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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscar 2016: Indicados e Vencedores

Em cerimônia auto-indulgente, Academia premia Mad Max e Spotlight.

Por Pedro Strazza.

Na noite deste domingo (28), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas realizou no Dolby Theater em Los Angeles a 88° cerimônia de entrega do Oscar. A premiação foi conduzida por Chris Rock, que tomou a polêmica questão do Oscar branco como tema único da festa e a tratou com ironia, errando mais que acertando. Os filmes, enquanto isso, pareciam ter sido deixados de lado, lembrados ocasionalmente no anúncio dos vencedores em meio a diversos esquetes e piadas em cima do tema do racismo na indústria.

Na distribuição das estatuetas, quem se deu melhor foi Mad Max. Tirando Efeitos Visuais - que inacreditavelmente acabou nas mãos de Ex Machina, talvez o longa com menor orçamento a levar na categoria - O faroeste pós-apocalíptico de George Miller arrebanhou seis estatuetas na parte técnica, todas praticamente concentradas no início da cerimônia. Nas principais, a maior reviravolta aconteceu com Melhor Filme, vencida por Spotlight mesmo o filme tendo levado apenas uma outra estatueta na noite (Melhor Roteiro Original). É a primeira vez que isso acontece desde 1953, quando O Maior Espetáculo da Terra levou os mesmos dois prêmios.

No resto, poucas surpresas, muita sensação de uma entrega de prêmios burocrática. DiCaprio emocionou o público ao enfim levar sua estatueta de Melhor Ator, emendando com um discurso correto e grato a todos que o ajudaram na carreira; Vikander e Brie Larson confirmaram o favoritismo nas de atuações femininas; Lubezki levou pela terceira vez o Oscar de Fotografia, batendo recorde na categoria e desbancando pela terceira vez consecutiva o eterno azarado Roger Deakins; Iñárritu se juntou a John Ford e Joseph L. Mankiewicz ao vencer por dois anos seguidos a categoria de Melhor Diretor; e Ennio Morricone finalmente levou uma estatueta competitiva, graças a seu trabalho em Os Oito Odiados.

Duas outras surpresas aconteceram em Melhor Canção Original e Ator Coadjuvante. Na primeira, Sam Smith acabou com o troféu, pouco depois de Lady Gaga arrebatar o público no Dolby Theater com uma performance emocionante de Til It Happens to You. Já Mark Rylance surpreendeu ao levar o segundo no lugar de Sylvester Stallone, tido como favorito até então desde o SAG Awards.

Entupido de piadas pouco eficazes e esquetes de puro merchandising (a participação dos minions e de C3PO, R2-D2 e BB-8, por exemplo), o Oscar 2016 soou como uma grande paródia de si mesmo, muito mais preocupado em sua imagem como premiação mais conhecida e pouco na importância da entrega dos prêmios em si. Enquanto Chris Rock, em seu terno branco, fazia piada sobre os problemas da Academia, a premiação da indústria cinematográfica mais conhecida no mundo parecia se afundar na própria ignorância.

Confira a lista completa abaixo. Os vencedores estão em negrito.

Melhor Filme

  • Brooklin
  • A Grande Aposta
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Quarto de Jack
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso
  • Spotlight – Segredos Revelados

Melhor Direção

  • Adam McKay (A Grande Aposta)
  • Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
  • George Miller (Mad Max – Estrada da Fúria)
  • Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack)
  • Thomas McCarthy (Spotlight – Segredos Revelados)

Melhor Ator

  • Bryan Cranston (Trumbo - Lista Negra)
  • Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
  • Leonardo DiCaprio (O Regresso)
  • Matt Damon (Perdido em Marte)
  • Michael Fassbender (Steve Jobs)

Melhor Atriz

  • Brie Larson (O Quarto de Jack)
  • Cate Blanchett (Carol)
  • Charlotte Rampling (45 Anos)
  • Jennifer Lawrence (Joy – O Nome do Sucesso)
  • Saoirse Ronan (Brooklin)

Melhor Ator Coadjuvante

  • Christian Bale (A Grande Aposta)
  • Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos Revelados)
  • Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
  • Sylvester Stallone (Creed – Nascido Para Lutar)
  • Tom Hardy (O Regresso)

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
  • Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
  • Kate Winslet (Steve Jobs)
  • Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados)
  • Rooney Mara (Carol)

Melhor Roteiro Adaptado

  • Brooklin
  • Carol
  • A Grande Aposta
  • Perdido em Marte
  • O Quarto de Jack

Melhor Roteiro Original

  • Divertida Mente
  • Ex Machina
  • Ponte dos Espiões
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Straight Outta Compton

Melhor Fotografia

  • Carol
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Os Oito Odiados
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém

Melhor Montagem

  • A Grande Aposta
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Trilha Sonora

  • Carol
  • Os Oito Odiados
  • Ponte dos Espiões
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Documentário

  • Amy
  • Cartel Land
  • The Look of Silence
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

Melhor Animação

  • Anomalisa
  • Divertida Mente
  • As Memórias de Marnie
  • O Menino e o Mundo
  • Shaun, O Carneiro

Melhor Filme Estrangeiro

  • O Abraço da Serpente (Colômbia)
  • Cinco Graças (França)
  • Filho de Saul (Hungria)
  • Guerra (Dinamarca)
  • O Lobo do Deserto (Jordânia)

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay
  • Shok
  • Stutterer

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau: Beyond the Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah
  • A Girl in the River: The Price of Forgiveness
  • Last Day of Freedom

Melhor Animação em Curta-Metragem

  • Bear Story
  • Os Heróis de Sanjay
  • Prologue
  • We Can’t Live Without Cosmos
  • World of Tomorrow

Melhor Design de Produção

  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso

Melhor Figurino

  • Carol
  • Cinderela
  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso

Melhor Maquiagem e Penteados

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu
  • O Regresso

Melhor Canção Original

  • Earned It (Cinquenta Tons de Cinza)
  • Manta Ray (Racing Extinction)
  • Simple Song #3 (Juventude)
  • Til It Happens to You (The Hunting Ground)
  • Writings on the Wall (007 Contra Spectre)

Melhor Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhor Mixagem de Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força

Melhores Efeitos Visuais

  • Ex Machina
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força

Top 8: Oscar de Melhor Filme 2016

Do pior ao melhor, um ranking para a categoria mais importante da premiação mais conhecida.

Por Pedro Strazza.

E mais uma vez estamos aqui, em dia de entrega do Oscar. Seguindo a tradição dos últimos dois anos, organizo agora a categoria de Melhor Filme desse ano em um ranking pessoal, que vai do pior ao melhor dos indicados desse ano. Bom lembrar, TODOS os oito filmes nomeados pelos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ao prêmio máximo tem críticas no site, e você pode lê-las a qualquer instante clicando em seus nomes abaixo.

Também deixo o link para o ranking completo dos indicados ao Oscar 2016 que assisti, o qual você pode ver aqui.

Sem maiores delongas, vamos ao que interessa:

8) O Regresso

Talvez uma das maiores bombas a atingir a categoria desde O Discurso do Rei em 2010 e Extremamente Alto, Incrivelmente Perto em 2011, o novo trabalho de Alejandro González Iñárritu (que ficou em primeiro no ranking do ano passado, bom lembrar) é o filme que melhor simboliza o jogo de egos vigente em Hollywood e arrisca se tornar a produção predileta dos votantes da Academia para os próximos anos. Poucas coisas em O Regresso vão na contramão e realizam seu trabalho voltado para a construção do filme, enquanto no geral o que se vê são demonstrações constantes de cineastas que prezam por um cinema "superior" e "profundo" sem contudo nunca chegar a qualquer um destes.

É uma negação de gênero desgostosa, um faroeste incapaz de se assumir como tal, mais interessado em um existencialismo vazio e que dá voltas e voltas sem sair do mesmo lugar. Se o futuro do Oscar de Melhor Filme são produções assim, estamos prestes a entrar num período difícil da História cinematográfica estadunidense.

7) Spotlight - Segredos Revelados

Acho curioso que Spotlight, novo filme de Thomas McCarthy, esteja sendo venerado pela crítica e pelos fãs como "o filme que glorifica o Jornalismo". Claro que a produção, centrada no relato da investigação de uma equipe do Boston Globe sobre abusos cometidos por membros da Igreja, busca validar o processo jornalístico como algo sagrado (inclusive é inegável o tesão do longa pelo método old-school da profissão), mas a obra também não se segura em criticar as mais variadas instituições que formam e comandam a sociedade contemporânea, incluindo aí... o Jornalismo.

Um filme interessante, mas que no fundo não consegue fazer algo a mais da história além da proposta de recontar os acontecimentos com um grande elenco.

6) Brooklin

Quase uma versão soft do épico Era Uma Vez em Nova York de James Gray, Brooklin só funciona graças ao trabalho encantador de Saoirse Ronan, que conduz a narrativa do filme com a leveza e beleza necessárias. Como filme, o longa de John Crowley é bastante feliz em desarmar o espectador sobre qualquer tentativa de atribuir a história ao contexto histórico que se insere, apesar de no fim não resistir de fazer o mesmo com o triângulo amoroso que tem em mãos. Ainda que batido, é difícil não se envolver com a trajetória da protagonista, de suas perdas a suas vitórias.

5) O Quarto de Jack

Ousado em contar uma história pesada sob o viés de um conto de fadas realista, O Quarto de Jack sabe como ninguém se aproveitar do estupendo trabalho de seus dois protagonistas para se conectar com o espectador e no processo esconder suas falhas deste. É mais um filme de ator, com Brie Larson e Jacob Tremblay brilhando neste mais novo conto de libertação do diretor Lenny Abrahamson - que também se destaca na narrativa de espaços concebida.

4) Perdido em Marte

Com tantas ficções-científicas depressivas por aí (todas fruto da dupla Alien/Blade Runner, do próprio Ridley Scott), acho muito legal que uma mais otimista tenha chegado ao páreo de Melhor Filme esse ano. Porque apesar dos perrengues e provações, a jornada de Mark Watney para sobreviver ao planeta vermelho e voltar para a Terra em Perdido em Marte na verdade é uma grande celebração à sociedade (e à NASA, mas deixemos isso de lado), com várias pessoas fazendo de tudo para ajudar no resgate ao astronauta.

Não bastasse isso, Perdido em Marte ainda é um grande festejo sobre a ciência, talvez o maior no cinema em anos. Decerto é um filme para todos os tipos de público.

3) A Grande Aposta

Quem vê A Grande Aposta geralmente se concentra na questão do se as explicações do filme sobre como a crise de 2008 aconteceu são compreensíveis ou não, mas para mim o valor da produção não está aí. Acima de tudo, o longa comandado por Adam McKay brilha por conseguir ser um dos poucos a de fato trazer ao espectador a sensação de quem viveu este momento problemático da economia mundial, primeiro o tornando parte do caos que gerou a crise e depois o chocando com os efeitos dessa festança na vida das pessoas.

Pois mesmo que sejamos todos o personagem de Steve Carell lá no finalzinho, no caminho rimos de toda a loucura testemunhada pelos personagens, despreocupados se isso é algo ruim ou péssimo para a sociedade.

2) Ponte dos Espiões

Novo triunfo na carreira de Steven Spielberg, Ponte dos Espiões é o filme que finalmente faz com que o celebrado diretor acerte em sua trajetória recente pela análise do espírito americano. Com uma ajudinha básica dos irmãos Coen no roteiro e de Tom Hanks e Mark Rylance nas atuações, o longa problematiza a fabricação desse ideal nacional na Guerra Fria ao mesmo tempo que retoma o herói comum do cinema estadunidense clássico, confrontando ambos em um cinema talvez consciente demais de sua importância.

Isso parece não importar muito a Spielberg, que nesse seu esforço de entregar algo grandioso também se preocupa em focar na trajetória de seu protagonista, alternando entre o simples e o complexo com eficiência fabulosa. Ponte dos Espiões é o resquício de uma época antiga, mas que mesmo assim funciona muito bem, obrigado.

Mas assim, o Oscar de Melhor Filme esse ano deveria ir para...

1) Mad Max - Estrada da Fúria

É o filme que revolucionou o cinema de ação como conhecemos no ano passado. É o filme que deu o pontapé inicial na discussão sobre o papel da mulher no gênero cinematográfico e no próprio cinema como um todo. E ainda ficou em segundo lugar no Melhores do Ano de 2015, atrás apenas de Divertida Mente.

Preciso. Falar. Mais?

ESPECIAL: Oscar 2016

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Crítica: Ponte dos Espiões

Spielberg encontra na ambiguidade da Guerra Fria uma salvação para sua visão sobre o espírito americano.

Por Pedro Strazza.

Logo em seus primeiros momentos, concentrados na rotina do britânico Rudolf Abel (Mark Rylance) em mais um dia em Nova York pouco antes de ser preso pelo governo estadunidense sob suspeita de trabalhar para os soviéticos, Ponte dos Espiões já revela a seu espectador a abordagem para sua história, e não apenas em um aspecto formal. Ao invés de elaborar a ação de prisão por um ponto de vista que favoreça os esforços dos agentes americanos, o longa investe na humanização de Abel, aproximando o espectador do personagem por meio de suas ações cotidianas, mesmo que estas sejam voltadas para seu verdadeiro serviço no país.

No fundo, este processo de ignorar o patriotismo subjacente e focar no humano é a grande tônica do filme, que junto de Cavalo de Guerra e Lincoln parece encerrar uma espécie de trilogia realizada pelo diretor Steven Spielberg nesta temática em cima dos Estados Unidos. Mas se nos dois predecessores esta metodologia se fazia em momentos históricos cujo campo era universal e claramente maniqueísta - os exércitos da Tríplice Aliança nunca se desvencilharam de alguma culpa pela Primeira Guerra Mundial, e os políticos a favor da escravidão... bem, eram a favor da escravidão - em Ponte dos Espiões ela se dá no exato oposto na figura da Guerra Fria, um período no qual o maior inimigo da nação americana nunca de fato alcançou o status de vilania ao qual o governo e seus líderes procuraram tanto adequá-lo.

Essa dualidade, presente na história do advogado James B. Donovan (Tom Hanks) sobre seus esforços em trocar o agente russo, designado seu cliente no julgamento nos EUA, por dois estadunidenses capturados pela União Soviética e a Alemanha Oriental, serve para o cineasta tanto como lógica narrativa quanto temática, permitindo que ele se aprofunde na problemática polarização política exercida pelo país por quase cinquenta anos de sua História. Não à toa, o diretor retrata membros do governo, seja de qual lado for, de uma forma bastante negativa, somente interessados em movimentos que privilegiem o avanço de seus respectivos países na briga silenciosa que se desenrola e inconsequentes sobre a perda de vidas no caminho. A paranoia é explícita em tempos assim, e o longa não se segura em mostrar isso em momentos como do corte de uma cena no tribunal para uma sala de aula com crianças recitando o hino nacional para registros de uma explosão nuclear.

Deste estado destrutivo das coisas, Spielberg e o roteiro de Matt Charman e dos irmão Coen resgatam o ideal do homem comum, herói típico das comédias do falecido Frank Capra e que tem no cerne de suas motivações essa busca pela humanidade no sistema. Personificado por Hanks com a dignidade necessária, Donovan se torna no contraponto ideal ao raciocínio natural da época, num primeiro momento incapaz de condenar à morte Abel e depois engajado na tarefa de trazer são e salvo os dois cativos norte-americanos, o oficial consciente de suas ações capturado no ato e o cidadão inocente pego no fogo cruzado e desinteressante para seu governo.

Assim, o que se vê acontecer em Ponte dos Espiões é um choque entre dois tipos de espírito americano, sendo um fabricado e voltado para o belicismo e o outro natural e motivado pela preservação da humanidade nas relações. Esse conflito, como é de praxe da carreira de Spielberg, não escapa de ser escancarado na narrativa ("Eu sou um homem comum"), mas é trabalhado com alguma delicadeza ao ser materializado na dinâmica espelhada dos planos da fotografia de Janusz Kaminski, colocando seu protagonista em lado oposto ao dos oficiais com quem conversa e culminante no clímax da ponte do título, ou naquela exercida nas conversas entre Donovan e Abel, que ressalta sem grande o alarde o que está mesmo em jogo ali com a mesma sutileza com a qual Rylance trabalha seu papel.

É claro que esta lógica na prática nunca chega a desconstruir o maniqueísmo elaborado da época por estar ligada à desconstrução do patriotismo seja pelo lado estadunidense ou soviético. O que importa mesmo a Spielberg no filme é esse antagonismo entre os interesses do indivíduo e da nação, nos mecanismos desta relação que permite ao primeiro submeter sua vida e dedicação aos objetivos do segundo sem se dar conta dos riscos representados por tal ato. A última troca de olhares entre advogado e cliente após o fim das negociações, cujo dilema se faz na própria ambiguidade das vantagens obtidas pelos soviéticos nesta, soa como uma resposta rápida à questão, mas também a prolonga em um caráter aflitivo.

Nota: 9/10

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ESPECIAL: Oscar 2016

Tudo sobre a 88° edição dos Academy Awards!

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bolão Oscar 2016


Quem leva, quem perde e quem pode surpreender na premiação de domingo?

Por Pedro Strazza.

Está chegando a hora! No próximo domingo, dia 28 de fevereiro de 2016, acontece no Dolby Theater em Los Angeles a 88° cerimônia de entrega dos Academy Awards, também conhecido como Oscar 2016! E entre piadas feitas pelo apresentador Chris Rock e homenagens a vários membros da indústria cinematográfica estadunidense, as grandes questões permanecem: Quem ficará com a estatueta? Será que Leonardo DiCaprio leva dessa vez? E pelamor, será que a cerimônia dessa vez será minimamente interessante a ponto de não fazer adormecer o espectador casual?

Sobre a última não tenho como opinar, mas nas duas primeiras perguntas talvez possa ajudar. Pelo quarto ano consecutivo, O Nerd Contra-Ataca orgulhosamente apresenta o Bolão Oscar, que tenta ajudar a sua lista de apostas dos vencedores e prever os diferentes cenários possíveis da premiação. Também trouxemos de volta este ano o TROCA, nossa ferramenta justiceira que busca substituir os indicados que não sabem o que fazem na lista por outros mais interessantes e melhores.

Vamos aos indicados?

P.S. Importante: Foram desconsiderados do TROCA filmes que não foram assistidos por minha pessoa e todos os curtas, como Ave Maria, Bear Story, Body Team 12, Cartel Land, O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, Chau: Beyond the Lines, Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah, Day One, Everything Will Be Okay, A Girl in the River: The Price of Forgiveness, Os Heróis de Sanjay, Prologue, Juventude, Last Day of Freedom, O Lobo do Deserto, The Look of Silence, Racing Extinction, Shok, Straight Outta Compton - A História do N.W.A., Stutterer, We Can’t Live Without Cosmos, Winter on Fire - Ukraine's Fight For Freedom e World of Tomorrow. 

Legenda

  • Negrito: O Favorito
  • Itálico: Ainda Disputa
  • (0): Sem Chances
  • (F): Favorito Pessoal

Melhor Filme

TROCA: Brooklin, O Quarto de Jack, O Regresso e Spotlight - Segredos Revelados por Carol, Divertida Mente, Os Oito Odiados e Magic Mike XXL.

Parece brincadeira escrever isso mais uma vez, mas a cada ano que passa a disputa pelo Oscar de Melhor Filme está ficando cada vez mais difícil. Esse ano, a briga não está apenas entre dois filmes, mas sim TRÊS, com O Regresso de Alejandro González Iñárritu disparando como favorito no último minuto. O faroeste no armário do mexicano pode não ter levado os prêmios dos sindicatos de produtores e atores de Hollywood ou entrado na lista de melhores do ano da American Film Institute (AFI), mas suas vitórias no DGA Awards e no BAFTA muito provavelmente deram o gás que ele precisava na corrida pela estatueta mais desejada.

Em seu caminho, o longa tem a comédia sobre a crise de 2008 A Grande Aposta, que levou o PGA Awards (prêmio do sindicato de produtores), e o drama sobre jornalismo Spotlight, vitorioso no SAG Awards (prêmio do sindicato de atores) e no início da temporada o principal candidato a Melhor Filme. O problema é que ambos perderam a força na disputa, o que possibilitou a situação instável que é o final da corrida desse ano pelo principal prêmio da indústria cinematográfica estadunidense.

A bem da verdade, tudo pode acontecer na categoria, incluindo reviravoltas protagonizadas por Mad Max, Ponte dos Espiões e Perdido em Marte, grandes produções que tem o perfil de agrado aos votantes. O que soa ser mesmo improvável a essa altura da votação são vitórias de Brooklin e O Quarto de Jack, duas produções menores que chegam a essa e outras categorias graças ao talento de suas atrizes protagonistas. Mas isso a gente vê daqui a pouco.

Melhor Direção

  • Adam McKay (A Grande Aposta)
  • Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
  • George Miller (Mad Max – Estrada da Fúria) (F)
  • Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack) (0)
  • Thomas McCarthy (Spotlight – Segredos Revelados)
TROCA: Adam McKay, Alejandro González Iñárritu, Lenny Abrahamson e Thomas McCarthy por Quentin Tarantino (Os Oito Odiados), Ryan Coogler (Creed - Nascido Para Lutar), Steven Spielberg (Ponte dos Espiões) e Todd Haynes (Carol).

George Miller é de longe o melhor dos candidatos, mas 2016 promete mais uma vitória de Iñárritu em Melhor Diretor. Pesa em seu favor a vitória inesperada no DGA e a publicidade em cima das dificuldades climáticas que ele e sua produção passaram para filmar O Regresso, bem o tipo de coisa que os votantes da Academia se encantam com relativa facilidade. Quem talvez surpreenda na noite (além do próprio Miller, que também sofreu para fazer seu Mad Max, mas não vendeu seu filme assim) é Adam McKay, com chances caso seu A Grande Aposta seja no fim o grande vencedor do prêmio de Melhor Filme.

Do outro lado da corrida, Lenny Abrahamson, que surpreendeu todo mundo ao roubar o lugar de Ridley Scott na categoria, está tranquilo em ser o azarão deste ano, contente talvez em ter chegado até onde chegou.

Melhor Ator

TROCA: Todo mundo por Jacob Tremblay (O Quarto de Jack), Michael B. Jordan (Creed - Nascido Para Lutar), Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados), Tom Hanks (Ponte dos Espiões) e Tom Hardy (Mad Max - Estrada da Fúria).

No que talvez seja o ano mais fraco da categoria, o Oscar de Melhor Ator enfim irá para as mãos de Leonardo DiCaprio. Ele ganhou tudo: SAG, BAFTA, prêmios dos críticos, Globo de Ouro... aparentemente não há obstáculos a serem encarados pelo ator de 41 anos para na quinta tentativa levar a estatueta para casa.

Ainda assim, na possibilidade bastante remota do prêmio não ir para DiCaprio (tipo 0,001% de chance, sério), quem está na rebarba é Michael Fassbender, cuja atuação em Steve Jobs deve angariar alguns dos votos contrários à escolha principal. Já Bryan Cranston, que entregou a melhor atuação dentre os cinco, vai comparecer à cerimônia apenas à espera de um bom espetáculo de Chris Rock.

Melhor Atriz

  • Brie Larson (O Quarto de Jack) (F)
  • Cate Blanchett (Carol)
  • Charlotte Rampling (45 Anos) (0)
  • Jennifer Lawrence (Joy – O Nome do Sucesso)
  • Saoirse Ronan (Brooklin)
TROCA: Cate Blanchett, Charlotte Rampling e Jennifer Lawrence por  Charlize Theron (Mad Max - Estrada da Fúria), Juliette Binoche (Acima das Nuvens) e Rooney Mara (Carol).

Outro páreo que parece definido é o de Melhor Atriz, de cabo a rabo liderado por Brie Larson. A atriz levou o SAG e o BAFTA, além de ter sido responsável por puxar as outras indicações de O Quarto de Jack. Sua maior concorrente no caso é Saoirse Ronan, outra que trouxe mais nomeações para o filme que protagoniza e tem sido a alternativa em alguns circuitos de críticos e premiações pequenas.

Agora, quem está realmente sem chances na categoria é Charlotte Rampling. Suas polêmicas declarações sobre a questão do #OscarsSoWhite fizeram a atriz perder grande parte dos poucos votos que tinha, quebrando a simpatia de sua figura de azarona na corrida.

Melhor Ator Coadjuvante

  • Christian Bale (A Grande Aposta)
  • Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos Revelados) (0)
  • Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
  • Sylvester Stallone (Creed – Nascido Para Lutar) (F)
  • Tom Hardy (O Regresso)
TROCA: Christian Bale e Mark Ruffalo por Idris Elba (Beasts of No Nation) e Walton Goggins (Os Oito Odiados).

Melhor Ator Coadjuvante está um páreo interessante esse ano. A princípio, Mark Rylance estava na frente, com Christian Bale e Sylvester Stallone um pouco atrás. No SAG, Rylance e Bale foram indicados e Stallone acabou de fora, mas quem levou o prêmio-termômetro no fim foi Idris Elba, ausente no Oscar sem motivo maior além de "seu filme ser da Netflix".

Dessa forma, a estatueta parece estar nas mãos do eterno Rocky Balboa e Rambo, que tem a seu favor o carinho dos votantes por sua pessoa e sua fantástica performance na sétima interpretação do Garanhão Italiano. Considerando que Rylance e Bale perderam fôlego na corrida, seu maior opositor no momento é Tom Hardy, outro de fora do SAG e que tem como surpreender no fim. Mark Ruffalo, coitado, ficou pra trás há um bom tempo.

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
  • Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
  • Kate Winslet (Steve Jobs)
  • Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados) (0)
  • Rooney Mara (Carol) (F)
TROCA: Alicia Vikander, Rachel McAdams e Rooney Mara por Cate Blanchett (Carol), Jada Pinkett Smith (Magic Mike XXL) e Kristen Stewart (Acima das Nuvens).

Alicia Vikander é a óbvia favorita aqui (levou a cota de prêmios necessários para garantir este status), mas o Oscar de Atriz Coadjuvante tem todo o cheiro de surpresa de última hora esse ano.

Mas quem poderia levar no lugar da atriz sueca, você se pergunta? A resposta é Kate Winslet, que levou inesperados BAFTA e Globo de Ouro (que, de novo, vale absolutamente NADA na disputa do Oscar) e pode somar mais uma estatueta esse ano graças à vibe dos votantes em premiar seu eterno par romântico de Titanic em Melhor Ator. Só isso para explicar o porquê dela estar à frente dos incríveis trabalhos de Rooney Mara e Jennifer Jason Leigh, que juntas a Rachel McAdams devem ficar a ver navios no anúncio de domingo. 

Melhor Roteiro Adaptado

  • Brooklin (0)
  • Carol
  • A Grande Aposta
  • Perdido em Marte (F)
  • O Quarto de Jack
TROCA: Nada, tá decente.

Melhor Roteiro Original

  • Divertida Mente (0) (F)
  • Ex Machina
  • Ponte dos Espiões
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Straight Outta Compton
TROCA: Ex Machina por Mistress America.

Se A Grande Aposta e Spotlight no momento estão em segundo na corrida pelo Oscar de Melhor Filme, aqui em Roteiro tudo parece certo para que ambos saiam com alguma coisa. Vitoriosos no WGA (o sindicato de roteiristas), os dois frontrunners tem a seu favor o peso de temas difíceis, se destacando ou pela pesquisa do material em mãos (é fascinante perceber que Spotlight não foi baseado em nenhum livro) ou sua abordagem criativa (transformar a tragédia da crise de 2008 em comédia trabalha a favor de A Grande Aposta).

Quem ameaça suas vitórias? Perdido em Marte é a adaptação de um livro com reconhecido séquito, e sua popularidade pode conduzi-lo à vitória em Roteiro Adaptado; já Roteiro Original tem um rumo mais certo, mas não é lá tão difícil imaginar um "inesperado" anúncio de Straight Outta Compton ou Ponte dos Espiões no domingo.

Melhor Fotografia

TROCA: Sicario - Terra de Ninguém por Creed - Nascido Para Lutar.

Vai rolar recorde em Melhor Fotografia sim, e duplo. Não apenas Emmanuel Lubezki será o primeiro na categoria a faturar três vezes seguidas a estatueta, graças a seu trabalho puramente estético e trabalhado em luz natural em O Regresso, como também teremos a 13° nomeação sem vitória de Roger Deakins, eterno azarado na premiação que este ano concorre pelo bom trabalho em Sicario.

Se há alguém que possa desafiar o cinturão de Chivo? Mad Max e Oito Odiados são os maiores oponentes, mas correm por fora.

Melhor Montagem

TROCA: O Regresso e Spotlight - Segredos Revelados por Creed - Nascido Para Lutar e Os Oito Odiados.

Montagem é conhecido por ser a categoria que define vencedores de Melhor Filme no Oscar, e talvez por isso O Regresso mantenha algum lugar à frente na corrida. O favorito esse ano, porém, é A Grande Aposta, que ganhou no sindicato de montadores e tem sido bastante elogiado no meio. O Despertar da Força, enquanto isso, está feliz por estar entre os indicados e espera parabenizar quem quer vença no domingo.

Melhor Trilha Sonora

  • Carol
  • Os Oito Odiados
  • Ponte dos Espiões
  • Sicario – Terra de Ninguém (0)
  • Star Wars – O Despertar da Força
TROCA: Sicario - Terra de Ninguém por Corrente do Mal.

"Se não for agora, não vai nunca mais" deve estar pensando Ennio Morricone, que com 87 anos é dono de um Oscar honorário mas não de um disputado. Quem está em seu caminho é Thomas Newman, outro compositor que está na fila do prêmio há onze indicações, e talvez John Williams, que fez um retorno arrebatador na franquia Star Wars com O Despertar da Força. Johánn Johánnsson, por outro lado, não tem o mesmo favoritismo do ano passado e amargará o segundo ano consecutivo sem a estatueta.

Melhor Documentário

  • Amy
  • Cartel Land (0)
  • The Look of Silence
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom
TROCA: Amy por The Hunting Ground.

A vitória de Citizenfour no ano passado foi mesmo uma anomalia na categoria, pois em 2016 o páreo de Melhor Documentário mais uma vez se resume a duas produções sobre música. What Happened, Miss Simone? poderia almejar alguma vitória, mas o rodo que Amy passou em todas as outras premiações são prova incontestável de seu favoritismo na disputa. Os outros candidatos, coitados, possuem temas polêmicos demais para sequer serem cotados à estatueta.

Melhor Animação

  • Anomalisa
  • Divertida Mente (F)
  • As Memórias de Marnie
  • O Menino e o Mundo
  • Shaun, O Carneiro (0)
TROCA: Nada, tá ótimo.

Em um ano marcado pela ótima variedade de indicados, Melhor Animação é mais uma categoria com resultado já assegurado do início: Divertida Mente manteve a ponta do início ao fim da temporada e tem tudo para trazer mais um Oscar para a Pixar.

É correto afirmar que O Menino e o Mundo ainda tem alguma chance de virar o jogo e sair vitorioso na noite do dia 28 e que Memórias de Marnie, até o momento o último longa-metragem produzido pelo Estúdio Ghibli (em pausa na produção desde agosto de 2014), tem toda a cara de alguém que pode aparecer de última hora na corrida, mas isso tudo está dissolvido em probabilidades muito baixas para qualquer consideração. De garantido temos que Shaun, O Carneiro está bem atrás dos outros indicados e terminará a cerimônia de mãos vazias.

Melhor Filme Estrangeiro

  • O Abraço da Serpente (Colômbia)
  • Cinco Graças (França) (F)
  • Filho de Saul (Hungria)
  • Guerra (Dinamarca) (0)
  • O Lobo do Deserto (Jordânia)
TROCA: O Abraço da Serpente e Guerra por Que Horas Ela Volta? e Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência.

Desde a última edição do Festival de Cannes, o húngaro Filho de Saul domina as apostas dos especialistas da temporada de premiações como grande favorito ao Oscar de Filme Estrangeiro. É uma consideração que não foi feita à toa: com um formato diferente do habitual e um tema amado pelos votantes da Academia - o Holocausto, eterno símbolo universal de tragédia no mundo - o longa de László Nemes tem ampla vantagem aos outros indicados, ainda mais porque seu maior adversário, o brasileiro Que Horas Ela Volta?, nem conseguiu sobreviver à primeira votação da categoria. Agora, só o francês-que-na-verdade-é-turco Cinco Graças pode representar algum perigo a sua vitória, mas não tendo o mesmo poder de fogo do filme de Anna Muylaert tudo parece estar resolvido aqui.

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay
  • Shok
  • Stutterer

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau: Beyond the Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah
  • A Girl in the River: The Price of Forgiveness
  • Last Day of Freedom

Melhor Animação em Curta-Metragem

A seção de curtas é sempre reservada aos bons e velhos chutes calculados em base nenhuma, mas é válido destacar a disputa entre os animados, esse ano bastante interessante. Não apenas pela ampla variedade temática entre os indicados (temos de ficção-científica a reprodução de guerra entre gregos), Melhor Animação em Curta-Metragem pode marcar a volta de uma vitória da Pixar na categoria, que concorre com Os Heróis de Sanjay e não sai vitorioso por aqui desde 2001. Em seu caminho há o espetacular trabalho de Don Hertzfeldt em World of Tomorrow, que dispara com merecimento ao título.

Melhor Design de Produção

  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria (F)
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões (0)
  • O Regresso
TROCA: A Garota Dinamarquesa, Perdido em Marte e O Regresso por Carol, A Colina Escarlate e Os Oito Odiados.

Páreo complicado, mas esta é uma das categorias que Mad Max deve passar o caminhão. Seus maiores adversários em Design de Produção, O Regresso e Perdido em Marte, também levaram prêmios no ADG Awards (premiação do sindicato de diretores de arte), mas o cuidadoso desenvolvimento visual do universo pós-apocalíptico de George Miller é claramente superior e o torna no óbvio favorito.

Melhor Figurino

  • Carol (F)
  • Cinderela
  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso
TROCA: O Regresso por A Colina Escarlate.

Mais uma categoria técnica, mais uma vitória de Mad Max. Decerto uma maneira da Academia de compensar a desde já injusta derrota para O Regresso no fim da cerimônia.

Melhor Maquiagem e Penteados

  • Mad Max – Estrada da Fúria (F)
  • O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu (0)
  • O Regresso
TROCA: Não precisa, ficou boa.

Se a equipe de maquiagem e penteados da comédia sueca de nome estranho - algo aparentemente comum no país, vide Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência - chegará ao tapete vermelho pronto para o pós-festa, a briga entre Mad Max e O Regresso parece estar resolvida e pendendo para a insana ação pós-apocalíptica. Immortan Joe agradece.

Melhor Canção Original

TROCA: Earned It e Writings on the Wall por Fine on the Outside (As Memórias de Marnie) e See You Again (Velozes e Furiosos 7).

É talvez o ano mais depressão da categoria, com quatro canções para se ouvir na bad e uma de Cinquenta Tons de Cinza, então espere apresentações de cortar os pulsos na cerimônia do dia 28. O prospecto em Canção Original, pelo menos, é até que positivo... se você desconsiderar que a sonolenta música tema do 24° 007 está entre os favoritos. Mas se tudo der certo quem deve levar o Oscar é Lady Gaga e seu hino contra os abusos sexuais em universidades Til It Happens to You, então você pode respirar aliviado.

Melhor Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte (0)
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Tá bom assim.

Melhor Mixagem de Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões (0)
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Ponte dos Espiões por Os Oito Odiados.

Melhores Efeitos Visuais

  • Ex Machina (0)
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte (0)
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Ficou ótimo, relaxa.

Se O Regresso enfrenta a fúria de Mad Max nas categorias técnicas mais "artísticas", nas de som e efeitos seu adversário é Star Wars. Enquanto que nas primeiras o faroeste inibido tem a vantagem de ter faturado os dois troféus na premiação da Audio Society (principal termômetro na área), na última a corrida está mais acirrada e pode ser resumida a um "Ursa mãe enfrenta o planeta Jakku". O Despertar da Força, porém, está à frente em efeitos visuais, e se bobear pode também acabar com o troféu de Mixagem de Som no processo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Crítica: A Garota Dinamarquesa

Relato de época sai prejudicado por abordagem conservadora de relações de controle.

Por Pedro Strazza.

"Os homens se sentem envergonhados em se submeter a uma mulher" afirma a protagonista Gerda Wegener (Alicia Vikander) para um cavalheiro enquanto pinta seu retrato, logo no início de A Garota Dinamarquesa. Com uma piteira no canto da boca e olhar decidido, a pintora demonstra neste momento estar em total controle da situação, dominando todos os movimentos do nitidamente intimidado homem à sua frente com comandos rápidos e incisivos. Mesmo seu cãozinho, que encontra-se descansando ao lado do cavalheiro, atende a suas ordens silenciosas com velocidade, em sujeição similar à do homem.

A cena acima tem propósitos cômicos, porém se torna em um pontapé comparativo inusitado para toda a história ao qual o filme dirigido por Tom Hooper se propõe a ser. Baseado no livro homônimo de David Ebershoff e dedicado a narrar a sequência de acontecimentos que levou o marido de Gerda e também pintor Einar (Eddie Redmayne) a ser um dos primeiros indivíduos a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo e assumir em definitivo sua real identidade, Lili Elbe, o cineasta inglês e a roteirista Lucinda Coxon mostram-se mais interessados no impacto desta drástica mudança na vida da pintora que seu cônjugue, em como ela lida com a troca de gênero do amado esposo ao qual nutria um casamento feliz. A jornada de metamorfose de Einar para Lili ainda é central aos fatos e ele decerto tem o protagonismo, mas a narrativa concentra-se em Gerda e suas emoções.

A grande razão para esta abordagem surge de uma concepção simples e ligada ao controle que a protagonista exibe ao pintar o retrato. Gerda de início é mostrada como o indivíduo dominante na relação, seja nos diálogos sobre seu relacionamento (seu relato em uma festa da maneira como o casal se conheceu é bastante revelador neste ponto) ou na submissão nada disfarçada do marido para ela, mesmo que Einar seja entre os dois o pintor melhor pago naquele momento. Na totalidade de seu primeiro ato, parece faltar a A Garota Dinamarquesa apenas a menção ao velho ditado conservador "Por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher", realizando na tela toda a dimensão de poder existente da frase.

Este parâmetro, porém, começa a ser desmembrado por Hooper a partir do surgimento de Lili, que não só altera a dinâmica dos dois mas também questiona o papel da mulher em tal relação. Pois apesar de ascender profissionalmente quase que em simultâneo à queda da persona Einar, Gerda perde o rumo conforme o marido se transforma diante de seus olhos e assume seu eu verdadeiro, como se seu norte se desfizesse e a deixasse desencontrada na escuridão de uma densa mata. Não há mais em suas mãos alguém que ela possa apoiar e buscar conforto nos momentos mais difíceis, e Vikander incorpora isso na personagem com a sutileza necessária.

O problema desta elaboração estabelecida pelo longa é que ela esbarra em dois obstáculos. O primeiro, claro, é o machismo inerente à sua base de sustentação, que presume a mulher como mera pessoa de bastidores para o marido. Hooper ainda tenta disfarçar isso ao abrir espaço na trama para a vida profissional da protagonista e seu contraste com a do marido, em trajetória oposta à dela, mas fracassa porque no fim Gerda termina o filme já com um novo homem (o negociante de arte vivido por Matthias Schoenaerts) para dar suporte ao invés de realizada no mundo das artes.

O segundo, e mais grave, é que nessa relação de dominância a obra acaba por fazer da transsexualidade um mero canal para essa, negando sua existência como óbvio terceiro elemento na história. Einar se torna Lili menos por ela ser sua real identidade e mais porque esta o possibilita de retomar o "controle" da situação. O hospital onde ela realiza a cirurgia, inclusive, traz uma materialização curiosa desta fórmula equivocada, onde o homem precisa se tornar mulher para ganhar alguma atenção do próximo.

A abordagem é das mais conservadoras, mas não impede que o filme encontre uma ou duas boas ideias para retratar a metamorfose de Lili, a bem da verdade o atributo mais chamativo da produção. Os esforços de Redmayne para passar esta mudança ao espectador da maneira mais sutil e ao mesmo tempo escancarada (a cena na casa de strip é o melhor exemplo dessa metodologia), o ótimo trabalho de figurino de Paco Delgado em exibir a instabilidade emocional passada pela transsexual por suas roupas e o uso dos quadros de paisagem pintados por Einar para no plano elaborar sua sensação de isolamento do mundo funcionam em seus intentos, mas não escondem os problemáticos tratamentos da produção a temas tão importantes e atuais.

Nota: 4/10

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crítica: Brooklin

Saoirse Ronan conduz com os olhos filme de época doce e ciente da própria ingenuidade.

Por Pedro Strazza.

Pelo menos como roteirista, a carreira de Nick Hornby parece fadada a abordar continuamente a temática de relações sob ótica doméstica. O escritor, famoso por livros como Alta Fidelidade, busca no cinema tirar do ato de independência familiar a base para suas histórias, que protagonizadas por jovens mulheres tende a repetir o arco de amadurecimento sob disfarce. No caso de Brooklin, sua terceira incursão no ofício, esta fachada é o drama do imigrante.

Adaptação do livro homônimo de Colm Tóibin, o filme segue Eilis (Saoirse Ronan), jovem irlandesa que no início dos anos 50 sai do pequeno vilarejo onde vive com a mãe e a irmã para desbravar sozinha o novo continente. Alocada na pensão de uma simpática senhora (Julie Walters) na região operária do Brooklin, Nova York, a moça de início sofre com a mudança e a solidão, mas aos poucos começa a se acostumar à nova rotina e criar laços com a cidade.

A princípio, essa dinâmica do roteiro de Hornby sugere estar seguindo os passos da desenvolvida no Era Uma Vez em Nova York de James Gray, em uma versão mais light onde tudo é favorável à protagonista e o "novo mundo" não é tão terrível quanto dá a entender. Conforme os cenários deixam de possuir qualquer importância na narrativa e a fotografia de Yves Bélanger demonstra maior fascínio em decifrar o que se passa nos belos olhos verdes de Ronan, porém, o longa dirigido por John Crowley abandona maiores pretensões para se dedicar ao lado mais sentimental e elementar da história que é o romance nutrido entre Eilis e o garoto italiano Tony (Emory Cohen).

Soa como uma decisão bastante idiota, mas no fundo é esta desambição que dá a Brooklin seus melhores momentos. Ao reconhecer a falta de recurso do texto para abordar um tema mais difícil e adotar o lado mais ingênuo deste como ator principal da trama, o filme ganha espaço para trabalhar o crescimento de sua personagem sem aspiração ao grandioso, descolando-a da realidade proposta e tornando sua história universal e de fácil acesso.

Cabe então a Crowley a tarefa de desarmar o espectador e fazê-lo consciente desta proposta, e a sua principal arma para tal é Saoirse Ronan. A atriz, que já provou em outros trabalhos ser ótima na performance facial (principalmente sob a tutela de Joe Wright, com quem realizou Desejo e Reparação e Hanna), sabe interiorizar os sentimentos vividos por Eilis e ao mesmo tempo exprimi-los de maneira controlada, em uma atuação que envolve o espectador nos altos e baixos da personagem.

É nos olhos, entretanto, que a atuação de Ronan ganha força, pois com a ajuda de Bélanger (disposto a destacá-los quando possível) a atriz parece por eles absorver os fatos que protagoniza ou testemunha com delicadeza impressionante, e sem grande alarde torna isso numa rima narrativa delicada. Mesmo que envolta na entrada na vida adulta, Eilis vê o mundo novo - ou o velho, mais tarde - com o encanto de uma garotinha, e o longa sabe passar isso sem parecer piegas.

O grande erro de Brooklin, na verdade, é tentar retomar o estado original das coisas a partir do terceiro ato, forçando um dilema de verdadeiro lar na protagonista por meio de um triângulo amoroso que nunca se concretiza na figura do personagem de Domhnall Gleeson. A inclusão de um conflito artificial, culpa do material original e (muito provavelmente) da inabilidade de Hornby em conseguir realizar isso com uma mínima naturalidade, não priva o longa desses momentos, tão deliciosos na ingenuidade compreendida e bem executada.

Nota: 6/10

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Crítica: Trumbo - Lista Negra

Comédia baseada em fatos e contestadora do passado soa hesitante em se assumir como gênero, mas se segura no elenco.

Por Pedro Strazza.

A princípio, o paralelo mais natural de ser traçado a Trumbo - Lista Negra é com seu contemporâneo A Grande Aposta. Além de serem dois filmes baseados em livros, comandados por diretores muito mais conhecidos por comédias - Jay Roach ficou famoso por Austin Powers e Entrando Numa Fria, enquanto Adam McKay se fez com O Âncora - e que trazem um grande elenco branco de protagonista, ambos os projetos também se assemelham na maneira que se usam do humor para tratar de momentos inegavelmente bizarros da História da sociedade estadunidense. É como se a comédia fosse a melhor maneira encontrada pelos dois cineastas para retratar tais situações, cujo ridículo parece não ser percebido pelos indivíduos inseridos nestas.

Mas enquanto Mckay enxerga os alicerces da crise de 2008 quase como um documentarista da National Geographic, Roach segue pelo caminho da caricatura em sua abordagem da luta do roteirista Dalton Trumbo contra a Lista Negra de Hollywood. Da postura corporal cínica e bigode ridículo de falso, usados por Bryan Cranston para interpretar o vencedor de 2 Oscar condenado pelo governo por sua afiliação ao partido comunista, aos retratos escrachados de celebridades da época como John Wayne e Kirk Douglas, o longa não disfarça o escárnio com a paranoia gerada pela Guerra Fria e o macartismo, hoje algo absurdo mas na época tão levado a sério por diversos integrantes da alta sociedade hollywoodiana.

E tal qual um verdadeiro teatro de bonecos (que é inclusive mencionado em um dos vários diálogos repletos de punchlines do roteiro de Bruce Cook), não demora para o humor tomar conta da narrativa e da época em que se passa a história. Isso se torna um fenômeno curioso: a gravidade das ações tomadas, o peso das prisões e o horror do ostracismo proporcionado pela indústria àqueles que se recusam a se submeter à ordem é tratada no filme com um certo quê de ironia, incapaz de levar a delicada situação a sério e a encarando mais como uma perturbação de um sistema antes correto - bem resumido na cena no qual um furioso Frank King, interpretado exagerado e com precisão por John Goodman, confronta um dos censores com um taco de beisebol após este tentar intimidá-lo, num destes típicos quebra-tudo da comédia  tradicional.

Se por um lado esse exagero torna-se no melhor aliado do diretor para conduzir sua história, por outro ele também priva Trumbo de momentos dramáticos maiores, algo necessário dado a gravidade dos eventos ilustrados. É uma contradição crucial e o longa a ignora, prosseguindo com dramas familiares e éticos que lentamente empacam a trama ou a tornam episódica de forma involuntária, como na crise do pai-e-filha entre Dalton e Niki (Elle Fanning) ou os conflitos do protagonista com aqueles que o traíram. Tal qual McKay, Roach parece hesitante em realizar de fato uma comédia em cima dos fatos, mas aqui ele busca trazer maior peso ao terceiro ato como forma de compensar seus "equívocos" na interpretação dos eventos.

A sorte do longa é que, se a direção demonstra timidez na hora de se assumir plenamente no humor, seu elenco entende e incorpora o escracho sem nenhum arrependimento. Mesmo os atores e atrizes mais conhecidos pelos papéis "sérios" como Helen Mirren, Diane Lane e Adewale Akinnuoye-Agbaje se divertem na composição caricata de seus personagens, e se unem aos comediantes Louis C.K. e Michael Stuhlbarg tanto nos momentos mais leves como nos graves. Uma química invejável, capaz de segurar as pontas inclusive nos pontos baixos da obra.

A maior força de Trumbo, porém, é Cranston. Sua atuação teatral do roteirista workaholic nunca sai do tom, seja como personagem essencialmente cômico - quando é hostilizado por um desconhecido sendo encharcado por um copo de refrigerante ou quando beija um periquito pousado em seu ombro num close que não esconde de ninguém a maquiagem falsa - ou exigido de drama (a já mencionada relação com a filha mais velha, em ótima dinâmica com Fanning), que apesar de ser escancarada no overacting prova ser tão cuidadosa de composição quanto seus trabalhos mais delicados. Por ser protagonista ou pela qualidade de sua performance, ele termina por ser a melhor representação do teor estabelecido pelo filme, em sua silhueta marcada pelos ombros levantados e as pernas duras uma verdadeira afronta ao sistema e seu ridículo modo de operação.

Nota: 7/10

domingo, 31 de janeiro de 2016

Crítica: Anomalisa

O amor nos tempos da amargura.

Por Pedro Strazza.

Filmes que se usam da animação para contar suas histórias são famosos por possuírem um alto controle sob todo e qualquer tipo de elemento visual que empregam em cena, e isso tende a aumentar quando a metodologia é o stop-motion. Anomalisa, segundo longa-metragem do roteirista Charlie Kaufman como diretor e debute de Duke Johnson na função, segue à risca esse processo, aproveitando o perfeccionismo inerente à técnica para imprimir na narrativa o emocional instável de seu protagonista. A maneira como isso é realizado, porém, não necessariamente traz aquilo que os diretores planejam a princípio.

Baseado na peça de mesmo nome que Kaufman escreveu em 2005, o filme é protagonizado por Michael Stone (David Thewlis), um famoso escritor e analista de serviço de atendimento ao cliente que viaja a Cincinnati para dar uma palestra sobre o tema. Melancólico, Michael sente-se em um mundo uniforme e impessoal, onde todos à sua volta parecem ter a mesma atitude, rosto e voz, mas suas esperanças se reacendem quando conhece Lisa Hesselman (Jennifer Jason Leigh), uma típica garota do interior que parece ser a única a ter alguma personalidade no universo do hotel.

Levemente disfarçada de romance, a temática central da trama é trabalhada pelo filme com sutileza encantadora, e não apenas por causa de seus elementos de efeito mais imediato ao qual tanto se aproveita, como o fato de todos os personagens em cena à exceção do casal protagonista possuírem a mesma identidade visual e serem dublados por Tom Noonan. Kaufman e Johnson são simples na organização espacial dos cenários se comparados aos trabalhos de estúdios como a Aardman ou a Laika, mas se aproveitam muito bem do stop-motion para dar a estes a artificialidade necessária, que compõe o mundo paranoico de Michael nas coisas pequenas (o balde de gelo, a revista que vende chili na capa) e grandes (a sex shop e a divertida uniformidade de seus consolos).

É uma atmosfera delicada e impressionante, mas não tão bem utilizada pelo roteiro. Em muitos momentos soando como uma história curta que foi esticada para ocupar os noventa minutos de um longa-metragem, Anomalisa não demora muito a repetir sem criatividade os maneirismos de Kaufman, que refaz sua estética depressiva em um trabalho de maior controle. E se o maior domínio por um lado permite ao diretor executar seu roteiro como bem entende, ele também impede a obra de alçar voos maiores por estar preso a seus mecanismos.

Neste quesito de dominância, a comparação com Sinédoque, Nova York, primeiro trabalho do cineasta, permite uma maior elucidação do caso. Também um típico trabalho de roteirista no comando, o filme protagonizado por Philip Seymour Hoffman com velocidade se entrega a jogos metalinguísticos complexos, e o eventual descontrole que se sucede na narrativa é o que o permite se expandir em temáticas mais difíceis e existenciais. Em Anomalisa, o sufocamento provoca o contrário, particularizando a trama em temas que apesar de sugeridos nunca chegam a ser explorados de fato pelo roteiro.

E se o particular em outras obras trabalha a favor, aqui ele só ressalta o estranho viés adolescente de sua história de amor. Pois apesar de a todo momento posar e insistir na imagem de ser uma animação adulta - deve ser a primeira vez que um longa em stop-motion abusa tanto de cenas com cigarros, bebidas alcoólicas, partes sexuais do corpo humano e sexo oral - Anomalisa não consegue escapar de questões conhecidas da juventude, como a da busca da identidade na sociedade ou da procura pelo amor perfeito. E Charlie Kaufman, em uma síndrome ou de adolescente que se recusa a crescer ou de adulto amargurado e saudoso dos dilemas juvenis (que em ambos os casos traz fácil identificação com as gerações mais jovens), acaba por se comportar como uma espécie de John Green da depressão.

Nota: 6/10