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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land - Cantando Estações

O sonho americano em tempos de individualidade extrema.

Por Pedro Strazza.

Único número musical a envolver de fato um grande número de pessoas na coreografia, a canção "Another day of Sun" abre La La Land - Cantando Estações com um prenúncio daquilo que será tratado no filme. Em mais um típico congestionamento nas estradas dos arredores de Los Angeles, motoristas e passageiros saem de seus carros para cantar e dançar os sacrifícios que fizeram em suas vidas para tentar conquistar os sonhos que tanto almejam. Com a Cidade dos Anjos ao fundo servindo como espécie de Meca a suas respectivas buscas por fama e sucesso, a câmera passeia por dançarinos e dançarinas enquanto estes pulam em carros, descobrem bandas no interior de caminhões e saúdam o cenário ao qual se inserem para no fim voltarem a entrarem em seus carros e baterem as portas, retornando ao status original de buzinas e xingamentos por causa da lentidão.

É uma abertura bastante simples - o visual lembra muito os clipes criativos e cada vez mais batidos da banda OK Go - e que evidencia a questão do sonho americano, uma utopia que se no passado foi fundamental a Hollywood e o cinema estadunidense hoje está em declínio absoluto, ainda que tenda a permanecer no imaginário popular. Mas será que ainda é possível perseguir o estrelato, a riqueza e a vida perfeita prometida nos filmes antigos no mundo contemporâneo? 

No fundo, esta é a grande questão a ser respondida pelo musical dirigido e escrito por Damien Chazelle, que começa retomando valores desse grandioso passado afim de levantar tais perguntas. Seus dois protagonistas, afinal, vivem dessa nostalgia frustrada pelo tempo: Enquanto a jovem Mia (Emma Stone) busca a carreira de atriz e se decepciona com cada "não" tomado, o pianista Sebastian (Ryan Gosling) persegue o sonho de ter o próprio clube de jazz em um cenário onde o gênero musical encontra-se em extinção, vendo seus grandiosos templos serem substituído por bares de samba e tapas. Após se esbarrarem repetidas vezes no curso de poucos dias, os dois se apaixonam e passam a apoiar um ao outro em suas metas aparentemente impossíveis.

Se La La Land a princípio se faz como um musical feito das memórias do que veio antes, uma grande homenagem a um gênero que no passado dominou atenções, ele aos poucos dissolve esta suspeita no rumo do relacionamento dos protagonistas e nas dificuldades que eles passam para alcançar seus objetivos. Se no primeiro ato o longa é dominado pela invasão de elementos tradicionais deste tipo de cinema na atualidade - algo muito evidente nos números musicais, mas também presente nas referências visuais a pontos turísticos de Los Angeles - o filme gradativamente incorpora essa mistura do nostálgico com o contemporâneo a um tom mais visual, dando lugar (pelo menos até o balé final) a (muito melhor resolvidas) danças silenciosas e canções quase em formato de serenata que guiam o romance de Mia e Sebastian com poucas palavras.

Isso porque Chazelle está menos interessado no musical como fim e mais como meio para o desenvolvimento de seus personagens e suas respectivas jornadas. O diretor repete de seu longa anterior (Whiplash) aqui o alienamento obsessivo dos protagonistas e o uso da música como uma ferramenta de trama, imprimindo ao casal uma sede individualizante e uma nostalgia anacrônica que são condizentes ao mundo que os permeiam afim de torná-los em avatares universais de uma busca por um sonho ultrapassado e em pleno desfalecimento. O "Eles adoram tudo e valorizam nada" que Sebastian diz para Mia em tom de desabafo durante um passeio pelas instalações vazias de um dos grandes estúdios, seguido posteriormente pela cena onde ela vê o cinema que serviu de local para o primeiro encontro com ele ser fechado, serve de lembrete a esta transformação natural em curso, uma mudança nas formas e caminhos aos quais eles terão de se submeter para alcançar seus objetivos.

Que o individualismo, para bem ou para mal, sempre esteve ligado ao sonho americano está claro desde sempre, mas é no atestamento do crescimento de sua necessidade que torna o musical tão atraente. Mesmo que o relacionamento de Mia com Sebastian seja marcado por poucos conflitos, La La Land torna evidente a fragilidade da relação dos dois devido a suas próprias ambições, aos poucos desfazendo as possibilidades de sucesso de seu namoro por movimentos simples enquanto ambos parecem encontrar apenas becos sem saída em suas jornadas. No processo, Emma Stone é quem melhor incorpora as dores e as perdas sentidas a cada passo dado, envolvendo o espectador a cada derrota e conquista por todos os métodos possíveis, seja na dança, no choro ou no olhar.

Assim, quando o filme chega a sua parte final e o público reencontra os dois personagens cinco anos depois com seus objetivos alcançados, a fama e o sucesso atingidos e o sonho americano de certa forma realizado (uma licença poética que para muitos deve soar um tanto quanto ofensiva) graças a suas ambições individuais - Mia só consegue o primeiro papel graças a seu monólogo, enquanto dá-se a entender que Sebastian abandonou a banda do amigo Keith (John Legend) para fundar o seu bar - a grande pergunta que permanece sem ser respondida é se o sacrifício do relacionamento por esse sonho valeu a pena. O belíssimo balé final orquestrado por Chazelle, seguido pelo olhar cúmplice entre os dois, vem então não apenas para responder esta questão como também para reafirmar a força da busca pelo sonho americano em um mundo - e também uma Los Angeles - onde tal esperança parecia ter se desvanecido por completo.

Nota: 9/10

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Crítica: O Exterminador do Futuro - Gênesis

Quinto filme retorna ao passado em busca de nostalgia, mas se perde no caminho.

Por Pedro Strazza.

Em linhas bem gerais, O Exterminador do Futuro e sua continuação circulam toda a sua história e ação em torno da questão das relações humanas em meio ao medo do futuro do avanço tecnológico. No primeiro filme, Sarah Connor e Kyle Reese buscavam encontrar o amor enquanto fugiam da extinção, representada de forma literal por um robô assassino e auto-consciente; já em O Julgamento Final, uma versão masculinizada de Sarah tentava se reconectar com seu filho ao mesmo tempo em que ambos procuravam evitar o apocalipse nuclear. Depois disso, as duas próximas sequências, A Rebelião das Máquinas e A Salvação, não conseguiram entender o conceito por trás de seus antecessores e deram prosseguimento à trama com o único objetivo de fazer "maior e mais", levando a série a um rápido esgotamento e um inevitável fim.
O mais curioso desse processo é que, enquanto o terceiro e quarto capítulos fracassaram na tentativa de se igualar aos dois primeiros por irem atrás de novos caminhos, o quinto episódio obtém um resultado pior que estes por justamente fazer o caminho inverso. Similar à proposta de Jurassic World, O Exterminador do Futuro - Gênesis volta ao passado da franquia para criar o futuro, atualizando temas e repetindo eventos e situações dos filmes dirigidos por James Cameron em uma colagem impressionante de tão pouco eficaz.
Dessa vez, os grandes inimigos a serem enfrentados pelos Connor não são a bomba ou o automatismo, mas sim a hiperconectividade e a integração homem-máquina, representada pela figura imponente de uma Skynet humanizada, e sua forma de combate é a discussão. Afinal, quando Kyle Reese (Jai Courtney) é mandado pelo líder da resistência John Connor (Jason Clarke) para salvar sua mãe Sarah (Emilia Clarke) e encontra uma situação completamente inversa da esperada - e que inclui uma versão envelhecida do T-800 de Arnold Schwarzenegger, chamada aqui de "Pops" -, resta a ele e à mãe da resistência tentar entender como os dois se encaixam no mundo e todas as suas mudanças, sem ter ninguém além deles mesmo para poder encontrar a solução para tal questão.
Os problemas começam, porém, quando o relacionamento dos protagonistas humanos é desenvolvido de forma confusa e sem raciocínio lógico algum. Na mão dos roteiristas Laeta Kalogridis e Patrick Lussier, o núcleo do filme logo se transforma numa embolada discussão familiar, digna de um episódio dos Casos de Família se este tivesse um orçamento maior e mais propenso a explosões. Discussões sobre paternidade e evolução dos filhos não faltam, atropelando-se umas as outras na disputa pela atenção do público em longas duas horas de projeção.
Mas não basta isso para confundir o espectador. Acima de tudo, Gênesis se faz uma verdadeira salada do tempo, perdida em meio ao caos de linhas cronológicas que tenta explicar com muita dificuldade, tudo para gerar um fio de trama para conduzir seus acontecimentos. E buscar coerência nesse caso prova-se uma péssima decisão, visto que além de insuficientes para responder todos os furos elas ainda evidenciam a falta de importância e nexo da grande maioria dos personagens coadjuvantes. Como esclarecer a função do detetive policial interpretado por J.K. Simmons se este é apenas um alívio cômico forçado? E as súbitas viradas de roteiro, acumuladas aos montes (são dez, pelo menos) com o único intuito de manter o público atento à cadeia de eventos? E o T-1000 (Byung-hun Lee), posto no primeiro ato da história apenas para trazer uma ameaça a esta e nada, absolutamente nada mais?
Para piorar, o longa também sai prejudicado naquilo que é considerado por muitos a marca principal da franquia: a ação. O diretor Alan Taylor, atrás do sucesso dos trabalhos de Cameron, refaz situações dos dois primeiros capítulos com um tom maior de exagero, mas se perde na hora de coordenar o que está acontecendo em cena, abusando das aproximações nos momentos mais explosivos. O resultado disso é a mais pura confusão, com muitos movimentos incompreensíveis de personagens em brigas e atos inteiros arruinados pela artificialidade pulsante - como a perseguição dos helicópteros, que sozinha não explica seu deslocamento ou sua sequencia de ações.
Em meio a todo o desastre, porém, a produção encontra em Schwarzenegger um pilar de sustentação importante. Preso em um personagem-guia dos mais óbvios, o ator de 67 anos consegue trazer humor e imposição ao modelo T-800 que tão bem faz desde o primeiro filme. O mais interessante, entretanto, é pensar que mesmo este sendo o seu quarto personagem na série Arnold ainda é capaz de trazer ao personagem um perfil diferente o suficiente para diferenciá-lo dos outros, com salpicos aqui e ali das outras versões enviadas ao passado. Uma qualidade que a produção não encontra no restante do elenco principal, seja os canastrões Jason Clarke e Jai Courtney ou Emilia Clarke, aqui sem espaço para manobra em uma Sarah Connor reduzida a estereótipos como o da "libertação pelo amor".
Embora respeite o legado da franquia e use desta para criar sua trama, O Exterminador do Futuro - Gênesis acaba por demolir as mesmas em seu esforço quase hercúleo de tentar continuar uma história que claramente já provou estar encerrada. Ao optar pelo valor nostálgico da franquia, o quinto capítulo esquece que este processo criativo também necessita de uma construção própria para se auto-sustentar de forma satisfatória, e seu desabamento é prova cabal desta problemática.

Nota: 3/10

domingo, 25 de janeiro de 2015

SAG Awards 2015: Indicados e Vencedores

Junto com PGA, Sindicato de Atores complica a corrida pelo Oscar 2015.

Por Pedro Strazza.

Na noite do dia 26 de janeiro, o Sindicato de Atores de Hollywood realizou no Shrine Auditorium o SAG Awards, cerimônia que além de premiar os melhores atores e atrizes do cinema e da televisão é também um termômetro confiável para as categorias de atuação do Oscar.
E pelo menos na área de cinema, o resultado da premiação foi interessante. Mesmo tendo confirmado os favoritismos de Julianne Moore, Patricia Arquette e J.K. Simmons para as categorias de Melhor Atriz, Atriz Coadjuvante e Ator Coadjuvante respectivamente, o SAG embolou a corrida pelo Oscar de Melhor Ator ao conferir a Eddie Redmayne a estatueta ao invés de Michael Keaton, tornando o antes decidido prêmio aberto para todas as possibilidades. Enquanto isso, Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância desbancou Boyhood - Da Infância à Juventude e levou a honraria de Melhor Elenco no mesmo dia em que confirmou vitória no PGA Awards, o mais confiável termômetro para o Oscar de Melhor Filme, tornando-se assim o concorrente favorito para o principal prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Ademais, o SAG 2015 foi bastante equilibrado em suas escolhas. O "grande" vencedor da noite foi a série Orange Is The New Black, que levou incríveis DOIS prêmios com Melhor Elenco e Melhor Atriz em Série Cômica para Uzo Aduba.
Confira os indicados e os vencedores da premiação abaixo:

Prêmio pela carreira: Debbie Reynolds

CINEMA

Melhor elenco
Melhor atriz
  • Jennifer Aniston (Cake)
  • Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
  • Julianne Moore (Para Sempre Alice)
  • Rosamund Pike (Garota Exemplar)
  • Reese Witherspoon (Wild)
Melhor ator
  • Steve Carell (Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo)
  • Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
  • Jake Gyllenhaal (O Abutre)
  • Michael Keaton (Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Eddie Redmayne (A Teoria do Tudo)
Melhor atriz coadjuvante
  • Patricia Arquette (Boyhood - Da Infância à Juventude)
  • Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
  • Emma Stone (Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Meryl Streep (Caminhos da Floresta)
  • Naomi Watts (Um Santo Vizinho)
Melhor ator coadjuvante
  • Robert Duvall (O Juiz)
  • Ethan Hawke (Boyhood - Da Infância à Juventude)
  • Edward Norton (Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Mark Ruffalo (Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo)
  • J.K. Simmons (Whiplash - Em Busca da Perfeição)
Melhor time de dublês
  • Corações de Ferro
  • James Brown: Get on Up
  • O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
  • Invencível
  • X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

TV

Melhor elenco de série dramática
  • Boardwalk Empire
  • Downton Abbey
  • Game of Thrones
  • Homeland
  • House of Cards
Melhor atriz de série dramática
  • Claire Danes (Homeland)
  • Viola Davis (How to Get Away with Murder)
  • Julianna Margulies (The Good Wife)
  • Tatiana Maslany (Orphan Black)
  • Maggie Smith (Downton Abbey)
  • Robin Wright (House of Cards)
Melhor ator de série dramática
  • Steve Buscemi (Boardwalk Empire)
  • Peter Dinklage (Game of Thrones)
  • Woody Harrelson (True Detective)
  • Matthew McConaughey (True Detective)
  • Kevin Spacey (House of Cards)
Melhor elenco de série cômica
  • The Big Bang Theory
  • Brooklyn Nine-Nine
  • Modern Family
  • Orange is the New Black
  • Veep
Melhor atriz de série cômica
  • Uzo Aduba (Orange is the New Black)
  • Julie Bowen (Modern Family)
  • Edie Falco (Nurse Jackie)
  • Julia Louis-Dreyfus (Veep)
  • Amy Poehler (Parks and Recreation)
Melhor ator de série cômica
  • Ty Burrell (Modern Family)
  • Louis C.K. (Louie)
  • William H. Macy (Shameless)
  • Jim Parsons (The Big Bang Theory)
  • Eric Stonestreet (Modern Family)
Melhor atriz em minissérie ou filme feito para a TV
  • Ellen Burstyn (Flowers in the Attic)
  • Maggie Gyllenhaal (The Honorable Woman)
  • Frances McDormand (Olive Kitteridge)
  • Julia Roberts (The Normal Heart)
  • Cicely Tyson (The Trip to Bountiful)
Melhor ator em minissérie ou filme feito para a TV
  • Adrien Brody (Houdini)
  • Benedict Cumberbatch (Sherlock: His Last Vow)
  • Richard Jenkins (Olive Kitteridge)
  • Mark Ruffalo (The Normal Heart)
  • Billy Bob Thornton (Fargo)
Melhor time de dublês
  • 24: Live Another Day
  • Boardwalk Empire
  • Game of Thrones
  • Homeland
  • Sons of Anarchy
  • The Walking Dead

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Crítica: Whiplash - Em Busca da Perfeição

Damien Chazelle questiona ensino e obsessão a partir do mundo do jazz.

Por Pedro Strazza.

Com diferentes níveis de intensidade no ser humano, "ser o melhor" é uma necessidade inexplicável. Destacar-se dos outros pelos próprios méritos, afinal, parte basicamente da mesquinharia de nosso ego, que presume seu indivíduo como algo diferenciado, superior àqueles que o cercam por causa de habilidades ou de um intelecto supostamente únicos e insubstituíveis. Para alcançar o topo, porém, se faz necessário não um "dom" ou uma "dádiva dos deuses", mas sim a prática e a disciplina, que combatem com todas as forças o problemático orgulho de nossos "Eu"s.

Mas o exercício regular também pode ser tão danoso quanto a soberba, e o diretor e roteirista Damien Chazelle busca mostrar este caminho em Whiplash - Em Busca da Perfeição, seu segundo trabalho na direção. O filme acompanha Andrew (Milles Teller), um jovem baterista que, estudante do principal conservatório do país, sonha em ser um dos maiores músicos de jazz da História. Para isso, ele com muito esforço consegue lugar na banda comandada pelo mítico maestro Fletcher (J.K. Simmons), responsável por criar grandes profissionais do ramo em suas aulas. Em menos de uma aula, entretanto, Andrew percebe da pior forma possível que o professor usa de métodos nada corretos para ensinar, e após seguidas humilhações ele entra em um ciclo auto-destrutivo de aprendizado para alcançar seus objetivos.

Desse momento em diante, a relação tumultuosa que se desenvolve entre mestre e aluno é filmada por Chazelle com tons de exagero. Dos cortes rápidos que destacam o uso dos instrumentos pelos músicos aos closes nervosos de câmera no rosto dos personagens, o diretor aos poucos concebe no ambiente uma espécie de campo de batalha musical, onde seus dois protagonistas batalham por diferentes motivos: Enquanto Andrew busca uma inalcançável aprovação de seu professor, Fletcher procura a todo custo levar ao limite seu aluno para tirar dele a genialidade vista somente em mestres como Charlie Parker ou Louis Armstrong. E conforme a trama avança, fica claro que essa disputa sem pé nem cabeça exercida pelos dois os levará à lugar nenhum...

[A partir daqui há leves SPOILERS sobre o filme. Leia por sua própria conta e risco.]

... Ou será que não? Ao final, o grande tema de Whiplash de fato é o do limite em que a prática faz bem ao estudante, e o longa oferece caminhos para as duas respostas possíveis. Se por um lado a metodologia de Fletcher acaba com a vida de Andrew e de outros alunos ao forçá-los a se dedicar exclusivamente à música, ela também parece ser a única capaz de transformar bons profissionais em excepcionais músicos e possíveis lendas, e seus pupilos reconhecem isso - e seria muito estranho se não reconhecessem, dado as torturas aos quais se submetem. Como bem afirma o maestro em determinado ponto, parece não haver palavras mais danosas ao trabalho de um músico que "bom trabalho", pois elas o inibem de se esforçar a ser melhor.

Questionamentos à parte, é interessante perceber como o filme evita facilidades e constrói seus personagens principais com profundidade. Enquanto Teller cria um Andrew que mesmo sendo o herói da narrativa possui um perfil social fragmentado e uma arrogância nada sutil - capaz até de terminar um relacionamento antes de seu início para poder se dedicar seus objetivos -, J.K. Simmons é feliz ao transformar seu Fletcher em um monstro feroz com leves toques de humanidade, importantes para tanto conferirem ao antagonista uma leve esfericidade não existente a outros tiranos do cinema (o Sargento Hartman de Nascido Para Matar ou até o J.J. Jameson interpretado pelo próprio Simmons na trilogia Homem-Aranha, por exemplo) quanto darem dúvidas ao espectador sobre suas reais intenções.

Prejudicado um pouco pelo mal uso de seus coadjuvantes (passam desapercebidos os companheiros de banda e o interesse romântico de Andrew, por exemplo), Whiplash - Em Busca da Perfeição é um retrato interessante e bem montado da obsessão que nos toma quando queremos ser aquele "algo a mais", e evidencia com propriedade a questão do ensino e seus objetivos. Chazelle realiza um ótimo trabalho na direção, e não há prova maior disso que o explosivo encerramento, capaz de refletir todos os temas do filme com pouquíssimas palavras.

Nota: 8/10

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