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domingo, 28 de maio de 2017

Crítica: Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar

Presa aos valores originais, novo capítulo busca renovação sem se reinventar.

Por Pedro Strazza.

Dentro da série Piratas do Caribe, o mar sempre representou uma espécie de paraíso perigoso aos oficiais e piratas que por ele navegam. Se por um lado o oceano que serve de palco aos grandes espetáculos pirotécnicos da franquia carrega um ideal de desprendimento anárquico antagônico às normas e o conforto da terra firme (afinal, nenhum capitão está a salvo de um motim), esta libertação da vida de fora-da-lei marítimo também acaba levando seus indivíduos a caminhos traiçoeiros pelo excesso de selvageria que esta condição acaba por trazer a eles. Não à toa, o cenário da série sempre possui uma maldição nova a ser revelada, que atinge tripulações inteiras em sua ambição de manter-se constantemente pilhando, saqueando e aterrorizando outras embarcações e os descaracteriza de sua humanidade para torná-los em mais uma das lendas do alto-mar.

Este viés de certa forma manteve-se intocado nos quatro primeiros capítulos da série, com os duelos entre piratas e oficiais presumindo estes riscos como parte do processo e do charme da mitologia dos filmes, mas em A Vingança de Salazar esta ideia é posta em cheque. Dirigido pela dupla norueguesa Joachim Rønning e Espen Sandberg, o longa - que serve como uma segunda tentativa de recomeço à saga - busca questionar este eixo primordial da franquia tornando o mar efetivamente em um espaço amaldiçoado no qual seus personagens estão condenados a tentar escapar. É algo a ser notado no MacGuffin da vez: no lugar do tesouro amaldiçoado ou da fonte da vida temos agora o Tridente de Poseidon, um artefato lendário capaz de quebrar todas as maldições do oceano - e, por consequência, trazer a humanidade de volta aos condenados.

É a busca pelo objeto que une as jornadas dos mocinhos e bandidos na trama, com o jovem Henry Turner (Brenton Thwaites) embarcando na procura para tirar de seu pai, Will (Orlando Bloom), a imposição de comandar o Holandês Voador para a eternidade, o vilão Salazar (Javier Bardem, surpreendentemente apagado no papel) querendo se libertar de seu purgatório de estar vivo e morto ao mesmo tempo e Jack Sparrow (Johnny Depp) atrás de um modo de se livrar da má sorte que sempre o persegue. Diferente dos outros capítulos, Rønning e Sandberg optam por trabalhar a história pela dramaturgia pura e simples, abandonando a tendência a sets de ação arrojados  para focar no desenvolvimento de seus personagens como elemento central da aventura. Assim, com a exceção de uma situação de roubo de banco logo no início da história - que mais parece um Velozes e Furiosos à base de cavalos - e outra (hilária) envolvendo uma guilhotina, a dinâmica de ação proposta e aprimorada por Gore Verbinski na primeira trilogia e emulada sem qualquer inspiração por Rob Marshall em Navegando em Águas Misteriosas aos poucos desaparece neste quinto filme para ser substituído por um drama de forte inclinação ao trauma familiar.

A decisão por esta mudança termina por condenar o longa em suas próprias ambições, mas o piripaque que se segue promove ramificações interessantes na abordagem da dupla norueguesa à fórmula consagrada em Piratas do Caribe. Presos à obrigação de atualizar a franquia aos moldes atuais das grandes produções de sucesso de Hollywood, os diretores em parceria com o roteirista Jeff Nathanson agem o tempo todo como verdadeiros malabaristas em A Vingança de Salazar ao terem de equilibrar a tendência dos blockbusters estadunidenses de hoje de pasteurizar todas as tramas ao ideal familiar (a referência mais imediata, claro, sendo Velozes e Furiosos) com a proposta da série de ter a liberdade como modo de vida, dois pólos que sem surpresa se manifestam antônimos um ao outro. Os esforços para conciliar as duas partes se fazem quase como um atrativo à parte do filme, conforme o elemento familiar se torna mais presente na narrativa e seu choque com o próprio ambiente no qual ele se propõe se inserir fica claro.

O resultado, porém, não chega a ser dos mais agradáveis, até porque muitos dos elementos acabam periféricos ou são desperdiçados no abandono da ação decidido pelos diretores. A bem da verdade, este novo Piratas do Caribe segue também na contramão dos antecessores no tocante a expandir o eixo da história, preferindo reciclar elementos que deram certo no passado e fazer somente apostas seguras - o exemplo maior talvez esteja na personagem interpretada por Kaya Scodelario, que se a princípio parece trazer algo novo na sua rebeldia logo se revela (e por consequência se esgota) como mais um aparato de adaptação da série aos novos tempos, e na dispensável cena pós-créditos. Neste meio tempo, o roteiro de Nathanson faz pouco proveito da figura de Salazar, primeiro oficial amaldiçoado da franquia, na mesma medida que torna o oficial vivido por David Wenham (bem como a participação de Paul McCartney) em mais um item de uma aparente forçada checklist de elementos obrigatórios.

Mas todos estes problemas derivam, no fim, do choque de narrativas que acomete A Vingança de Salazar, cujas dificuldades sinceras em conciliar propostas inconciliáveis terminam por remeter a franquia por acidente às suas próprias origens como envelhecida atração de parque de diversões, que buscava na época apenas a renovação para manter o interesse de seu público. As tentativas de adaptação propostas por Rønning e Sandberg são bem intencionadas, mas a imagem do carrossel permanece neste quinto Piratas do Caribe em toda a sua duração, condenando-o a girar e girar sem ir a lugar nenhum e com os mesmos navios de sempre. E para o capitão Jack Sparrow, protagonista maior desta aventura em eterna continuidade (e único personagem deste novo episódio que ao contrário dos outros evita o casamento e encontra no mar um lar), esta maldição pode representar um conforto solitário e perigoso.

Nota: 5/10

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Cinema em 2015: Piores do Ano

O que o cinema produziu de pior em 2015.

Por Pedro Strazza.

Não dá para ser perfeito. Ainda que tenha oferecido filmes maravilhosos, 2015 foi também um ano de muitos erros e equívocos no mundo do cinema. Além dos dez longas que compõem esse maravilhoso ranking de pura chacota e irritação, os últimos 365 dias trouxeram os mais variados tipos de horror nas telonas.

Mas se nos outros anos os motivos para tais resultados escabrosos variaram bastante, em 2015 grande parte destas produções encontrou um denominador comum: a representação feminina. Em dias marcados pela contestação do uso da mulher pelo cinema e outras artes, foi comum ver nos filmes mais fracos e estúpidos a perseverança de uma lógica ultrapassada no assunto. Em grande parte dessas obras, a mulher é reduzida de significação, fetichizada ou, pior, tornada em figura de antagonismo, graças a seus "dotes" capazes de atrair o protagonista masculino ao pecado, sendo relevante nesta última que ela seja posta em "seu devido lugar". Não à toa, pelo menos seis dos dez longa-metragens nomeados ao Piores do Ano de 2015 tem em comum o uso de tais e outros artifícios tão degradantes ao gênero feminino.

Esse não foi o único ponto, porém, que levou tantas produções ao fracasso em seu conteúdo, e uma rápida visita a alguns dos piores filmes hollywoodianos de grande orçamento é capaz de ilustrar alguns dos outros pontos a serem repensados para 2016. Enquanto Quarteto Fantástico mostrou que novas ideias a marcas antigas nem sempre mostram melhores resultados, 007 Contra Spectre provou que impor mudanças drásticas de gênero a um personagem de gênero são capazes de quebrar seu funcionamento; Insurgente e o "último" Jogos Vorazes, por outro lado, evidenciaram o apodrecimento de algumas das estruturas que fazem famosos os filmes voltados para o público jovem, no mesmo passo que Ted 2 reforçou a noção de que repetir a fórmula não funciona sozinho.

De qualquer forma, nenhum destas obras foi tão mal quanto os próximos dez filmes a serem comentados, de longe os piores exemplares do cinema lançados comercialmente no país em 2015. Vamos a eles:

10) Crimes Ocultos

Crimes Ocultos é uma aula básica de roteiro, mas não no bom sentido. O filme, sobre um agente da polícia militar da União Soviética que é rebaixado de seu serviço e tenta solucionar um mistério envolvendo o desaparecimento sistemático de crianças ao longo do território, apela para todas os clichês e maniqueísmos de seu tema, mas não os sabe utilizar a seu favor em nenhum momento. O resultado, alinhado com um inglês em sotaque russo dos piores de Tom Hardy e grande elenco, fazem o longa se tornar um aborrecimento constante, incapaz de atrair o espectador em qualquer momento. 

9) Miss Julie

Montagem da homônima peça do dramaturgo August Strindberg, esta versão de Miss Julie é talvez o melhor exemplo do quão difícil é realizar uma adaptação de uma obra teatral para a telona. Enquanto privilegia atuações nada equilibradas de Jessica Chastain, Colin Farrell e Samantha Morton, a diretora Liv Ullmann não consegue aproveitar dos poucos ambientes que ocupa, e a obra perde qualquer tipo de fluidez. Ao invés disso, o que se vê em cena é uma obra estagnada, que não consegue se utilizar de sua origem teatral nem de disfarçar o seu incômodo cheiro de mofo.

8) O Exterminador do Futuro - Gênesis

Mesmo que venha a ser lembrado como um ano de bons retornos de inúmeras franquias, 2015 também será marcado por este que foi o pior espécime de uma tentativa de reboot trajada de sequência. Não apenas responsável por declarar a morte da série O Exterminador do Futuro e equivocado na reutilização das estruturas clássicas dos dois primeiros (e clássicos) filmes, Gênesis também conseguiu a façanha de diminuir Sarah Connor, uma das personagens mais fundamentais do cinema de ação e da representação da mulher nos anos 90, que aqui se transforma numa menina adulta cujos únicos (e não maiores) conflitos são de relações familiares. Um erro crasso, que nem Emilia Clarke consegue esconder ou defender.

7) Caminhos da Floresta

Rob Marshall já vinha mostrando em seus últimos dois filmes um desgaste evidente de sua fórmula, que preza muito pelo movimento e pouco pelo conteúdo. Nada preparou o público, porém, para seu Caminhos da Floresta, adaptação do musical da Broadway que é disparado uma das obras mais vazias de 2015. Marshall despreza com categoria a temática de desconstrução dos contos de fada da peça e tenta realizar uma homenagem a estes, criando um choque de noções que simplesmente não se sustenta em momento algum.

E sobre as músicas... digamos que se eu ouvir mais um "Into the woods!" ou "AGONY" eu mato alguém.

6) A Entidade 2

Lançado em 2012, o primeiro A Entidade era um verdadeiro espetáculo de terror, que mesmo com seus erros conseguia fazer de sua criatura algo assustador sem mostrá-la. Sua sequência parece ter desaprendido isso. Insistindo constantemente em um processo de iconização de Bagul, o longa de Ciarán Foy se utiliza somente de sustos fáceis e apelo gráfico ao invés de investir em um terror atmosférico, local onde a entidade do título funcionava melhor. O maior erro, porém, é acreditar que revelar mais sobre o ser e seus meios trará melhores oportunidades à continuação, e no fim isso custa caro ao filme e sua tentativa de serialização.

5) À Beira Mar

Angelina Jolie já havia mostrado dificuldades em dirigir esse ano com seu Invencível, mas é com À Beira Mar que a cineasta demonstra estar precisando voltar aos estudos. Ainda que entregue junto do marido Brad Pitt uma boa atuação, Jolie faz aqui um filme modorrento sobre relações íntimas, envolvendo com sutileza machismos estridentes como culpabilidade da mulher e importância do marido ser o líder em situações de crise. E não importa o número de profissionais excelentes que ela se cerque, Angelina ainda continua a entregar as mesmas imagens de antes, quase sem emoção como suas histórias. 

4) A Casa dos Mortos

Para ser honesto, fico surpreso que o found footage continue a ser um subgênero em voga no cinema de terror, mas mais ainda com as maneiras incrivelmente estúpidas pelas quais alguns cineastas tentam reinventá-lo. É o caso de A Casa dos Mortos, que tenta misturar elementos de câmera na mão com cinematografia convencional em uma história típica de casa mal-assombrada. O resultado, óbvio, é desastroso: o longa é incapaz de se estruturar em qualquer uma das abordagens, além de insistir periodicamente em sustos previsíveis ao extremo.

E em nada, absolutamente em nada ajuda tentar enfiar uma reviravolta à la Shyamalan no fim, algo que no fundo reforça mais a superficialidade da produção que qualquer outra coisa.

3) Duas Irmãs, Uma Paixão

Se em Miss Julie o cheiro de mofo era difícil de se ignorar, no representante alemão para o Oscar do ano passado ele é impossível de se evitar. Com uma narrativa involuntariamente pesada, o novelesco Duas Irmãs, Uma Paixão é um desastre de altas proporções, incapaz de fazer algo do drama do título além de conflitos "'Ele é meu!', 'Não, ele é meu!'". Os figurinos e o design de produção tem lá seu charme, mas de que isso serve sozinho?

2) Cinquenta Tons de Cinza

Cinquenta Tons de Cinza é muito mais uma imensa decepção que um filme de pior espécie. Explico: por mais machista, raso e papo interminável de DR que a adaptação do livro de E.L. James seja (e é, não se engane!), o filme de Sam Taylor-Johnson perdeu uma chance inacreditável de romper em 2015 com os tabus puritanos de sexo que por anos envolvem Hollywood e o impedem de ser o berço de novas revoluções sexuais. Em contraponto a isso, o longa entrega uma narrativa coxinha, assustada em mostrar qualquer evidência de relações ou membros sexuais (novamente, é um filme tão machista a ponto de não ter coragem de não mostrar um pênis!). O que poderia ser um filme ambicioso termina uma novela "para donas-de-casa", a adaptação mais fiel em espírito de um romance de Sidney Sheldon. Pena.

Mas sem dúvida o pior filme de 2015 é...

1) Mortdecai - A Arte da Trapaça

É difícil de definir o que é pior em Mortdecai - A Arte da Trapaça. O humor grosseiro e sem qualquer momento de relevância, a atuação desgastada de um Johnny Depp no fundo do poço da carreira, o sexismo implícito combinado à objetificação e antagonização máxima da mulher na forma das curvas de uma Olivia Munn completamente má utilizada... a falta de substância e a chacota implícita do diretor David Koepp com elementos tão ultrapassados quanto a obra são alarmantes. É um filme inadequado, incapaz de ver-se a si mesmo em meio a tanta arrogância e desperdício de um ótimo elenco e que nem consegue fazer jus ao título de comédia.

Pelo menos pra mim, resta torcer para que em 2016 o agora bicampeão da categoria Johnny Depp saia dessa maré de azar e volte à plena forma de antigamente, porque pior que isso (eu espero que) não fica.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Crítica: Aliança do Crime

Whitey Bulger faz o arco clássico dos filmes de gângster, mas nada acrescenta a este.

Embora abandone em Aliança do Crime a temática da cultura country e redneck dos Estados Unidos (tema de seus dois primeiros trabalhos, Coração Louco e Tudo por Justiça), o diretor Scott Cooper continua disposto a humanizar figuras de ojeriza da sociedade. Depois do bêbado e do ex-presidiário, chegou a vez do gângster convicto, aqui o violento criminoso James "Whitey" Bulger, responsável por inúmeras mortes e uma ampla rede de tráfico de drogas no sul de Boston nos anos 70.
Com base no livro escrito por Dick Lehr e Gerard O'Neill, o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth acompanha a rápida ascensão e queda do criminoso, que aproveitou-se de uma parceria feita com o FBI para agir descontroladamente em seu território e derrubar uma família mafiosa. A história é feita nos moldes clássicos e tem poucas novidades aqui: Bulger (Johnny Depp) é retratado como um homem carinhoso e dedicado aos parentes e agressivo e violento nos negócios, começando a misturar as coisas conforme o tempo passa e as mortes se acumulam. Seu relacionamento com o irmão Billy (Benedict Cumberbatch) é o que melhor demonstra isso, tratado por Cooper com todos os tiques de amor fraternal e mostrando sucessivas vezes como o gângster não permite que sua reputação manche a carreira do senador do Massachusetts.
Central à história, essa tarefa de fazer de Whitey um "gente como a gente" se transforma em um arco de manutenção das tradições pela ótica familiar, ancorado pelos atos do protagonista em relação às outras unidades familiares que encontra. Ao passo que seus relacionamentos mais íntimos são perdidos - o filho, a mãe, a esposa (Dakota Johnson) - James se torna mais amargo, incapaz de encontrar algo que substitua em peso e com satisfação o contrapeso para a violência de seu trabalho. Sua agressividade, assim, surge como uma tentativa de manter a ordem das coisas, seja no crime ou no lar, e as cenas na casa do agente e seu contato no FBI John Connolly (Joel Edgerton) são o melhor exemplo disso.
Esse desenvolvimento da trama acaba por não ser suficiente para conduzir sozinha a obra, que no fundo se comporta como o típico filme de atuação. Mas mesmo que possua um elenco gigantesco e extremamente bem qualificado em mãos (além do trio masculino citado e Johnson, a produção conta com nomes como Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Corey Stoll, Juno Temple e Adam Scott), Aliança do Crime mostra dificuldades em empregá-lo da melhor maneira, pondo ótimos atores em posições coadjuvantes - só resta o sotaque a Cumberbatch no papel de Billy - e mais fracos nos papéis principais - Edgerton, por exemplo, faz muito pouco do processo de corrompimento vivido por Connolly e entrega uma atuação próxima do caricato.
Todo o filme, entretanto, é dedicado mesmo a construir Bulger e a atuação de Depp, vendida ao máximo pela produção como seu retorno ao topo depois de uma série de erros. O ator, que surge ameaçador no papel do gângster, entrega uma composição bastante diferente do seu arquétipo de Jack Sparrow que veio entregando nos últimos anos, mas na realidade é ainda uma caricatura tão grande quanto sua maquiagem com toques de Drácula. Algo que, a exceção da comparação com o vampiro, parece repercutir em toda a estrutura e narrativa da obra.

Nota: 5/10

terça-feira, 17 de março de 2015

Crítica: Mortdecai - A Arte da Trapaça

Mais uma bomba para a carreira de Johnny Depp.

Por Pedro Strazza.

O mercado de atores e atrizes de Hollywood é em parte um ciclo de altos e baixos. Quase sempre começando pelo anonimato, o artista começa a ganhar maior reconhecimento do público a cada produção de sucesso que se destaca, mas se se envolve em um trabalho de fracasso sua reputação cai com velocidade. Sair do desconhecimento público, entretanto, é um caminho sem volta, pois a partir daí cada erro cometido na carreira passa a ser julgado pelo espectador.
Um exemplo claro desse "tribunal público cinematográfico" é a trajetória recente de Johnny Depp. Desde sua brilhante parceria com Michael Mann em Inimigos Públicos, o eterno parceiro de Tim Burton naufragou em credibilidade e nos últimos cinco anos se tornou uma caricatura de seu Jack Sparrow, procurando emplacar em todas as produções que participa os trejeitos e maneirismos do protagonista da franquia Piratas do Caribe. Esta necessidade inexplicável do ator foi um tiro no pé em sua carreira, e as tentativas pífias de Depp o deixam cada vez mais distante da badalada reputação de outrora.
Mortdecai - A Arte da Trapaça, um dos mais recentes projetos protagonizados pelo artista, não escapa dessa sua queda vertiginosa; ela a acelera ainda mais. Adaptação da antologia homônima escrita por Kyril Bonfiglioli, o filme dirigido por David Koepp soa como um grito desesperado em busca de risadas, afim de entreter com uma história fraca e repleta de piadas grosseiras vergonhosamente executadas.
O motivo, porém, não passa desapercebido. São notáveis as tentativas de Koepp e do roteirista Eric Aronson em querer fazer da comédia protagonizada pelo bigodudo Mortdecai uma colorida sátira às tramas de investigação no mundo da arte que alguns filmes noir das décadas de 40 e 50 centravam suas atenções. Mas ao contrário de produções como as da franquia da Pantera Cor-de-Rosa, o longa se equivoca em querer fazer de seu protagonista uma figura comercializável e base para uma franquia de potencial lucro ao invés de simples ponto central na temática de seu escárnio.
E se é para tentar tornar um personagem marcante, quem seria a melhor escolha para o papel senão Depp? Com poucos segundos em cena o ator mostra mais uma vez sua predileção por repetir traços de Jack Sparrow, agora feitos para compor seu Mortdecai: Estão lá o jeito bêbado de agir, a maneira como pronuncia as palavras, o comportamento desastrado e outras tantas características do personagem predileto do ator, realizado sem medo algum de parecer similar a seus outros papéis recentes.
Com um elenco invejável e desperdiçado (chega a doer as participações de Ewan McGregor, Gwyneth Paltrow e Paul Bettany) e um ritmo cômico desengonçado ao extremo, Mortdecai - A Arte da Trapaça poderia ter sido filmado facilmente em outra época e condições pela Happy Madison de Adam Sandler, produtora famosa pelas comédias escrachadas e esquecíveis. Mas saber que o projeto acabou nas mãos de um ator três vezes indicado ao Oscar e que ele mesmo assim obteve o mesmo resultado só ressalta o quão para baixo foi a carreira de Johnny Depp nesses últimos tempos.

Nota: 1/10

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Crítica: Caminhos da Floresta

Indecisão geral prejudica caminho de musical.

Por Pedro Strazza.

Assim como em todos os outros gêneros, o musical tem suas próprias maneiras de se diferenciar. Seja pela forma, o estilo de canção ou a apresentação da obra em si, a classe de cinema com forte influência teatral consegue trazer para seus fãs os mais variados encantos, desde que siga fiel à sua metodologia estabelecida e não altere sua estrutura quando lhe bem convir - E apesar de existirem sim exceções à essa regra, estas são, como bem diz o termo que as define, exceções.
Posto desta maneira, os problemas para produções de tal categoria começam quando falta a elas um direcionamento que faça-a seguir seus preceitos e formatos fielmente, e Caminhos da Floresta exemplifica bem a problemática. Adaptação da peça homônima da Broadway escrita por Stephen Sondheim e James Lapine (também roteirista da versão cinematográfica), o filme dirigido por Rob Marshall - já experiente no gênero com o interessante Chicago e o curioso Nine - em vários momentos de sua narrativa parece perdido quanto a que modelo de musical ou conteúdo seguir, como se estivesse tão perdido quanto os personagens que acompanha estão na floresta.
Com a proposta de unir vários contos-de-fada em uma mesma história (terreno este já desbravado por Shrek, Fábulas, Once Upon a Time e O Fantástico Mistério de Feiurinha), Caminhos de Floresta conta a história de um Padeiro (James Corden) e sua Esposa (Emily Blunt), que, para reverter uma maldição lançada pela Bruxa (Meryl Streep, exagerada o suficiente para incomodar, mas não tanto para conseguir indicações a prêmios) e ter um filho, precisam conseguir em um espaço de três dias uma "vaca branca como o leite", uma "capa vermelha como sangue", um "fio de cabelo dourado como milho" e uma "sandália como ouro". E enquanto realizam essa busca desesperada na floresta, o casal acaba se esbarrando nas histórias clássicas de João (Daniel Huttlestone) e o Pé de Feijão, Cinderela (Anna Kendrick), Rapunzel (Mackenzie Mauzy) e Chapéuzinho Vermelho (Lilla Crawford).
Já de início o longa tem problemas sérios para estabelecer o ritmo musical de sua história. Indeciso entre seguir o caminho de somente melodia semelhante ao de Os Miseráveis (e os longos e aborrecidos 14 minutos da canção de abertura bem provam isso) ou o do esquema tradicional do gênero, o filme alterna longos momentos de cantoria com iguais espaços falados, e aos poucos torna sua narrativa enfadonha de se acompanhar. Para piorar, grande parte das músicas entoadas pelo elenco soam muito semelhantes entre si, culpa em parte de seu cuidado quase artificial dado pelo estúdio após as gravações.
O roteiro de Lapine também não é de grande auxílio aqui. Por se tratar de uma produção infantil, o autor da peça parece assumir que o público aceitará quaisquer erros de continuidade impostos e comete vários ao longo da trama, tornando a obra não só infantilizada ao extremo mas também torna-a difícil de ser compreendida em alguns momentos. Incoerências como a dos poderes da Bruxa (que desaparecem em um momento e reaparecem em outro sem qualquer explicação), o feitiço de Cinderela (fugir três noites seguidas do castelo do mesmo jeito?) ou até os feijões mágicos (cuja explicação para enfeiar a personagem de Streep passa batida), afinal, se acumulam desordenadas, e abusam constantemente da lógica do espectador.
Elaborado no visual de forma genérica (talvez para cortar custos da produção), o musical ainda é preso sem explicação a uma tridimensionalidade típica do teatro, reforçada seguidas vezes pelo diretor ao longo da trama por planos que sem explicação abrigam todos os personagens em um mesmo ambiente sem estes perceberem um ao outro. E em conjunto com o roteiro, a direção de Marshall se desequilibra entre o escárnio e a seriedade exacerbada sobre a situação apresentada, resultando em cenas hilárias cujo riso sai não por causa do filme, mas sim por seu ridículo - e aqui gosto de lembrar da apresentação do Príncipe interpretado por Chris Pine, cuja primeira fala é entoada de maneira parecida à de um psicopata.
E é desse ridículo que o longa acaba por entreter, mesmo quando inadvertidamente. Se assumisse esse viés cômico em sua totalidade e abandonasse o tradicionalismo moralista, Caminhos da Floresta talvez obteria maior êxito em sua proposta fabulesca. É um desejo feito, pelo menos, para a próxima tentativa.

Nota: 3/10

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