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terça-feira, 12 de maio de 2015

Crítica: Wilder Mind (Mumford and Sons)

Após 6 anos, quarteto britânico aposenta os banjos e veste a costumeira emoção com guitarras e sintetizadores.

Por Guilherme Umeda.

"This is never gonna go our way if i'm gonna have to guess what's on your mind..."
Quando o Mumford and Sons surgiu, foi um refresco. Era o que de maior qualidade havia surgido até então para representar esse eixo do novo folk rock (vertente do indie? Talvez?): usava dedos rápidos no banjo, e batidas às vezes mais comedidas, às vezes em compasso menos espaçado, porém sempre firmes e mais fortes em momentos quase sempre inesperados, mas toda vez milimetricamente calculados para agarrar o ouvinte pelo colarinho e fazê-lo ouvir uma música atrás da outra na esperança de sentir os pelos da nuca arrepiar. E, deve-se dizer, essa esperança era quase sempre atendida.
Depois de seguir esse script para lançar com sucesso estrondoso Sigh no More (2009) e Babel (2012), seria muito fácil e conveniente para os caras simplesmente fazer mais do mesmo e lançar um terceiro disco de folk rock guiado pelo banjo, violino, sanfona... Levando em conta o talento para a composição que fica claro nos primeiros álbuns, pode-se dizer que o disco seria um sucesso.
Mas, para a alegria da nação (e, principalmente, deste rapaz que vos fala), "Believe", primeira faixa do novo disco, Wilder Mind (WM), a ser divulgada, anunciou que não seria bem assim. Os instrumentos foram trocados: banjo, violino e sanfona deram lugar às guitarras e sintetizadores.
Por que a alegria? Porque, ao arriscar e reconhecer que era hora de mudar de fase, o Mumford and Sons provou - pelo menos por enquanto - que não será uma maravilha efêmera.
Se fizesse mais do mesmo no novo álbum, faria sucesso por mais algum tempo, mas logo cairia no esquecimento. E isso, dado, por exemplo, a capacidade que o grupo tem de escrever músicas com um clímax longo e que emocionam, seria uma pena.
Felizmente, Marcus Mumford (vocalista) e seus amigos nos deram, ainda antes do lançamento do álbum, mais um motivo para aumentar o otimismo e alimentar as expectativas em relação a WM. O segundo single “The Wolf” veio para cumprir muito bem a tarefa de consolidar nas mentes dos fãs que a mudança de sonoridade não foi feita de qualquer jeito e não estava presente só em uma faixa. De forma curiosa, “The Wolf”, apesar de ter em segundos a mesma duração de “Believe”, parece ser mais conciso, se arrastar menos e, até por isso, acaba sendo mais eficiente na missão de apresentar as novas nuances da banda.
Ambas as faixas vieram para serem os carros chefe de WM, e não pense aqui, caro leitor, que estou subjugando uma à outra. As duas seguem uma mesma receita, porém de formas diferentes. A “fórmula” consiste em momentos de serenidade seguidos de um estouro para surpreender o ouvinte. O toque final da “fórmula” é o toque especial do chef: a capacidade que a Mumford & Sons sempre mostrou de fazer com que aquele arregalar de olhos vindo da surpresa se mantenha por muito tempo dentro da música (suspiros – másculos – de admiração). Jon Nolan, da Rolling Stone, definiu bem: "Mesmo em meio a toda essa nova sonoridade em Wilder Mind, o fervor apaixonado que fez Mumford & Sons brilhar ainda é a sua força motora".
Mas, enfim... onde estávamos mesmo? Ah, sim! Comparando “Believe” e “The Wolf”.
A receita, como dito antes, é a mesma para as duas. No entanto, elas diferem no tempo que o “estouro” leva para aparecer e também na intensidade dos momentos mais serenos. “Believe” é levada desde o começo apenas pelo vocal de Marcus enquadrado ao fundo pelo som de sintetizadores e guarda seu ponto alto para o final; enquanto que “The Wolf” já começa com um curto período de “barulheira”, seguido pela parte mais serena. Nesta segunda faixa, porém, mesmo as partes mais serenas têm ao seu fundo uma marcação leve da bateria e – talvez esse seja o fator mais determinante no diferencial das duas – há mais de um estouro na música.
O leitor mais crítico (pra não dizer chato) deve estar nesse momento dizendo: “P#$@, Guilherme! Achei que você fosse falar do álbum todo! Já li um monte e até agora só li sobre duas músicas! Seu lixo!”. Meu querido amigo, tente se acalmar. Concordo que, quiçá, as palavras que dediquei até agora a “Believe” e “The Wolf” tenham sido demasiadas, porém, de forma alguma foram levianas. Estas duas foram tão dissecadas justamente por serem as duas faixas de mais peso no álbum, acompanhadas de talvez mais duas outras canções (sobre as quais falarei a seguir).
Respire fundo, meu caro. Chegou a hora. Vamos ao álbum todo.
A escolha de “Tompkins Square Park” para primeira faixa foi, em parte inteligente, em parte nem tanto. O começo da música é cativante, com ecos de guitarra que, tranquilamente, se encaixariam em qualquer música de El Pintor (2014), brilhante álbum do Interpol. Essa empolgação se mantem, mais ou menos, até os 3:20 min. A partir daí, até o final dos 5:11 min (é a faixa mais longa do álbum), a música não vai a lugar algum. Talvez o erro tenha sido justamente alongar tanto. Se acabasse nos 3:20, essa desorientação poderia não acontecer. “Tompkins” cozinha e cozinha o galo, mas não come.
Sobre as segunda e terceira faixas (“Believe” e “The Wolf”) eu não falarei mais, pois temo pela minha vida. Sigamos em frente.
Vem então a faixa que dá nome ao disco. “Wilder Mind” é uma das boas músicas do álbum, porém, não é nada demais. De forma alguma é ruim, mas nem de longe é tão marcante quanto o quarteto de ferro do álbum – ao qual chegaremos em breve. O início de “Wilder” soa até um pouco estranho para o perfil da banda (uma batidinha talvez um pouco animada demais), mas logo o dedilhar da guitarra e o baixo vêm para conferir mais sobriedade ao som. O melhor momento nesta talvez seja o solo de guitarra no meio: curto, porém interessante.
Senhoras e senhores, eu lhes apresento a terceira integrante do quarteto de ferro de WM: “Just Smoke”. Quinta faixa do álbum, talvez seja o momento em que as sonoridades antiga e nova da banda melhor se fundem. O verso é quase que falado por Marcus, relembrando os melhores momentos de Babel, e seguido por um pré-refrão e refrão ambos marcados pela harmonia de vozes em alto registro (também marca dos primeiros álbuns). Porém, isso tudo enquadrado por uma batida, que apesar de comedida é marcante, e por um dedilhar de guitarra tão marcante quanto. É como se tivessem feito uma versão “plugged” de uma das faixas dos primeiros álbuns.
Neste momento de benevolência, caro leitor, vou quebrar a linearidade da sequencia das faixas e ir a o que interessa: o quarto e último membro do quarteto.
Décima faixa do álbum, “Ditmas” é algo diferente. A letra vai agradar aos que curtem uma “broken hearted song”, não só pela temática, mas também pela forma como é contada. O simples fato de, nos momentos mais calmos e quase falados da música, Marcus incluir um “oh, love” entre os versos, dá um tom de pessoalidade tão grande. É o tipo de música com a qual quase todos que já sofreram por amor se identificam de alguma forma.
Mas não é só isso que há em “Ditmas”. A sonoridade é algo de sensacional, de certa forma hipnotizante e com um final surpreendente. Ficar descrevendo esse aspecto da faixa seria uma crueldade com você, caro leitor. Não quero estragar nenhuma surpresa. Apenas ouça e tire suas conclusões. Porém, algo merece ser dito: “Ditmas” tem tudo para ser o hit com maior longevidade de WM.
Conforme nos encaminhamos para o final do texto, um último destaque merece ser feito. A seção “nostalgia” de WM.
Ainda que a mudança de sonoridade tenha feito muito bem à banda e seja um aspecto fundamental para manter o Mumford & Sons relevante, há fãs e críticos que não tenham gostado dessa metamorfose. Sendo assim, Marcus Mumford e seus amigos, muito inteligentes que são, incluíram em WM duas faixas que tem o estilo “old Mumford”. “Broad-Shouldered Beasts” e “Only Love” (a primeira mais do que a segunda) vão agradar mesmo às viúvas dos banjos que marcaram a fase inicial da banda. Espertos esses meninos...

Wilder Mind, de forma alguma, vem com uma mentalidade como a que dominou a primeira fase do modernismo no Brasil (destruir o velho, dizer que este não presta). Pelo contrário: o álbum mantem vivos os melhores traços da primeira fase da banda e dá ao som uma roupagem nova. Tem falhas (não muitas), mas tem mais acertos do que erros.

Nota: 8/10

domingo, 25 de janeiro de 2015

Crítica: Foo Fighters - Sonic Highways (SÃO PAULO)

Foto: Flickr/T4F

Banda faz show sensacional para mais de 70 mil no Morumbi.

Por Guilherme Umeda.

Devo lhes dizer, meus caríssimos amigos, que estou sem voz. Sim... imagino que, neste momento, aqueles que me conhecem estão chorando pensando em como o mundo está triste por não poder ouvir o som que normalmente sai de meus lábios e pensando em mil maneiras de se vingar de quem me fez exaurir as cordas vocais.
No entanto, vocês, meus amores, devem se acalmar. Pouco a pouco minha garganta está se recuperando. E, em segundo lugar, não devem ressentir os responsáveis por um simples motivo: os “culpados” são um quinteto dos EUA que, na noite do dia 23 de janeiro de 2015, me proporcionaram a melhor experiência musical ao vivo que já tive. Mas vamos por partes... Chego ao Foo Fighters daqui a pouco. Primeiro, vamos falar um pouco das outras duas bandas da noite.
Não, não era um festival propriamente dito. O dia, porém, teve 3 atrações musicais no Estádio do Morumbi. E quem abriu os trabalhos, por volta das 19h, foram os Raimundos.

Raimundos

Não foi um show completo. Longe disso. A setlist foi curtíssima, com algo em torno de 7 músicas (talvez nem isso).
Entretanto, a energia dos rapazes de Brasília e a sintonia deles com o público foi bem mais que o suficiente para esquentar os motores da plateia. Esta, deve-se dizer, ficou um tanto revoltada pela ausência de algumas músicas.
Na pista – aonde quem vos fala estava – os gritos pedindo “Puteiro em João Pessoa” foram constantes e só cessaram quando a atração principal da noite tomou o palco.
Não foi uma apresentação longa, mas foi intensa e, pelo menos, contou com “Mulher de Fases” e “Eu Quero Ver o Oco”.  De algumas formas, foi melhor do que a atração que viria em seguida, os Kaiser Chiefs.

Kaiser Chiefs

O quinteto britânico teve um show mais longo que os brasileiros dos Raimundos (tocaram por quase uma hora). Porém, o desconhecimento da enorme maioria das musicas pela plateia fez daquela uma hora o momento de descanso para se recuperar da agitação imediatamente anterior e se preparar para a que viria mais tarde com Foo Fighters. Um descanso debaixo de chuva, mas um descanso.
A “monotonia” (entre aspas porque o show foi apenas meio parado na plateia, mas muito bom em cima do palco) foi quebrada quando “Ruby”, o maior hit da banda, foi executada. Aí sim, todos acordaram, os gritos e pulos foram gerais e a apresentação se aproximou da anterior da noite.
Kaiser Chiefs fez um show bom musicalmente, tinha um vocalista muito bem disposto, mas não conseguiu se conectar com a plateia como os Raimundos fizeram. E nem de longe como os Foo Fighters (missão impossível).

(agora sim) FOO FIGHTEEEEEERS!

Foto: Flickr/T4F
Eram algo próximo de 21h20 da noite já quando as luzes do palco se apagaram e o telão de fundo se acendeu com um grafite escrito “Foo Fighters” em branco num fundo preto. Neste ponto a chuva já havia cessado. A gritaria foi geral e os gestos rápidos de Dave Grohl invocando o público ao entrar no palco condisseram com o entusiasmo da plateia.
A felicidade dos fãs era palpável e a conexão da banda com o público foi imediata. Os gritos eram constantes e só fizeram aumentar de intensidade quando Grohl começou a puxar as cordas da guitarra e tocar o início da primeira música da noite, “Something From Nothing”.
Se, em uma música nova, recém lançada, o entusiasmo do público foi tanto... você, caro leitor, pode imaginar como seria quando o primeiro clássico fosse executado. E isso não demorou a acontecer.
O final de “Something From Nothing” foi imediatamente emendado ao início de “The Pretender”, um hit pesado e enérgico da banda, que anunciava o início de um “bloco”, por assim dizer, de 5 músicas feito para acabar com as cordas vocais dos fãs logo de início – ao final desse bloco minha voz já começava a falhar.
Vieram de forma seguida “The Pretender”, “Learn to Fly”, ”Breakout”, “Arlandria” e “My Hero”. Um começo avassalador que já dava amostras de que o show havia sido pensado para (imagine um gráfico, querido leitor) ser um “U”. Ou seja, foi feito para começar e terminar em alta intensidade e ter um período mais tranquilo no meio. Porém, como eu viria a descobrir ao final do show, se tratou de um “U” com uma curva bem rasa. Não houve nenhum momento exatamente tranquilo ou de fascinação zero.
Passadas algumas músicas, um dos momentos mais lindos e espontâneos da noite chegaria.
“Monkey Wrench”, um dos hits do sensacional álbum The Colour And The Shape, de 1997, estava sendo executada. Como em quase todas as músicas da noite, a banda esticou um pouco e fazia um interlúdio apenas instrumental com as luzes apagadas antes do último refrão, quando luzes começaram a surgir na plateia.
Não se sabe exatamente onde a primeira luz surgiu: se foi na arquibancada, na pista, na pista premium... Mas a primeira pessoa que teve a ideia de acender sua lanterna ou erguer seu isqueiro naquele momento, seja lá quem for, merece os parabéns.
Pouco a pouco todo o estádio foi se acendendo. Pouco a pouco, as arquibancadas, cadeiras e a pista se tornaram um enorme mosaico de pequenas luzes.
O som que a banda fazia no palco era suave e constante e apenas teve mudança no momento em que Dave se aproximou do microfone e disse “...that’s fucking beautiful...”. Impressionante.
Mas este foi apenas um dos momentos marcantes da noite.
Passada “Monkey Wrench”, era chegada a hora da sessão acústica/covers do show.
A parte acústica foi toda tocada apenas por Dave no meio da pista, no final de uma extensão do palco. Enquanto que os covers de "Detroit Rock City", do Kiss; "Stay With Me", do Faces; "Tie Your Mother Down"  e "Under Pressure", ambas originais pela voz de Freddy Mercury, uma com o Queen e uma com David Bowie, foram feitas em um palco giratório em cima da extensão do palco principal.
Os covers foram ótimos, sem dúvidas... Mas o mais legal dessa parte de show veio antes dos covers, na “sessão” acústica.
Em um determinado momento, logo depois de “Skin And Bones”, Grohl chamou um dos fãs da pista para subir em cima do palco. Vinícius era seu nome. Ele abraçou o vocalista e logo depois chamou sua namorada, Mônica, ao palco também.
Se você, caro leitor, ainda não conseguiu deduzir o que veio a seguir, procure seu médico e faça alguns exames mentais.
Vinícius se aproximou do microfone e perguntou “Will you marry me?”. Obviamente, Mônica disse sim. Aí rolaram beijos, abraços, abraços de Grohl e a multidão foi à loucura. Fofo.
Infelizmente, depois disso o show não durou mais muito tempo. Mais 5 músicas e a noite chegaria ao fim.
Foto: Tenho Mais Discos Que Amigos
“All My Life" e "These Days" seguiram de forma sensacional a sessão de covers. Marcaram o início do fim do show; o fim do “U”. Entretanto (e como era de se esperar), o melhor viria com as duas últimas músicas.
“Best of You” foi a penúltima música. A explosão do público foi enorme assim que ouviu Grohl gritar “...I’ve got another confession to make...” e maior ainda quando chegava o refrão e os gritos de “...the best, the best, the best of you...”. Mas, felizmente, não foi só isso de emocionante que aconteceu nessa música.
A cena do mosaico de luz se repetiu e, dessa vez, teve como adendo um logo coro cantando “OOOOOOHH” em uníssono. Coro que se manteve mesmo depois da música acabar, enquanto a banda se preparava para tocar a saideira.
Nesse momento, Dave parou e disse (em inglês obviamente): “Isso que vocês estão fazendo... É muito legal mesmo... Faz a gente querer ficar mais. O Foo Fighters já tem 20 anos de estrada e, nesse tempo a gente tocou muitos shows. Alguns eu lembro perfeitamente e outros eu esqueço. O de hoje eu vou lembrar. Não vou esquecer do pedido de casamento no meio do show... Não vou esquecer de ter escorregado e quase caído logo que entrei no palco... E, com certeza, não vou esquecer disso. Vocês continuarem cantando depois da música já ter acabado... Isso não acontece toda hora... Eu odeio despedidas. Então, ao invés de ficar aqui dizendo adeus a vocês, vamos só...” e começou a tocar “Everlong”, a última da noite.
Inesquecível.
“...I wonder if everything could ever feel this real forever, if anything could ever be this good again...”.

Setlist

1. Something From Nothing
2. The Pretender
3. Learn to Fly
4. Breakout
5. Arlandria
6. My Hero
7. Congregation
8. Walk
9. Cold Day in the Sun
10. I'll Stick Around
11. Monkey Wrench
12. Skin and Bones
13. Wheels
14. Times Like These
15. Detroit Rock City (versão do Kiss)
16. Stay With Me (Versão do Faces)
17. Tie Your Mother Down (Versão do Queen)
18. Under Pressure
19. All My Life
20. These Days
21. Outside
22. Best of You

23. Everlong

domingo, 21 de dezembro de 2014

A Música em 2014: Os Melhores e Os Piores

Os álbuns que marcaram o ano - seja para bem ou para mal

Por Guilherme Umeda

Caríssimo leitor,

O ano de 2014 se aproxima de seu inevitável e já esperado fim. Sendo assim, para não deixa-lo passar seus últimos momentos sem uma devida homenagem, lhe fiz este breve especial.
A ideia: Separei 16 álbuns lançados em 2014 em duas listas: os “Acima da média 2014” e os “Abaixo da média 2014”. NÃO se trata de uma ultimate selection dos melhores e piores álbuns do ano (embora alguns dos que figuram nas listas abaixo também estariam em ultimate selections mundo afora).
Obviamente, alguns de vocês, queridos leitores, talvez sintam falta de um ou outro. Talvez até se revoltem. Entretanto, eu não ligo pra o que vocês acham. A lista é minha. Se não gostarem, desliguem o computador e vão ler um livro.
Sem mais delongas, vamos às listas.

(E antes que eu me esqueça, feliz Natal e próspero ano novo pra todos vocês desocupados que gastam seu tempo lendo meus textos.)

Acima da Média 2014

A espera foi grande, a atmosfera de expectativa foi maior ainda e, no final, o Foo Fighters não decepcionou. Sonic Highways é o tipo de álbum que ganha pelo conjunto. Não tem tantas faixas com cara de single de sucesso absoluto, mas, por ser um álbum extremamente conceitual, têm seu sucesso garantido pelo retrato da música americana que ele pinta. Retrato (brilhante) que só pode ser compreendido quando se ouve o álbum inteiro.
  • Royal Blood (Royal Blood)
Muito bom mesmo. O álbum de estreia do Royal Blood foi uma das melhores, senão a melhor surpresa de 2014. De fato, “surpreendente” é a melhor palavra para descrever o álbum. Surpreendente o quão pesado na medida certa e com alta qualidade é o som. E mais surpreendente ainda que tudo isso seja feito por apenas duas pessoas: um baixista e um baterista. Um dos melhores do ano.
  • Nheengatu (Titãs)
A clássica fúria criativa dos Titãs está de volta. Talvez a sina seja cair na mesma demanda que têm os fãs de ACDC: todo ano esperam que a banda lance um disco que soe exatamente da mesma forma que o anterior; o lançamento de Nheengatu,  porém, não deve ser comemorado apenas pelos fãs da banda, mas também por todos os fãs de rock brasileiro. Ainda que seja mais um disco “Titãs sendo Titãs”, se trata de uma sonoridade que estava perdida há algum tempo. Em dias que o rock volta à moda no Brasil, o som que a banda traz em Nheengatu fazia falta para servir, talvez, como modelo. Ainda bem que veio.
  • Turn Blue (The Black Keys)
Logo na primeira faixa (“Weight Of Love”), Turn Blue foge da curva; se mostra fora de série. Guitarras mais ousadas, unidas à sintetizadores de leve e metais ao fundo, dão o tom mais blues das 11 faixas do álbum. No entanto, algo irônico tende a acontecer: as duas mais interessantes músicas no disco não deverão ser lançadas como singles. Motivo? Muito longas. “Weight Of Love” tem quase 7 minutos e “In Time” tem quase 6. Uma pena, mas já que esta é uma relação de álbuns (não de singles), nos atenhamos ao fato principal: Turn Blue é genial.
  • Education, Education, Education and War (Kaiser Chiefs)
Quem virou fã da banda por causa de “Ruby” não vai se decepcionar com o novo álbum do Kaiser Chiefs, mas também vai notar algumas diferenças dos tempos mais antigos.
A pegada mais rock pop que dominava “Ruby” e alguns outros sons da banda no inicio ainda está presente, mas não tão forte. Agora, divide bastante de seu espaço com o indie rock. Vide, por exemplo, “Coming Home” ou “Bows and Arrows”.
Não é um álbum impecável, mas é, na falta de melhores palavras para florear, bom.
  • Lazaretto (Jack White)
Segundo álbum de estúdio do ex-White Stripes, Lazaretto veio para explicitar ainda mais a genialidade que parecia estar um tanto adormecida desde o fim da parceria com Meg White. Dessa vez, no entanto, o brilhantismo veio em uma embalagem nova. O som do compositor em Lazaretto é semelhante ao de seu primeiro álbum (embora muito melhor), mas bem diferente dos tempos de White Stripes.
Com uma sonoridade bem americana (alguém talvez diga “blues”, mas não sei se encaixa perfeitamente) e letras ousadas e até divertidas, Jack entrega um rock canastrão, agradável de se ouvir e que destoa da enorme maioria dos lançamentos do ano (no bom sentido).
  • Xscape (Michael Jackson)
Michael Jackson não era chamado de “Rei do Pop” à toa. Basta analisar Xscape e compará-lo aos outros lançamentos do mesmo segmento em 2014. A diferença é gritante. Michael apresenta músicas – como sempre – bem vendáveis, mas que, ao contrário da enorme maioria dos artistas do pop atual, tem alma. As letras são cantadas com uma interpretação vocal brilhante e a parte musical traz um R&B que não deixa as faixas caírem no formato cru, genérico e cansado que as Nicki Minaj e Jennifer Lopez da vida usam para encher seus álbuns ano após ano.
Michael, mesmo no além-túmulo, foi capaz de lançar um dos melhores álbuns do ano.
  • El Pintor (Interpol)
Foram quatro anos de hiato e a última dose para os fãs antes dessa pausa, com certeza, foi uma daquelas que desceu pelo buraco errado da garganta. O homônimo Interpol, lançado em 2010, era bem fraco. Porém, o retorno esse ano com El Pintor foi triunfal. Retornando à sonoridade de seus melhores dias, a banda entrega um álbum com sons que parecem uma fusão de Franz Ferdinand com Arctic Monkeys (talvez).

Abaixo da Média 2014

  • No Fixed Adress (Nickelback)
Não fede nem cheira. Não é possível dizer que é um disco ruim. Quem é fã de Nickelback não vai ficar com raiva: o som do álbum tem a cara da banda. Porém, ainda que nenhuma das faixas tenha cara de hit como “Photograph” ou mesmo “Rockstar” - clássicos da banda -, todas parecem terem sido compostas com a intenção de fazer surgir um sucesso parecido. No entanto, nenhuma das 11 faixas de No Fixed Address chega perto de empolgar tanto como os dois sucessos citados acima. Mais que isso: a “forçação de barra” para incluir um hit (que não veio) no álbum fez com que todas as faixas soassem um tanto artificiais… sem significado.
  • Ghost Stories (Coldplay)
A primeira tentativa de Chris Martin e seus bluecaps de se reaproximarem da fórmula que fez o Coldplay ascender ao sucesso (depois da interrogação que foi Mylo Xyloto (MX)) não foi muito bem sucedida. A impressão que prevalece depois que se ouve Ghost Stories (GS) é que ele é uma fusão entre Parachutes (primeiro álbum da banda) e o já citado MX. É a junção entre o som mais intimista, romântico da fase inicial com o formato pop bem no estilo parada da Billboard. O resultado não é lá essas coisas. Pode-se ver que todas as letras têm significado para Chris, mas os fãs do “Coldplay original” com certeza não vão colocar GS entre seus favoritos.
  • V (Maroon 5)
O que aconteceu com as boas ideias de Songs About Jane?? É triste ver como o Maroon 5 simplesmente largou mão dos arranjos e sonoridade interessantes que tinha em seu primeiro álbum (justamente SAJ) e se entregou totalmente ao pop industrial. Nos dois últimos lançamentos da banda foi assim: Overexposed é de dar náuseas em qualquer um que tenha se tornado fã ao ouvir “Sunday Morning” e, dessa vez, com V, não é muito diferente. Som genérico, feito em computador. Sem mais.
  • X (Ed Sheeran)
Ed Sheeran é ótimo em escrever músicas fofulechas. Isso é indiscutível. Mas, não é possível viver só disso (a não ser que você seja James Blunt). X é até atraente nas faixas mais explicitamente românticas (como “One”), mas, no geral, a monotonia dá o tom. Mais que isso: algumas das faixas são, genuinamente, irritantes (sim, “Sing” e “Don’t”, estou falando com vocês). De resto, X é a perfeita trilha sonora pro sono pós almoço de domingo.
Nota do Editor: James Blunt é bom sim, não acreditem no contrário (sim, eu defendo os inocentes quando preciso).
  • Endless River (Pink Floyd)
Sim, Pink Floyd está na minha lista de piores do ano (e bem lá embaixo, diga-se de passagem). Não é a toa que Endless River (ER), apesar de ter sido composto décadas atrás, não foi lançado até esse ano. O álbum é ruim. Chato. Irritante.
Não nego: curti a brisa das músicas instrumentais. Mas só até a quarta seguida. Depois disso comecei a ficar angustiado, esperando que algo diferente daquele incessante sintetizador de fundo viesse, mas não veio. Quando chegou na 10ª faixa instrumental seguida, fiquei nervoso. Então, descobri que mais sete viriam antes de alguma voz humana surgir. Fiquei mais irritado.
Então veio a 18ª faixa, a primeira com voz. Mas, para a frustração total do povo, ela não era nada demais. A ideia de incluir várias faixas instrumentais é até boa. Mas é impossível manter a brisa do ouvinte por mais de uma hora ininterrupta.
  • Ultraviolence (Lana Del Rey)
Deve-se reconhecer que Lana Del Rey, ainda apenas em seu segundo álbum, já tem sua marca. Sua voz e a forma como interpreta as letras em suas músicas são inconfundíveis. Até por isso, quando surgiu em 2012, foi abraçada por fãs e pela crítica: ela faz algo diferente da maioria e faz isso bem.
No entanto, em Ultraviolence, talvez ela tenha tentado demais colocar suas maiores qualidades em uso: voz e interpretação. Todas as faixas parecem uma lamentação infinita. O timbre melancólico na voz (belíssimo, mas dessa vez mal dosado), unido ao ritmo lento de praticamente todas as faixas, acabou resultando em um álbum chato de se ouvir. Irritante até. Uma pena.
  • Songs of Innocence (U2)
A estratégia escolhida por Bono e seus amigos para lançar Songs Of Innocence (baixar “de surpresa” em todos os dispositivos Apple) já anunciava como seria a história: o álbum seria bem mais marcado pelo lançamento incomum do que pela música em si.
“Forçar” os usuários da Apple a ouvir o disco acabou rendendo um péssimo merchan para a banda. Quanto ao álbum em si, as impressões também não são muito boas. SOI foi, em parte, uma tentativa fracassada do U2 de inovar seu som e lançar algo mais atual – vide “California (There Is No End To Love)”, terceira faixa do álbum. E, por outro lado, foi mais do mesmo – vide “Song For Someone” – e foi essa a parte do CD que deu menos errado.
  • With a Little Help From My Fwends (The Flaming Lips)
Se você estiver lendo este especial, por favor, ligue para a polícia nesse instante e peça a prisão de todos os membros do Flaming Lips. O que eles fizeram é imperdoável.
With a Little Help From My Fwends é um álbum todo de releituras de músicas dos Beatles. Com ele, os membros do Flaming foram extremamente bem sucedidos em ensinar o mundo a como ofender profundamente a memória de uma grande banda.
O álbum é um lixo. Me recuso a gastar mais linhas dessa belíssima matéria falando disso.
Horrível. Sem mais.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Crítica: Paul McCartney - Out There! (São Paulo)

Sir Paul McCartney entrega performance brilhante para fãs e perdidos presentes ao Allianz Parque

Por Guilherme Umeda

Óbvio que os ingressos estavam esgotados. Óbvio que os produtos dentro do (belíssimo, diga-se de passagem) novo estádio do Palmeiras eram caríssimos. Óbvio que o show em cima do palco foi sensacional.
Vamos pular as obviedades. Isso tudo você vai ler em todos os portais que noticiarem sobre o show por aí. Vamos falar, pelo menos agora no começo, do que chocou no show do dia 25 de novembro.
Este humilde (e belo, alto, forte, sensual) cidadão que vos escreve acompanhou o show do meio da pista comum, de entrada pelo portão C da arena – tenho, por experiência, a convicção de que o melhor lugar para se ver um show é da pista. Ali, a atmosfera de entusiasmo costuma ter seu ápice.
Daí a minha decepção. Os espectadores da pista comum (não tenho como avaliar como estava a situação nos outros setores) foram, pra dizer o mínimo, parados.
Entendo que a idade da maioria das pessoas que me cercavam ali (só dava tiozão) não permitia pulos incessantes. Mas, não acho que a idade era o maior empecilho para a animação.
Um show como o de Sir Paul McCartney empolga, obviamente, os fãs do artista, mas, também, empolga quem busca status. A impressão que me preenchia a cabeça era a de que mais da metade das pessoas ali não eram fãs do Paul, mas adoram ver os likes do Instagram bombando.
Pela primeira vez, segurei o grito em um show por vergonha, medo de ser taxado de louco.
Enfim, a plateia foi frustrante.
Mas, vamos falar de coisa boa. Vamos falar do que rolou em cima do palco. (viram? Resisti a fazer a piadinha da Tek Pix! Estou me policiando)
Paulinho realmente não decepciona.
A setlist não foi muito diferente do que se imaginava. A primeira música já foi um prelúdio do que seria o show: “Eight Days a Week”, Beatles! Beatles! Beatles!
Porém, não só de Beatles (Beatles! Beatles! Beatles!) foi feita a noite. Com a genialidade que lhe é costumeira, Paul soube mesclar os sons do lendário quarteto com os sucessos da carreira solo. “Band on The Run”, “Maybe I’m Amazed” e “Let Me Roll It” (lançamentos solo), por exemplo, figuram na lista de pontos altos do concerto.
Aí dizer que “All My Loving”, “Yesterday”, “Helter Skelter”, “Let It Be” e “Eleanor Rigby” também estão nessa lista é desnecessário, né?
Também não é preciso dizer que “Live And Let Die”, “Hey Jude” e “Ob-La-Di Ob-La-Da” entraram na relação de melhores momentos. Porém, essas três merecem menção honrosa.
“Live And Let Die” veio acompanhada de um show pirotécnico de encher os olhos e arrepiar os cabelinhos da nuca; “Ob-La-Di Ob-La-Da” foi a melhor da noite, graças ao entusiasmo de Paul ao cantá-la e aos vários balões que a galera da pista PREMIUM (notem que não elogio ninguém da pista comum) encheu e começou a jogar para o alto durante a música; e, quanto a “Hey Jude”, apenas digo: NA NA NA NA NA NA NA NA NA HEEEY JUUUUDE.
Ao todo, Macca tocou 39 músicas durante 2h40 de apresentação. Dito isso, para encerrar por aqui o texto, duas coisas TÊM que ser ditas.
Primeiro: mais do que um artista genial, sensacional, Paul (junto com sua equipe) mostrou que é um perfeito engenheiro: a construção da apresentação foi absolutamente brilhante. A alternância entre momentos agitados e lentos; as idas ao piano e o uso do violão acústico aconteceram várias vezes, dando o fôlego perfeito entre uma série de músicas mais agitadas e outra. Fez as emoções ondularem.
Segundo: em NENHUM dos 160 minutos de show Sir McCartney demonstrou cansaço, mau humor ou algo do tipo. Muito pelo contrário. O exato oposto dos indivíduos na pista comum, ele se mostrou feliz por estar ali. Dançou, conversou em português (mandou até um “É nóis!”), fez caras e bocas, rebolou, fez doce para tocar mais... Foi um fofo! O tiozão mais legal do mundo.

Tudo isso de um senhor de 71 anos. De fato, a idade não era desculpa para os energúmenos da pista comum. Espetáculo inesquecível.

Setlist

1. Eight Days a Week
2. Save Us
3. All My Loving
4. Listen to What the Man Said
5. Let Me Roll It
6. Paperback Writer
7. My Valentine
8. Nineteen Hundred and Eighty-Five
9. The Long and Winding Road
10. Maybe I’m Amazed
11. I’ve Just Seen a Face
12. We Can Work It Out
13. Another Day
14. And I Love Her
15. Blackbird
16. Here Today
17. New
18. Queenie Eye
19. Lady Madonna
20. All Together Now
21. Lovely Rita
22. Everybody Out There
23. Eleanor Rigby
24. Being for the Benefit of Mr. Kite!
25. Something
26. Ob-La-Di, Ob-La-Da
27. Band on the Run
28. Back in the U.S.S.R.
29. Let It Be
30. Live and Let Die
31. Hey Jude
  • Primeiro bis:

32. Day Tripper
33. Hi, Hi, Hi
34. I Saw Her Standing There
  • Segundo bis:

35. Yesterday
36. Helter Skelter
37. Golden Slumbers
38. Carry That Weight
39. The End

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Crítica: Convoque Seu Buda (Criolo)

Convoque Seu Buda marca a entrada de Criolo na música brasileira

Por Vinícius Lima

Criolo é de outro planeta. Não que ele seja uma espécie de alienígena do rap nacional, mas ele é gênio, e sua cabeça compõe letras que estão anos luz na nossa frente. Desde seu primeiro CD, o “Ainda Há Tempo”, produzido sem recurso algum, o reconhecido “Nó Na Orelha”, que o revelou para fora do Grajaú com a produção ilustríssima de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, e agora com seu mais novo disco, o “Convoque Seu Buda”, que conta com a mesma produção.
Se você ouvir o novo CD do Criolo de maneira descompromissada no ônibus ou na linha vermelha lotada, as letras como “Cartão De Visita”, “Esquiva Da Esgrima”, “Fermento Pra Massa” e “Pegue Pra Ela” soarão simples e superficiais, porém suas linhas e suas palavras carregam um duplo sentido crítico, digno de ser comparado a qualquer letra de um Chico Buarque ou Milton Nascimento na época da ditadura militar. Criolo usa e abusa de suas referências diversas como Sabotage, Ogi, Black Alien, Nietzsche, Ferréz e Perrenoud para fazer críticas a violência e preconceito como em “Esquiva Da Esgrima”; cita os podres da classe média camuflado numa batida animada e num refrão com a linda voz de Tulipa Ruiz dizendo “parcela no cartão essa gente indigesta”; em Fermento pra Massa, num samba Criolo, explicou como a população é apenas massa de manobra do governo, fazendo comparação a uma padaria; e pra fechar as letras que mais me chamaram atenção, em “Pegue Pra Ela”, Criolo faz uma forte critica a indústria cultural que domina e molda os artistas em padrões para o lucro das empresas de comunicação e de eventos, como se pode ver em frases como “toda indústria tem no comércio o seu ponto de reprodução” ou “toda cultura vira comércio, é o ponto de degradação.”.
Criolo não revolucionou em seu novo trabalho, e sim apenas o reformou. Mas fez uma bela reforma. Manteve a mesma formula do último CD “Nó Na Orelha” (talvez pela mesma produção de Ganjaman e Cabral), com alternância de estilos, samba, rap, rock; o que não é ruim, apenas um comentário. Talvez seja essa sua marca como artista. Nesse álbum, porém, ele convida artistas talentosíssimos para também compartilhar essa alegria com ele: Kiku Dinnuci, Rodrigo Campos e a já citada Tulipa Ruiz nos arranjos, Juçara Marçal e o próximo gênio do RAP nacional, Neto (guardem esse nome) do Síntese.

Enfim, Criolo mostra nesse CD um amadurecimento musical enorme e não acho exagerado dizer que talvez seja o seu mergulho na história da música brasileira ao lado de grandes mestres. Assim como Emicida em “O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui”, creio que Criolo com “Convoque Seu Buda”, quis dizer “não sou só rapper, não sei só fazer rima em batida eletrônica, sou artista, e o rap é arte sim.”.

Nota: 10/10

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Crítica: Sonic Highways (Foo Fighters)

Novo disco de Dave Grohl e seus bluecaps justifica todo o alvoroço do pré-lançamento

Por Guilherme Umeda

Dave Grohl (eu o chamo de Davinho), meu parça há muito tempo concordou em me passar todas as músicas do Sonic Highways por mensagem de voz no whats (Se mordam de inveja das minhas amizades, haters), contanto que eu escrevesse um texto sobre o álbum. Portanto, como sou um homem de palavra, presenteio você, caro leitor, com essas belas palavras.
Entretanto, antes de falar sobre o disco em si, acho válido um pouco de contexto.
Sonic Highways é o oitavo álbum de estúdio do Foo Fighters (FF) e chega às mãos dos fãs após quatro anos de silêncio desde o lançamento de Wasting Light.
É óbvio que qualquer álbum dos FF já causaria ansiedade no público fã de rock, mas a aproximação do lançamento deste causou uma histeria a mais. E não por acaso.
A declaração dada por Grohl (Davinho) em entrevista à revista New Music Express (NME), em que dizia que “Sonic Highways é o mais perfeito que podemos ser”, foi um fator que esquentou ainda mais os fãs. Mas não foi o único.
O incomum processo de composição das oito faixas que compõem o álbum ganhou espaço na programação do canal HBO. A série, que leva o mesmo nome do disco, acompanha a banda numa viagem pelos EUA, contando como cada faixa do Sonic foi escrita.
Sonic Highways, de fato, merecia uma série de TV. Para compor as oito faixas que compõem o álbum, a banda viajou por oito cidades (Austin, Chicago, Los Angeles, Nashville, New Orleans, Nova Iorque, Seattle e Washington) e, em cada uma delas, escreveram uma das músicas. Não é a toa que o disco foi chamado pela NME de “uma carta de amor à música americana”.
Além da série na HBO e das entrevistas de Grohl, o Foo Fighters passou uma semana se apresentando todas as noites no Late Show With David Letterman (o Programa do Jô original), como forma de promover o álbum. Abaixo você pode ver o vídeo da entrevista de Dave Grohl no programa em uma dessas cinco noites, onde ele conta um pouco mais sobre o processo de composição para o Sonic - e, de quebra, ainda tem o FF tocando “War Pigs”, do Black Sabbath, com Zack Brown no fim do vídeo.
Pois bem, chega de contexto. Vamos ao disco.
Em todas as faixas o virtuosismo que Davinho sempre teve para casar letra e música se faz presente.
Não há nenhuma faixa que destoe muito do padrão de qualidade (alto, diga-se de passagem) estabelecido logo de início pela primeira faixa, “Something From Nothing”. Pelo contrário, logo na faixa seguinte, o padrão é superado com “The Feast and The Famine”.
Essas duas faixas, além de já serem uma amostra da satisfação que o ouvinte irá encontrar também nas outras seis músicas, também são prelúdio da pegada firme que dá o tom ao álbum. Se trata, sim, de “fist bumping rock n’ roll” do início ao fim.
Porém, é possível (se você, caro leitor, for uma pessoa chata como quem vos fala) encontrar falhas em Sonic Highways. A principal delas talvez seja a penúltima música, “Subterranean”. Ela é a que chega mais perto de quebrar a vibe do disco. Não por ser uma música ruim – longe disso – mas é um pouco incerta, talvez errante: parece não saber ao certo se é uma balada ou não.
Como dito antes, o álbum é bem marcado por músicas rápidas e pesadas. Mas uma balada seria muito bem vinda, principalmente naquele momento mais para o final do disco, justamente por ser aquela hora pra descansar os ouvidos um pouco. Daí a crise com a indecisão de “Subterranean”.
Entretanto, a carência de uma balada seria sanada logo em seguida com “I Am a River”, a última faixa do disco. Esta sim, mais decidida quanto à sua personalidade, se apresenta de forma belíssima e encerra a experiência que é Sonic Highways de forma quase perfeita.
Dentre as oito músicas, há três que merecem menção honrosa.
Primeiro, “The Feast and The Famine”. É a música do álbum que vai garantir o momento “lose your mind” nos shows do FF. O refrão é o mais explosivo do álbum e o ritmo é feito para pular e gritar enquanto se ouve.
Depois, “Outside”. Nesta, o lado instrumental chama atenção. As guitarras foram arranjadas de forma belíssima e o solo mais para o final é aquele momento para fechar os olhos, encostar a cabeça no travesseiro e curtir. Se tivesse um refrão um pouco mais forte seria a melhor música do álbum.
Esse título, no entanto, ficou com “In The Clear” (na modesta opinião deste mero mensageiro que vos fala). É o melhor encaixe letra/melodia do álbum. Consegue estabelecer uma continuidade no que é cantado (uma ótima letra) que não deixa o ouvinte escapar. Muito disso pelas marcações que Taylor Hawkins (bateria) faz nos pratos logo antes de Dave cantar o nome da canção. Brilhante.
Sonic Highways é mais pesado que o anterior dos FF, o Wasting Light, e tem menos momentos para cantar junto (afinal, Wasting tinha “Walk”, “Arlandria” e “These Days”). Porém, o mais recente me pareceu melhor no conjunto. Talvez até por ter apenas 8 faixas (o anterior tinha 11), Sonic tenha se mostrado mais capaz de manter o ouvinte “flutuando” numa só vibe durante o disco todo. Wasting tinha mais craques, mas Sonic é mais time.

Nota: 9/10