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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Crítica: Você Nunca Esteve Realmente Aqui

Novo filme de Lynne Ramsay explora nova face da violência.

Por Letícia Dauer.

Veteranos de guerra traumatizados e a espetacularização da violência são temas antigos e explorados à exaustão por Hollywood. O thriller Você Nunca Esteve Realmente Aqui, baseado no livro homônimo de Jonathan Ames, apresenta uma narrativa que foge do tradicional maniqueísmo - herói ou assassino - com toques de Táxi Driver e O Profissional.

A diretora escocesa Lynne Ramsey venceu o prêmio de Melhor Roteirista e Joaquin Phoenix de Melhor Ator no Festival de Cannes de 2017, sendo aclamados pela crítica e pelo júri presidido por Pedro Almodóvar. Em seu quarto longa-metragem, Ramsey nos apresenta a história de Joe (Phoenix), veterano de guerra que ganha a vida resgatando garotas desaparecidas. Durante o primeiro ato, o protagonista enfrenta uma rotina mecânica e alienante que se resume a matar criminosos e cuidar de sua senil mãe (Judith Roberts). 

A fotografia sombria de Tom Townend, ocasionalmente esverdeada, acompanhada da frenética trilha sonora de Jonny Greenwood, integrante da banda Radiohead, são reflexos da mente perturbada e autodestrutiva de Joe, lembrando o personagem Travis Bickle de Robert De Niro. Breves flashbacks sobre a infância revelam que seu sofrimento vai muito além da experiência militar. Seu pai era extremamente abusivo e agredia a mãe com frequência, por isso encontrou na violência uma forma de extravasar seus traumas. 

O mérito do roteiro está em trabalhar com a dualidade. Ao mesmo tempo em que Joe é violento, sendo o martelo sua arma favorita, ele também demonstra muita doçura com a mãe ao cantarem juntos ou ao colocá-la na cama para dormir. O público transita entre a repulsa e a empatia, tendendo mais ao segundo sentimento durante a narrativa. Afinal ele se mostra mais uma vítima de uma sociedade violenta e desumana. 

"De todos os gêneros, o thriller é o que mais se aproxima da experiência de sonhos, e em que se armazena repertório de medos", diz a jornalista Ana Maria Bahiana. Em Você Nunca Esteve Realmente Aqui, o espectador é convidado a compartilhar os sonhos, ou melhor dizendo os pesadelos, do veterano de guerra, que perpassam por tentativas de suicídio. Como Joe é um personagem extremamente silencioso e antissocial, é função dessas cenas oníricas e os flashbacks revelarem sua verdadeira natureza. 

Como o próprio título afirma, Joe nunca esteve realmente ali, sempre viveu de forma automática e anestesiada até aceitar resgatar a filha do senador Albert Votto, que foi raptada por membros de uma rede de prostituição infantil. Após alguns acontecimentos, o desejo de libertar a pequena Nina Votto (Ekaterina Samsonov) desperta Joe de sua alienação e torna-se sua motivação de vida em meio aos ímpetos suicidas, o que talvez seja a única falha do roteiro. É difícil crer na rápida conexão entre esses personagens. Diferente, por exemplo, do relacionamento entre o assassino de aluguel Leon e da pequena Mathilda, em O Profissional, que é desenvolvida ao longo de toda a película.  

Nota: 7/10

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Crítica: Homem Irracional

Woody Allen faz mais do mesmo sem dar ar de graça.

Por Pedro Strazza.

Existe uma cena em Homem Irracional que além de fundamental para o encaminhamento da história serve também para entender o espírito geral do filme. Nela, os dois protagonistas da história, interpretados por Joaquin Phoenix e Emma Stone, discutem questão existencialistas em um restaurante quando, desgastados pela conversa, passam a escutar o diálogo dramático que acontece na mesa ao lado e envolve a disputa pela custódia de um filho e a posição desumana adotada pelo juiz titular no processo.
Esse aparente desinteresse pelos dramas vividos pelos personagens principais parece acompanhar desde o início até o fim da trama deste novo trabalho de Woody Allen. Equilibrado em uma história de propósitos já muito conhecidos do cinema, o longa usa sem qualquer inspiração de seus clichês em um ritmo aborrecido, como se estivesse pronto para se encerrar mesmo antes do fim do primeiro ato. As consequências, claro, são bastante negativas, mas isso não impede que a obra inclua uma boa ideia em algum momento da narrativa.
Escrito e dirigido por Allen, o filme conta a história de Abe Lucas (Phoenix), aclamado professor de filosofia que, envolto em uma depressiva crise existencial capaz até de influenciar em suas performances sexuais, começa a dar aulas em uma pequena universidade. Com um ar depressivo e pessimista, ele se envolve romanticamente com uma outra professora do campus (Parker Posey) e uma de suas alunas, a jovem Jill (Stone) em busca de alguma solução para seu problema sem alcançar qualquer sucesso. Tudo muda, porém, quando ele entra em um restaurante com Jill e acaba no momento descrito acima.
Sem surpresas, Allen repete aqui muitos elementos, temas e discussões que já abordou em outros filmes, mas dessa vez sem maior inspiração. O debate sobre os prazeres do racional e do irracional, central à obra, parece uma mistura dos questionamentos levantados em Magia ao Luar e no fraco Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos sem acrescentar nada ao mostrado nestes longas, e isso repercute em toda a estrutura adotada. Não à toa, o alter-ego da vez do cineasta soa genérico em essência, quase um vazio criativo comparado a outros personagens no qual ele incorporou sua personalidade - que Phoenix, claro, nada pode fazer para ajudar.
Por outro lado, Homem Irracional traz em sua mediocridade um olhar minimamente interessante sobre construção de personagem na narrativa elaborada, justo nesta cena em que escuta a conversa no restaurante. A virada pela qual Abe, o dito protagonista da trama, promove em sua vida parte de um ato que não veio a seu encontro e sim foi vazado de um terceiro, e seus esforços em razão do evento são direcionados para esse desconhecido. Sua felicidade provinda daí, decisiva para que ele consiga ganhar o gosto pela vida mais uma vez e tenha algum objetivo nesta, portanto, vem de uma ação típica de uma figura coadjuvante, e põe em questão toda a sua centralidade no roteiro. Consciente desse viés, Allen (com a ajuda do diretor de fotografia Darius Khondji) mostra interesse em ora ou outra apresentar o professor numa posição de distância, rodeado por uma natureza que parece o engolir em sua beleza.
Dominado por arcos que parecem dar voltas e voltas para chegar a lugar algum (o vivido pela personagem de Stone de longe sendo o pior), Homem Irracional não é nem de perto uma abominação ou um trabalho execrável de Woody Allen. O filme, entretanto, prova ser o longa mais desinteressante do diretor, já que é incapaz de fazer algo mais elaborado de uma história no fim tão previsível e sem graça.

Nota: 5/10

domingo, 29 de março de 2015

Crítica: Vício Inerente

Quando a maneira como se conta uma história ofusca a própria.

Por Pedro Strazza.

Por mais que andem juntos e em sintonia, roteiro e narrativa são dois elementos cinematográficos bastante distintos e independentes entre si. O primeiro, tarefa óbvia de um roteirista, tem como missão básica estabelecer trama e personagens, e pode trazer nestes algum significado maior. Esta última tarefa também é atribuída ao segundo, que surge coordenado pelo diretor tanto para transpor a história escrita à realidade da tela quanto para dinamizá-la e torná-la atrativa ao espectador, sugando-o a seu universo e seus acontecimentos (sejam estes reais ou de pura fantasia).
Argumento e direção, portanto, se unem no momento em que o diretor decide por conduzir o filme e a atenção de seu público pela história a ser contada, mas por mais lógico que seja esse não é o único caminho disponível. Um grande exemplo dessa multiplicidade de opções é Vício Inerente, novo trabalho de Paul Thomas Anderson cujo grande trunfo não é a trama narrada por Sortilège (Joanna Newsom) ou seus simbolismos, mas sim a própria narrativa elaborada pelo diretor.
Adaptação do livro homônimo escrito por Thomas Pynchon (a primeira autorizada pelo escritor), o longa acompanha Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix), um detetive particular hippie que certa noite dos anos 70 é avisado por sua ex-namorada Shasta Fay (Katherine Waterston) de um esquema de assassinato de um grande empresário (Eric Roberts). Com o sumiço da garota e da vítima, Doc começa a investigar as circunstâncias dos desaparecimentos, mas para resolver o caso terá de enfrentar não só as mais variadas resistências à sua presença como também a própria mente, perdida no meio de tantos casos policiais e drogas usufruídas.
Apesar de ter um mistério complicado como tema de sua história, Anderson prefere focar suas atenções no protagonista de Vício Inerente. Centrado por completo na figura de Sportello (são um ou dois os momentos em que ele não está em cena), o diretor e roteirista força o espectador a acompanhar o desenrolar dos fatos pela visão de Doc, esta prejudicada pelos efeitos entorpecentes da maconha e outras substâncias.
É justamente essa ausência de um ponto de vista confiável que traz fascínio à produção. Complexo e repleto de personagens ocasionais (sem contar as outras investigações ocorridas no período), a busca realizada por Larry torna-se ainda mais difícil para ele e o público por causa de sua mente, mergulhada em um clima de paranoia e teorias loucas sem fim. E essa moral duvidosa do protagonista é acentuada pelo diretor, que não economiza em notabilizar o clima demente por meios técnicos, como nos closes lentos em longos diálogos ou na continuidade da trilha sonora setentista em cenas estabelecidas em diferentes cenários, e (principalmente) narrativos, a exemplo da própria Sortilège e sua dualidade como representação máxima da imaginação ébria de Sportello e de persona presente em toda viagem causada pelas drogas.
Nesse contexto de loucura e confusão, a ambientação acaba por ser um fator importante para conceber o estado em que se encontra Doc. O design de produção de David Crank e os figurinos de Mark Bridges combinam-se para elaborar uma Los Angeles multicolorida e lisérgica, feita para estabelecer o detetive em uma sociedade que não apenas aprovam seu estilo descompromissado de vida, mas o vivem com intensidade.
Assim, mergulhado em um universo esfumaçado e conduzido por um personagem que não dá motivo algum para ser confiado, o espectador torna-se refém da narrativa em uma história completamente sem nexo, mas meticulosamente planejada para tal. Isso porque Paul Thomas Anderson é sábio em não tornar o filme vítima de sua própria loucura, e desenvolve o roteiro com todas as estruturas clássicas - os três atos, os elementos noir, o arco de amadurecimento e a desconstrução da sociedade analisada típicos de sua carreira, etc.
Os simbolismos (bastante bem-humorados, a exemplo da reprodução da Santa Ceia com hippies em uma pizzaria) e os personagens representativos (o detetive vivido por Josh Brolin surge brilhante como homem racional frustado pela realidade dos tempos) estão presentes ali; o que está ausente mesmo em Vício Inerente é a trama lógica, típica de produções do gênero e que não encontra espaços para aparecer na viagem empreendida por Doc em busca de seu amor.

Nota: 10/10

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