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sábado, 23 de abril de 2016

Crítica: O Caçador e a Rainha do Gelo

A ponto de desabar, sequência acaba funcionando em seus pontos secundários.

Por Pedro Strazza.

Enquanto continuação, é interessante perceber a maneira como O Caçador e a Rainha de Gelo busca se distanciar visualmente do antecessor Branca de Neve e o Caçador, ainda que preserve em suas temáticas a centralidade de questões femininas. Se o longa de 2012 mostrava dedicação incomum em adaptar o célebre conto de fadas dos Irmãos Grimm ao imaginário medieval com um pé no fantástico, o segundo capítulo aqui parece inverter a ordem de importância, abraçando com maior entusiasmo na narrativa o lado mágico para deixar a realidade ao texto da trama que ao mesmo tempo serve de prelúdio e sequência ao original.

É uma diferença de tom que talvez aconteça pelo caráter claramente submisso de ambos os filmes às épocas ao qual se inserem como blockbusters - o primeiro no fim da onda de adaptações mais interessadas na estética sóbria e de viés realista, o segundo na agora emergente leva de produções mais coloridas e que voltam a assumir algum nível de despretensão -, mas ela também é determinante para auxiliar o estreante Cedric Nicolas-Troyan em seus esforços de dar autonomia à aventura protagonizada pelo antes coadjuvante Eric (Chris Hemsworth), o Caçador que serve de ponte entre os títulos das obras. Junto dos roteiristas Evan Spiliotopoulos e Craig Mazin, o diretor se empenha em deixar palpável o grau de separação que sua produção tem da anterior, mas tem à frente uma tarefa muito mais difícil e bastante incomum ao recém-formado subgênero de versões live-action de histórias infantis: criar um novo conto de fadas a partir de um já conhecido.

Se Nicolas-Troyan reconhece o peso dessa missão é o verdadeiro enigma do filme, que na construção de sua trama se complica ainda mais ao reafirmar o caráter adulto de seus temas em uma história estabelecida como para crianças. Pois se no visual e na ação o longa se faz mais leve e acessível às gerações mais jovens, O Caçador e a Rainha de Gelo traz no enredo uma variedade de temas que no fundo só são melhor compreendidos pelos mais velhos, como a maternidade (o drama da Rainha Freya, interpretada por Emily Blunt com alguma distância, em superar a morte do filho) e o casamento (a dificuldade da guerreira Sara de Jessica Chastain em voltar a amar o marido). É um paradoxo narrativo deveras esquizofrênico, lidado com nenhuma habilidade pelo roteiro e que ora ou outra funciona sem qualquer fundamento lógico, o que talvez confira algum charme à produção pela sua bizarrice nata.

O problema maior, entretanto, não é o disparate entre temática e público, mas sim a estrutura esboçada por Spiliotopoulos e Mazin para conceber a obra como conto de fadas, que não consegue encontrar em Eric o protagonista ingênuo clássico de tais histórias. A dupla experimenta na trama imbuir o Caçador de uma fé inabalável sobre a durabilidade do amor e Hemsworth disfarça imprimindo na atuação um ar mais relaxado, mas é evidente no roteiro como o personagem não carrega a vocação para liderar uma história do gênero, até porque ele traz em seu âmago uma identificação de virilidade que não conversa com tais valores característicos de inocência. Sem esse elemento central, não demora muito para toda a construção começar a ruir.

O fascinante de O Caçador e a Rainha de Gelo, porém, é que mesmo sem esse pilar tão fundamental sua estrutura não chega a desabar, graças aos pontos secundários que cria de maneira colateral na narrativa. Mesmo que não seja planejado como tal, o ar descontraído trabalhado por Nicolas-Troyan, seja no humor das duas anãs interpretadas com charme por Sheridan Smith e Alexandra Roach ou nos excessos de atuação milimetricamente planejados por Charlize Theron (ainda mais à vontade em seu retorno à rainha Ravenna), é o que no fim providencia ao filme seus melhores momentos.

Nota: 5/10

sábado, 3 de outubro de 2015

Crítica: Perdido em Marte

Otimista, Ridley Scott usa da ciência para brindar à sociedade.

Por Pedro Strazza.

É curioso, mas a ficção-científica precisar de um clima pesado e desesperançoso parece ter se tornado uma regra a ser seguida à risca pelo gênero no começo do século XXI. Como na transição de Kubrick para Spielberg vista em A.I. - Inteligência Artificial, os filmes da categoria que marcaram a década de 2000 e a metade dos anos 2010 abandonaram qualquer indício de esperança com a humanidade, sendo em sua maioria dominados por uma visão pessimista e estabelecedora de distopias de sistemas autoritários ou massacrantes que em comum tem o uso de paletas de cores frias para compor seu cenário. Esta ficção-científica "da depressão" quase alcançou um ponto crítico em 2014 com Interestelar, em que o olhar "realista" de Christopher Nolan tentou destituir a exploração espacial de qualquer encanto.
O gênero, porém, está tentando reencontrar o otimismo há tanto perdido nesta metade dos anos 10, primeiro com a ópera espacial de Guardiões da Galáxia e O Destino de Júpiter, depois com a visão utópica de Brad Bird e seu Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível. Agora, junta-se à este movimento de retomada Ridley Scott, que com o Robinson Crusoé espacial Perdido em Marte dá sinais de renúncia à frieza que marcou sua carreira na ficção-científica desde os tempos de Alien - O Oitavo Passageiro e Blade Runner - O Caçador de Androides.
Percebe-se essa tendência do diretor em querer ser mais positivo na obra pela maneira como o protagonista Mark Watney (Matt Damon) lida com a solidão na imensidão desértica do planeta vermelho, imposta depois de ser acidentalmente abandonado por sua equipe de expedição na fuga apressada de uma tempestade. Destituído de quaisquer laços afetivos e familiares - algo oposto ao papel de Matthew McConaughey em Interestelar, se é para manter a comparação com o filme de Nolan - o astronauta botânico lida com a situação por um viés mais imediatista e de sobrevivência, a princípio com preocupações de saúde e alimentação e depois de restabelecimento de comunicações com a Terra, ao som dos ritmos animados das músicas do cenário disco dos anos 80.
Esse imediatismo dos fatos abre espaço na narrativa desenvolvida por Scott para uma abordagem bastante social da história, pois embora Perdido em Marte seja um filme que a todo momento pregue a ciência como divindade a ser idolatrada - e o roteiro de Drew Goddard realiza isso muito bem ao não deixar entendiante ou complicado as inúmeras explicações científicas dadas na trama - sua maior veneração é em direção ao coletivo. É pelos esforços conjuntos, diretos ou indiretos, que Watney afinal consegue sozinho manter-se vivo no planeta, seja pelos itens deixados para trás pelos colegas ou nos auxílios dados pela NASA mais tarde.
Aos olhos de Ridley, o indivíduo oferece ao coletivo suas habilidades e características no mesmo passo que o coletivo é feito para servir ao indivíduo, e o cineasta não deixa de ressaltar ao espectador estes benefícios do viver em sociedade. Se no primeiro ato ele dá bastante importância ao isolamento do protagonista em Marte por meio de planos abertos e de grande profundidade (que o bem empregado 3D reforça com naturalidade estonteante), no clímax do terceiro ato o diretor dá destaque ao acompanhamento da Terra em torno do resgate ao astronauta, enquadrando diversas populações ao redor do globo como se o clima fosse o de uma verdadeira noite de ano-novo, com as pessoas ansiosas pelo momento de celebração comunitária máxima. É tanta a importância dada ao social que até a relações públicas da NASA (vivida por Kristen Wiig) tem espaço na narrativa.
A mensagem do filme é bela, mas não impede que a adaptação do livro homônimo escrito por Andy Weir tenha problemas na estrutura. Além das complicações para encaixar peças de roteiro na narrativa de forma orgânica - a ajuda dos chineses lá pro meio do segundo ato surge como um deus ex machina extremamente deslocado, crime capital em uma obra que impõe o racional - o longa mostra dificuldades semelhantes à Evereste (apesar de em menor grau) de equilibrar o gigantesco e talentoso elenco em mãos, com muitos dos arcos narrativos mau encerrados ou por completo abandonados. Os exemplos mais claros desta última são os vividos pelos personagens de Sean Bean, que pelo visto mais uma vez termina um filme em maus lençóis; Kate Mara e Sebastian Stan, cujo relacionamento é imposto no fim do terceiro ato com uma obrigação bastante desnecessária; e da própria Wiig, que, como outros vários, é abandonada pela trama assim que desempenha sua função.
São erros primários, mas que não chegam a derrubar o equilíbrio social-científico estabelecido e pelo qual a obra se guia satisfatoriamente. No mais, Perdido em Marte serve para ressaltar que o famoso jeitinho brasileiro não é exclusividade nossa: mesmo que apoiado em diversas teorias embasadas e calculadas pela ciência, o resgate de Mark Watney é no fim feito à base de sorte - e com um quê de Gravidade, outra ficção científica de viés pessimista que o filme de Ridley Scott tanto confronta.

Nota: 8/10

sábado, 4 de abril de 2015

Crítica: O Ano Mais Violento

Luta contra fim da dominância de sua classe é tema de terceiro longa-metragem de J.C. Chandor.

Por Pedro Strazza.

É de um contexto interessante e quase único na trajetória dos Estados Unidos que a história de O Ano Mais Violento parte. Começo do primeiro mandato do presidente Reagan - que com seu plano econômico iria acentuar a desigualdade social e trazer estabilidade econômica ao país - e do processo de declínio da Guerra Fria, o início dos anos 80 foi uma época de transição para a sociedade estadunidense, que teria suas noções extremas de bem e mau enevoadas após anos de tensão política.
Quem saiu perdendo em um período tão transformador foram justamente os mafiosos, antes dominantes no país por serem uma das poucas "classes" a conseguirem realizar esse jogo de sombras com a população para a manutenção de seu poder. Não mais os únicos a terem o monopólio de tal habilidade e com as autoridades em seu encalço em posse de maior poder de fogo, a tradicional máfia norte-americana entrou em colapso em si mesma. Muitas famílias caíram, e quem sobreviveu ao processo teve que buscar novas maneiras de exercer seu domínio.
Então como poderia ser possível prosperar e criar um império novo em um tempo tão turbulento? Buscar entender isso surge como prioridade no filme escrito e dirigido por J.C. Chandor, que tem em seu protagonista a representação de tal estranheza à época vivida. O empresário Abel Morales (Oscar Isaac), afinal, carrega em sua figura caricatural o peso do imigrante que chegou aos Estados Unidos buscando realizar o tão almejado sonho americano, e mesmo que o tenha alcançado por meios não convencionais - sua companhia de transporte de combustíveis foi um presente de seu sogro mafioso - ele procura crescer financeiramente da maneira mais correta possível.
Fazer isso nos instáveis anos 80, porém, não é tarefa fácil, ainda mais com toda a sociedade agindo contra sua pessoa e empresa. E as características que cercam Abel não cooperam: Além de sua herança latina e pobre, ele tem também a esposa Anna (Jessica Chastain, ótima em denotar no seu personagem a influência paterna) e a concorrência como lembretes de seu elo com o crime, e isso basta para o promotor de sua cidade (David Oyelowo) caçá-lo de jeito polido por seus pecados históricos.
Para piorar, ainda tem a questão da violência, apontada já no título da produção e que surge sempre de surpresa nas esquinas para atordoar os negócios de Abel. Nesse caso, a lei de talião ("olho por olho, dente por dente") é não uma lei como em outros longas do gênero, mas uma tentação para o protagonista, quase um chamado ancestral de imposição de seus domínios. Como Abel - muitas vezes perceptível em sua vontade de aceitar a oferta pela atuação contida de Isaac - se abstém deste é a real questão de O Ano Mais Violento, e sua resolução ao final do filme é só mais uma prova do advento de uma nova era de negócios criminosos.
Conduzido com excelência por J.C. Chandor, que para seu terceiro longa-metragem conta com a fotografia de Bradford Young para ilustrar a solidão de seu personagem principal por meio da palheta de cores de sépia e a denotação dos espaços vazios (dignos de um quadro do estadunidense Edward Hopper), O Ano Mais Violento escapa da ode ao gênero de máfia para conceber uma quase antítese aos clássicos. Abel tem consciência de que não é e provavelmente nunca será um Corleone da vida, e esse conhecimento é a chave para sua ascensão na contramão da queda de seus vários adversários.

Nota: 9/10

Gostou? Assista Também:
  • Até o Fim: Outro protagonista tentando sobreviver ao fim de outro processo.
  • Trilogia O Poderoso Chefão: A queda da máfia pelos olhos daqueles que caem.

domingo, 9 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar

Falta encantamento com o universo em novo trabalho de Christopher Nolan

Por Pedro Strazza


Christopher Nolan se destaca como diretor no contexto cinematográfico atual por trazer lucro aos estúdios que o financiam com filmes autorais, algo bastante complicado de se realizar. Em menos de dez longas, Nolan construiu uma bem estabelecida reputação de "grande cineasta" através de verdadeiras obras-primas como A Origem, O Grande Truque e, claro, a trilogia O Cavaleiro das Trevas, trabalhando em todas com seu agora reconhecido estilo de fazer cinema.


Este seu procedimento de direção, porém, pode às vezes não contribuir como deveria às suas intenções, e Interestelar prova isso da maneira mais dolorida possível. O roteiro e outros aspectos deveras interessantes do nono trabalho do diretor, afinal, sofrem demais com as escolhas tomadas por ele para captar os acontecimentos retratados, tornando a obra irregular e em alguns momentos até incoerente com sua narrativa previamente estabelecida. E as consequências disso são severas.

Prometido desde sua concepção como inovador e brilhante, a trama de Interestelar parte de uma base não muito original: A extinção da humanidade. Após anos e anos de exploração da Terra, o planeta em que vivemos finalmente cobrou seu preço, e agora a sociedade alimenta-se apenas de milho e sobrevive a tenebrosas tempestades de poeira. Nesse mundo de dias contados vive Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro pai de dois filhos que vive com o pai Donald (John Lithgow) em uma fazenda do interior dos Estados Unidos. Preocupado com o futuro das crianças, ele aceita participar da missão final de uma combalida Nasa para, junto da Dra. Brand (Anne Hathaway) e dos especialistas Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), atravessar um buraco de minhoca e verificar se três planetas localizados em outra galáxia tem potencial para ser habitados.

É uma ideia simples, mas que é desenvolvida no roteiro por Nolan e seu irmão Jonathan com uma complexidade fascinante em seus dois primeiros terços. Utilizando-se das teorias desenvolvidas pelo físico Kip Thorne e de conceitos básicos da física quântica, o longa encanta o espectador ao explorar o universo em um tom realista, através da visão de formações estelares impressionantes (não é todo dia que se vê um buraco-negro no cinema, convenhamos), e brincar de forma responsável com essas noções científicas. A história, assim, ganha a força e o peso ideais para progredir com vigor.

Outro ponto bastante positivo em Interestelar é a maneira como este se esforça em desenvolver suas relações humanas. Nolan, que sempre desprezou este lado em suas produções, traz visível preocupação em mostrar na primeira parte, por exemplo, a forte conexão emocional entre Cooper e a filha Murph (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chastain na fase adulta), cuja ligação é central no roteiro e importante para determinados segmentos da trama, através de atos isolados, como a perseguição ao drone. E mesmo que soe artificial em alguns momentos, a dramaturgia é suficiente para o público se conectar aos personagens e seus dilemas superficiais.

O acerto destes dois aspectos da produção, entretanto, não escondem os seus inúmeros defeitos técnicos e narrativos, gerados em sua maioria pelo estilo do próprio diretor. Isso porque algumas das características do cinema de Nolan acabam por se chocar com conceitos da ficção científica, e isso sublima pontos excelentes do filme. Dessa maneira, a necessidade do cineasta em abusar de diálogos expositivos subtrai das cenas o encantamento com o espetáculo visual oferecido aos personagens, enquanto o uso incessante de planos fechados e focados somente na reação dos atores entra em conflito direto com a belíssima trilha sonora de Hans Zimmer, que do uso de órgãos busca tirar do universo uma contemplação quase religiosa do que (não) é mostrado.

Mas o grande problema do longa sem dúvida é o seu terceiro e derradeiro ato, sabotado principalmente pelo absurdo narrativo que expõe. A pesada estrutura armada por Nolan, preparada em terreno racional, desaba quando trai seus conceitos físicos para elaborar um desfecho pautado no emocional, uma área que o diretor mostra dificuldade e é amparada somente pela sensível atuação de McConaughey. Incoerências são geradas, e a sensação final é de estranhamento.

Talvez pelos vícios de seu diretor, talvez pela promessa exacerbada, Interestelar é um filme que fracassa em suas ambições e tentativas bem intencionadas. É um fracasso, porém, bastante entretivo e curioso, do qual Nolan consegue emular bons momentos mesmo com todos os seus problemas. É um tropeço significativo na carreira do cineasta, sem dúvida alguma, mas não tão grave para o público perder a confiança nele e quebrar sua reputação.

Nota: 6/10