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domingo, 27 de dezembro de 2015

Crítica: Macbeth - Ambição e Guerra

Montagem cinematográfica se perde nos anseios da própria proposta.

Por Pedro Strazza.

É meio inevitável que do princípio Macbeth - Ambição e Guerra seja comparado à versão de Hamlet dirigida por Franco Zeffirelli. Além de transporem na íntegra o texto de William Shakespeare para o cinema, as duas produções prezam pela reverência às obras do dramaturgo inglês, em um misto de celebração à atemporalidade de suas peças e de uma tentativa de engrandecimento à figura dos atores escolhidos para viver esses eternos personagens.

O que diferencia os dois filmes, porém, é que enquanto Zeffirelli mostrava-se disposto a preservar os valores teatrais de Hamlet, tornando visível no lado técnico o lado de fábula da tragédia sem descambar para o caricato (os figurinos luxuoso mas sem exageros, a fotografia sem grandes experimentações) em uma curiosa demonstração de sobriedade, o Macbeth do australiano Justin Kurzel abre maiores concessões. O diretor abusa da estilização na imagem e no som, disposto a tornar a história sobre corrupção do poder em uma experiência sensorial das mais angustiantes.

De início, é uma estratégia que parece funcionar. Da trilha sonora à base de tambores de Jed Kurzel (irmão de Justin) à fotografia que não se intimida em assumir o filtro de Instagram, o longa consegue no começo circundar a encenação da tragédia em algo menos pautado pelo texto e mais pelas ações. Mas aqui e ali, em câmera lentas ou aceleradas, que o filme começa a demonstrar o desgaste de sua proposta.

Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que os excessos de Kurzel não conseguem se conectar com a sua necessidade de ambientar a trama em um espectro realista, clara como água nas decisões de figurino e design de produção. A ação brutal dos poucos conflitos mostrados, por exemplo, perde toda a crueza intendida nos closes de câmera e slow motions, que visam uma maior plasticidade dos conflitos. É o tipo de choque não planejado que atrapalha a desenvoltura gráfica da obra e, no fim, a faz naufragar.

O outro problema é que a proposta de Ambição e Guerra se perde no encaixe com o material original, que não por acaso funciona primordialmente pela força de suas palavras. As vontades artísticas de Kurzel em nada contribuem para tornar o discurso da obra sobre o poder em algo mais substancial comparada a seu uso solitário, e a bem da verdade desviam o foco desse lado tão importante à peça. Em consequência, embora façam o esforço extra de proferir o texto de Shakespeare com o zelo dos atores consagrado que são, as performances de Michael Fassbender e Marion Cotillard se perdem em meio às trucagens técnicas do longa no mesmo passo que Sean Harris e (principalmente) Elizabeth Debicki são desperdiçados no elenco coadjuvante.

No fundo, esta versão de Macbeth vem para provar o quão importante é que se dê protagonismo para os diálogos das peças de Shakeaspeare em tais montagens cinematográficas. Os arroubos de Kurzel, além de se tornarem progressivamente em exibicionismo puro, acabam por servir mais para evidenciar os pontos superficiais mais ultrapassados da obra, como a configuração das personagens femininas em mero troféu ou tentação, e menos como forma de glorificar os seus valores, de mostrar o porquê deles serem tão eternos assim.

Nota: 5/10

domingo, 6 de setembro de 2015

Crítica: O Agente da U.N.C.L.E.

Lado canastra da espionagem ganha homenagem à altura.

Por Pedro Strazza.

Não é preciso muita reflexão para entender qual o objetivo do diretor Guy Ritchie com O Agente da U.N.C.L.E., já que este aparece revelado de uma maneira quase descarada nos papéis dados a seu elenco multinacional. O caráter nacionalista da espionagem, ponto importante da esmagadora maioria das produções do subgênero, é completamente dissolvido pelas mãos do cineasta, que transforma atores britânicos em personagens estadunidenses, faz estadunidenses se passarem por russos, traz franceses como italianos e assim por diante.
Esta "brincadeira" é um indício do quão disposta a adaptação cinematográfica do seriado homônimo criado por Sam Rolfe está a se guiar pelo lado superficial de sua história que empreender um raciocínio mais aprofundado em cima desta. No mesmo ano em que Matthew Vaughn busca homenagear em Kingsman o subgênero em seu aspecto mais roteirístico, Ritchie faz um ato reverencialista similar em direção a esses tipos de história e seus ícones de ação, mas por sua faceta mais visual e de poses. Porque se há uma coisa que James Bond e seus colegas de profissão sabiam fazer no passado era aparecer bonito na foto.
Na trama escrita pelo diretor e Lionel Wigram, acompanhamos o charmoso Napoleon Solo (Henry Cavill) e o muscular Ilya Kuryakin (Armie Hammer), agentes respectivamente da CIA e da KGB que no auge da Guerra Fria são obrigados por suas agências a trabalhar juntos para deter os planos de um rico casal de simpatizantes nazistas em construir sua própria bomba nuclear. Para isso, eles precisarão de Gaby Teller (Alicia Vikander), uma russa jovem, bela e experiente com mecânica de carros cujas conexões com o cientista responsável pela criação do aparato serão decisivas para o cumprimento da missão.
A exemplo das descrições dadas acima aos personagens, o superficial se faz em O Agente da U.N.C.L.E. uma lei máxima da narrativa, e se baseia sem muitos rodeios nos ideais pregados pela cultura estadunidense: Se o Napoleon Solo de Cavill surge como a representação perfeita do celebrado herói bandido com sex appeal intensa e de tiques britânicos pouco sutis, o Ilya Kuryakin de Hammer é a máquina de matar descerebrada produzida pela demonizada União Soviética, cujos esforços ainda assim não são capazes de esconder dele o grande e apaixonado coração. O que impede a obra de ser danificada por isso é que Ritchie assume essa faceta canastrona sem medo para ela, em um esforço quase admirável de voltar aos tempos onde essa característica era regra.
É aí que o filme encontra sua maior força, mesmo que a muitos trancos e barrancos. Enquanto homenagem ao passado do subgênero, o longa encanta ao abraçar todo esse universo de estereótipos e trazê-las envoltas em ambientes aos quais foram criadas para funcionar (as festas luxuosas, as locações exóticas), mas em momento algum ele esconde do espectador esse seu lado de espetáculo raso. É na honestidade de sua futilidade, inclusive, que Guy Ritchie arranca o humor de sua produção, como prova a cena em que traz o personagem de Cavill na posição do público enquanto ele assiste a explosiva tentativa de fuga do colega russo com uma calma indiferente.
Mas enquanto O Agente da U.N.C.L.E. funciona para comédia ao admitir seus problemas, ele também entendia por não fazer da canastrice seu referencial. E nesse ponto, é extremamente claro no longa a falta do elemento recompensador em fundações vitais como a ação ou romance, que são sublimadas pelo diretor ao optar pelo imediato da coisa e o abandono de uma significação maior a sua estrutura. Mesmo o terceiro ato, momento onde os filmes de espionagem habitualmente marcam o espectador, se perde aqui em edições rápidas e de dinâmicas banalizadas, como se a obra se desinteressasse em apresentar o próprio desfecho.
É nos personagens, porém, que Guy Ritchie traz o ápice e o fundo do poço de sua aventura, com seus melhores momentos na divertida relação exercida por seus protagonistas, trabalhados com a canastrice necessária e planejada por Cavill e Hammer, e seus piores na tentativa frustrada de tirar o elemento feminino de sua posição antiquada em tais obras - e por mais que Vikander encante e sua participação na história seja interessante, sua situação princesa-no-castelo não passa nem um pouco despercebida. São eles, em última análise, que por bem ou mal sustentam O Agente da U.N.C.L.E., uma obra cujo senso de respeito em relação ao subgênero é vazio em essência.

Nota: 5/10