Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Charlize Theron. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Charlize Theron. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de maio de 2018

Crítica: Gringo - Vivo ou Morto

Preso a uma lógica contraditória, comédia de erros se perde no próprio retrato regional que realiza.

Por Pedro Strazza.

Se o sucesso de um subgênero é garantido à partir do momento em que passa a ser executado sob o procedimento mais convencional da repetição de seus gestos e signos, o screwball de humor negro já chegou à consumação final de sua trajetória dentro do cinema estadunidense. Popularizado nos anos 90 por cineastas como os irmãos Coen e Quentin Tarantino, este tipo de comédia já foi tido no passado como item de subversão, mas com o passar dos anos sedimentou-se de tal maneira no imaginário cinematográfico que aos poucos encontrou seu espaço dentro do circuito mais prestigiado do próprio sistema do qual nutria aversão. Seus realizadores mais conhecidos foram incorporados ao mainstream, e por mais que sua crueza e humor ácido não tenham sido abandonados esta produção hoje é encarada com muito mais bons olhos por parte do grande público e a crítica, que abraçaram com intensidade toda e qualquer viés de retrato social do qual o gênero aprendeu a nutrir como maior ambição.

Sob este olhar, não chega a ser uma grande surpresa que produções como Três Anúncios Para um Crime e este Gringo - Vivo ou Morto carreguem entre si uma semelhança notável e difícil de ser ignorada. Os cenários abordados podem ser distintos, mas no fundo as duas produções carregam um mesmo processo de repetição de arquétipos e estruturas típicas de um gênero muito familiar ao espectador e que é utilizado por seus diretores para tentar se estabelecer dentro de um mercado que lhe é estrangeiro. No fundo, a grande diferença é a origem destes dois cineastas e, por consequência, o cinema em que cresceram: enquanto Martin McDonagh veio da Irlanda, Nash Edgerton nasceu na Austrália.

É uma questão de regionalismo muito simples, mas que faz toda a diferença para que os dois filmes consigam soar distintos o suficiente entre si, mesmo não sendo de fato. Se McDonagh realizava o screwball a partir da violência de caráter tribal e do sarcasmo que são típicos da produção irlandesa, o longa de Edgerton tem na ironia irreverente e tipicamente australiana o seu principal combustível para se aventurar pelo subgênero, contando todos os percalços rocambolescos de sua história com altas cargas de humor negro no intuito de desarmar o peso das situações mostradas. O local e o contexto onde a trama se passa, afinal, tem nada de tranquilo, situando-se nas rixas recém-exponenciadas na fronteira do México com os Estados Unidos para narrar uma série de negociações e sequestros embolados e centrados na figura de Harold (David Oyelowo), um executivo prestes a ser demitido da empresa farmacêutica no qual trabalha que é confundido pela máfia mexicana como responsável pelas operações ilegais realizadas por seus superiores (Joel Edgerton e Charlize Theron).

A premissa sugere e tenta se fazer em cima da comédia de erros que são os múltiplos trambiques executados por todos os personagens envolvidos - que variam da dicotomia entre criminosos mexicanos e executivos americanos mesquinhos para figuras menos polarizadas como a de um mercenário em busca de redenção (Sharlto Copley) e a da namorada inocente (Amanda Seyfried) - mas conforme Edgerton vai mostrando claras dificuldades para administrar as viradas sucessivas do roteiro de Anthony Tambakis e Matthew Stone o longa acaba preso à mesma situação de inadequação e incongruência situacional de Três Anúncios, incapaz de abordar ou mesmo reconhecer o retrato que tenta construir destas relações de fronteira tão frágeis do período Trump.

Não ajuda muito também que a comédia mais irônica proposta por Gringo desarme constantemente a obra de qualquer pretensão em simultâneo a este procedimento ambicioso, uma lógica disforme cujas grandes vítimas acabam sendo as atuações do elenco. Todos os atores parecem à deriva nas caricaturas aos quais são forçados a se adequar, desde Theron e sua performance um tanto desgastada de mulher alpinista (cujas maiores habilidades envolvem, claro, a beleza e o sexo) a participações menores como a de Thandie Newton, ótima atriz reduzida aqui a um papel de esposa-troféu quase terciário. Mesmo os atores em teoria com maior espaço para desenvolver a aparente complexidade de seus personagens - como Oyelowo, Edgerton ou Copley - parecem restritos a um comentário irônico sobre relações de trabalho declarado pelo diretor, que repete chavões do meio empresarial em busca de um momento de compreensão superior que nunca chega a acontecer de fato na história.

Proporcionar o "olhar de fora" nunca deixou de ser uma operação muito bem vinda ao cinema, e há diversos casos de diretores imigrantes lendo o cenário "estrangeiro" de uma forma única e capaz de avançar o debate que comprovam o quão benéfico estas intersecções podem ser a uma produção regional. No caso específico de Gringo, o problema não está neste ato de Edgerton em tentar se adequar em terreno diferente de sua origem, mas sim no caráter vazio com o qual este busca cumprir com seu objetivo. Com todas as suas pretensões fracassadas, o filme (bem como seu realizador) termina um tanto reduzido a seu modo de operação idiossincrático, nesta tentativa um tanto constrangedora de conciliar narrativas regionais em busca de qualquer traço de originalidade para ancorar toda a sua estrutura.

Nota: 3/10

sábado, 23 de abril de 2016

Crítica: O Caçador e a Rainha do Gelo

A ponto de desabar, sequência acaba funcionando em seus pontos secundários.

Por Pedro Strazza.

Enquanto continuação, é interessante perceber a maneira como O Caçador e a Rainha de Gelo busca se distanciar visualmente do antecessor Branca de Neve e o Caçador, ainda que preserve em suas temáticas a centralidade de questões femininas. Se o longa de 2012 mostrava dedicação incomum em adaptar o célebre conto de fadas dos Irmãos Grimm ao imaginário medieval com um pé no fantástico, o segundo capítulo aqui parece inverter a ordem de importância, abraçando com maior entusiasmo na narrativa o lado mágico para deixar a realidade ao texto da trama que ao mesmo tempo serve de prelúdio e sequência ao original.

É uma diferença de tom que talvez aconteça pelo caráter claramente submisso de ambos os filmes às épocas ao qual se inserem como blockbusters - o primeiro no fim da onda de adaptações mais interessadas na estética sóbria e de viés realista, o segundo na agora emergente leva de produções mais coloridas e que voltam a assumir algum nível de despretensão -, mas ela também é determinante para auxiliar o estreante Cedric Nicolas-Troyan em seus esforços de dar autonomia à aventura protagonizada pelo antes coadjuvante Eric (Chris Hemsworth), o Caçador que serve de ponte entre os títulos das obras. Junto dos roteiristas Evan Spiliotopoulos e Craig Mazin, o diretor se empenha em deixar palpável o grau de separação que sua produção tem da anterior, mas tem à frente uma tarefa muito mais difícil e bastante incomum ao recém-formado subgênero de versões live-action de histórias infantis: criar um novo conto de fadas a partir de um já conhecido.

Se Nicolas-Troyan reconhece o peso dessa missão é o verdadeiro enigma do filme, que na construção de sua trama se complica ainda mais ao reafirmar o caráter adulto de seus temas em uma história estabelecida como para crianças. Pois se no visual e na ação o longa se faz mais leve e acessível às gerações mais jovens, O Caçador e a Rainha de Gelo traz no enredo uma variedade de temas que no fundo só são melhor compreendidos pelos mais velhos, como a maternidade (o drama da Rainha Freya, interpretada por Emily Blunt com alguma distância, em superar a morte do filho) e o casamento (a dificuldade da guerreira Sara de Jessica Chastain em voltar a amar o marido). É um paradoxo narrativo deveras esquizofrênico, lidado com nenhuma habilidade pelo roteiro e que ora ou outra funciona sem qualquer fundamento lógico, o que talvez confira algum charme à produção pela sua bizarrice nata.

O problema maior, entretanto, não é o disparate entre temática e público, mas sim a estrutura esboçada por Spiliotopoulos e Mazin para conceber a obra como conto de fadas, que não consegue encontrar em Eric o protagonista ingênuo clássico de tais histórias. A dupla experimenta na trama imbuir o Caçador de uma fé inabalável sobre a durabilidade do amor e Hemsworth disfarça imprimindo na atuação um ar mais relaxado, mas é evidente no roteiro como o personagem não carrega a vocação para liderar uma história do gênero, até porque ele traz em seu âmago uma identificação de virilidade que não conversa com tais valores característicos de inocência. Sem esse elemento central, não demora muito para toda a construção começar a ruir.

O fascinante de O Caçador e a Rainha de Gelo, porém, é que mesmo sem esse pilar tão fundamental sua estrutura não chega a desabar, graças aos pontos secundários que cria de maneira colateral na narrativa. Mesmo que não seja planejado como tal, o ar descontraído trabalhado por Nicolas-Troyan, seja no humor das duas anãs interpretadas com charme por Sheridan Smith e Alexandra Roach ou nos excessos de atuação milimetricamente planejados por Charlize Theron (ainda mais à vontade em seu retorno à rainha Ravenna), é o que no fim providencia ao filme seus melhores momentos.

Nota: 5/10

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O Cinema em 2015: Melhores do Ano

Os melhores filmes de 2015 e alguns rankings.

Por Pedro Strazza.

2015 foi um ano de mudanças (ou da tentativa de) no cinema convencional que a grande maioria dos espectadores conhece e frequenta regularmente.

Foi um ano em que o passado voltou com força, recauchutado e pronto para buscar o domínio das bilheterias. Grandes franquias de outrora (Jurassic Park, Star Wars) estouraram mais uma vez na bilheteria, mas muitas outras (Férias Frustradas, Exterminador do Futuro) fracassaram financeiramente por não conseguirem se adaptar à realidade diferente ao qual se propuseram. Ao mesmo tempo, o faroeste e a space opera aos poucos ensaiam um retorno, não à velha forma mas querendo maior espaço na dinâmica de projetos cinematográficos que o que tem nos dias de hoje.

O ano também será marcado pela contestação, principalmente em direção à participação das mulheres nos filmes e no mercado. No mesmo ano em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi amplamente criticada pelo seu ano mais branco e masculino da História, a emancipação de personagens como Imperator Furiosa, Rey e Ilsa Faust comandaram um amplo debate no cinema de ação, questionando em caráter amplo a maneira como o gênero retrata a mulher em suas obras, como foi o caso de Jurassic World e suas alegorias de tom misógino. Por outro lado, também se evidenciou muito na Hollywood dos "sonhos que viram realidade" a participação da mulher no mercado cinematográfico, aonde ainda se impera o homem branco.

Essas são questões que não serão resolvidas na virada do ano, e que devem ser continuadas em 2016 em assuntos como a ausência de uma mulher indicada ao Oscar de Melhor Fotografia em toda a história do prêmio (e que alguns torcem para ser quebrada com a nomeação de Creed - Nascido Para Lutar à categoria) ou o novo filme dos Caça-Fantasma, agora um time composto só por mulheres.

No caso do Melhores do Ano, essas questões se refletem tanto na injustiça quanto na correção históricas. Ainda que o número de filmes protagonizados por mulheres tenha aumentado - dos 25 melhores desse ano, 11 tem protagonistas mulheres e 14 possuem personagens femininas interessantes e relevantes à construção da trama, batendo as 7 e 10 de 2014 - o número de longas dirigidos por mulheres nos 50 primeiros do ranking é de apenas quatro (Jane Pollard, Anna Muylaert, Ava DuVernay e Mia Hansen-Løve), e todo o resto é comandado por homens brancos.

São conceitos a serem repensados para os próximos anos, de forma que proporcione igual espaço para todos os gêneros. 2015 foi, afinal, um ano para isso: repensar.

Dito tudo isso, vamos à lista dos Melhores do Ano. A lista desta vez engloba 25 produções ao invés de seguir o arco crescente do site (13 em 2013, 14 em 2014...), de forma a abranger um maior número de grandes filmes que marcaram o ano que passou. Como em 2014, libero o ranking de filmes completo ao final da contagem, com um extra de doze Top 10, um para cada mês do ano. O critério é simples: se o filme estreou no circuito comercial brasileiro nos últimos 365 dias e eu o assisti, ele entra. Caso contrário, fora.

Também é bom observar que pela primeira vez incluo as revisões de nota em alguns dos filmes presentes no ranking. Como a redação de críticas pede urgência, alguns dos filmes acabam não recebendo o tempo de digestão (aquele período em que o filme permanece na sua cabeça) necessário, e ganham notas mais baixas ou mais altas pela interrupção súbita deste processo. No decorrer do ano, fui fazendo essas revisões, e as produções que por um acaso acabaram com notas diferentes da original estão indicados no ranking com a nota atual e a antiga.

ENFIM, vamos a eles:

25) Perdido em Marte

Ainda que tenha como norte a legitimidade científica do processo de sobrevivência empreendido pelo protagonista, Perdido em Marte é um filme que acima de tudo se beneficia de seu ingênuo lado cômico, incomum aos dramas (ou em alguns casos, terrores) de isolamento ao qual ele se adequa. É por ele que o diretor Ridley Scott - aqui quase no lado oposto ao de seus dois maiores trabalhos, Alien e Blade Runner - consegue estabelecer o resgate ao astronauta perdido em Marte como uma verdadeira ode à sociedade, ao coletivo que pelos esforços conjuntos de inúmeros indivíduos propicia a realização de uma ação que a princípio seria impossível de ser completa.

24) Dívida de Honra

Faroeste revisionista puro, Dívida de Honra é curioso na maneira como aborda a relação da mulher com o gênero. Tão sagaz na direção quanto como ator, Tommy Lee Jones usa da jornada de travessia empreendida por seus protagonistas para questionar constantemente a posição ocupada pelo gênero feminino em tais filmes, ao mesmo tempo que desconstrói o sonho de enriquecimento proporcionado pela viagem ao oeste daqueles tempos. Jones, porém, realiza esse processo com sobriedade: seu filme não busca revolucionar tais relações, mas somente de constatá-las com um quê de tristeza na voz.

23) Cássia Eller

Dos retratos documentais lançados em 2015, o voltado para a cantora Cássia Eller foi um dos que melhor funcionou na proposta. Não apenas por fazer o ato de reverência à intérprete de tantos sucessos como Malandragem e O Segundo Sol, o filme de Paulo Henrique Fontenelle se destaca de outros por ir além do ídolo em pauta e analisar o ser humano por trás desta, sem contudo esquecer de tentar desvendar o porquê do objeto de estudo ser tão querido por amigos, familiares e fãs. Cássia Eller é um triunfo no que diz respeito à emoção e objetividade, respeitoso e ao mesmo tempo brutal.

22) Dois Dias, Uma Noite

Guiado basicamente pela atuação de Marion Cotillard, o mais recente filme dos Dardenne é simples mas ao mesmo tempo bem elaborado. Pelas viagens da personagem principal às casas de seus colegas de trabalho para salvar seu emprego, o longa consegue ser bem sucedido tanto na contextualização dos reflexos da economia na sociedade como no arco de superação da protagonista, ao qual Cotillard maneja com brilho. E pelas tremedeiras e surtos de depressão de uma mulher frágil, Dois Dias, Uma Noite sai do simples e atinge o complexo.

21) Nick Cave - 20.000 Dias na Terra

É um tanto inesperado que, em um documentário sobre um músico, o próprio adote a câmera e a não use para amaciar seu ego. Abandonando por completo o ato de reverência, 20.000 Dias na Terra parte de uma crise individual do protagonista, e funciona por não esquecer de levar o espectador para dentro deste. As reflexões e saudosismos de Nick Cave, que poderiam soar como puro egotrip depressivo, se conectam e formam um panorama de aflições e inquietações fascinante, cujas dores tem um fundo de universal capaz de tocar qualquer tipo de espectador.

20) Phoenix

Se torna cada vez mais difícil de se realizar um grande filme sobre os efeitos da Segunda Guerra na sociedade, mas o alemão Phoenix prova que isso ainda é possível de se fazer. O filme, que segue uma desfigurada sobrevivente do Holocausto que, irreconhecível após uma cirugia plástica no rosto, sai em busca do marido suspeito de entregá-la aos nazistas, faz o caminho da busca pela identidade com sofisticação, criando o melhor retrato possível da combalida Alemanha e dos judeus no pós-guerra. Mas é no final que o longa, ancorado por uma atuação sublime de Nina Hoss, alcança sua potência máxima, em um clímax capaz de estraçalhar a alma em milhões de pedaços com um verdadeiro golpe de marreta.

E me perdoem os maus modos, mas puta que pariu Speak Low. Puta que pariu.

19) Corações de Ferro

Ainda no assunto de Segunda Guerra (mas agora voltado para o conflito em si), quem sabe muito bem conciliar ação com gênero e temática é o Corações de Ferro de David Ayer. O faroeste de guerra exercido pelo diretor aqui, em um filme sobre uma equipe de soldados responsável por um dos tanques estadunidenses, é visceral ao extremo, capaz de evidenciar os danos causados pelo conflito bélico no ser humano seja por suas movimentadas cenas de guerra ou em seus momentos mais parados, como na passagem do grupo por uma das casas de inocentes alemães. E conforme o público e o personagem de Logan Lerman adentram esse mundo, é inevitável que tal loucura tome nosso âmago de assalto e nos destrua por completo.

18) Mia Madre

Qualquer tipo de obra - cinematográfica ou não - que se disponha a analisar a temática da morte tende a levar o assunto como algo pesado, inevitável e parte de seu ser, num exercício de reflexão que geralmente acaba na egotrip. No caso de Mia Madre, essa noção é invertida. O italiano Nanni Moretti (que também atua no filme) conduz a história de uma diretora à beira de perder a mãe com sensibilidade, mais interessado nos efeitos de inevitável evento na vida da protagonista que nas considerações dela com seu próprio falecimento. Episódios como a da casa inundada e da carta desaparecida dão força à espiral de esgotamento apresentado, mas é no final "agridoce" que Moretti comprova a beleza de sua lógica.

17) Whiplash - Em Busca da Perfeição

No fundo um gigantesco exercício de narrativa e triunfo máximo de montagem, Whiplash instiga pelo ritmo quase frenético ao qual se rodeia. Com dois picos facilmente reconhecíveis pelo exalar automático que grande parte do público faz em seus finais súbitos, a estreia de Damien Chazelle em longa-metragens ainda conta com duas intensas atuações dos protagonistas Miles Teller e J.K. Simmons, que traduzem o monstruoso ritmo da obra em atuações extrovertidas ao extremo. Tudo pronto para explodir no clímax do terceiro ato, claro, que realiza essa entrega com satisfação notável.

16) Acima das Nuvens

A princípio parecendo estruturar-se como filme metalinguístico, Acima das Nuvens logo se transforma em uma das reflexões mais intrigantes sobre a passagem do tempo. A relação da personagem interpretada por Juliette Binoche com os papéis de uma peça e sua assistente (trabalhada maravilhosamente por Kristen Stewart) evocam uma sensação de impotência perante às forças maiores da vida como a natureza ou o tempo, que aqui soam suaves em sua implacabilidade. Não chega a ser um clichê, mas o fato do esquecimento ser o maior dos medos do ser humano é tratado pelo diretor Olivier Assayas com o tom desilusivo apropriado.

15) Star Wars - O Despertar da Força

Cercado de mistério e talvez da maior expectativa dos últimos vinte anos, o retorno de Star Wars às telonas cumpriu com seus objetivos de satisfazer a grande maioria de seus fãs de diversas gerações. A fórmula foi simples, mas ao mesmo tempo um grande reflexo da erupção nostálgica proporcionada por 2015: refazer o filme escapista que tornou clássico o primeiro capítulo da saga e atualizá-la ao panorama atual, sem contudo tornar isso uma missão. O resultado são sets de ação bem montados por J.J. Abrams e potencializados pelo retorno de personagens queridos do público sem ter medo de apresentar novos, capazes de tomar as rédeas da franquia e continuar o legado de entretenimento com compromisso que tornou célebre a marca.

14) O Ano Mais Violento

A fotografia com quê de Edward Hopper e que denota violência pelas beiradas já dá a dica do que o espectador irá encarar em O Ano Mais Violento. O retrato de uma máfia em franca decadência, guiado por grandes atuações de Oscar Isaac e Jessica Chastain, ressalta a solidão de nossas relações de maneira despercebida, não permitindo que esta ocupe a centralidade do palco nas dificuldades passadas pelo protagonista. E isso acaba por trabalhar a favor do longa, que apostando numa tensão que levemente se acentua para gerar expectativa em cima do fim de uma era - seja este gênero cinematográfico ou período histórico.

13) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Existe um egocentrismo em Birdman? Sim, e não é pouco. Mas mesmo assim o vencedor do Oscar 2015 de Melhor Filme não deixa de ser interessante no retrato que faz do time mais conservador de Hollywood, incapaz de adotar os novos tempos e preferindo aqueles em que o teatro era o berço de promissores atores talentosos e o circuito comercial era símbolo de uma morte horrível. O filme de Alejandro González Iñarritu ainda se beneficia de um bem elaborado falso plano-sequência eterno e o trabalho formidável de Michael Keaton, oportunos em reforçar suas ambições mesquinhas em direção à indústria do cinema e do entretenimento. Está implícito na linha de diálogo de Macbeth mencionada por um mendigo: "Amanhã, e o amanhã, e o amanhã...".

12) A Pele de Vênus

É curioso (e divertido) ver como o polonês Roman Polanski usa de seu lado mais obscuro para produzir obras extremamente punitivas a esse seu eu. No excelente A Pele de Vênus, por exemplo, o cineasta realiza um questionamento relevante da relação machista entre autor e musa, mostrando culpabilidade em tal relação sem monopolizar as atenções. A dança final da personagem interpretada por sua esposa Emmanuelle Seigner, em torno do interpretado por Mathieu Amalric preso a um símbolo fálico, é desde já um dos grandes momentos do cinema na década de 2010.

11) Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo

Contando com uma atuação de primeira categoria de Steve Carell, Foxcatcher usa da trajetória do milionário John du Pont e os lutadores greco-romanos Mark e Dave Schultz para fazer uma análise verdadeira e dura da realidade estadunidense. Em ascensão na carreira de diretor, Bennett Miller cria uma atmosfera pesada, que reflete o estado de decomposição do sonho americano pelas mãos da iniciativa privada. Não há heróis na narrativa, e a tal história que chocou o mundo é mera contestação desta problemática.

10) A Terra e a Sombra

Longa de estreia na direção do colombiano César Augusto Azevedo, o mais recente vencedor da Câmera de Ouro do Festival de Cannes é um panorama fundamental sobre a economia primária dos países latino-americanos, e mostra com eficácia os efeitos danosos da passagem da agricultura familiar para o agronegócio. O brilhante de A Terra e a Sombra, porém, é que ele não se entrega inteiramente a essa análise, mas usa dela para situar uma trama de relações familiares desgastadas e muito bem executada, que se aproveita do ambiente opressivo para desenhar conflitos subliminares que em nenhum momento soam pretensiosos. Sem contar, claro, o premiado trabalho de fotografia de Mateo Guzmán, que consegue captar toda essa dinâmica complexa em planos simples e de impacto.

9) Um Amor em Cada Esquina

Se em A Pele de Vênus a relação entre autor e musa era visto em tom de condenação, Um Amor em Cada Esquina realiza esse caminho de desconstrução pelo humor. Com o tom típico das comédias de Woody Allen, o diretor Peter Bogdanovich expõe o ridículo dessa conexão com primor, em cenas que atingem o absurdo sem perder o riso - e a cena no restaurante é um ápice delicioso deste processo. A melhor parte é que além do elenco estrelado e bem direcionado o cineasta ainda conta com o trabalho soberbo de Imogen Poots, cuja interpretação da protagonista prostituta que vira atriz dá vida à produção e suas boas intenções.

8) Ponte dos Espiões

Depois de duas tentativas desequilibradas, Steven Spielberg finalmente conseguiu fazer um filme aos moldes do cinema estadunidense clássico que se adequasse a seus próprios trejeitos. Com influências claras dos longas de Frank Capra, Ponte dos Espiões é um thriller com toques de humor refinado que se dispõe a analisar mais uma vez o espírito do herói americano, em um jogo de comparações bastante ressaltado na fotografia de Janusz Kaminski. Com Tom Hanks e Mark Rylance afiados, o roteiro de Joel e Ethan Coen chega a picos sem deixar o ritmo cair, e o longa concebe sua mensagem com a eficácia necessária.

7) Vício Inerente

Exclusivamente pautado na narrativa desconexa, a mais nova obra-prima de Paul Thomas Anderson comprova como é possível entregar grandes filmes oriundos de tal planejamento. A investigação conduzida pelo protagonista entregue às viagens alucinógenas de drogas é o ponto de partida para Vício Inerente abraçar a loucura e levar o espectador junto de si, sem medo de que este acabe entendendo absolutamente nada do que acontece em cena. A jornada enlouquecedora propiciada ao público a partir daí, pautada na realidade mas com leves toques de surrealidade, torna o longa numa dessas experiências difíceis de serem repetidas nos próximos anos.

6) A Visita

Talvez o primeiro filme a trazer um verdadeiro respiro de originalidade ao found footage desde a chegada do primeiro Atividade Paranormal, A Visita realiza uma das - senão a - mais bem sucedidas misturas entre gêneros cinematográficos opostos. O longa dirigido por M. Night Shyamalan  tem habilidade em elaborar todo o seu terror a partir da comédia, com pinceladas metalinguísticas que realizam comentários ácidos sobre o subgênero sem se intrometer demais na narrativa. E com a já previsível virada de roteiro dos filmes de Shyamalan acontecendo, o longa demonstra seu valor em um clímax de terceiro ato poderoso e aterrador por essência.

5) Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência

Conjunto de esquetes elaborados em cenários geométricos, Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência é fascinante na maneira como tira humanidade de um mundo frio povoado por pessoas frias. Interessado em questões humanas e filosóficas, o sueco Roy Andersson é capaz de fazer rir e meditar com as mais diversas situações, que vão da simples morte de um homem por fazer força pra abrir uma garrafa à complexa e gloriosa marcha de um exército que ruma triunfante à guerra - somente para retornar destruída. É o tipo de profundidade filosófica que para muitos deve soar pretensiosa, mas a outros ela evoca o choque e a contemplação, culminantes na antológica cena de um gigantesco instrumento musical que é alimentado por seres humanos para gerar um belíssimo som.

4) Missão: Impossível - Nação Secreta

O quinto capítulo da série Missão: Impossível foi um dos poucos filmes de grande orçamento de 2015 a conseguir equilibrar tão bem o seu lado lúdico e teórico. Ao mesmo tempo que preenche o longa com sets de ação inventivos e de sublime execução (e sem medo de pertencerem ao gênero, como certos agentes britânicos), o diretor e roteirista Christopher McQuarrie realiza um dos mais curiosos estudos sobre a relação do indivíduo com o mundo globalizado, ágil em seu desenvolvimento e capaz de costurar os personagens e situações com esmero. Não bastasse isso, Nação Secreta também se beneficia da dedicação de Tom Cruise, seu ator principal que não tem medo de abraçar e literalmente mergulhar na ação.

3) Magic Mike XXL

Quem poderia prever que essa sequência seria tão superior ao original? Despido dos moralismos e vieses condenatórios do longa dirigido por Steven Soderbergh, Magic Mike XXL adota o road movie para realizar uma das melhores celebrações à vida, à juventude e ao corpo dos últimos anos, sem os pudores de tantas outras produções destinadas a tais objetivos. A jornada dos strippers masculinos a um festival de stripping, em uma típica história de último trabalho, também é feliz na maneira como explora nos ambientes o seu inacreditável viés feminista, tratando o gênero feminino com louros independente da idade, cor e personalidade. Belo, ágil, divertido e, quem diria, incrível.

2) Mad Max - Estrada da Fúria

Frenético do começo ao fim, a volta por tanto tempo anunciada de Mad Max implodiu 2015 como um de seus kamicrazy se sacrifica para explodir um carro. Novamente no comando, George Miller mostra mais uma vez porque é um mestre com Estrada da Fúria, que além de ser uma alucinada aula de cinema também se comporta maravilhosamente bem como obra feminista. Trabalhada com brilho por Charlize Theron, Imperator Furiosa e as esposas de Immortan Joe lutam para sobreviver não apenas em um mundo pós-apocalíptico, mas também machista e misógino, algo que nos aproxima desse deserto poeirento e aniquilador. Acima de tudo, o quarto capítulo da série revoluciona um gênero inteiro, seja em seus aspectos formais ou teóricos, e faz uma contribuição importante a uma luta sem data para terminar.

Mas o melhor filme de 2015 é...

1) Divertida Mente

Com todos os tiques e estruturas conhecidas dos filmes da Pixar, Divertida Mente é um filme que por emoções antropomorfizadas preza pelo emocional com uma sensibilidade quase impossível de ser atingida. A bem da verdade, não existem palavras que descrevam o cuidado dos diretores Peter Docter e Ronnie Del Carmen ao tratar as relações entre Alegria e Tristeza ou de Alegria com a menina Riley, que atingem ápices tão poderosos e contundentes. Para tornar toda essa construção mais bem elaborada, Divertida Mente intercala essas estruturas com criatividade e humor formidável, e ainda inclui um ótimo terceiro arco na figura do amigo imaginário Bing Bong.

Mas é no relacionamento de Alegria com Riley que o filme me quebrou, me quebra e me quebrará emocionalmente nos próximos anos, em uma única linha de diálogo que só de lembrar já é capaz de me fazer ir às lágrimas mesmo após ter passado meses desde que fui ao cinema assisti-lo.

"Eu só queria que Riley fosse feliz."

Rankings

Por mês:
E a versão final do Ranking 2015 de Cinema:
  1. Divertida Mente (10/10)
  2. Mad Max - Estrada da Fúria
  3. Magic Mike XXL [9/10 antes de revisão]
  4. Missão: Impossível - Nação Secreta
  5. Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência
  6. A Visita
  7. Vício Inerente
  8. Ponte dos Espiões (9/10)
  9. Um Amor em Cada Esquina
  10. A Terra e a Sombra
  11. Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo
  12. A Pele de Vênus
  13. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) [10/10 antes de revisão]
  14. O Ano Mais Violento
  15. Star Wars - O Despertar da Força (8/10)
  16. Acima das Nuvens
  17. Whiplash - Em Busca da Perfeição
  18. Mia Madre
  19. Corações de Ferro
  20. Phoenix [7/10 antes da revisão]
  21. Nick Cave - 20.000 Dias na Terra
  22. Dois Dias, Uma Noite
  23. Cássia Eller
  24. Dívida de Honra
  25. Perdido em Marte
  26. Que Horas Ela Volta?
  27. Homem-Formiga
  28. Mistress America
  29. Chatô - O Rei do Brasil
  30. Férias Frustradas
  31. Últimas Conversas
  32. Sniper Americano
  33. Vingadores - A Era de Ultron [10/10 antes de revisão]
  34. Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada É Impossível
  35. Cala a Boca, Philip
  36. Timbuktu
  37. A Espiã que Sabia de Menos (7/10)
  38. Noite Sem Fim
  39. O Presente
  40. Para o Outro Lado
  41. O Amor é Estranho
  42. Selma - Uma Luta Pela Igualdade
  43. Bob Esponja - Um Herói Fora D'Água
  44. Lugares Escuros
  45. Adeus à Linguagem
  46. A Travessia
  47. Corrente do Mal
  48. Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros [8/10 antes de revisão]
  49. Eden
  50. O Conto da Princesa Kaguya
  51. Winter Sleep/Sono de Inverno
  52. Expresso do Amanhã
  53. Kingsman - Serviço Secreto
  54. Velozes e Furiosos 7
  55. Cinderela
  56. A Estrada 47
  57. Força Maior
  58. A Forca
  59. Sicario - Terra de Ninguém
  60. A Teoria do Tudo
  61. Victor Frankenstein
  62. Leviatã
  63. Uma Noite no Museu 3 - O Segredo da Tumba
  64. Frank (6/10)
  65. Entre Abelhas
  66. Casadentro
  67. A Colina Escarlate
  68. O Destino de Júpiter
  69. Peter Pan
  70. Nocaute
  71. A Escolha Perfeita 2
  72. Mapa Para as Estrelas
  73. Jia Zhangke, Um Homem de Fenyang
  74. Grandes Olhos
  75. Minúsculos
  76. Sangue Azul
  77. Pasolini
  78. The DUFF
  79. Taxi Teerã
  80. Obra
  81. 118 Dias
  82. O Olmo e a Gaivota
  83. Shaun - O Carneiro
  84. Cake - Uma Razão Para Viver
  85. Poltergeist - O Fenômeno
  86. Dheepan - O Refúgio
  87. Ricki and the Flash - De Volta pra Casa
  88. Enquanto Somos Jovens
  89. Os Dois Lados do Amor
  90. O Sal da Terra
  91. O Jogo da Imitação
  92. Terremoto - A Falha de San Andreas
  93. O Agente da U.N.C.L.E. (5/10)
  94. Um Santo Vizinho
  95. Homem Irracional
  96. Exorcistas do Vaticano
  97. Golpe Duplo
  98. Garota Sombria Caminha Pela Noite
  99. Califórnia
  100. Atividade Paranormal - Dimensão Fantasma
  101. Chappie
  102. Macbeth - Ambição e Guerra
  103. A Possessão do Mal
  104. Casa Grande
  105. Como Sobreviver a um Ataque Zumbi
  106. Cidades de Papel
  107. Sob o Mesmo Céu
  108. Respire
  109. A Entrevista
  110. O Último Ato
  111. Para Sempre Alice
  112. No Coração do Mar
  113. O Clube
  114. Minions
  115. Evereste
  116. Belas e Perseguidas
  117. 45 Anos
  118. Aliança do Crime
  119. Sem Direito a Resgate
  120. Rainha e País
  121. Os Pinguins de Madagascar
  122. A Série Divergente: Insurgente
  123. 007 Contra Spectre (4/10)
  124. Livre
  125. Victoria
  126. De Cabeça Erguida
  127. Quarteto Fantástico
  128. American Ultra - Armados e Alucinados
  129. Ted 2
  130. As Sufragistas
  131. Segunda Chance
  132. Jogos Vorazes - A Esperança - O Final
  133. A Incrível História de Adaline
  134. Pássaro Branco na Nevasca
  135. A Mulher de Preto 2 - Anjo da Morte
  136. Chico - Artista Brasileiro
  137. A Dama Dourada
  138. Jessabelle - O Passado Nunca Morre
  139. Um Senhor Estagiário
  140. Pixels
  141. O Exótico Hotel Marigold 2
  142. Invencível
  143. Não Olhe Para Trás
  144. Sr. Kaplan
  145. Trocando os Pés
  146. O Pequeno Príncipe (3/10)
  147. Love
  148. Promessas de Guerra
  149. Pegando Fogo
  150. Crimes Ocultos
  151. Miss Julie
  152. O Exterminador do Futuro - Gênesis
  153. Caminho da Floresta
  154. A Entidade 2 (2/10)
  155. À Beira Mar
  156. A Casa dos Mortos
  157. Duas Irmãs, Uma Paixão
  158. Cinquenta Tons de Cinza (1/10)
  159. Mortdecai - A Arte da Trapaça

Veja também!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Crítica: Lugares Escuros

Filme sofre por elementos internos e externos, mas traz qualidades próprias.

Por Pedro Strazza.

É complicado assistir Lugares Escuros sem lembrar pelo menos uma vez ou duas de Garota Exemplar. Ambas adaptações de livros escritos por Gillian Flynn, o primeiro se assemelha muito ao segundo em estrutura, temas e até viradas, culpa em parte do fato de ser o antecessor imediato do best-seller de 2012 e de sua versão cinematográfica chegar pouco menos de um ano depois do lançamento do longa dirigido por David Fincher. As consequências de tal decisão se fazem imediatas, e o filme comandado por Gilles Paquet-Brenner sofre por essas comparações.
A história acompanha Libby Day (Charlize Theron na fase adulta, Sterling Jerins quando criança), única sobrevivente do assassinato de sua família que ficou conhecido na mídia como o "Massacre do Kansas" e que tem como culpado seu irmão Ben (Corey Stoll no presente, Tye Sheridan no passado). Sem rumo na vida e com dinheiro faltando, ela aceita o convite de um garoto chamado Lyle (Nicholas Hoult) para ajudar em sua sociedade de investigadores amadores, que acredita na inocência de Ben e busca solucionar a identidade do verdadeiro assassino.
Embora a produção não tenha envolvido Flynn na transposição do livro para a telona, é possível enxergar traços da autora por toda a narrativa. Os flashbacks, a protagonista detestável, o clima derrotista oriundo do reflexo da crise dos Estados Unidos... tudo em um estágio mais primário, que se usa de engrenagens mais simples e por vezes mais dada a falhas. Quem bem atesta isso é o próprio personagem de Lyle, que assume na narrativa desenvolvida por Paquet-Brenner um caráter simplório de fio condutor da trama.
A grande diferença entre Lugares Escuros e Garota Exemplar, na verdade, reside na instituição da qual o longa se dispõe a desconstruir. Enquanto que na obra de Fincher era o casamento o objeto de crise, o filme usa do mistério em mãos para expor as mazelas da família tradicional, principalmente pelo núcleo de personagens presentes nos flashbacks que do princípio mostram este contexto de fragmentação. Seja no pai ausente, no filho problemático ou nas dificuldades para manter a fazenda em posse, a família Day mostra ao longo de seu último dia de vida uma conjuntura de sinais de desabamento, e não chega a surpreender que a matriarca Patty (Christina Hendricks), grande pilar de sustentação do grupo, seja a única a perceber isso.
Mas por mais que seja uma crise de padrão global, é interessante ver como Flynn a transpõe mais uma vez para o próprio contexto estadunidense, algo que Paquet-Brenner compreende e reproduz com relativo sucesso. Nesse ponto, a história dos Day consegue criar uma distância mais clara da dos Dunne por possuir um maior pessimismo, pois Lugares Escuros não traz o antigo por uma ótica nostálgica como Garota Exemplar: privilegia-se tanto no passado quanto no presente uma valorização da decadência e do vazio (quando não tomado pela bagunça do consumismo, a exemplo da casa onde a Libby adulta vive), e não há qualquer sinal de esperança em nenhum dos horizontes que não seja considerado por todos uma bobagem infantil.
Se não fosse a proximidade com seu sucessor literário e sua trama tão oscilante - a resolução da investigação no terceiro ato frustra pela infantilidade e abusa de um deus ex machina dos mais absurdos -, Lugares Escuros talvez ganharia maior destaque pela profundidade temática ao qual se dispõe a realizar. Seus problemas, porém, são tão visíveis quanto seus méritos, e isto acaba por se tornar simultaneamente em sua maior vantagem e desvantagem.

Nota: 7/10

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crítica: Mad Max - Estrada da Fúria

Fúria narrativa e roteiro questionador lideram épico de ação de George Miller.

Por Pedro Strazza.

Desde seu primeiro filme, a trilogia Mad Max estabeleceu com sucesso novas maneiras de se fazer ação no mesmo ritmo que construiu a escalada para o absurdo de seu universo pós-apocalíptico. Na jornada de formação do cavaleiro solitário que é seu protagonista, o diretor George Miller inovou o cinema em diversas vertentes, trazendo a este ideias e conceitos que seriam repetidos à exaustão por outras histórias em décadas posteriores, além de sagrar-se bastião do ascendente cinema australiano da época.
Realizar uma nova continuação para uma franquia tão fundamental após tantos anos, portanto, seria uma loucura em quaisquer medidas, e envolveria uma alta responsabilidade de qualquer um que o tomasse como tarefa. Para a sorte do cinema, essa responsabilidade foi levada em conta, pois Mad Max - Estrada da Fúria mostra desde o primeiro minuto uma inclinação visível à progressão - seja esta de sua franquia, gênero ou da História.
Em desenvolvimento desde 2011 e contando com o retorno de Miller à direção e roteiro (escrito junto dos estreantes Brendan McCarthy e Nick Lathouris), o quarto capítulo usa da jornada de travessia - um tipo de história típico do faroeste - como premissa de sua trama simples. A carga a ser transportada aqui são as jovens esposas do líder religioso e industrial Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que fogem de seus domínios lideradas por Imperator Furiosa (Charlize Theron) em busca de um lugar seguro. Atrás de seus futuros herdeiros na barriga das mulheres e com um exército de homens e automóveis em seu controle, Joe inicia uma caçada pelo veículo dirigido pelo grupo, que terá o auxílio de Max Rockatansky (Tom Hardy) para sobreviver ao caminho perigoso.
De certa forma, a história de Estrada da Fúria não escapa do que foi visto nos três primeiros Mad Max, mas acrescenta a elas mecanismos importantes. Max continua a agir como o justiceiro vindo de longe que se envolve e resolve auxiliar a jornada das vítimas da região, mas desta vez as vítimas estão mais preparadas para sobreviver ao inimigo opressor. Em muitos momentos, Furiosa assume no longa a posição de personagem principal nas ações ocorridas e relega a Rockatansky um papel secundário, e com isso põe-se em conflito o próprio papel do protagonista e seu papel de cavaleiro solitário, algo que acaba por repercutir de maneira interessante por todo o roteiro e sua estrutura de gênero.
Cientes dessa elaboração narrativa, Theron e Hardy a incorporam e fazem seus papéis em cima desta. A atriz imprime os efeitos de um mundo tão duro na figura de autoridade e decisiva de sua Furiosa, enquanto o novo intérprete de Max constrói o herói da maneira mais animalesca possível, distanciando-se como pode do trabalho de Mel Gibson no personagem e colaborando para estabelecer o tom da produção.
Por outro lado, a construção do universo pós-apocalíptico concebido por Miller contribui efusivamente para a escalada de loucura da franquia. Feito em simbolismos escancarados (o volante virar um instrumento de culto e veneração, por exemplo), uniões constantes entre elementos mitológicos clássicos e cultura contemporânea (o "mcbanquete nos portões do Valhalla" é o grande objetivo dos "kamicrazys", para se ter dois exemplos) e um deserto monocromático berrante, o mundo estabelecido neste quarto filme é exageradíssimo, mas ainda assim orgânico e bastante funcional, capaz de fazer o espectador compreender seus mecanismos pelos movimentos expositivos mais discretos em uma narrativa que se atrela quase que por completo ao visual.
E é justamente no jeito de contar sua história que o diretor mais acerta nesta nova incursão. Acelerado ao extremo, Estrada da Fúria é ágil e ordenado em construir os personagens e as situações ao mesmo tempo em que combina o lado técnico com os elementos da trama. O ápice, claro, é o carro sonoro conduzido por um guitarrista, que simultaneamente se envereda pela trilha sonora de Junkie XL e constrói a figura arrogante de Immortan Joe - afinal, quem diabos seria capaz de construir um veículo do tipo apenas para dar um acompanhamento musical às ações de seu exército?
Toda a estrutura elaborada é feita para culminar sempre em cenas de ação, orquestradas com precisão milimétrica pelo cineasta australiano. Miller inclusive rejeita a tendência recente do cinema em filmar a ação por closes e planos que inserem o espectador na ação, e opta por planos fixos para explicitar a magnitude e brutalidade das perseguições, que ganham mais peso nas colisões reais protagonizadas pelos veículos montados. O mundo aqui sobreviveu ao fim e sua sanidade desapareceu, e o longa incorpora isso da melhor maneira possível.
Com identidade oitentista e execução contemporânea, Mad Max - Estrada da Fúria é na raiz uma experiência intensa, capaz de inserir o espectador na loucura de sua história sem se perder no caminho. Acima de tudo, porém, o filme respeita suas origens e continua a construir o protagonista em sua jornada pós-apocalíptica, que, se tudo der certo, continuará a ser feita no futuro.

Nota: 10/10

Gostou? Assista Também: