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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O Cinema em 2017: Piores do Ano

Os dez grandes erros do ano que passou.

Por Pedro Strazza.

Existem muitos fatores responsáveis por levar um filme a ser considerado ruim. Para alguns, os erros técnicos sucessivos são suficientes para tornar uma obra desprezível; para outros, o mal posicionamento da produção sobre as temáticas em que se insere são o que definem um trabalho moralmente desprezível ou valioso. Muitas pessoas acreditam que essa definição é feita sob a pesagem destas duas categorias; algumas perseguem a afirmação de que a maneira certa de fazer este julgamento está em outros campos, outras metodologias.

O debate sobre o que torna uma produção péssima, porém, está sempre presente nas discussões sobre cinema, e não é com surpresa que no fim do ano ela ganhe maior destaque graças às listas de piores e melhores do ano. Tomar uma posição sobre uma obra sempre foi e sempre será um ato de confrontação, porque é neste momento que também se toma um lado numa variedade de discussões despertadas por aquele trabalho. Você invariavelmente irá debater os valores de um filme depois de assisti-lo e determinar se gostou ou não dele; quase todas as funções do cinema (e das artes), afinal, estão inseridas nessa discussão.

E quando chega o fim do ano, esses posicionamentos retornam para nos fazer refletir os nossos próprios valores nesses atos, realizados religiosamente à cada sessão.

Esse é só um dos motivos que levam O Nerd Contra-Ataca a realizar todo ano a lista de Piores do Ano, um compilado com as dez piores produções lançadas no circuito comercial de exibição brasileiro entre os dias 1° de janeiro e 31 de dezembro de 2017. Entre os "felizardos" da edição 2017, temos quase como uma constante uma maior preponderância do ego dos envolvidos em suas produções, desde produtores que foram levados a acreditar que aquela decisão seria a melhor para suas franquias a diretores e roteiristas que se deixaram levar pelo "culto do eu" para realizar seus novos trabalhos. Seja a culpa de quem for, a verdade é que estes filmes fizeram o público agonizar nas cadeiras por nada nestes últimos 365 dias, e agora eles precisam ser devidamente exorcizados.

Sem maiores delongas, vamos a eles:

10) Boneco de Neve

É sempre uma surpresa quando um filme capitaneado por cineastas tão consagrados naufraga de maneira vexaminosa, mas em 2017 Boneco de Neve levou esta afirmação a alguns limites consideráveis. A adaptação do livro homônimo de Jo Nesbø teve todo tipo de "star power" atuando na frente e atrás das câmeras, mas o filme que saiu no fim soa como uma abordagem amadora do que se configura hoje como uma superprodução hollywoodiana. E isso não ocorre apenas pelo fato do diretor Tomas Alfredson (que há seis anos brilhava com O Espião que Sabia Demais) claramente não ter filmado todas as cenas do roteiro: junto da montadora Thelma Schoonmaker (colaboradora eterna de Martin Scorsese, que produz o longa), a direção parece se interessar única e exclusivamente no desenrolar do mistério, limando da história qualquer traço de dramaturgia que poderia salvar a produção dos próprios buracos da trama e tornando ainda mais desnecessária a presença de diversos personagens. Pode-se até encarar o todo como um desastre criativo que impulsiona as discussões sobre montagem, mas o longa não deixa de ser um erro.

9) Cães Selvagens

Paul Schrader é para sempre uma das ovelhas negras de Hollywood e isso sem dúvida ajuda o famoso cineasta a fazer seus filmes da maneira que melhor lhe convém, mas existe uma linha muito clara entre estar na sua posição e cometer uma bobagem como Cães Selvagens. Do começo ao fim um aborrecimento constante, o filme se basta de maneira infantil a suas relações de violência e temáticas de envelhecimento, incapaz de prosseguir para qualquer rumo diferente dentro dessas esferas. Nicolas Cage e Willem Dafoe fazem o máximo possível para fazer o material render, mas são esforços inúteis quando seu diretor parece ter desistido de tudo no próprio filme. 

8) Ao Cair da Noite

Embora a A24 tenha se consagrado este ano com Moonlight - Sob a Luz do Luar, os detratores dos filmes do estúdio também saíram por cima graças ao que quer que tenha sido Ao Cair da Noite. Em tempos de pós-horror e da discussão sobre a validade desta abordagem, o diretor Trey Edward Shults fez o típico terror pós-apocalíptico de moral condenatória (é mais um daqueles filmes sobre "o horror que está dentro da humanidade") com literalmente TODOS os cacoetes da produção indie americana sobre o gênero, incluindo uma atmosfera "super climática" que nunca dá em algo de valor - já ouço daqui as respostas enraivecidas exclamando "Mas esse é o ponto do filme!" e não percebendo que este é o problema -, uma narrativa subjetiva cheia de símbolos vazios e temáticas de crise familiar e coming of age que são desenvolvidas da maneira mais rasteira possível. Em suma, é mais um daqueles filmes vazios que são consagrados como maravilhosos por sua dita estética arthouse.

Falando em terror arthouse vazio...

7) Mãe!

Darren Aronofsky deve ter ficado bem chateado com a torrente de críticas negativas pra cima de seu Noé, porque o seu Mãe! é quase uma resposta direta elevada à décima potência a seu trabalho anterior. Largando mão de qualquer sutileza possível, o diretor faz o que é na prática um filme sobre criação totalmente deturpado por um senso de egolatria insuportável, com direito ao cineasta traçando paralelo entre ele e Deus, trezentas mil reencenações "simbólicas" da Bíblia feitas à base de cocaína vencida e câmera na cara de Jennifer Lawrence enquanto é destratada de todas as maneiras possíveis pelos outros personagens. Aronofksy sem dúvidas mira o Polanski, mas só atinge o ridículo enquanto se satisfaz com a glorificação subjetiva da própria imagem. Alguns pontos extras por todo o caos gerado pelo filme nas redes sociais e nas rodas de discussão enquanto esteve em cartaz salvam Mãe! de estar mais pra baixo nesta lista, mas há de se convir que tem algo muito errado na forma como se faz cinema quando a única coisa que interessa ao diretor num filme é este senso de provocação imediata.

6) Suburbicon - Bem Vindos ao Paraíso

George Clooney nunca foi um grande cineasta, mas seus primeiros filmes mostravam uma aspiração promissora a alguém disposto a subir essa ladeira. Suburbicon, porém, foi um belo passo na exata direção contrária, com o famoso galã demonstrando ser incapaz de entender e lidar com a acidez do texto de um roteiro abandonando dos Coen e tomando todas as decisões erradas à partir disso. E quando eu digo erradas, é porque elas vão contra tudo o que faz os irmãos cineastas serem o que são hoje: Clooney toma qualquer humor subjetivo como escracho, pesa a mão no posicionamento político em alegorias baratas e faz de uma comédia screwball convencional um retrato de hipocrisias sociais que tem cheiro de naftalina. É tudo tão grotesco quanto a violência da história, feita sob a chave de um humor de péssimo gosto.

5) Rei Arthur - A Lenda da Espada

A que ponto chegamos com Guy Ritchie? O inglês conhecido anteriormente como "ex-marido da Madonna" até teve uns trabalhos bacanas no passado (mesmo O Agente da U.N.C.L.E. é divertido em todos os seus equívocos), mas quem quer que tenha pensado que era uma ótima ideia colocar o diretor pra reimaginar a lenda do Rei Arthur precisa com urgência repensar os seus valores. Sem surpresa alguma, A Lenda da Espada é um desfile de todos os cacos do cinema de Ritchie empregados da pior maneira possível, tornando o célebre protagonista num ladrão boxeador(?) que precisa enfrentar vilões dignos de um game medieval de porrada de quinta categoria em um filme pautado por um frenesi nunca justificado. É um exercício de deturpação feito sem qualquer justificativa maior e que com certeza beira ao horror.

4) O Chamado 3

Ainda em reimaginações pra lá de equivocadas, temos o impressionante monte de fezes que é a terceira (e, se depender da bilheteria, última) incursão da versão estadunidense de O Chamado. Nas mãos do espanhol F. Javier Gutiérrez, O Chamado 3 é uma coleção de escolhas equivocadas e correções de mitologia que não fazem o menor sentido, além de um desfile de momentos de vergonha alheia que parecem saídos do inferno. Se nem na hora de fazer o exploitation da franquia e transportar a cena assinatura da série - isto é, Samara saindo da televisão - para dentro de um avião o terceiro capítulo consegue acertar, imagina no resto.

3) Passageiros

Abrindo os trabalhos do pódio do desastre temos o inacreditável Passageiros, uma das grandes produções tóxicas que circularam pelos cinemas brasileiros em 2017. Uma renegação completa da ficção-científica, o filme escrito por Jon Spaihts e dirigido por Morten Tyldum é daquelas histórias de amor absurdas de tão mal colocadas, colocando uma relação problemática e abusiva como algo normal. Tudo isso dentro de um futuro lindo e confortável, cujas perfeições estéticas e que beiram ao sonho molhado de designers soam como a cortina de fumaça ideal para suavizar o verdadeiro pesadelo em execução aqui. Sem dúvida a grana mais fácil da carreira de Andy Garcia.

2) A Múmia

O Rei Arthur de Guy Ritchie e O Chamado 3 de F. Javier Gutiérrez foram esforços de reimaginação terríveis, mas ficaram comendo poeira quando comparados ao desastre que foi a nova versão de A Múmia, também conhecida como (se tudo der certo) o responsável pelo assassinato precoce do Dark Universe planejado pela Universal. Filme de produtor sem qualquer resquício de imaginação, a segunda reinvenção de um dos grandes monstros do estúdio não consegue funcionar como filme de ação, horror ou comédia, mas mesmo assim tenta ser os três enquanto busca emplacar Tom Cruise como uma super criatura e Russell Crowe como um Nick Fury doidinho dos monstros. O longa de Alex Kurtzman é capaz até de desperdiçar as oportunidades oferecidas na mudança de gênero da múmia, aprisionando Sofia Boutella dentro de um personagem condenado a ser coadjuvante da própria história. Ninguém mereceu isso.

Mas um filme conseguiu ser pior.

1) Beleza Oculta

Porque não é todo dia que a gente vê a estrutura dos dramas edificantes de Frank Capra ser corrompida por completo. É uma façanha e tanto a que o diretor David Frankel e o roteirista Allan Loeb alcançam sem perceber: não só Beleza Oculta é um filme cruel em todos os aspectos possíveis, mas ele também consegue se passar como um filme de moral revigorante. Se o protagonista vivido por Will Smith passa por um drama de luto evidente, isso não impede que seus colegas de trabalho o derrubem da própria empresa num "ato de bondade" e aprendam uma lição valiosa às suas vidas no processo - uma, claro, que não seja "o dinheiro é maior que a amizade". É uma auto-ajuda provinda do pior dos infernos, feita para aterrorizar os espectadores sem que eles percebam - um efeito que, sob certo ângulo, prova mais uma vez o quão certeiro eram as afirmações de John Carpenter em Eles Vivem.

E se o filme consegue herdar este nível de comparação ao terror de uma distopia de um filme de Carpenter, é sinal de que muitas poucas coisas podem ser piores que ele.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

O Cinema em 2016: Piores do Ano

As grandes bombas de 2016.

Por Pedro Strazza.

Todo ano é a mesma coisa. Renovados pela virada e pela promessa interna de que tempos melhores virão, começamos 2016 na esperança de vermos apenas bons filmes e ter sorte de não nos depararmos com nenhuma produção de qualidade duvidosa.

E como em todos os outros anos, nós rapidamente percebemos que de sorte temos nada.

Por uma série de motivos, 2016 foi um ano duro. Estes últimos 365 dias se provaram complicados para onde quer que olhássemos, e no cinema isso não foi muito diferente. Para exorcizar estes momentos de horror que vivemos dentro das salas dos diversos multiplexes e cinemas de rua, O Nerd Contra-Ataca apresenta mais uma edição do Piores do Ano, a nossa tradicional lista de fim de ano com as dez piores produções lançadas no circuito comercial de cinemas brasileiros entre os dias 1° de janeiro e 31 de dezembro. Uma lista que este ano, ao contrário dos últimos dois, não conta com uma produção estrelada por Johnny Depp na primeira posição (ele cavou a cova em outros lugares em 2016), o que só aumenta o suspense sobre o nosso grande "campeão".

Vamos a eles?

10) Animais Noturnos

Talvez o melhor pior filme sobre bolo da História? Não há muito que possa ser defendido no segundo trabalho do diretor e estilista Tom Ford além do famoso argumento "Visualmente é lindo!". Incapaz de conciliar as duas tramas presentes no livro de Austin Wright, o longa ainda conta com cenas de humor involuntário - Amy Adams levando o susto com o bebê, que momento! - e atuações que soam caricatas mesmo que tentem manter a seriedade do texto - se Michael Shannon veio só pelo cheque, Aaron Taylor-Johnson mostra tanto comprometimento com seu psicopata ridículo que chega a dar pena. Não que o conteúdo esteja ajudando muito também (um "oi sumida" de vingança, sério?), mas pelo menos o sofrimento aqui dura pouco, ao contrário de...

9) O Regresso

Sim, ele mesmo, o exercício de ego mais irritante do ano. Se em Birdman Alejandro G. Iñárritu conseguia disfarçar seus rompantes de auto-promoção em uma história que sabia tirar sarro de si mesma, em O Regresso isso é substituído por uma jornada de provação masculina das mais desesperadas para mostrar que é verdadeira. No processo, o filme serve de trampolim para que todos os envolvidos esbanjem seus talentos de forma a já saírem adorados, bem no esquema daquilo que Birdman tanto tratava como ridículo. Iñárritu busca uma consagração imediata, Lubezki pira nas paisagens de fundo de tela de Windows e DiCaprio sofre e se arrasta pelo Oscar de Melhor Ator: todos alcançaram seus objetivos, mas... para que mesmo?

8) Caçadores de Emoção - Além do Limite

Tudo bem, o Caçadores de Emoção original, dirigido por Kathryn Bigelow em 1991, não era lá essas coisas, mas ele pelo menos tinha um charme que sua refilmagem definitivamente falhou em obter agora em 2016. Investindo no lado mais X Games da trama policial para criar cenas de ação ainda mais "radicais" - mas que nunca trazem algum impacto de tão genéricas que são - o longa de Ericson Core esvazia por completo a dinâmica de gato-e-rato entre seus dois protagonistas sem conseguir um substituto à altura. O resultado é um filme protocolar, um remake sem razão de existir e com dificuldades para proporcionar um mínimo de tensão a seu espectador. Um grande desperdício.

7) Perfeita é a Mãe!

Primeiro filme da lista que parece ter como lema a frase "Boas intenções, péssima execução", este que é o segundo projeto de direção de Jon Lucas e Scott Moore (roteiristas do primeiro Se Beber, Não Case!) parte da boa ideia de ilustrar um pouco mais das dificuldades passadas por qualquer mãe no dia-a-dia. É triste, porém, perceber que a dupla, além de incapaz de promover uma risada com o bom grupo de comediantes reunidas - Mila Kunis, Kristen Bell, Kathryn Hahn e Christina Applegate fazem um baita time, mas nem elas são capazes de tirar algo do roteiro -, no fim se fazem como verdadeiros alienígenas no mundo que tanto querem fazer piada. Acima de tudo, Perfeita é a Mãe! busca ser um outro Se Beber, Não Case! quando poderia arranjar uma voz própria.

6) Angry Birds - O Filme

Warcraft foi uma grande bobagem, mas nem de perto chegou a ser tão horroroso quanto Angry Birds, com certeza a pior adaptação de um videogame para os cinemas dos últimos cinco anos (e isso não é pouco!). Insuportável do começo ao fim, talvez a única cena minimamente tragável do filme seja a da Grande Águia fazendo xixi no lago - o que por si só denota o nível da produção.

5) Boa Noite, Mamãe

Usar a violência para chocar nunca deixou de ser um bom elemento de cena, desde que usado com um mínimo de coerência. Para o azar do espectador, o terror austríaco Boa Noite, Mamãe parece ser incapaz de funcionar como filme de gênero fora do trauma visual, empregando cenas de gore que no fim não consegue justificar. Adicione a este uma péssima virada de roteiro e pronto, tem em mãos um filme de horror dos mais bobos ainda que ele se pregue como superior o tempo todo. 

4) De Longe Te Observo

Grande vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2015, o venezuelano De Longe Te Observo tem como mote a relação de amor e ódio entre um rico dentista e um pobre garoto. O diretor Lorenzo Vigas busca tirar das interações entre os dois uma verdadeira dissecação da sociedade do país, mas nunca sai do ensaio propriamente dito, jogando temas aqui e ali só para deixar a história em movimento. E não bastasse o caráter enfadonho da produção, ela se torna ainda mais irritante pelo perfil desprezível de seus dois personagens principais.  

3) Sete Homens e um Destino

O outro filme que levou a ferro o lema "Boas intenções, péssima execução" foi o remake do faroeste de John Sturges (que já era uma refilmagem de Os Sete Samurais de Akira Kurosawa). O longa do diretor Antonine Fuqua busca trazer para a história dos sete pistoleiros que aceitam defender um pobre vilarejo de bandidos uma mensagem de diversidade e igualdade ao trazer atores de diferentes raças para o grupo de heróis, mas acaba soando estereotipado em suas próprias pretensões. Além disso, Fuqua - que também mostra dificuldades nas cenas de ação, fazendo-as da maneira mais burocrática possível - não entende o sentido do sacrifício final dos pistoleiros, tornando-o heróis dispostos a tal feito somente para aquecer suas sedes individualistas de consagração, algo contrário ao final coletivo dos outros dois longas anteriores.

2) Truque de Mestre - O Segundo Ato

O primeiro Truque de Mestre já tinha sido uma grande bobagem em meio àquela quantidade abstrata de planos de grua e reviravoltas, mas nada, absolutamente nada nos preparou para a continuação. Dirigido por Jon M. Chu, O Segundo Ato é um desastre do começo ao fim, multiplicando reviravoltas e truques de mágica claramente impossíveis (é mágiCa, não magia!) para criar uma sequência ainda mais descontrolada e que tenta se enquadrar no estilo de filme família consagrado pela franquia Velozes e Furiosos. É de se admirar o grande elenco jogado no lixo na mesma medida que é desperdiçado a proposta de iludir o espectador, transformada em desculpa para efeitos visuais sem qualquer sentido. O desastre encenado aqui é revoltante.

Mas um filme conseguiu ser pior.

1) Esquadrão Suicida

A escolha mais óbvia, mas também inevitável. Grande promessa de 2016 para injetar novidade ao gênero dos filmes de super-herói, Esquadrão Suicida acabou se provando uma gigantesca pilha de excrementos, arruinando uma trama simples das maneiras mais inimagináveis. Os fãs podem vir com todas as justificativas sobre o porquê do desastre ter se sucedido desta maneira e como a Arlequina salvou a produção (observação: ela não salva), mas a verdade é que o longa é um desastre sob todos os ângulos.

O que não deixa de ser uma tristeza, claro, seja porque o diretor David Ayer tinha mostrado seu valor no ano anterior com Corações de Ferro ou porque o elenco dá seu melhor para sustentar a coisa (mesmo Jay Courtney está esforçado aqui!). Mas só a lembrança do Coringa de Jared Leto é suficiente para estraçalhar qualquer defesa e traumatizar qualquer um.

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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Cinema em 2015: Piores do Ano

O que o cinema produziu de pior em 2015.

Por Pedro Strazza.

Não dá para ser perfeito. Ainda que tenha oferecido filmes maravilhosos, 2015 foi também um ano de muitos erros e equívocos no mundo do cinema. Além dos dez longas que compõem esse maravilhoso ranking de pura chacota e irritação, os últimos 365 dias trouxeram os mais variados tipos de horror nas telonas.

Mas se nos outros anos os motivos para tais resultados escabrosos variaram bastante, em 2015 grande parte destas produções encontrou um denominador comum: a representação feminina. Em dias marcados pela contestação do uso da mulher pelo cinema e outras artes, foi comum ver nos filmes mais fracos e estúpidos a perseverança de uma lógica ultrapassada no assunto. Em grande parte dessas obras, a mulher é reduzida de significação, fetichizada ou, pior, tornada em figura de antagonismo, graças a seus "dotes" capazes de atrair o protagonista masculino ao pecado, sendo relevante nesta última que ela seja posta em "seu devido lugar". Não à toa, pelo menos seis dos dez longa-metragens nomeados ao Piores do Ano de 2015 tem em comum o uso de tais e outros artifícios tão degradantes ao gênero feminino.

Esse não foi o único ponto, porém, que levou tantas produções ao fracasso em seu conteúdo, e uma rápida visita a alguns dos piores filmes hollywoodianos de grande orçamento é capaz de ilustrar alguns dos outros pontos a serem repensados para 2016. Enquanto Quarteto Fantástico mostrou que novas ideias a marcas antigas nem sempre mostram melhores resultados, 007 Contra Spectre provou que impor mudanças drásticas de gênero a um personagem de gênero são capazes de quebrar seu funcionamento; Insurgente e o "último" Jogos Vorazes, por outro lado, evidenciaram o apodrecimento de algumas das estruturas que fazem famosos os filmes voltados para o público jovem, no mesmo passo que Ted 2 reforçou a noção de que repetir a fórmula não funciona sozinho.

De qualquer forma, nenhum destas obras foi tão mal quanto os próximos dez filmes a serem comentados, de longe os piores exemplares do cinema lançados comercialmente no país em 2015. Vamos a eles:

10) Crimes Ocultos

Crimes Ocultos é uma aula básica de roteiro, mas não no bom sentido. O filme, sobre um agente da polícia militar da União Soviética que é rebaixado de seu serviço e tenta solucionar um mistério envolvendo o desaparecimento sistemático de crianças ao longo do território, apela para todas os clichês e maniqueísmos de seu tema, mas não os sabe utilizar a seu favor em nenhum momento. O resultado, alinhado com um inglês em sotaque russo dos piores de Tom Hardy e grande elenco, fazem o longa se tornar um aborrecimento constante, incapaz de atrair o espectador em qualquer momento. 

9) Miss Julie

Montagem da homônima peça do dramaturgo August Strindberg, esta versão de Miss Julie é talvez o melhor exemplo do quão difícil é realizar uma adaptação de uma obra teatral para a telona. Enquanto privilegia atuações nada equilibradas de Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton, a diretora Liv Ullmann não consegue aproveitar dos poucos ambientes que ocupa, e a obra perde qualquer tipo de fluidez. Ao invés disso, o que se vê em cena é uma obra estagnada, que não consegue se utilizar de sua origem teatral nem de disfarçar o seu incômodo cheiro de mofo.

8) O Exterminador do Futuro - Gênesis

Mesmo que venha a ser lembrado como um ano de bons retornos de inúmeras franquias, 2015 também será marcado por este que foi o pior espécime de uma tentativa de reboot trajada de sequência. Não apenas responsável por declarar a morte da série O Exterminador do Futuro e equivocado na reutilização das estruturas clássicas dos dois primeiros (e clássicos) filmes, Gênesis também conseguiu a façanha de diminuir Sarah Connor, uma das personagens mais fundamentais do cinema de ação e da representação da mulher nos anos 90, que aqui se transforma numa menina adulta cujos únicos (e não maiores) conflitos são de relações familiares. Um erro crasso, que nem Emilia Clarke consegue esconder ou defender.

7) Caminhos da Floresta

Rob Marshall já vinha mostrando em seus últimos dois filmes um desgaste evidente de sua fórmula, que preza muito pelo movimento e pouco pelo conteúdo. Nada preparou o público, porém, para seu Caminhos da Floresta, adaptação do musical da Broadway que é disparado uma das obras mais vazias de 2015. Marshall despreza com categoria a temática de desconstrução dos contos de fada da peça e tenta realizar uma homenagem a estes, criando um choque de noções que simplesmente não se sustenta em momento algum.

E sobre as músicas... digamos que se eu ouvir mais um "Into the woods!" ou "AGONY" eu mato alguém.

6) A Entidade 2

Lançado em 2012, o primeiro A Entidade era um verdadeiro espetáculo de terror, que mesmo com seus erros conseguia fazer de sua criatura algo assustador sem mostrá-la. Sua sequência parece ter desaprendido isso. Insistindo constantemente em um processo de iconização de Bagul, o longa de Ciarán Foy se utiliza somente de sustos fáceis e apelo gráfico ao invés de investir em um terror atmosférico, local onde a entidade do título funcionava melhor. O maior erro, porém, é acreditar que revelar mais sobre o ser e seus meios trará melhores oportunidades à continuação, e no fim isso custa caro ao filme e sua tentativa de serialização.

5) À Beira Mar

Angelina Jolie já havia mostrado dificuldades em dirigir esse ano com seu Invencível, mas é com À Beira Mar que a cineasta demonstra estar precisando voltar aos estudos. Ainda que entregue junto do marido Brad Pitt uma boa atuação, Jolie faz aqui um filme modorrento sobre relações íntimas, envolvendo com sutileza machismos estridentes como culpabilidade da mulher e importância do marido ser o líder em situações de crise. E não importa o número de profissionais excelentes que ela se cerque, Angelina ainda continua a entregar as mesmas imagens de antes, quase sem emoção como suas histórias. 

4) A Casa dos Mortos

Para ser honesto, fico surpreso que o found footage continue a ser um subgênero em voga no cinema de terror, mas mais ainda com as maneiras incrivelmente estúpidas pelas quais alguns cineastas tentam reinventá-lo. É o caso de A Casa dos Mortos, que tenta misturar elementos de câmera na mão com cinematografia convencional em uma história típica de casa mal-assombrada. O resultado, óbvio, é desastroso: o longa é incapaz de se estruturar em qualquer uma das abordagens, além de insistir periodicamente em sustos previsíveis ao extremo.

E em nada, absolutamente em nada ajuda tentar enfiar uma reviravolta à la Shyamalan no fim, algo que no fundo reforça mais a superficialidade da produção que qualquer outra coisa.

3) Duas Irmãs, Uma Paixão

Se em Miss Julie o cheiro de mofo era difícil de se ignorar, no representante alemão para o Oscar do ano passado ele é impossível de se evitar. Com uma narrativa involuntariamente pesada, o novelesco Duas Irmãs, Uma Paixão é um desastre de altas proporções, incapaz de fazer algo do drama do título além de conflitos "'Ele é meu!', 'Não, ele é meu!'". Os figurinos e o design de produção tem lá seu charme, mas de que isso serve sozinho?

2) Cinquenta Tons de Cinza

Cinquenta Tons de Cinza é muito mais uma imensa decepção que um filme de pior espécie. Explico: por mais machista, raso e papo interminável de DR que a adaptação do livro de E.L. James seja (e é, não se engane!), o filme de Sam Taylor-Johnson perdeu uma chance inacreditável de romper em 2015 com os tabus puritanos de sexo que por anos envolvem Hollywood e o impedem de ser o berço de novas revoluções sexuais. Em contraponto a isso, o longa entrega uma narrativa coxinha, assustada em mostrar qualquer evidência de relações ou membros sexuais (novamente, é um filme tão machista a ponto de não ter coragem de não mostrar um pênis!). O que poderia ser um filme ambicioso termina uma novela "para donas-de-casa", a adaptação mais fiel em espírito de um romance de Sidney Sheldon. Pena.

Mas sem dúvida o pior filme de 2015 é...

1) Mortdecai - A Arte da Trapaça

É difícil de definir o que é pior em Mortdecai - A Arte da Trapaça. O humor grosseiro e sem qualquer momento de relevância, a atuação desgastada de um Johnny Depp no fundo do poço da carreira, o sexismo implícito combinado à objetificação e antagonização máxima da mulher na forma das curvas de uma Olivia Munn completamente má utilizada... a falta de substância e a chacota implícita do diretor David Koepp com elementos tão ultrapassados quanto a obra são alarmantes. É um filme inadequado, incapaz de ver-se a si mesmo em meio a tanta arrogância e desperdício de um ótimo elenco e que nem consegue fazer jus ao título de comédia.

Pelo menos pra mim, resta torcer para que em 2016 o agora bicampeão da categoria Johnny Depp saia dessa maré de azar e volte à plena forma de antigamente, porque pior que isso (eu espero que) não fica.

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