Cinebiografia de Joãosinho Trinta privilegia preparação que protagonista e espetáculo
Por Pedro Strazza
O carnaval é uma festividade importante no calendário brasileiro. Apesar do grande número de pessoas que odeiem o evento e todas as suas características, a grande festa de fevereiro é capaz de proporcionar uma alegria contagiante no povo através de aspectos muito simples, como o samba, a dança e as fantasias, todas muitas vezes espontâneas. Esta simplicidade da "celebração", porém, não impede o carnaval de produzir grandes estruturas e coreografias milimetricamente planejadas, e o desfile das escolas de samba é um exemplo claro disso.
Em Trinta, a cinebiografia do falecido carnavalesco João Clemente Jorge Trinta - mais conhecido pelo apelido de Joãosinho Trinta -, a montagem do desfile é o tema central da história. Os esforços de Trinta (Matheus Nachtergaele, excelente) em preparar a comunidade do Salgueiro para a Sapucaí em seu primeiro ano na liderança, afinal, são utilizados pelo diretor Paulo Machline para explorar a sua personalidade e sua vida, que sofreu em muitos momentos por causa de suas escolhas nada óbvias - a saída da cidade natal, a incursão no balé, o ingresso no mundo do carnaval, etc.
O perfil do protagonista, entretanto, acaba sendo explorado por Machline e sua equipe de forma um pouco equivocada ao ter sua trajetória trabalhada em uma trama que segue toda a cartilha dos filmes biográficos. Estão lá o opositor a ser enfrentado (Tião, o chefe do barracão da Salgueiro interpretado pelo sempre ótimo Milhem Cortaz), o chefe corrupto mas de boas intenções (Germano, presidente da escola representado por Ernani Moraes), o amigo em crise com o personagem principal (O também carnavalesco Fernando Pamplona, que ganha as telas pela mão de Paulo Tiefenthaler) e outros, todos desenvolvidos de forma plana e submissa a Trinta e seus problemas. Falta maior elaboração na relação de Joãosinho com aqueles que o cercam, e o filme acaba soando genérico.
O roteiro é outro que danifica a obra. Escrito por Claudio Galperin, Felipe Sholl, Mauricio Zacharias e o próprio Machline, ele muitas vezes esconde dramas potencialmente interessantes da vida de João Clemente para privilegiar os preparativos do desfile, cuja imponência nunca é mostrada pela fotografia de Lito Mendes da Rocha - observe como a câmera foca apenas na reação de Trinta no momento em que este entra em contato pela primeira vez com o carnaval. E quando não os omite, o longa traz soluções rápidas e muitas vezes não satisfatórias (a frustração do carnavalesco com o balé, por exemplo), erro crasso para uma produção disposta a realizar a análise de um personagem.
Salvo por grandes atuações de um elenco muito bem escolhido, Trinta é um filme que falha em suas pretensões ao tentar simplificar ao máximo o protagonista e o mundo que vive por meio de clichês aplicados sem parcialidade. Mas o trabalho de Machline aqui só não dá em samba pois falta a ele mostrar o carnaval e sua alegria, elemento principal desse rico universo.
O primeiro grande ápice dos mutantes na Nova Marvel
Por Pedro Strazza
Desde que assumiu o controle criativo dos X-Men, Brian Michael Bendis resolveu pirar de vez na viagem do tempo. E isso não é ruim. Ao invés de seguir o péssimo caminho feito em A Era de Ultron, Bendis foi mais específico em seus objetivos com o recurso narrativo ao trazer para o presente a primeira formação dos mutantes de Charles Xavier. O conflito estabelecido pelo roteirista aqui, afinal, é bastante cabível ao momento vivido, e parte de um motivo puramente ideológico: os membros originais dos X-Men são deslocados no tempo pelo Fera para tentar convencer o Ciclope dos dias de hoje a desistir de sua empreitada revolucionária.
A maneira como Bendis conduziu a trama das duas séries principais dos mutantes, porém, é até o momento o grande diferencial de sua fase nestes títulos. Novíssimos X-Men e Fabulosos X-Men se tornaram nas mãos do escritor uma coisa só, abordando uma mesma história sob pontos de vista diferentes, e ele contorceu os eventos e fatos retratados de tal forma que quando começa A Batalha do Átomo, a primeira grande saga dos filhos do átomo sob comando de Bendis, é quase impossível iniciar sua leitura sem ter lido algumas das edições anteriores - algo que faria um certo Chris Claremont abrir um largo sorriso em seu rosto.
E para quem leu todo o início da passagem do roteirista de Dinastia M, o evento comemorativo dos 50 anos dos mutantes soa como o primeiro grande ápice da "era" Bendis. Isso porque todas as características do escritor nos X-Men são elevadas ao grau máximo por ele para contar a complicada, mas divertida trama. Com o auxílio de Jason Aaron (outro que recentemente soube se utilizar do conceito de viagem no tempo para escrever uma boa história) e Brian Wood, o roteiro de A Batalha do Átomo coloca nada menos que três gerações de homo sapiens superior em rota de choque: os do presente, divididos ainda em duas facções; os já mencionados do passado; e os do futuro, que chegam ao nosso tempo para mandar os do passado de volta à sua época.
Em mãos novatas essa salada temporal pode sem esforço algum cair na chatice modorrenta, mas Bendis e sua equipe criativa tornam-a muito divertida com o simples recurso do humor. Bem dosado à trama, a comédia é usada pelos próprios personagens para evidenciar várias vezes o ridículo absurdo mostrado nas páginas da saga, em frases como "É sério que no futuro eu virei esse monstro sem cérebro" ou "Nossa, é você que vira a Fênix?". E mesmo que às vezes ele pese um pouco na narrativa (os quatro Homens de Gelo parecem não exibir outra função que a de alívio cômico, por exemplo), a leitura da aventura com isso torna-se mais prazerosa e agradável, e funciona para estabelecer o seu tom.
Sim, são quatro Homens de Gelo que lutam ao centro!
Mas quando é pra partir pro soco o roteiro o faz com primor. Com uma identidade visual colorida e bem delineada pelos artistas envolvidos - que inclusive parecem alinhar seus estilos nesse processo -, Bendis, Aaron e Wood conduzem as ações dos heróis para brigas sempre justificadas e estabelecidas em terrenos amplos, e os desenhistas Frank Cho, Stuart Immonen, Chris Bachalo, David Lopez e Giuseppe Camuncoli, por sua vez, enchem as páginas com cores berrantes e ilustrações lindas, que não poluem a visão do leitor e traduzem o épico almejado pelo roteiro.
Em sua totalidade, A Batalha do Átomo é mais um trabalho bem sucedido na carreira de Bendis. Ainda que apele sem vergonha alguma a soluções rápidas e trapaças de roteiro calculadas, é uma saga que não tem medo de admitir o exagero tomado na linha temporal e consegue trazer à tona várias das características e histórias marcantes aos X-Men em seus primeiros 50 anos de existência. Traz mais Bendis, pois a gente quer!
Trabalho e família são dois assuntos que quando juntos podem facilmente gerar conflitos internos. Quase opostos em seus ideais, ambos exigem do indivíduo um nível de comprometimento bastante evidente, e o dever com eles pode ir da superfluidade à obrigação total em uma questão de segundos. Equilibrar os dois é sem dúvida uma tarefa muito complicada, mas obrigatória para qualquer ser humano disposto a ter os dois ao mesmo tempo.
Há pessoas, entretanto, que preferem abandonar essa questão e lidar com ela "do jeito que dá", e Rebecca (Juliette Binoche) é uma dessas. Fotógrafa especializada na cobertura de conflitos armados, ela vive se arriscando em todo tipo de lugar e situação para captar com sua câmera os horrores que presencia e mandar as fotos à imprensa depois de tudo. No processo ela se esquece, contudo, das próprias filhas e do marido Marcus (Nikolaj Coster-Waldau), e ele, cansado de sofrer em casa com a possibilidade da esposa estar morta, impõe a Rebecca um ultimato: Ou ela fica com a família, ou com a perigosa profissão.
Em um plano mais geral, o drama doméstico central à trama de Mil Vezes Boa Noite é bastante comum no dia-a-dia das grandes cidades, e já foi abordado pelo cinema em diversas ocasiões. Para contornar essa previsibilidade, o roteiro escrito por Erik Poppe (também diretor do filme) e Harald Rosenløw-Eeg centraliza sua atenção então no desenvolvimento de sua protagonista, evidenciando tanto seu amor pela família quanto o gosto que tem pela fotografia. Rebecca é uma mulher que sabe que suas duas maiores paixões não encontram espaço suficiente para coexistirem, mas ela prefere ignorar esta impossibilidade para tentar viver o mais feliz possível. Para traduzir essa dualidade para a tela, Poppe conduz a narrativa pelo silêncio e a visão. São através destes que o espectador consegue prestar maior atenção nas ações tomadas por Rebecca e nota como ela procura fotografar todos os lados de um mesmo momento quando trabalha ou como ela tenta se conectar às filhas mesmo consciente de sua desconexão com a família. Binoche, neste aspecto, realiza uma atuação excepcional, pois transmite em sua performance corporal e gestual todo o emocional combalido da personagem.
Mas se no desenvolvimento da protagonista o longa acerta, a história sofre pela previsibilidade, do qual o roteiro obviamente não conseguiria escapar. Assim, após focar seus dois primeiros atos na construção de Rebecca, a obra derrapa na última parte em clichês nada bem disfarçados, e tira do filme um pouco do sentimento de ineditismo tão bem elaborado.
O trabalho de atuação do elenco liderado por Binoche e a metodologia de Poppe para explorar a protagonista, porém, conseguem ofuscar no geral os problemas da trama e evocar com sucesso a dor da dura escolha que Rebecca tem de tomar em Mil Vezes Boa Noite. Para uma pessoa que ama coisas ambíguas, afinal, decidir-se por um é tão complicado quanto uma criança ter de se decidir entre dois filhotes gatos exatamente iguais e de igual fofura.
Novo disco de Dave Grohl e seus bluecaps justifica todo o alvoroço do pré-lançamento
Por Guilherme Umeda
Dave Grohl (eu o chamo de Davinho), meu parça há muito
tempo concordou em me passar todas as músicas do Sonic Highways por mensagem de voz no whats (Se mordam de inveja
das minhas amizades, haters), contanto que eu escrevesse um texto sobre o álbum.
Portanto, como sou um homem de palavra, presenteio você, caro leitor, com essas
belas palavras.
Entretanto, antes de falar sobre o disco em si, acho
válido um pouco de contexto.
Sonic
Highways é o oitavo álbum de estúdio do Foo Fighters (FF) e chega
às mãos dos fãs após quatro anos de silêncio desde o lançamento de Wasting Light.
É óbvio que qualquer álbum dos FF já causaria ansiedade
no público fã de rock, mas a aproximação do lançamento deste causou uma
histeria a mais. E não por acaso.
A declaração dada por Grohl (Davinho) em entrevista à
revista New Music Express (NME), em que dizia que “Sonic Highways é o mais
perfeito que podemos ser”, foi um fator que esquentou ainda mais os fãs. Mas
não foi o único.
O incomum processo de composição das oito faixas que
compõem o álbum ganhou espaço na programação do canal HBO. A série, que leva o
mesmo nome do disco, acompanha a banda numa viagem pelos EUA, contando como
cada faixa do Sonic foi escrita.
Sonic
Highways, de fato, merecia uma série de TV. Para compor as oito
faixas que compõem o álbum, a banda viajou por oito cidades (Austin, Chicago,
Los Angeles, Nashville, New Orleans, Nova Iorque, Seattle e Washington) e, em
cada uma delas, escreveram uma das músicas. Não é a toa que o disco foi chamado
pela NME de “uma carta de amor à música americana”.
Além da série na HBO e das entrevistas de Grohl, o Foo
Fighters passou uma semana se apresentando todas as noites no Late Show With David Letterman (o
Programa do Jô original), como forma de promover o álbum. Abaixo você pode ver
o vídeo da entrevista de Dave Grohl no programa em uma dessas cinco noites,
onde ele conta um pouco mais sobre o processo de composição para o Sonic - e, de quebra, ainda tem o FF
tocando “War Pigs”, do Black Sabbath, com Zack Brown no fim do vídeo.
Pois bem, chega de contexto. Vamos ao disco.
Em todas as faixas o virtuosismo que Davinho sempre teve
para casar letra e música se faz presente.
Não há nenhuma faixa que destoe muito do padrão de
qualidade (alto, diga-se de passagem) estabelecido logo de início pela primeira
faixa, “Something From Nothing”. Pelo contrário, logo na faixa seguinte, o
padrão é superado com “The Feast and The
Famine”.
Essas duas faixas, além de já serem uma amostra da
satisfação que o ouvinte irá encontrar também nas outras seis músicas, também
são prelúdio da pegada firme que dá o tom ao álbum. Se trata, sim, de “fist bumping rock n’ roll” do início ao
fim.
Porém, é possível (se você, caro leitor, for uma pessoa
chata como quem vos fala) encontrar falhas em Sonic Highways. A principal delas talvez seja a penúltima música,
“Subterranean”. Ela é a que chega mais perto de quebrar a vibe do disco. Não
por ser uma música ruim – longe disso – mas é um pouco incerta, talvez errante:
parece não saber ao certo se é uma balada ou não.
Como dito antes, o álbum é bem marcado por músicas
rápidas e pesadas. Mas uma balada seria muito bem vinda, principalmente naquele
momento mais para o final do disco, justamente por ser aquela hora pra
descansar os ouvidos um pouco. Daí a crise com a indecisão de “Subterranean”.
Entretanto, a carência de uma balada seria sanada logo em
seguida com “I Am a River”, a última faixa do disco. Esta sim, mais decidida
quanto à sua personalidade, se apresenta de forma belíssima e encerra a
experiência que é Sonic Highways de
forma quase perfeita.
Dentre as oito músicas, há três que merecem menção
honrosa.
Primeiro, “The Feast
and The Famine”. É a música do álbum que vai garantir o
momento “lose your mind” nos shows do FF. O refrão é o mais explosivo do álbum
e o ritmo é feito para pular e gritar enquanto se ouve.
Depois, “Outside”. Nesta, o lado instrumental chama
atenção. As guitarras foram arranjadas de forma belíssima e o solo mais para o
final é aquele momento para fechar os olhos, encostar a cabeça no travesseiro e
curtir. Se tivesse um refrão um pouco mais forte seria a melhor música do
álbum.
Esse título, no entanto, ficou com “In The Clear” (na
modesta opinião deste mero mensageiro que vos fala). É o melhor encaixe
letra/melodia do álbum. Consegue estabelecer uma continuidade no que é cantado
(uma ótima letra) que não deixa o ouvinte escapar. Muito disso pelas marcações
que Taylor Hawkins (bateria) faz nos pratos logo antes de Dave cantar o nome da
canção. Brilhante.
Sonic
Highways é mais pesado que o anterior dos FF, o Wasting Light, e tem menos momentos para
cantar junto (afinal, Wasting tinha
“Walk”, “Arlandria” e “These Days”). Porém, o mais recente me pareceu melhor no
conjunto. Talvez até por ter apenas 8 faixas (o anterior tinha 11), Sonic tenha se mostrado mais capaz de
manter o ouvinte “flutuando” numa só vibe durante o disco todo. Wasting tinha mais craques, mas Sonic é mais time.
Falta encantamento com o universo em novo trabalho de Christopher Nolan
Por Pedro Strazza
Christopher Nolan se destaca como diretor no contexto cinematográfico atual por trazer lucro aos estúdios que o financiam com filmes autorais, algo bastante complicado de se realizar. Em menos de dez longas, Nolan construiu uma bem estabelecida reputação de "grande cineasta" através de verdadeiras obras-primas como A Origem, O Grande Truque e, claro, a trilogia O Cavaleiro das Trevas, trabalhando em todas com seu agora reconhecido estilo de fazer cinema.
Este seu procedimento de direção, porém, pode às vezes não contribuir como deveria às suas intenções, e Interestelar prova isso da maneira mais dolorida possível. O roteiro e outros aspectos deveras interessantes do nono trabalho do diretor, afinal, sofrem demais com as escolhas tomadas por ele para captar os acontecimentos retratados, tornando a obra irregular e em alguns momentos até incoerente com sua narrativa previamente estabelecida. E as consequências disso são severas.
Prometido desde sua concepção como inovador e brilhante, a trama de Interestelar parte de uma base não muito original: A extinção da humanidade. Após anos e anos de exploração da Terra, o planeta em que vivemos finalmente cobrou seu preço, e agora a sociedade alimenta-se apenas de milho e sobrevive a tenebrosas tempestades de poeira. Nesse mundo de dias contados vive Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro pai de dois filhos que vive com o pai Donald (John Lithgow) em uma fazenda do interior dos Estados Unidos. Preocupado com o futuro das crianças, ele aceita participar da missão final de uma combalida Nasa para, junto da Dra. Brand (Anne Hathaway) e dos especialistas Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), atravessar um buraco de minhoca e verificar se três planetas localizados em outra galáxia tem potencial para ser habitados.
É uma ideia simples, mas que é desenvolvida no roteiro por Nolan e seu irmão Jonathan com uma complexidade fascinante em seus dois primeiros terços. Utilizando-se das teorias desenvolvidas pelo físico Kip Thorne e de conceitos básicos da física quântica, o longa encanta o espectador ao explorar o universo em um tom realista, através da visão de formações estelares impressionantes (não é todo dia que se vê um buraco-negro no cinema, convenhamos), e brincar de forma responsável com essas noções científicas. A história, assim, ganha a força e o peso ideais para progredir com vigor.
Outro ponto bastante positivo em Interestelar é a maneira como este se esforça em desenvolver suas relações humanas. Nolan, que sempre desprezou este lado em suas produções, traz visível preocupação em mostrar na primeira parte, por exemplo, a forte conexão emocional entre Cooper e a filha Murph (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chastain na fase adulta), cuja ligação é central no roteiro e importante para determinados segmentos da trama, através de atos isolados, como a perseguição ao drone. E mesmo que soe artificial em alguns momentos, a dramaturgia é suficiente para o público se conectar aos personagens e seus dilemas superficiais.
O acerto destes dois aspectos da produção, entretanto, não escondem os seus inúmeros defeitos técnicos e narrativos, gerados em sua maioria pelo estilo do próprio diretor. Isso porque algumas das características do cinema de Nolan acabam por se chocar com conceitos da ficção científica, e isso sublima pontos excelentes do filme. Dessa maneira, a necessidade do cineasta em abusar de diálogos expositivos subtrai das cenas o encantamento com o espetáculo visual oferecido aos personagens, enquanto o uso incessante de planos fechados e focados somente na reação dos atores entra em conflito direto com a belíssima trilha sonora de Hans Zimmer, que do uso de órgãos busca tirar do universo uma contemplação quase religiosa do que (não) é mostrado.
Mas o grande problema do longa sem dúvida é o seu terceiro e derradeiro ato, sabotado principalmente pelo absurdo narrativo que expõe. A pesada estrutura armada por Nolan, preparada em terreno racional, desaba quando trai seus conceitos físicos para elaborar um desfecho pautado no emocional, uma área que o diretor mostra dificuldade e é amparada somente pela sensível atuação de McConaughey. Incoerências são geradas, e a sensação final é de estranhamento.
Talvez pelos vícios de seu diretor, talvez pela promessa exacerbada, Interestelar é um filme que fracassa em suas ambições e tentativas bem intencionadas. É um fracasso, porém, bastante entretivo e curioso, do qual Nolan consegue emular bons momentos mesmo com todos os seus problemas. É um tropeço significativo na carreira do cineasta, sem dúvida alguma, mas não tão grave para o público perder a confiança nele e quebrar sua reputação.
Filme procura separar protagonista de James Bond, mas cai em roteiro clichê
Por Pedro Strazza
É inegável a afirmação de que a carreira de Pierce Brosnan nunca decolou de fato. Dono de um charme britânico quase estereotipado, o ator construiu sua reputação à partir de várias participações em pequenas e médias produções até ser escolhido nos 90 para viver a quinta encarnação do agente 007 nos cinemas, que viveu em quatro filmes. O estrelato proporcionado pelo papel, porém, não se refletiu da mesma maneira em sua trajetória profissional, marcada de forma profunda pela ligação feita com James Bond e arruinada após o fim desta e uma sequência de personagens superficiais e muito fracos.
Agora, mais de doze anos depois de sua última aparição como o célebre espião britânico, Brosnan retorna ao gênero que o levou à fama, mas na pele de outro agente secreto baseado na literatura: Peter Devereaux, o protagonista do livro There Are No Spies, cuja história foi adaptada para as telonas sob o nome de November Man - Um Espião Nunca Morre. Dirigido por Roger Donaldson, o longa traz a Pierce um cenário bem similar aos filmes de Bond: Uma trama internacional, uma mocinha bem bonita a ser salva (interpretada pela -surpresa! - ex-bond-girl Olga Kurylenko), muitas reviravoltas, traições, pancadaria e, claro, espionagem.
Seria o caminho perfeito para o ator fazer o que mais sabe fazer de melhor e quiçá progredir enfim em sua carreira, se não fosse por um pequeno e grave problema central da própria produção. Consciente dos riscos de parecer uma cópia descarada das aventuras do personagem criado por Ian Fleming, a obra cinematográfica tenta a todo custo tornar seu herói em um alguém completamente distinto de 007, mas no processo esquece-se de contornar na história os clichês do gênero. E o resultado obtido desta tentativa é doloroso, pois November Man torna-se uma sequência inacreditável de clichês sem graça e óbvios, arruinando assim qualquer curiosidade do espectador em acompanhar a trama e seus desenrolamentos.
O desinteresse do público já se inicia à partir da maneira como é apresentado ao protagonista. Buscando afastar o personagem de seu próprio passado, Brosnan é obrigado a compor em sua atuação um Devereaux ríspido, sarcástico e arrogante, e torna impossível as chances do espectador se conectar com ele. Sobra no espião da vez frieza e até(!) crueldade sem sentido, e falta a ele emoção e humanidade.
A necessidade injustificável e os esforços de Brosnan em tentar tornar real essa distinção, porém, não se refletem em quase todos os outros aspectos do longa, que leva a cartilha do gênero de espionagem inadvertidamente ao pé da letra. Situações previsíveis acontecem, personagens superficiais se revelam ainda mais rasos, surpresas nada surpreendentes acontecem... tudo tenta soar como novo, mas é reciclado de inúmeras obras. Mesmo os principais coadjuvantes, interpretados com diferentes níveis de engajamento por Luke Bracey e Kurylenko, se perdem na obviedade - e nesse quesito é inacreditável ver como Olga trabalha aqui com um papel IDÊNTICO ao que fez em Quantum of Solace.
Pautado ainda por um roteiro repleto de erros de continuidade (que inclusive são apontados em cena, como o emblemático "É sério que você vai fazer isso com apenas seis agentes?") e cenas de ação pessimamente orquestradas, November Man se espatifa na tentativa superficial e mal-feita de não trazer uma identificação imediata com outro produto. Para o espectador, um filme genérica; para Brosnan, mais um erro em sua carreira.
Um dos principais representantes da musical soul brasileira, Tim Maia tinha uma personalidade um tanto explosiva. De família negra e de baixa renda, o cantor lutou muito para lançar sua música na rádio e na televisão, e sua personalidade feroz e agressiva foram muito necessárias nesse processo de ascensão. Quando enfim alcançou o estrelato, porém, a fúria antes positiva tornou-se sua maior inimiga, querendo destruir tudo o que conseguiu e o afastando de amigos e familiares, e logo precisou ser combatida pelo próprio.
Isso, pelo menos, é o que sua cinebiografia procura passar em mais de duas horas de projeção. Baseado fundamentalmente no livro Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta, o longa comandado por Mauro Lima reconta a difícil trajetória do compositor desde sua infância na Tijuca até os últimos dias de vida, e toma como constante essa sua agressividade. Em Tim Maia, o personagem interpretado por Robson Nunes na juventude e por Babu Santana na idade adulta traz como característica a violência, seja na atitude folgada e repleta de sarcasmo ou no uso exagerado de drogas e estimulantes.
Mas então qual seria a origem de tal ira? Para Lima, que roteiriza com Antonia Pellegrino o texto de Motta, o jeito violento de Maia vem de sua própria formação, sempre clara em esclarecer as injustiças da sociedade àqueles de origem econômica e racial similar a ele. Condenado por todos a viver com pouco e sem um tostão no bolso, a única maneira pela qual o protagonista melhoraria de vida não poderia ser outra senão pela insistência e o jeito malandro, que juntas a outras características semelhantes formariam a impulsividade emocional do cantor e o guiariam ao sucesso musical.
É neste contexto de luta social, portanto, que o filme conduz sua narrativa, aliando no processo o aprendizado e duro caminho musical tomado por Tim. Mais curioso, porém, é perceber como a obra realiza esta última, dividindo a trama em duas partes distintas: Na primeira, acompanha-se dos primeiros passos aos esforços tomados por Maia para se estabelecer no mercado - recompensados, enfim, com o uso de uma letra sua por Roberto Carlos (George Sauma) -, através de uma fotografia pautada em cores frias e de época; na segunda, dos primeiros sucessos ao fim prematuro, em tons quentes e com muito uso do claro e escuro.
Essa separação temática flui muito bem para a produção, e ajuda bastante no trabalho de caracterização dos dois atores escolhidos para viver o protagonista. Enquanto Nunes compõe um Tim Maia já explosivo na juventude, mas capaz ainda de dosar suas ações exageradas, Santana surge na vida adulta do compositor quase igual ao próprio, incorporando trejeitos e a voz do cantor, para passar a raiva e frustrações sucessivas do personagem ao espectador. Nesse contexto, a direção de Lima é inteligente ao transformar a ira de Maia em momentos cômicos, esvaziando a produção de uma indesejada tensão.
O acerto do diretor nesse aspecto, porém, não se reflete na narrativa, prejudicada em vários pontos por estruturas e recursos óbvios. A narração em off de Fabio (Cauã Reymond, bem no papel), por exemplo, em diversos momentos parece saída do próprio livro e denota uma inconveniente sensação de preguiça do roteiro em mostrar na tela tais eventos mencionados pelo músico amigo de Tim, ao passo que a trama dramatiza de forma boba ações por si só auto-explicativas. Falta à produção a criatividade e ousadia de seu protagonista, e com isso a obra perde força.
Genial, insistente, amigo e irritante foram alguns dos vários adjetivos atribuídos a Tim Maia em sua vida de exageros e atrasos. Sua personalidade complexa e seu talento como cantor e compositor o tornaram inegavelmente uma pessoa intrigante, e sua cinebiografia comprova a profundidade de seu ser. Mesmo convencional em suas escolhas técnicas, Tim Maia é um filme com uma análise de um personagem tão profundo e interessante, ao qual faz com relativo sucesso e cuidado criativo.
Novo trabalho de Richard Linklater encanta pela abordagem sensível e sutil de tema complicado
Por Pedro Strazza
O tempo é uma entidade poderosa em nossa existência. É ele que presencia todas as histórias criadas e desenvolvidas, acompanhando o nascimento, o crescimento e o fim de cada uma das vidas humanas. Seu maior poder, entretanto, é a sua continuidade eterna, que por não parar oferece a nós, seres humanos, poucas oportunidades de olhar para trás e compreender o quão rápido nos modificamos em um curto período de... tempo. Pois afinal, quem não mudou seu perfil, mesmo que levemente, após um ano (ou um mês, ou uma semana, ou um dia...) de existência?
Esta reflexão existencial nada discreta deve ter sido um dos motivos para o diretor e roteirista Richard Linklater ter começado, no fim da década de 90, a produção de Boyhood - Da Infância à Juventude. De início com um pequeno elenco, o cineasta filmou nesses últimos doze anos a história sobre a infância e adolescência de Mason Jr. (Ellar Coltrane), assistindo em consequência o crescimento e envelhecimento natural de seus atores e atrizes. O resultado final de tal experiência cinematográfica é uma epopeia cotidiana sobre o tempo e seus efeitos, que são tratados por Linklater com cuidado e sutileza impecáveis.
Para alcançar tal graciosidade, o cineasta se utiliza de estruturas narrativas leves e muitas vezes clichê, mas se guia no processo somente pelo protagonista e as histórias que o cercam. Isso porque o filme, assim como a vida, é uma sequência de arcos intercalados e simultâneos: Grandes ou pequenos, eles são muitas vezes apresentados a Mason Jr. (e o espectador, com isso) em segundo plano, e ganham destaque e maior relevância a cada ano passado. E isso se observa principalmente em coadjuvantes como o professor Bill Welbrock (Marco Perella), cujo casamento com Olivia (Patricia Arquette) e o problema com a bebida vão do auto-controle feliz ao desastre completo em questão de minutos no longa.
O grande destaque de Boyhood, porém, são os arcos desenvolvidos por Mason Jr. e sua família, construídos psicologicamente por Linklater com tanta eficácia. Sem nenhum alarde, o filme evidencia o perfil do protagonista e seus membros familiares mais próximos pelos pequenos atos e detalhes, como o carro que o pai Mason (Ethan Hawke) usa na grande maioria do longa, as desastrosas escolhas de marido feitas pela mãe Olivia após o primeiro casamento ou até o comportamento mais rebelde da irmã Samantha (Lorelei Linklater) quando criança. É destes minimalismos que o diretor guia o espectador na passagem do tempo e suas mudanças, e o faz aceitar com naturalidade as escolhas tomadas pelos personagens.
Mas a compreensão do caminho tomado é bem mais fortalecida no protagonista, interpretado com excelência por Ellar Coltrane. Sendo a pessoa que mais sofre alterações físicas e emocionais, a trilha percorrida por Mason Jr. é captada pela obra com sensibilidade suficiente para que o público se envolva com ele e sinta suas dores e vitórias conforme cresce. O acerto maior da produção, entretanto, é a capacidade de manter no personagem, da infância à juventude, o mesmo perfil doce e calmo, tornando-a uma constante em toda a metamorfose temporal realizada.
A maneira como o filme faz passar o tempo é outro ponto muito bem elaborado. Sem precisar pontuar de forma clara através de uma legenda ou coisa do gênero, Linklater torna perceptível a mudança de ano por meio da própria mudança física das pessoas que acompanha (o cabelo de Mason Jr., por exemplo) ou de diálogos, objetos e eventos bastante temporais, como músicas, videogames, lançamentos de livros e campanhas políticas - e inclui, em um clássico papo pai-e-filho, até uma não planejada ironia bem humorada com o futuro de Star Wars.
Com discussões sobre assuntos universais e uma narrativa leve e tocante, Boyhood - Da Infância à Juventude é uma experiência cinematográfica fascinante, capaz de discursar sobre o tempo e a humanidade com sensibilidade. Com uma história do cotidiano e sem nenhuma grande reviravolta, Linklater traz à tona uma obra-prima que aborda com delicadeza do tempo, um tema tratado tantas vezes com peso pelo cinema. E a prova maior do sucesso da produção é o próprio espectador, que termina o filme com a sensação de querer ver mais da vida de Mason Jr. e sua família.