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segunda-feira, 12 de junho de 2017

Crítica: A Múmia

Nova versão do monstro serve ao Dark Universe como teste de audiência.

Por Pedro Strazza.

Estabelecido pela Universal como o grande início do chamado Dark Universe (a franquia que promete unir todos os clássicos monstros do estúdio sob uma mesma narrativa), a terceira encarnação de A Múmia nos cinemas surge dotada de um senso de caos muito particular dentro da estrutura que busca basear sua premissa. É um caos não intencional mas sim acidental, conforme vê-se em cena uma profusão de tramas e subtramas que preferem apontar para caminhos opostos ao invés de se construírem uma sob a outra, buscando inflar uma história aparentemente muito simples como um grande épico de ação que justifique este início "glorioso" do universo almejado pelo estúdio.

Se este movimento de inchaço soa a princípio como um reajuste de escala honesto - seria difícil assumir o tom grandioso que a produção propõe para o futuro se não houvesse esta disposição logo do início - ele no fim é o elemento central da implosão que ocorre na produção comandada por Alex Kurtzman, cuja demanda por múltiplas histórias de propósitos muito diferentes termina por fragmentar o projeto em cacos incompreensíveis. Na falta de um termo melhor, a nova Múmia se comporta como o típico filme de produtor, onde sobram ideias e falta uma execução capaz de conciliar todas estas em prol de um eixo que as verbalize e as ordene, resultando por sua vez em uma obra que mira todas as vertentes para ver se qualquer uma destas agrada o público.

Assim, não chega a ser uma surpresa que a produção soe como um grande (e ensurdecedor) teste de audiência, com o agravante de um déficit de atenção nítido que o impeça de esboçar um tom mínimo para os acontecimentos em cena. Kurtzman mira aqui uma espécie de grande colagem de elementos que deram certo na franquia no passado com outros que funcionam no cenário atual, alinhando sob uma mesma trama o horror da Múmia original de 1932, o clima de aventura despretensiosa dos longas dirigidos por Stephen Sommers e a fórmula cada vez mais rígida dos filmes de ação estrelados por Tom Cruise - que aqui parece disputar espaço ao invés de compartilhar o protagonismo com a múmia da vez, a amaldiçoada princesa Ahmanet (Sofia Boutella). O resultado, porém, está longe de ser um caldeirão efervescente de referências pop e se aproxima do pastiche mal planejado, com a narrativa se alternando entre humores muito distintos - todas as cenas envolvendo o personagem de Jake Johnson, por exemplo, soam deslocadíssimas - e sendo incapaz de assumir à trama um próprio.

Essa incapacidade da produção também parte do roteiro escrito por David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Kussman, cujo malabarismo entre uma história localizada e outra maior imprisiona o longa em uma premissa grandiloquente, simples e ao mesmo tempo genérica de ação. Se esta nova versão passa grande parte do tempo inoperante, é porque o filme não consegue entender o funcionamento (e, portanto, o potencial) da própria obra que constrói, optando por priorizar o aumento do escopo para depois pensar a lógica da narrativa. Quem mais sofre neste processo é o embate central entre Ahmanet e o mercenário vivido por Cruise, cuja dinâmica de maldição e amaldiçoado aos poucos se deturpa a uma versão risível onde o soldado destinado a incorporar uma criatura maligna precisa decidir entre usar os poderes para bem ou mal, representados respectivamente por Ahmanet e a personagem de Annabelle Wallis - uma trama típica de super-heróis, outro ingrediente perdido neste rocambole de referências sem qualquer consistência. Tudo isso ocorre enquanto o Dr. Jekyll de Russell Crowe vive a anunciar e reanunciar o seu mundo de "deuses e monstros" ao espectador, como se isso fosse suficiente para normalizar tudo e anular todas as contradições emergentes.

Sobram ainda mais elementos nessa tentativa energúmena de ativar uma grande narrativa que envolva todos os monstros do estúdio - temos os acenos típicos às outras franquias no laboratório de Jekyll, as infames múmias zumbis e a estranha sensação de que tudo possa ser uma gigantesca emulação mal executada de Missão: Impossível -, mas a bem da verdade tudo não passa de uma farsa sem disfarces. Pois ainda que busque um ambicioso futuro e tente trazer sua criatura ao presente, o que esta A Múmia realiza, presa aos instintos flutuantes do mercado, é justamente o contrário.

Nota: 2/10

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crítica: Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Reinício da franquia refaz os passos do original em tom de homenagem.

Por Pedro Strazza.

É preciso conhecer um pouco da história que se passa por trás da trama Jurassic Park e de suas duas primeiras sequências antes de buscar entender os erros e acertos de Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros. Não apenas querendo traçar verossimilhanças com o filme de 1993 para reintroduzir a franquia às novas gerações, o quarto capítulo da série sobre dinossauros aposta na repetição da estrutura simbológica do consagrado longa baseado na obra de Michael Crichton, pois acredita que este é o único caminho possível para realizar os mesmos feitos do original.
Suas crenças não são infundadas. Ainda que seu sucesso imediato seja fruto de uma combinação de fatores, Jurassic Park marcou sua época por trazer em seu cerne uma discussão muito bem trabalhada sobre os riscos do avanço da humanidade, travestido na história sob a forma de um conto de deslumbramento com o horror. O retorno dos dinossauros ao planeta pelas mãos da ciência e seu uso para fins mesquinhos, afinal, trazem no fundo uma identificação natural com as descobertas da humanidade, e o posterior descontrole do parque para as forças naturais solidifica o teor da mensagem passada por Spielberg no filme - coisa que as duas continuações seguintes infelizmente não conseguiram levar adiante por estarem muito mais interessadas em dar prosseguimento à trama com ênfase no destino de seus personagens.
Consciente disso, Jurassic World segue pelo caminho mais óbvio: aproveitar de seu caráter de recomeço da série e traçar os mesmo caminhos do original. Estão lá os personagens símbolo e marcados pelo estereótipo, as reviravoltas de cunho de terror, a formação da família em meio ao caos... o longa dirigido por Colin Trevorrow - alguém que já provou saber fazer bem o arroz-feijão de gênero no fraco Sem Segurança Nenhuma - guia-se bastante na adaptação do livro de Crichton, e aqui e ali atualiza alguns de seus elementos mais temporais e insere mudanças com resultados distintos.
Na trama, o parque dos dinossauros finalmente foi aberto ao público e garantiu sucesso absoluto em seus primeiros anos de funcionamento. Atrás de novas maneiras de aumentar a renda e o interesse dos pagantes (agora muito mais acostumados com a presença dos animais), a equipe de pesquisa liderada pela administradora do parque Claire (Bryce Dallas Howard) e o doutor Henry Wu (B.D. Wong) criam o Indominus rex, primeiro dinossauro que é fruto da combinação genética de várias criaturas jurássicas. Mas o ser escapa de seu cativeiro, e começa a criar um rastro de destruição e morte por onde passa na ilha.
É logo nesse prenúncio que se percebe a principal adição feita por Trevorrow à franquia. Agora, além de servirem como símbolo das forças naturais, os dinossauros também são representação do próprio ser humano na figura do grande e letal antagonista, que por onde passa só gera a matança e a perturbação na ordem natural das coisas. A alegoria é básica, mas funciona no roteiro escrito a quatro mãos, que consegue conduzir seu crescimento até um explosivo e extremamente satisfatório clímax no terceiro ato.
Mas se nas atrações há novidades, nos humanos as regras do primeiro longa prevalecem. Culpa em parte da própria estratégia de repetição, Jurassic World não se arrisca em trazer novos temas em seus personagens, que se bastam em refazer as discussões do filme de 93 e cumprir seus papéis representativos, seja este o do olhar infantil sobre a criação ou do poder destrutivo da cobiça. As únicas mudanças que o diretor faz aqui são circunstanciais, como denotar mais a quebra da família nos tempos modernos (os pais das crianças estão se separando), dar força masculinizante de liderança ao teorista do caos - o Owen Grady de Chris Pratt é no fundo uma repetição do Ian Malcolm de Jeff Goldblum - ou mudar o gênero do personagem em fuga de seu relógio biológico - algo que se com um homem passava pouco desapercebido, com uma mulher definitivamente emite um machismo involuntário.
De resto, Jurassic World é um filme bastante reverencialista, inserindo desde a fotografia aos cenários os mais variados tipos referências à franquia e seus elementos mais marcantes - Pessoalmente, o que mais interessou foi a presença do livro de Malcolm na mesa do personagem de Jake Johnson. Uma atitude honesta, vale dizer, já que estar consciente da importância do original e respeitar suas fundações é um bom começo para quem busca o reinício da franquia como uma criança em visita às ruínas de um parque abandonado pelo tempo.

Nota: 8/10