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sábado, 27 de agosto de 2016

Crítica: Águas Rasas

Blake Lively é perseguida por tubarão em filme de perturbações.

Por Pedro Strazza.

O espectador mais desavisado e que vai ver Águas Rasas à espera de um típico exemplar de shark porn - esse subgênero popularizado com o Tubarão de Steven Spielberg nos anos 70 e que ora ou outra ensaia uma tentativa de retorno - deve sair confuso da sessão, estranhando o fato de simultaneamente ter suas vontades saciadas e frustradas. Se o suspense estrelado por Blake Lively parece seguir as convenções do nicho em grande parte do tempo, ele também busca conceitos que soam muito distintos da lógica "turista indefeso enfrenta tubarão branco", o qual resulta num choque difícil de ser explicado.

Esse choque, a bem da verdade, só é complexo enquanto encarado como tal, pois essa aparente disparidade no longa dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra se faz melhor resolvida como uma medida conciliadora entre duas partes dissonantes no gênero dos filmes de sobrevivência.

A trama simples do roteiro de Anthony Jaswinski, que segue uma surfista (Lively) presa em um recife de uma praia escondida no México por causa de um tubarão que a cerca, brinca afinal com dois extremos. De um lado, temos o inerente viés lúdico de tais produções, considerado "raso" e que tem no horror e nos testes de vida e morte da protagonista seu principal canal para o entretenimento. Do outro, o viés mais profundo e reflexivo ao qual esse tipo de filme tem se prostrado em tempos recentes (O Regresso, Gravidade, Até o Fim, 127 Horas, entre tantos outros exemplos), cujas temáticas complexas e de reflexo com a própria realidade - representados na história pelo trauma da personagem com a morte da mãe e por algumas referências à dificuldade de comunicar-se, seja pelas múltiplas telas das videoconferências ou nas conversas que misturam inglês e espanhol - sustentam tais obras em estruturas mais pretensiosas e alegorias simples enfeitadas de grandiosas.

O que Águas Rasas concebe dentro de sua proposta de suspense, entretanto, não é optar por uma das alternativas, mas sim a de buscar um meio-termo entre as duas. Diretor que em seus últimos trabalhos tem testado limites de tramas batidas (o mistério em ambiente claustrofóbico de Sem Escalas, o gato e rato de Noite Sem Fim), Collet-Serra alia aqui os clichês básicos do terror com tubarão ao drama interiorizado dos longas de sobrevivência, em uma narrativa que acima de tudo quer potencializar o gênero em seus propósitos e questionar a própria visão do espectador sobre este.

Assim, enquanto se dá espaço ao arco de provações da protagonista pela superação de uma tragédia por metáforas que já saem assumidas do princípio em sua cafonice (e além de servir de "Wilson" ao trabalho de Lively, a gaivota de asa machucada até que funciona bem como alívio cômico e de tensão), o filme, principalmente no início para estabelecer dinâmicas, também explora a todo momento os limites de seu lado mais pornográfico, seja nas belas curvas da atriz principal, na violência de suas situações (que a câmera não teme desviar o olhar, como no corpo cortado ao meio ou na cena da sutura com brincos) ou mesmo no cenário exótico e turístico. Nesse meio tempo, os sets de suspense e ação com o tubarão também encontram soluções inventivas para sair do costumeiro (a situação das balas do sinalizador e do uso do nível da água para esconder as vítimas são particularmente intensas), e Lively os aproveita muito bem na composição de uma atuação que equilibra urgência e desespero nas medidas corretas.

Um equilíbrio que reverbera para todo o restante do filme, felizmente. Pois se Águas Rasas é eficaz na tensão oriunda do embate de sua protagonista com uma força da natureza, um tubarão assassino que oscila entre estar e não estar visível, ele também consegue perturbar o espectador em sua relação com o gênero, na posição que toma perante seus clichês e convenções. Um tormento que dentro da proposta das obras de Collet-Serra é muito bem vindo.

Nota: 8/10

domingo, 3 de maio de 2015

Crítica: Noite Sem Fim

Patriarcas em conflito com a realidade.

Por Pedro Strazza.

Nos filmes de máfia, é comum assumir logo de início que na família quem comanda é o pai. Quase uma característica básica do gênero, essa identificação patriarcal dos negócios tem origem no desenvolvimento histórico da sociedade, e presume o homem como mais capacitado que sua mulher e seus filhos para proteger esses e outros parentes próximos dos "perigos de fora". É um viés machista e ultrapassado, que vem sendo combatido já há décadas com a revolução das relações familiares e sua consequente desconstrução em novas maneiras de liderança e organização.

O crime, porém, parece sempre estar atrasado em relação ao mundo, e pelo menos no cinema sua formatação ainda mantém como máxima a afirmação do pai de família, mesmo esta chocando-se com a realidade de tempos em tempos. Saber como esse choque ocorre e se a crise de relações de fato acontece aparecem então como temas interessantes a serem analisados, e Noite Sem Fim os usa em sua trama pronto para tentar entendê-los a fundo.

É de confrontos, afinal, que o longa dirigido por Jaume Collet-Serra constrói sua história, e os três guerreiros que a protagonizam são justamente chefes de família. De um lado temos ambientado em uma premissa de último serviço o típico conflito de Davi e Golias, representados nas respectivas figuras do mercenário Jimmy Conlon (Liam Neeson) e do líder do crime organizado Shawn Maguire (Ed Harris); do outro, o drama geracional e de legado vivido por Conlon com o filho Mike (Joel Kinnaman). E ambos são acionados pelo ato mais indesculpável em questão de genealogia: o assassinato de um filho, o fim prematuro de uma linhagem inteira.

Estabelece-se assim entre os envolvidos um impasse sem maiores saídas senão à da morte, cuja obsolescência é óbvia no panorama contemporâneo desde o primeiro instante de existência. Enquanto Maguire se vê obrigado a autodestruir o resto de seu mundo por ter sua herança destruída em definitivo - mesmo ele sabendo que tal futuro já estava comprometido pelos mesmos erros que havia presenciado nos colegas mortos na juventude -, Mike se vê na ingrata posição de ter de apostar a sobrevivência de sua pessoa e família ao passado renegado, a figura paterna corroída pelo mal ao qual se quer ver tão distante.

O vilão em ambos os casos, claro, é o homem isolado, o mercenário que na busca por algo a mais acabou sem ninguém e vive em desgosto profundo. Dito isso, é curioso perceber como o roteiro de Brad Ingelsby use do antagonista principal como justiceiro, e faz de Jimmy um herói em combate com o próprio passado. Um clichê bem empregado (o detetive interpretado por Vincent D'Onofrio está posicionado sem maior elaboração para apenas lembrar do peso carregado pelo protagonista, por exemplo) e feito para fazer fluir a narrativa, mas que encontra seus momentos - e é perfeito para Neeson reproduzir seu arquétipo recente de figura de lei em busca da redenção.

Embora tenha seus problemas na hora de contar sua história - a fotografia de Martin Ruhe parece não entender como lidar com espaços para a ação, a exemplo das cenas envolvendo banheiros -, Noite Sem Fim desempenha bem seu papel de bater de frente o tradicional com os novos tempos. Não à toa, o super mercenário feito por Common contratado para matar pai e filho surge robótico e com os aparatos mais modernos, pronto para dar cabo do passado e abrir espaço para o futuro, seja esse qual for.

Nota: 7/10

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