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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Bolão Oscar 2016


Quem leva, quem perde e quem pode surpreender na premiação de domingo?

Por Pedro Strazza.

Está chegando a hora! No próximo domingo, dia 28 de fevereiro de 2016, acontece no Dolby Theater em Los Angeles a 88° cerimônia de entrega dos Academy Awards, também conhecido como Oscar 2016! E entre piadas feitas pelo apresentador Chris Rock e homenagens a vários membros da indústria cinematográfica estadunidense, as grandes questões permanecem: Quem ficará com a estatueta? Será que Leonardo DiCaprio leva dessa vez? E pelamor, será que a cerimônia dessa vez será minimamente interessante a ponto de não fazer adormecer o espectador casual?

Sobre a última não tenho como opinar, mas nas duas primeiras perguntas talvez possa ajudar. Pelo quarto ano consecutivo, O Nerd Contra-Ataca orgulhosamente apresenta o Bolão Oscar, que tenta ajudar a sua lista de apostas dos vencedores e prever os diferentes cenários possíveis da premiação. Também trouxemos de volta este ano o TROCA, nossa ferramenta justiceira que busca substituir os indicados que não sabem o que fazem na lista por outros mais interessantes e melhores.

Vamos aos indicados?

P.S. Importante: Foram desconsiderados do TROCA filmes que não foram assistidos por minha pessoa e todos os curtas, como Ave Maria, Bear Story, Body Team 12, Cartel Land, O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, Chau: Beyond the Lines, Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah, Day One, Everything Will Be Okay, A Girl in the River: The Price of Forgiveness, Os Heróis de Sanjay, Prologue, Juventude, Last Day of Freedom, O Lobo do Deserto, The Look of Silence, Racing Extinction, Shok, Straight Outta Compton - A História do N.W.A., Stutterer, We Can’t Live Without Cosmos, Winter on Fire - Ukraine's Fight For Freedom e World of Tomorrow. 

Legenda

  • Negrito: O Favorito
  • Itálico: Ainda Disputa
  • (0): Sem Chances
  • (F): Favorito Pessoal

Melhor Filme

TROCA: Brooklin, O Quarto de Jack, O Regresso e Spotlight - Segredos Revelados por Carol, Divertida Mente, Os Oito Odiados e Magic Mike XXL.

Parece brincadeira escrever isso mais uma vez, mas a cada ano que passa a disputa pelo Oscar de Melhor Filme está ficando cada vez mais difícil. Esse ano, a briga não está apenas entre dois filmes, mas sim TRÊS, com O Regresso de Alejandro González Iñárritu disparando como favorito no último minuto. O faroeste no armário do mexicano pode não ter levado os prêmios dos sindicatos de produtores e atores de Hollywood ou entrado na lista de melhores do ano da American Film Institute (AFI), mas suas vitórias no DGA Awards e no BAFTA muito provavelmente deram o gás que ele precisava na corrida pela estatueta mais desejada.

Em seu caminho, o longa tem a comédia sobre a crise de 2008 A Grande Aposta, que levou o PGA Awards (prêmio do sindicato de produtores), e o drama sobre jornalismo Spotlight, vitorioso no SAG Awards (prêmio do sindicato de atores) e no início da temporada o principal candidato a Melhor Filme. O problema é que ambos perderam a força na disputa, o que possibilitou a situação instável que é o final da corrida desse ano pelo principal prêmio da indústria cinematográfica estadunidense.

A bem da verdade, tudo pode acontecer na categoria, incluindo reviravoltas protagonizadas por Mad Max, Ponte dos Espiões e Perdido em Marte, grandes produções que tem o perfil de agrado aos votantes. O que soa ser mesmo improvável a essa altura da votação são vitórias de Brooklin e O Quarto de Jack, duas produções menores que chegam a essa e outras categorias graças ao talento de suas atrizes protagonistas. Mas isso a gente vê daqui a pouco.

Melhor Direção

  • Adam McKay (A Grande Aposta)
  • Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
  • George Miller (Mad Max – Estrada da Fúria) (F)
  • Lenny Abrahamson (O Quarto de Jack) (0)
  • Thomas McCarthy (Spotlight – Segredos Revelados)
TROCA: Adam McKay, Alejandro González Iñárritu, Lenny Abrahamson e Thomas McCarthy por Quentin Tarantino (Os Oito Odiados), Ryan Coogler (Creed - Nascido Para Lutar), Steven Spielberg (Ponte dos Espiões) e Todd Haynes (Carol).

George Miller é de longe o melhor dos candidatos, mas 2016 promete mais uma vitória de Iñárritu em Melhor Diretor. Pesa em seu favor a vitória inesperada no DGA e a publicidade em cima das dificuldades climáticas que ele e sua produção passaram para filmar O Regresso, bem o tipo de coisa que os votantes da Academia se encantam com relativa facilidade. Quem talvez surpreenda na noite (além do próprio Miller, que também sofreu para fazer seu Mad Max, mas não vendeu seu filme assim) é Adam McKay, com chances caso seu A Grande Aposta seja no fim o grande vencedor do prêmio de Melhor Filme.

Do outro lado da corrida, Lenny Abrahamson, que surpreendeu todo mundo ao roubar o lugar de Ridley Scott na categoria, está tranquilo em ser o azarão deste ano, contente talvez em ter chegado até onde chegou.

Melhor Ator

TROCA: Todo mundo por Jacob Tremblay (O Quarto de Jack), Michael B. Jordan (Creed - Nascido Para Lutar), Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados), Tom Hanks (Ponte dos Espiões) e Tom Hardy (Mad Max - Estrada da Fúria).

No que talvez seja o ano mais fraco da categoria, o Oscar de Melhor Ator enfim irá para as mãos de Leonardo DiCaprio. Ele ganhou tudo: SAG, BAFTA, prêmios dos críticos, Globo de Ouro... aparentemente não há obstáculos a serem encarados pelo ator de 41 anos para na quinta tentativa levar a estatueta para casa.

Ainda assim, na possibilidade bastante remota do prêmio não ir para DiCaprio (tipo 0,001% de chance, sério), quem está na rebarba é Michael Fassbender, cuja atuação em Steve Jobs deve angariar alguns dos votos contrários à escolha principal. Já Bryan Cranston, que entregou a melhor atuação dentre os cinco, vai comparecer à cerimônia apenas à espera de um bom espetáculo de Chris Rock.

Melhor Atriz

  • Brie Larson (O Quarto de Jack) (F)
  • Cate Blanchett (Carol)
  • Charlotte Rampling (45 Anos) (0)
  • Jennifer Lawrence (Joy – O Nome do Sucesso)
  • Saoirse Ronan (Brooklin)
TROCA: Cate Blanchett, Charlotte Rampling e Jennifer Lawrence por  Charlize Theron (Mad Max - Estrada da Fúria), Juliette Binoche (Acima das Nuvens) e Rooney Mara (Carol).

Outro páreo que parece definido é o de Melhor Atriz, de cabo a rabo liderado por Brie Larson. A atriz levou o SAG e o BAFTA, além de ter sido responsável por puxar as outras indicações de O Quarto de Jack. Sua maior concorrente no caso é Saoirse Ronan, outra que trouxe mais nomeações para o filme que protagoniza e tem sido a alternativa em alguns circuitos de críticos e premiações pequenas.

Agora, quem está realmente sem chances na categoria é Charlotte Rampling. Suas polêmicas declarações sobre a questão do #OscarsSoWhite fizeram a atriz perder grande parte dos poucos votos que tinha, quebrando a simpatia de sua figura de azarona na corrida.

Melhor Ator Coadjuvante

  • Christian Bale (A Grande Aposta)
  • Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos Revelados) (0)
  • Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
  • Sylvester Stallone (Creed – Nascido Para Lutar) (F)
  • Tom Hardy (O Regresso)
TROCA: Christian Bale e Mark Ruffalo por Idris Elba (Beasts of No Nation) e Walton Goggins (Os Oito Odiados).

Melhor Ator Coadjuvante está um páreo interessante esse ano. A princípio, Mark Rylance estava na frente, com Christian Bale e Sylvester Stallone um pouco atrás. No SAG, Rylance e Bale foram indicados e Stallone acabou de fora, mas quem levou o prêmio-termômetro no fim foi Idris Elba, ausente no Oscar sem motivo maior além de "seu filme ser da Netflix".

Dessa forma, a estatueta parece estar nas mãos do eterno Rocky Balboa e Rambo, que tem a seu favor o carinho dos votantes por sua pessoa e sua fantástica performance na sétima interpretação do Garanhão Italiano. Considerando que Rylance e Bale perderam fôlego na corrida, seu maior opositor no momento é Tom Hardy, outro de fora do SAG e que tem como surpreender no fim. Mark Ruffalo, coitado, ficou pra trás há um bom tempo.

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
  • Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
  • Kate Winslet (Steve Jobs)
  • Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados) (0)
  • Rooney Mara (Carol) (F)
TROCA: Alicia Vikander, Rachel McAdams e Rooney Mara por Cate Blanchett (Carol), Jada Pinkett Smith (Magic Mike XXL) e Kristen Stewart (Acima das Nuvens).

Alicia Vikander é a óbvia favorita aqui (levou a cota de prêmios necessários para garantir este status), mas o Oscar de Atriz Coadjuvante tem todo o cheiro de surpresa de última hora esse ano.

Mas quem poderia levar no lugar da atriz sueca, você se pergunta? A resposta é Kate Winslet, que levou inesperados BAFTA e Globo de Ouro (que, de novo, vale absolutamente NADA na disputa do Oscar) e pode somar mais uma estatueta esse ano graças à vibe dos votantes em premiar seu eterno par romântico de Titanic em Melhor Ator. Só isso para explicar o porquê dela estar à frente dos incríveis trabalhos de Rooney Mara e Jennifer Jason Leigh, que juntas a Rachel McAdams devem ficar a ver navios no anúncio de domingo. 

Melhor Roteiro Adaptado

  • Brooklin (0)
  • Carol
  • A Grande Aposta
  • Perdido em Marte (F)
  • O Quarto de Jack
TROCA: Nada, tá decente.

Melhor Roteiro Original

  • Divertida Mente (0) (F)
  • Ex Machina
  • Ponte dos Espiões
  • Spotlight – Segredos Revelados
  • Straight Outta Compton
TROCA: Ex Machina por Mistress America.

Se A Grande Aposta e Spotlight no momento estão em segundo na corrida pelo Oscar de Melhor Filme, aqui em Roteiro tudo parece certo para que ambos saiam com alguma coisa. Vitoriosos no WGA (o sindicato de roteiristas), os dois frontrunners tem a seu favor o peso de temas difíceis, se destacando ou pela pesquisa do material em mãos (é fascinante perceber que Spotlight não foi baseado em nenhum livro) ou sua abordagem criativa (transformar a tragédia da crise de 2008 em comédia trabalha a favor de A Grande Aposta).

Quem ameaça suas vitórias? Perdido em Marte é a adaptação de um livro com reconhecido séquito, e sua popularidade pode conduzi-lo à vitória em Roteiro Adaptado; já Roteiro Original tem um rumo mais certo, mas não é lá tão difícil imaginar um "inesperado" anúncio de Straight Outta Compton ou Ponte dos Espiões no domingo.

Melhor Fotografia

TROCA: Sicario - Terra de Ninguém por Creed - Nascido Para Lutar.

Vai rolar recorde em Melhor Fotografia sim, e duplo. Não apenas Emmanuel Lubezki será o primeiro na categoria a faturar três vezes seguidas a estatueta, graças a seu trabalho puramente estético e trabalhado em luz natural em O Regresso, como também teremos a 13° nomeação sem vitória de Roger Deakins, eterno azarado na premiação que este ano concorre pelo bom trabalho em Sicario.

Se há alguém que possa desafiar o cinturão de Chivo? Mad Max e Oito Odiados são os maiores oponentes, mas correm por fora.

Melhor Montagem

TROCA: O Regresso e Spotlight - Segredos Revelados por Creed - Nascido Para Lutar e Os Oito Odiados.

Montagem é conhecido por ser a categoria que define vencedores de Melhor Filme no Oscar, e talvez por isso O Regresso mantenha algum lugar à frente na corrida. O favorito esse ano, porém, é A Grande Aposta, que ganhou no sindicato de montadores e tem sido bastante elogiado no meio. O Despertar da Força, enquanto isso, está feliz por estar entre os indicados e espera parabenizar quem quer vença no domingo.

Melhor Trilha Sonora

  • Carol
  • Os Oito Odiados
  • Ponte dos Espiões
  • Sicario – Terra de Ninguém (0)
  • Star Wars – O Despertar da Força
TROCA: Sicario - Terra de Ninguém por Corrente do Mal.

"Se não for agora, não vai nunca mais" deve estar pensando Ennio Morricone, que com 87 anos é dono de um Oscar honorário mas não de um disputado. Quem está em seu caminho é Thomas Newman, outro compositor que está na fila do prêmio há onze indicações, e talvez John Williams, que fez um retorno arrebatador na franquia Star Wars com O Despertar da Força. Johánn Johánnsson, por outro lado, não tem o mesmo favoritismo do ano passado e amargará o segundo ano consecutivo sem a estatueta.

Melhor Documentário

  • Amy
  • Cartel Land (0)
  • The Look of Silence
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom
TROCA: Amy por The Hunting Ground.

A vitória de Citizenfour no ano passado foi mesmo uma anomalia na categoria, pois em 2016 o páreo de Melhor Documentário mais uma vez se resume a duas produções sobre música. What Happened, Miss Simone? poderia almejar alguma vitória, mas o rodo que Amy passou em todas as outras premiações são prova incontestável de seu favoritismo na disputa. Os outros candidatos, coitados, possuem temas polêmicos demais para sequer serem cotados à estatueta.

Melhor Animação

  • Anomalisa
  • Divertida Mente (F)
  • As Memórias de Marnie
  • O Menino e o Mundo
  • Shaun, O Carneiro (0)
TROCA: Nada, tá ótimo.

Em um ano marcado pela ótima variedade de indicados, Melhor Animação é mais uma categoria com resultado já assegurado do início: Divertida Mente manteve a ponta do início ao fim da temporada e tem tudo para trazer mais um Oscar para a Pixar.

É correto afirmar que O Menino e o Mundo ainda tem alguma chance de virar o jogo e sair vitorioso na noite do dia 28 e que Memórias de Marnie, até o momento o último longa-metragem produzido pelo Estúdio Ghibli (em pausa na produção desde agosto de 2014), tem toda a cara de alguém que pode aparecer de última hora na corrida, mas isso tudo está dissolvido em probabilidades muito baixas para qualquer consideração. De garantido temos que Shaun, O Carneiro está bem atrás dos outros indicados e terminará a cerimônia de mãos vazias.

Melhor Filme Estrangeiro

  • O Abraço da Serpente (Colômbia)
  • Cinco Graças (França) (F)
  • Filho de Saul (Hungria)
  • Guerra (Dinamarca) (0)
  • O Lobo do Deserto (Jordânia)
TROCA: O Abraço da Serpente e Guerra por Que Horas Ela Volta? e Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência.

Desde a última edição do Festival de Cannes, o húngaro Filho de Saul domina as apostas dos especialistas da temporada de premiações como grande favorito ao Oscar de Filme Estrangeiro. É uma consideração que não foi feita à toa: com um formato diferente do habitual e um tema amado pelos votantes da Academia - o Holocausto, eterno símbolo universal de tragédia no mundo - o longa de László Nemes tem ampla vantagem aos outros indicados, ainda mais porque seu maior adversário, o brasileiro Que Horas Ela Volta?, nem conseguiu sobreviver à primeira votação da categoria. Agora, só o francês-que-na-verdade-é-turco Cinco Graças pode representar algum perigo a sua vitória, mas não tendo o mesmo poder de fogo do filme de Anna Muylaert tudo parece estar resolvido aqui.

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay
  • Shok
  • Stutterer

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau: Beyond the Lines
  • Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah
  • A Girl in the River: The Price of Forgiveness
  • Last Day of Freedom

Melhor Animação em Curta-Metragem

A seção de curtas é sempre reservada aos bons e velhos chutes calculados em base nenhuma, mas é válido destacar a disputa entre os animados, esse ano bastante interessante. Não apenas pela ampla variedade temática entre os indicados (temos de ficção-científica a reprodução de guerra entre gregos), Melhor Animação em Curta-Metragem pode marcar a volta de uma vitória da Pixar na categoria, que concorre com Os Heróis de Sanjay e não sai vitorioso por aqui desde 2001. Em seu caminho há o espetacular trabalho de Don Hertzfeldt em World of Tomorrow, que dispara com merecimento ao título.

Melhor Design de Produção

  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria (F)
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões (0)
  • O Regresso
TROCA: A Garota Dinamarquesa, Perdido em Marte e O Regresso por Carol, A Colina Escarlate e Os Oito Odiados.

Páreo complicado, mas esta é uma das categorias que Mad Max deve passar o caminhão. Seus maiores adversários em Design de Produção, O Regresso e Perdido em Marte, também levaram prêmios no ADG Awards (premiação do sindicato de diretores de arte), mas o cuidadoso desenvolvimento visual do universo pós-apocalíptico de George Miller é claramente superior e o torna no óbvio favorito.

Melhor Figurino

  • Carol (F)
  • Cinderela
  • A Garota Dinamarquesa
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso
TROCA: O Regresso por A Colina Escarlate.

Mais uma categoria técnica, mais uma vitória de Mad Max. Decerto uma maneira da Academia de compensar a desde já injusta derrota para O Regresso no fim da cerimônia.

Melhor Maquiagem e Penteados

  • Mad Max – Estrada da Fúria (F)
  • O Centenário que Fugiu Pela Janela e Desapareceu (0)
  • O Regresso
TROCA: Não precisa, ficou boa.

Se a equipe de maquiagem e penteados da comédia sueca de nome estranho - algo aparentemente comum no país, vide Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência - chegará ao tapete vermelho pronto para o pós-festa, a briga entre Mad Max e O Regresso parece estar resolvida e pendendo para a insana ação pós-apocalíptica. Immortan Joe agradece.

Melhor Canção Original

TROCA: Earned It e Writings on the Wall por Fine on the Outside (As Memórias de Marnie) e See You Again (Velozes e Furiosos 7).

É talvez o ano mais depressão da categoria, com quatro canções para se ouvir na bad e uma de Cinquenta Tons de Cinza, então espere apresentações de cortar os pulsos na cerimônia do dia 28. O prospecto em Canção Original, pelo menos, é até que positivo... se você desconsiderar que a sonolenta música tema do 24° 007 está entre os favoritos. Mas se tudo der certo quem deve levar o Oscar é Lady Gaga e seu hino contra os abusos sexuais em universidades Til It Happens to You, então você pode respirar aliviado.

Melhor Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte (0)
  • O Regresso
  • Sicario – Terra de Ninguém
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Tá bom assim.

Melhor Mixagem de Som

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte
  • Ponte dos Espiões (0)
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Ponte dos Espiões por Os Oito Odiados.

Melhores Efeitos Visuais

  • Ex Machina (0)
  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • Perdido em Marte (0)
  • O Regresso
  • Star Wars – O Despertar da Força (F)
TROCA: Ficou ótimo, relaxa.

Se O Regresso enfrenta a fúria de Mad Max nas categorias técnicas mais "artísticas", nas de som e efeitos seu adversário é Star Wars. Enquanto que nas primeiras o faroeste inibido tem a vantagem de ter faturado os dois troféus na premiação da Audio Society (principal termômetro na área), na última a corrida está mais acirrada e pode ser resumida a um "Ursa mãe enfrenta o planeta Jakku". O Despertar da Força, porém, está à frente em efeitos visuais, e se bobear pode também acabar com o troféu de Mixagem de Som no processo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Crítica: 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi

Relato panfletário de Michael Bay refaz contradições ideológicas em clima de histeria.

Por Pedro Strazza.

Por ser a nação mais poderosa do mundo desde o fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos tendem a refletir continuamente sobre seu próprio poder nas artes, e no cinema isso se dá bastante em seus filmes de guerra. Os ideais do que caracteriza o famoso espírito americano, imperialista e nacionalista por natureza, já foram desconstruídos em diversas produções sobre todo tipo de conflito internacional protagonizado pelo país, da urgência de reafirmação dos valores no combate aos nazistas à crítica sem pudor desses na Guerra do Vietnã.

As recentes intromissões estadunidenses nos conflitos do Oriente Médio, porém, parecem ter despertado um novo tipo de discussão sobre a temática, que buscam expor a dualidade ideológica da nação em tempos posteriores à crise, criadas no contínuo financiamento americano ao combate bélico mesmo com a pouca disponibilidade de recursos. Das obras mais conhecidas pelo público, temos o Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura de Kathryn Bigelow, que tratam da questão como um vício pela adrenalina, e o polêmico Sniper Americano de Clint Eastwood, que aborda essas contradições como uma metodologia do próprio sistema abatido.

Em termos de aproximação, 13 Horas - Os Soldados Secretos de Benghazi encontra-se bastante alinhado com o último. A adaptação do livro de Mitchell Zuckoff comandada por Michael Bay, que acompanha os esforços de seis soldados das Forças Especiais em proteger uma das bases da CIA na Líbia de uma série de ataques empreendidos por milícias do país, tem a mesma propensão do longa de Eastwood em trabalhar tais contradições da ideologia de guerra estadunidense, mas no conhecido ritmo urgente e desesperado dos filmes de seu diretor.

Este ritmo fica claro já do princípio, quando o longa realiza os mesmos cacoetes dos outros trabalhos do cineasta. Adepto entusiasmado da dinâmica do movimento como elemento central da narrativa, Bay repete em 13 Horas sua predisposição de manter a câmera em pleno deslocamento em conjunto de uma montagem acelerada, acreditando cegamente que a velocidade é a melhor maneira de transportar seu espectador para dentro da adrenalina sentida por seus protagonistas. O resultado alcançado por ele, óbvio, é o exato oposto, com cenas de ação difíceis de se acompanhar e maneirismos estéticos (o plano da bomba, as constantes explosões) que continuam a expor a deterioração desse seu estilo de direção.

O que difere Os Soldados Secretos de Benghazi de seus outros trabalhos recentes, entretanto, é que aqui a metodologia de Bay parece mesmo ter um objetivo a cumprir além do que se configura na sua cabeça como entretenimento. O roteiro de Chuck Hogan não economiza munição em engrandecer os atos dos soldados e de fazê-los heróis de uma situação julgada pelo filme como prova cabal da ineficiência burocrática do sistema, mas também encara a situação com um ar de ironia não assumida, como se a cada reverência ao homem estadunidense ele não conseguisse conter um sorriso. Cenas como a do protagonista interpretado por John Krasinski admitindo ao colega que "devoraria umas panquecas agora" ou de uma diplomata que pelo telefone ordena o envio de um drone com a justificativa de que "americanos irão morrer se ele não for enviado" - ou até mesmo as inúmeras menções a Deus - parecem perder quase toda a carga dramática, em favor de uma sátira difícil de ser esclarecida.

Nas mãos de Michael Bay, esta sátira se torna histérica, e o que acontece a seguir é um piripaque ideológico dos mais curiosos, pois ele, munido de seu estilo "intenso", é capaz de pular do engrandecimento à crítica velada à América em menos de um segundo. Assim, se por um lado vê-se os soldados defendendo cidadãos americanos e os interesses do país com as próprias vidas em um ímpeto de puro nacionalismo, é também possível enxergar o outro lado, as deficiências da máquina de guerra tanto pelo lado governamental - "eu já cansei de ouvir esses discursos vazios", o acúmulo de burocracia nas ações táticas - quanto pelo do agente de campo, assim como dos líbios que são inimigos mas também aliados. Nesse meio tempo, o espírito americano e capitalista é destroçado por 13 Horas, resumido a um grupo de crianças que berram na parte de trás do carro por McLanches Felizes e levam ao desespero uma mãe que acaba de contar ao marido que está grávida mais uma vez.

Existe uma justificativa panfletária para todo esse caos orquestrado pelo filme, na forma de uma condenação à missão e da exaltação dos soldados mortos no caso (e, numa coincidência difícil de acreditar, feita em tempos de eleições presidenciais nos EUA, que tem Hillary Clinton, a secretária de Estado na época do caso Benghazi, como candidato democrata). O cinema gritado de Bay não consegue esconder isso nem por um momento, com pelo menos duas cenas em que a bandeira dos EUA é reduzida a fiapos e um final moralista exacerbado. Mas estas intenções duvidosas da produção sem dúvida encontram um caminho fascinante para serem exercidas, personificada na figura do soldado interpretado por Pablo Schreiber, que do alto de seu posto  de resistência aos ataques pergunta desesperado ao controle de cinco em cinco segundos se o alvo mirado é um inimigo, reforço ou inocente.

E a paranoia do pós-11 de setembro prossegue, firme e forte, atrelada aos Estados Unidos onipotente.

Nota: 6/10

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Crítica: O Quarto de Jack

Filme de atuação, história adota tom ingênuo com reservas.

Por Pedro Strazza.

Arcos de descoberta do mundo são tão inerentes aos contos infantis quanto a inexperiência é de uma criança. Clássicos ou modernos, existe um elemento de ingenuidade em quase todos os protagonistas de tais histórias que os permite encarar com admiração suas aventuras para fora de seu terreno conhecido, algo que qualquer menino ou menina se conecta instantaneamente por viver situações parecidas todo dia. O fascínio pelo novo, pelo desconhecido, por aquilo que é inédito a seu mundo permite de certa forma o crescimento, e tais contos são o que melhor entendem a dimensão do poder da experiência a ponto de manterem-se como objetos de afeto do indivíduo depois de adulto.

Quem compreende muito bem esta relação específica entre público e obra é O Quarto de Jack, adaptação do livro homônimo de Emma Donoghue que se utiliza da ingenuidade como elemento narrativo vital e motor de sua história. Pois mesmo que parta de uma situação genuinamente terrível e ancorada na dura realidade, o filme de Lenny Abrahamson consegue se estruturar como o típico conto infantil ao colocar seu ponto de vista no indivíduo mais inocente da trama.

Acima de tudo, porém, o pequeno Jack (Jacob Tremblay) é a materialização do ideal dos protagonistas das histórias clássicas para crianças, um menino de cinco anos que nunca antes tinha conhecido e experimentado o mundo por estar literalmente preso entre quatro paredes. Desde seu nascimento, o garoto vive confinado a um galpão junto de sua mãe Joy Newsome (Brie Larson), sequestrada há sete anos por um homem desconhecido apelidado de Velho Nick (Sean Bridgers) e que a estupra toda semana. Para preservar o filho do momento cruel que ambos passam, ela inventa a Jack um universo fantasioso e limitado ao quarto, no qual o espaço fora dali não existe e onde todo objeto presente lá dentro tem uma espécie de identidade. Seu plano funciona, mas quando os dois enfim conseguem ser resgatados do lugar Jack começa a sofrer com as quebras de seus parâmetros originais e com o reajuste aos novos.

Com frequência confundido no roteiro da própria Donoghue por um de revelação para adequar a obra ao tom ingênuo pretendido, esse processo de adaptação do personagem principal é trabalhado por Abrahamson pelos espaços ocupados, a princípio no quarto claustrofóbico que ocupa quase todo o primeiro ato do longa e no fim as ruas e quintais suburbanos, cuja ambientação ao ar livre trazem o respiro visual que o espectador anseia o filme inteiro. Nesse meio do caminho, a fotografia de Danny Cohen se encarrega de dar a progressão necessária para essa libertação sentida por Jack e o público, em espaços cada vez mais amplos e menos ameaçadores - e quando a trama precisa passar por lugares abertos, Cohen e Abrahamson filmam em planos fechados para preservar esse espírito, impossibilitando qualquer alívio acidental.

O que contribui mais em O Quarto de Jack, entretanto, é a dinâmica exercida entre os dois atores principais, que dão a humanidade necessária para o envolvimento do espectador no destinos de seus personagens. E isso se percebe não apenas quando os dois estão juntos, mas também em seus reencontros: no momento posterior ao resgate, em que Jack se desespera dentro de um carro de polícia (mais uma vez, o ambiente fechado) na tentativa de chamar a atenção da mãe, o abraço seguinte dos dois traz uma ternura reconfortante, uma harmonia elemental em meio ao caos estabelecido na cena. E se Larson entrega uma performance calcada no frágil graças à maior liberdade que tem aqui em relação a outros trabalhos, Tremblay surpreende com uma atuação delicada e sem exageros, inesperada à sua pouca idade e capaz de sozinho fornecer todo o viés infantil da história.

Consciente desta última, Abrahamson busca então dar cabo da tarefa de circundar a fábula do pequeno protagonista com a realidade do mundo no qual este se situa, e é aí que as coisas desandam. Os dramas que cercam a vida de Jack nunca escapam do tangencial na narrativa, e seu tratamento no campo do subentendido ressalta tanto a superficialidade dos coadjuvantes em cena - a dificuldade do avô interpretado por William H. Macy em olhar para o neto soa gratuita e não disfarça seu papel no roteiro, por exemplo - mas também acaba por ser insuficiente no desenvolvimento do arco de reintrodução vivido pela própria Joy. Em muitos momentos, é como se o cineasta mais atrapalhasse que auxiliasse a personagem, que sobrevive graças à decisão de Larson em manter o emocional como engrenagem principal de sua atuação.

São erros e acertos muito similares aos de Frank, trabalho anterior do diretor que também se sobressaía na performance do protagonista e equivocava-se nos direcionamentos narrativos. Mas se na história do vocalista com uma grande cabeça feita de papel-machê Abrahamson talvez parecesse receoso de conduzir o filme a favor da atuação de Michael Fassbender, em O Quarto de Jack ele está mais aberto a se aceitar como diretor de atores, deixando que seus dois protagonistas tragam a sustentação requerida pelo filme. Agora só falta a ele conceber o resto com maior riqueza.

Nota: 7/10

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Crítica: A Garota Dinamarquesa

Relato de época sai prejudicado por abordagem conservadora de relações de controle.

Por Pedro Strazza.

"Os homens se sentem envergonhados em se submeter a uma mulher" afirma a protagonista Gerda Wegener (Alicia Vikander) para um cavalheiro enquanto pinta seu retrato, logo no início de A Garota Dinamarquesa. Com uma piteira no canto da boca e olhar decidido, a pintora demonstra neste momento estar em total controle da situação, dominando todos os movimentos do nitidamente intimidado homem à sua frente com comandos rápidos e incisivos. Mesmo seu cãozinho, que encontra-se descansando ao lado do cavalheiro, atende a suas ordens silenciosas com velocidade, em sujeição similar à do homem.

A cena acima tem propósitos cômicos, porém se torna em um pontapé comparativo inusitado para toda a história ao qual o filme dirigido por Tom Hooper se propõe a ser. Baseado no livro homônimo de David Ebershoff e dedicado a narrar a sequência de acontecimentos que levou o marido de Gerda e também pintor Einar (Eddie Redmayne) a ser um dos primeiros indivíduos a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo e assumir em definitivo sua real identidade, Lili Elbe, o cineasta inglês e a roteirista Lucinda Coxon mostram-se mais interessados no impacto desta drástica mudança na vida da pintora que seu cônjugue, em como ela lida com a troca de gênero do amado esposo ao qual nutria um casamento feliz. A jornada de metamorfose de Einar para Lili ainda é central aos fatos e ele decerto tem o protagonismo, mas a narrativa concentra-se em Gerda e suas emoções.

A grande razão para esta abordagem surge de uma concepção simples e ligada ao controle que a protagonista exibe ao pintar o retrato. Gerda de início é mostrada como o indivíduo dominante na relação, seja nos diálogos sobre seu relacionamento (seu relato em uma festa da maneira como o casal se conheceu é bastante revelador neste ponto) ou na submissão nada disfarçada do marido para ela, mesmo que Einar seja entre os dois o pintor melhor pago naquele momento. Na totalidade de seu primeiro ato, parece faltar a A Garota Dinamarquesa apenas a menção ao velho ditado conservador "Por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher", realizando na tela toda a dimensão de poder existente da frase.

Este parâmetro, porém, começa a ser desmembrado por Hooper a partir do surgimento de Lili, que não só altera a dinâmica dos dois mas também questiona o papel da mulher em tal relação. Pois apesar de ascender profissionalmente quase que em simultâneo à queda da persona Einar, Gerda perde o rumo conforme o marido se transforma diante de seus olhos e assume seu eu verdadeiro, como se seu norte se desfizesse e a deixasse desencontrada na escuridão de uma densa mata. Não há mais em suas mãos alguém que ela possa apoiar e buscar conforto nos momentos mais difíceis, e Vikander incorpora isso na personagem com a sutileza necessária.

O problema desta elaboração estabelecida pelo longa é que ela esbarra em dois obstáculos. O primeiro, claro, é o machismo inerente à sua base de sustentação, que presume a mulher como mera pessoa de bastidores para o marido. Hooper ainda tenta disfarçar isso ao abrir espaço na trama para a vida profissional da protagonista e seu contraste com a do marido, em trajetória oposta à dela, mas fracassa porque no fim Gerda termina o filme já com um novo homem (o negociante de arte vivido por Matthias Schoenaerts) para dar suporte ao invés de realizada no mundo das artes.

O segundo, e mais grave, é que nessa relação de dominância a obra acaba por fazer da transsexualidade um mero canal para essa, negando sua existência como óbvio terceiro elemento na história. Einar se torna Lili menos por ela ser sua real identidade e mais porque esta o possibilita de retomar o "controle" da situação. O hospital onde ela realiza a cirurgia, inclusive, traz uma materialização curiosa desta fórmula equivocada, onde o homem precisa se tornar mulher para ganhar alguma atenção do próximo.

A abordagem é das mais conservadoras, mas não impede que o filme encontre uma ou duas boas ideias para retratar a metamorfose de Lili, a bem da verdade o atributo mais chamativo da produção. Os esforços de Redmayne para passar esta mudança ao espectador da maneira mais sutil e ao mesmo tempo escancarada (a cena na casa de strip é o melhor exemplo dessa metodologia), o ótimo trabalho de figurino de Paco Delgado em exibir a instabilidade emocional passada pela transsexual por suas roupas e o uso dos quadros de paisagem pintados por Einar para no plano elaborar sua sensação de isolamento do mundo funcionam em seus intentos, mas não escondem os problemáticos tratamentos da produção a temas tão importantes e atuais.

Nota: 4/10

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Primeiras Impressões: Vinyl

Primeiro capítulo não arrisca, mas tem contexto social promissor.

Por Pedro Strazza.

Existe um tanto de garantido na maneira como Vinyl, a nova série produzida por Martin Scorsese, estabelece no piloto a sua narrativa e trama. O primeiro ocorre pelo próprio modus operandi do cineasta, que assume a direção do episódio de quase duas horas de duração e impõe seu estilo conhecido e bastante celebrado; a segunda, por outro lado, se dá pelo próprio contexto da televisão estadunidense e sua atual era de ouro, em voga desde o sucesso de Os Sopranos nos anos noventa.

Porque apesar de se passar no início dos anos setenta e acompanhar uma realidade agora quase surrealista aos olhos de hoje com a disposição de evidenciar esse lado da época, o seriado criado por Scorsese, o roteirista Terence Winter, Rick Cohen e o cantor Mick Jagger não hesita em seguir as convenções para contar a história do rico empresário musical Richie Finestra (Bobby Cannavale), sejam estas de estilo ou roteiro. Não é muito difícil vir à cabeça memórias de outros seriados - para mim especificamente Mad Men - em meio à sucessão de cenas dominadas pelas drogas pesadas e a música, que encontram-se também interessadas em trazer ícones da cultura rock'n roll de maneira implícita (a configuração das cabeças de cervo na parede da sala de reunião, que remetem de imediato à capa de Queen II) ou explícita (as imagens do desastre do LZ 129 Hindenburg intercalado com a capa do primeiro disco do Led Zeppelin). Se tudo isso ocorre por medo de arriscar o sucesso de uma grande produção gerada pelos nomes envolvidos ou apenas por pura ingenuidade, é uma pergunta que o primeiro episódio não responde.

O que Vinyl está mais a fim aqui, na verdade, é de compor sob o viés da insanidade o contexto social e musical ao qual sua história se insere, algo que Scorsese provou inúmeras vezes em sua filmografia. E os anos setenta não poderiam ser mais férteis para tal objetivo, sendo uma década marcada pelo conflito em constante ebulição e transformação em todos os campos possíveis de análise. O piloto se concentra, claro, na música, mas no subtexto da comparação dos lugares visitados pelo protagonista com seus flashbacks - centrados no começo de sua carreira no ramo e de sua amizade com o cantor negro Lester Grimes (Ato Essandoh) - já se percebe um fundo político aliado ao tema, da ascensão marginal do hip-hop como manifestação da discriminação racial e a tensão crescente derivada do processo.

E se há uma coisa que o diretor sabe fazer é atiçar a raiva a ponto de implosão, e pelo piloto Cannavale demonstra bastante habilidade em executar essa fúria pelo overacting.

A grande questão é: pode a vibe efervescente da série funcionar repetindo estruturas e noções conhecidas do público? Temos mais uma vez o protagonista de moral duvidosa e dotado de dilema de identidade, a coadjuvante feminina em ascensão profissional (Juno Temple, ótima) e os escritórios organizados (ainda que sob domínio da cocaína) derivados da TV, combinado à estética cômica e acelerada do cinema de Scorsese. Se Vinyl quer buscar seu lugar ao Sol, ela terá que buscar maneiras de se diferenciar do resto.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Crítica: Deadpool

Mercenário tagarela entrega o que os fãs esperam e se intimida de ir além.

Por Pedro Strazza.

Produto dos atribulados anos 90, Deadpool é um personagem que, seguindo a lógica superficial de sua época, sempre viveu de uma subversão imediata, do impulso de levar a narrativa dos quadrinhos ao limite sem contudo dar real cabo disso. As constantes quebras da quarta parede, o excesso de violência em suas histórias e o humor mais "sujo" permitem que o mercenário saia das convenções estabelecidas e as critique com desdém, mas seus roteiristas e desenhistas nunca foram capazes de levar esse jogo a algo além da própria piada de ter um herói consciente de sua existência como protagonista de uma história em quadrinhos.

A lógica rasa do personagem, tendente ao desgaste e à arrogância, é repetida quase como um mantra em seu debute solo nos cinemas, que também se aproveita do caráter marginal de sua produção - foram mais de dez anos até ela se tornar realidade, e ainda com um orçamento relativamente baixo - para se estabelecer como comédia de escárnio do subgênero de super-heróis. O curioso é que, para um filme dedicado a fazer piada do grupo ao qual pertence, Deadpool parece confortável demais em realizar a história de sempre e tímido em problematizá-la pelo humor de fato.

Claro que o roteiro escrito pela dupla Rheet Reese e Paul Wernick está disposto a fazer piada com tudo e todos, incluindo aí tiradas com a confusa linha temporal dos X-Men nos cinemas, Hugh Jackman, a carreira do ator protagonista Ryan Reynolds e a sexualidade de Batman e Robin. E pelo menos a princípio, o longa dá sinais de que irá pra cima daquilo que considera óbvio e mundano, seja nos créditos iniciais repletos de clichês do subgênero (destas, me diverte em particular a irônica "Roteiristas: Os verdadeiros heróis aqui") ou na simultaneidade narrativa dos dois primeiros atos. É inegável no filme essa sede anarquizante de atirar para todo lado, similar à de seu herói em matar e rir de qualquer um em seu caminho.

Este sentimento de caos, porém, nunca abandona o valor imediato das cenas que reproduz, estando muitas vezes preso à violência e ao sexo explícitos delas. A bem da verdade, Deadpool só se permite à subversão de fato nestes momentos, porque no resto sua maior propensão é a de repetir a fórmula do justiceiro em chave egoísta: ainda há uma mocinha a ser salva, ainda há um vilão malvado a ser derrotado, ainda há a recusa em se admitir um herói; o que falta mesmo é um dia a ser salvo, único ponto diferente de qualquer outra produção do tipo.

Isso não seria tão grave se o longa se utilizasse disso como base para o seu humor demente e escrachado atacar sem restrições o cenário cultural que vive o cinema estadunidense, repleto de adaptações de quadrinhos como o próprio Deadpool. O filme, porém, acaba por optar pelas saídas mais fáceis, fazendo graça com temas e produções malhadas pelo público em busca da aceitação rápida deste, e hesita em disparar contra coisas que ou tenham um mínimo de amor entre seus fãs ou não tenham a relevância necessária para eles. O exemplo maior de ambos é Rob Liefeld, um dos criadores do personagem e eterno quadrinista odiado pelas massas, que não somente não é mirado pelo roteiro como também rende duas referências rápidas na narrativa.

O que funciona no longa então, se até a ação é filmada pelo diretor Tim Miller com desinteresse? A resposta talvez seja a comédia mais física, cujo apelo universal, bastante dependente da performance do ator e entregue por Reynolds - aqui redimido de seus erros passados - com timing cômico eficiente é capaz de proporcionar os momentos mais divertidos de Deadpool.  E se considerar o humor da produção, típico do garotão dos anos 90 com saudades dos 80 e contente em emitir piadas textuais sem qualquer inspiração sobre pinto e masturbação, o riso proporcionado por cenas como a do protagonista quebrando as mãos e os pés em combate ou de uma mão decepada com o dedo do meio levantado termina por ser a melhor opção mesmo.

Nota: 5/10

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crítica: Brooklin

Saoirse Ronan conduz com os olhos filme de época doce e ciente da própria ingenuidade.

Por Pedro Strazza.

Pelo menos como roteirista, a carreira de Nick Hornby parece fadada a abordar continuamente a temática de relações sob ótica doméstica. O escritor, famoso por livros como Alta Fidelidade, busca no cinema tirar do ato de independência familiar a base para suas histórias, que protagonizadas por jovens mulheres tende a repetir o arco de amadurecimento sob disfarce. No caso de Brooklin, sua terceira incursão no ofício, esta fachada é o drama do imigrante.

Adaptação do livro homônimo de Colm Tóibin, o filme segue Eilis (Saoirse Ronan), jovem irlandesa que no início dos anos 50 sai do pequeno vilarejo onde vive com a mãe e a irmã para desbravar sozinha o novo continente. Alocada na pensão de uma simpática senhora (Julie Walters) na região operária do Brooklin, Nova York, a moça de início sofre com a mudança e a solidão, mas aos poucos começa a se acostumar à nova rotina e criar laços com a cidade.

A princípio, essa dinâmica do roteiro de Hornby sugere estar seguindo os passos da desenvolvida no Era Uma Vez em Nova York de James Gray, em uma versão mais light onde tudo é favorável à protagonista e o "novo mundo" não é tão terrível quanto dá a entender. Conforme os cenários deixam de possuir qualquer importância na narrativa e a fotografia de Yves Bélanger demonstra maior fascínio em decifrar o que se passa nos belos olhos verdes de Ronan, porém, o longa dirigido por John Crowley abandona maiores pretensões para se dedicar ao lado mais sentimental e elementar da história que é o romance nutrido entre Eilis e o garoto italiano Tony (Emory Cohen).

Soa como uma decisão bastante idiota, mas no fundo é esta desambição que dá a Brooklin seus melhores momentos. Ao reconhecer a falta de recurso do texto para abordar um tema mais difícil e adotar o lado mais ingênuo deste como ator principal da trama, o filme ganha espaço para trabalhar o crescimento de sua personagem sem aspiração ao grandioso, descolando-a da realidade proposta e tornando sua história universal e de fácil acesso.

Cabe então a Crowley a tarefa de desarmar o espectador e fazê-lo consciente desta proposta, e a sua principal arma para tal é Saoirse Ronan. A atriz, que já provou em outros trabalhos ser ótima na performance facial (principalmente sob a tutela de Joe Wright, com quem realizou Desejo e Reparação e Hanna), sabe interiorizar os sentimentos vividos por Eilis e ao mesmo tempo exprimi-los de maneira controlada, em uma atuação que envolve o espectador nos altos e baixos da personagem.

É nos olhos, entretanto, que a atuação de Ronan ganha força, pois com a ajuda de Bélanger (disposto a destacá-los quando possível) a atriz parece por eles absorver os fatos que protagoniza ou testemunha com delicadeza impressionante, e sem grande alarde torna isso numa rima narrativa delicada. Mesmo que envolta na entrada na vida adulta, Eilis vê o mundo novo - ou o velho, mais tarde - com o encanto de uma garotinha, e o longa sabe passar isso sem parecer piegas.

O grande erro de Brooklin, na verdade, é tentar retomar o estado original das coisas a partir do terceiro ato, forçando um dilema de verdadeiro lar na protagonista por meio de um triângulo amoroso que nunca se concretiza na figura do personagem de Domhnall Gleeson. A inclusão de um conflito artificial, culpa do material original e (muito provavelmente) da inabilidade de Hornby em conseguir realizar isso com uma mínima naturalidade, não priva o longa desses momentos, tão deliciosos na ingenuidade compreendida e bem executada.

Nota: 6/10

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Crítica: Tirando o Atraso

Comédia tem ambições subversivas, mas se contenta com o mainstream.

Por Pedro Strazza.

Na época do lançamento de A Primeira Noite de um Homem, a imprensa estadunidense demonstrou bastante interesse sobre qual teria sido o destino dos protagonistas Ben e Elaine após fugirem juntos do casamento imposto a ela pela família em um ônibus interestadual, cena clássica que marca tanto o fim da história quanto o ápice da mensagem de rebeldia concebida pelo longa e direcionada à juventude do país dos anos 60, lembrada pelo ápice da luta dos direitos civis para os negros e a Guerra do Vietnã. A resposta, dada pelo já falecido diretor Mike Nichols, foi simples e tenebrosa: depois do fim do filme, os dois, símbolos da transgressão contra a monotonia da vida adulta e o futuro representado por seus ascendentes, se transformam nos próprios pais.

Se Nichols estava certo ou errado não cabe aqui o julgamento, mas para o diretor Dan Mazer e o roteirista John Phillips essa reversão parece ter acontecido com a geração seguinte. Pois apesar de seguirem caminhos muito diferentes ao trilhado pela comédia de 67, a dupla trabalha Tirando o Atraso na base da comparação, do reflexo de A Primeira Noite de um Homem no mundo contemporâneo. E isso fica implícito desde a campanha de divulgação (que incluiu uma paródia do icônico poster da produção estrelada por Dustin Hoffman, Anne Bancroft e Katharine Ross) até o final do longa, que reproduz o confronto no casamento em estrutura de cena, colocando Zac Efron em uma bancada similar ocupada por Hoffman há quase 50 anos. 

Mesmo a trama dá a entender que busca se estabelecer como uma espécie de continuação espiritual do filme. Ao invés do recém graduado e incerto sobre o futuro Ben Braddock, temos o ex-militar da Guerra do Vietnã e incerto sobre o futuro Dick Kelly (Robert De Niro), que acaba de ficar viúvo e convence o neto Jason (Efron) a levá-lo de carro até Boca Raton, na Flórida, onde supostamente ele a falecida mulher peregrinavam todo ano. Esta homenagem, porém, logo se revela uma farsa, e Dick muda o destino da viagem para Daytona Beach, lugar conhecido por ser uma das praias a receber o famoso spring break das faculdades estadunidenses, como forma tanto de seguir sua vida quanto de tentar fazer o neto almofadinha e conformado repensar a vida e sua cerimônia de casamento com Meredith (Julianne Hough).

Assim, Tirando o Atraso transforma o que era antes um conflito individual em um cuja dinâmica se faz entre gerações. Fruto de uma época conhecida pela subversão, Dick não apenas encontra-se inconformado com o futuro reservado a ele - ilustrado na cena em que visita um companheiro de guerra e o encontra em um retiro para idosos - como também com o de seu herdeiro, confortável na vida segura oferecida pelo emprego na firma do pai e no abandono dos sonhos de sua juventude. Embora seja abordado de maneira leviana pelo roteiro de Phillips, essa noção de legado, comum na comédia estadunidense, guia a narrativa do longa com algum interesse, capaz de dar a liga satisfatória aos esquetes concebidos.

Isso porque o filme, embora tenha e use todas as peças a seu favor para um objetivo tão difícil (a tentativa  de comparação com um clássico nunca gera bons resultados), parece satisfeito demais em trabalhar com os cacoetes da comédia americana de hoje. Mazer tem em mãos o elenco certo nas melhores posições - De Niro mostra disposição em realizar o idoso boca suja, Efron continua a aperfeiçoar seu papel de garotão agora em chave coxinha e Aubrey Plaza faz o que sabe fazer de melhor - mas prefere realizar o costumeiro humor apoiado no texto e na situação incomum proposta, aqui o de "baby boomer vai a O evento millennnial americano". O resultado, claro, sempre se prova eficaz com o grande público mesmo nos momentos fracos, porém não esconde a saída fácil tomada pela produção.

A grande verdade é que, no final, Tirando o Atraso será lembrado mais como a comédia que colocou De Niro em cenas consideradas "constrangedoras" para sua idade que como uma aspirante a tentar quebrar os mesmos valores de 1967, aqui refeitos para os dias de hoje. O anacronismo do longa é óbvio (o mundo contemporâneo possui um panorama completamente diferente dos anos 60), mas só pela intenção original e a consequente repercussão do filme Mazer e Phillips chamam a atenção para o tema inesperado e até relevante que é essa tentativa de retorno à moral de tempos passados.

Nota: 4/10