelo lado de fora, à partir do momento que quebra com parte das expectativas de Michelle - e, por consequência, do espectador - sobre a farsa de toda a situação na qual ela está inserida. Esse alinhamento de incertezas entre público e protagonista sobre o ambiente, inclusive, é o que guia o longa a todo instante, e aposta nas viradas de trama como alicerce principal da narrativa.

Essa estratégia tem tudo para dar errado, até porque o mecanismo da reviravolta precisa de um pré-estabelecimento de certezas (neste caso concentrada em todo o primeiro ato) e perde o valor se aplicada seguidas vezes, mas acaba por dar certo na produção de Trachtenberg por dois motivos. O primeiro é a presença de Chazelle, bastante conhecido por seu celebrado debute como diretor em Whiplash e cuja habilidade quase natural em dinamizar roteiros encaixa muito bem aos propósitos do filme.

O segundo, e mais importante, é a consciência do diretor do delicado equilíbrio do suspense exercido aqui, e a maneira como ele a põe pra trabalhar a seu favor.

Gerado pela paranoia dupla, esse suspense ganha contornos interessantes conforme as peças são postas e o longa revela os fatos. A tensão de Rua Cloverfield, 10 funciona primordialmente nessa construção familiar imposta por Howard a Michelle e Emmett (John Gallagher Jr.) - que rende momentos interessantes quando a filha do dono do bunker é mencionada ou a fotografia de Jeff Cutter enquadra os três personagens junto das plaquinhas "Lar doce lar" espalhadas pelo ambiente -, mas ela não se restringe ao tema e nem soa atrapalhada quando se envereda por outros assuntos, como o comentário da mulher no gênero construída na relação sequestrador-sequestrado e que encontra ótimos momentos no terço final da produção.

Enquanto isso, o filme encontra outra base firme no espaço natural que fornece a seu elenco, muito maior em relação ao primeiro capítulo graças ao aspecto mais ortodoxo da produção. Ainda que não consiga exibir a mesma noção harmônica em suas conexões - são poucos os momentos em que a relação entre Howard e Michelle consegue englobar Emmett de fato -, o trio protagonista é capaz de executar seus papéis sem maiores restrições e de maneira a contribuir para o andamento do suspense, com a produção mantendo seus campos de atuação sempre livres. Quem melhor se aproveita disso, claro, é Goodman, graças ao perfil cômico e assustador de seu papel, mas Gallagher Jr. e Winstead (que aproveita maravilhosamente bem o suave arco de crescimento vivido por sua personagem) também encontram ótimos momentos na evolução da história.

É no clímax, entretanto, que Rua Cloverfield, 10 melhor demonstra sua percepção e manuseio com o equilíbrio estabelecido. Nas confirmações e negações das afirmações feitas, Trachtenberg passeia com elegância no desespero de Michelle com a consumação dos fatos, materializando as duas paranoias costuradas na narrativa de forma orgânica e capaz de tornar ambas aceitáveis a seu espectador sem que estas se anulem entre si. Este lá e cá de suspense, que vai de interior a exterior sem perder o ritmo, é junto da legitimação do caráter antológico da série a principal contribuição do diretor à franquia Cloverfield e ao gênero como um todo.

Nota: 8/10

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Crítica: Trumbo - Lista Negra

Comédia baseada em fatos e contestadora do passado soa hesitante em se assumir como gênero, mas se segura no elenco.

Por Pedro Strazza.

A princípio, o paralelo mais natural de ser traçado a Trumbo - Lista Negra é com seu contemporâneo A Grande Aposta. Além de serem dois filmes baseados em livros, comandados por diretores muito mais conhecidos por comédias - Jay Roach ficou famoso por Austin Powers e Entrando Numa Fria, enquanto Adam McKay se fez com O Âncora - e que trazem um grande elenco branco de protagonista, ambos os projetos também se assemelham na maneira que se usam do humor para tratar de momentos inegavelmente bizarros da História da sociedade estadunidense. É como se a comédia fosse a melhor maneira encontrada pelos dois cineastas para retratar tais situações, cujo ridículo parece não ser percebido pelos indivíduos inseridos nestas.

Mas enquanto Mckay enxerga os alicerces da crise de 2008 quase como um documentarista da National Geographic, Roach segue pelo caminho da caricatura em sua abordagem da luta do roteirista Dalton Trumbo contra a Lista Negra de Hollywood. Da postura corporal cínica e bigode ridículo de falso, usados por Bryan Cranston para interpretar o vencedor de 2 Oscar condenado pelo governo por sua afiliação ao partido comunista, aos retratos escrachados de celebridades da época como John Wayne e Kirk Douglas, o longa não disfarça o escárnio com a paranoia gerada pela Guerra Fria e o macartismo, hoje algo absurdo mas na época tão levado a sério por diversos integrantes da alta sociedade hollywoodiana.

E tal qual um verdadeiro teatro de bonecos (que é inclusive mencionado em um dos vários diálogos repletos de punchlines do roteiro de Bruce Cook), não demora para o humor tomar conta da narrativa e da época em que se passa a história. Isso se torna um fenômeno curioso: a gravidade das ações tomadas, o peso das prisões e o horror do ostracismo proporcionado pela indústria àqueles que se recusam a se submeter à ordem é tratada no filme com um certo quê de ironia, incapaz de levar a delicada situação a sério e a encarando mais como uma perturbação de um sistema antes correto - bem resumido na cena no qual um furioso Frank King, interpretado exagerado e com precisão por John Goodman, confronta um dos censores com um taco de beisebol após este tentar intimidá-lo, num destes típicos quebra-tudo da comédia  tradicional.

Se por um lado esse exagero torna-se no melhor aliado do diretor para conduzir sua história, por outro ele também priva Trumbo de momentos dramáticos maiores, algo necessário dado a gravidade dos eventos ilustrados. É uma contradição crucial e o longa a ignora, prosseguindo com dramas familiares e éticos que lentamente empacam a trama ou a tornam episódica de forma involuntária, como na crise do pai-e-filha entre Dalton e Niki (Elle Fanning) ou os conflitos do protagonista com aqueles que o traíram. Tal qual McKay, Roach parece hesitante em realizar de fato uma comédia em cima dos fatos, mas aqui ele busca trazer maior peso ao terceiro ato como forma de compensar seus "equívocos" na interpretação dos eventos.

A sorte do longa é que, se a direção demonstra timidez na hora de se assumir plenamente no humor, seu elenco entende e incorpora o escracho sem nenhum arrependimento. Mesmo os atores e atrizes mais conhecidos pelos papéis "sérios" como Helen Mirren, Diane Lane e Adewale Akinnuoye-Agbaje se divertem na composição caricata de seus personagens, e se unem aos comediantes Louis C.K. e Michael Stuhlbarg tanto nos momentos mais leves como nos graves. Uma química invejável, capaz de segurar as pontas inclusive nos pontos baixos da obra.

A maior força de Trumbo, porém, é Cranston. Sua atuação teatral do roteirista workaholic nunca sai do tom, seja como personagem essencialmente cômico - quando é hostilizado por um desconhecido sendo encharcado por um copo de refrigerante ou quando beija um periquito pousado em seu ombro num close que não esconde de ninguém a maquiagem falsa - ou exigido de drama (a já mencionada relação com a filha mais velha, em ótima dinâmica com Fanning), que apesar de ser escancarada no overacting prova ser tão cuidadosa de composição quanto seus trabalhos mais delicados. Por ser protagonista ou pela qualidade de sua performance, ele termina por ser a melhor representação do teor estabelecido pelo filme, em sua silhueta marcada pelos ombros levantados e as pernas duras uma verdadeira afronta ao sistema e seu ridículo modo de operação.

Nota: 7/10