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domingo, 13 de novembro de 2016

Crítica: Snowden - Herói ou Traidor

Oliver Stone busca em analista de sistemas uma figura de contenção, mas se perde no equilíbrio entre real e ficção.

Por Pedro Strazza.

No Brasil, a cinebiografia de Edward Snowden estrelada por Joseph Gordon-Levitt ganhou o bizarro subtítulo Herói ou Traidor, uma referência direta ao debate midiático sobre o ex-agente da CIA e da NSA ter sido correto ou não ao revelar para o mundo o fato dos Estados Unidos estar quebrando as leis de vigilância próprias e de outros países para satisfazer suas preocupações com segurança. Um adendo bizarro e bastante incoerente com o teor do filme dirigido por Oliver Stone, já que este não está interessado em debater o posicionamento de Snowden em relação ao governo estadunidense e sim de consagrá-lo como herói por seus feitos contra um sistema ameaçador.

Para isso que aconteça, Stone e seu parceiro no roteiro Kieran Fitzgerald aproveitam a oportunidade de recontar a trajetória do agente - desde seu início frustrado no exército militar do país até o presente, centralizando-se nos momentos anteriores à publicação do artigo escrito por Glenn Greenwald (Zachary Quinto) com suas declarações - para torná-lo em uma figura de contenção, primeiro à favor das intenções do governo e depois como uma maldição de fato. A dramatização da história aqui se aproxima muito de uma via crucis de informação, onde Snowden é submetido a constantes provas de resistência a cada volume de dados sigilosos que recebe em ordem de perceber até que ponto ele é capaz de guardar para si esse material sem que se autodestrua - algo melhor evidenciado nos altos e baixos de seu relacionamento com a namorada Lindsay (Shailene Woodley).

Esse processo de interiorização, que passa por verdadeiros testes de limite físico (graças ao histórico médico de epilepsia do protagonista) e psicológico, serve a Stone para distanciar Snowden de sua imagem midiática e aproximá-lo de um perfil mais humano, alimentando a jornada de herói concebida por ele ao analista de sistemas. No fundo, o diretor cria aqui mais uma de suas típicas narrativas sinergéticas, que concilia os dramas pessoais de Snowden (a falta de conexão com o mundo, o isolamento social por essência) com o período histórico de crise ideológica passado pelos Estados Unidos do governo Bush e Obama. Tanto que a decisão do protagonista por ir contra o sistema ocorre na produção no momento no qual a vigilância chega a seu próprio território, numa das únicas cenas do longa capaz de emular bem a sensação de Big Brother criada pelos aparatos da NSA.

Stone, porém, mostra-se tão preocupado em ratificar sua posição política na obra que sua proposta com o personagem acaba por perder força. O filme muitas vezes interrompe o fluxo narrativo para dar explicações verborrágicas e criar dilemas rasos sobre as questões que trata, perdendo o foco no personagem para ilustrar a situação política. Uma operação um tanto quanto canhestra, já que no fundo ela prejudica o equilíbrio entre o cenário individual e geral e torna Snowden um personagem sem rumo definido na história.

Essa falta de direção também ocorre porque a "dramatização" dita por Stone no início do filme aos poucos se revela uma novelização disfarçada de documentário. A verborragia dos diálogos, que vem como forma de informar e aumentar a paranoia do espectador sobre os fatos, não esconde a dificuldade do longa em estabelecer uma unidade entre as situações de choque entre os personagens, dando a sensação de que todas as cenas funcionam à base do impacto imediato. Nem mesmo o relacionamento de Snowden com Lindsay (aqui retratada como mero apoio emocional) escapa desse problema: em um momento, o protagonista, sentindo a pressão do trabalho e do excesso de vigilância, briga com a namorada por sua responsabilidade em protegê-la "da verdade"; no outro, essa tensão se dissipa, dá lugar a um caso de falta de confiança e ciúme que ele tem com ela sem qualquer motivo aparente.

No fim das contas, Snowden - Herói ou Traidor sofre com o dilema de unir realidade com a ficção, tirando de uma realidade pungente e atual um processo imagético que transforme uma figura pública em um personagem de fácil conexão. Quando ao final do filme Stone substitui um Gordon-Levitt de voz forçada pelo próprio Snowden, essa problemática do roteiro se acentua: se a cena vem para consagrar o retratado como herói e dar peso "real" à história, ela apenas soa como uma cartada final desesperada, que ressalta a falta de recursos do diretor em dar conta do processo ao qual se submete.

Nota: 4/10

sábado, 18 de outubro de 2014

Crítica: Pássaro Branco na Nevasca

Análise social e feminista é perdida para resolver principal mistério da trama

Por Pedro Strazza

Baseado no livro homônimo e escrito por Laura Kasischke, Pássaro Branco na Nevasca já traz em seu início vários elementos de qualidade que facilmente poderiam o tornar uma obra-prima: a trama curiosa, o mistério instigante, a protagonista profunda, o elenco talentoso. Estes componentes, porém, são mal direcionados na mão do diretor e roteirista Gregg Araki, que escolhe focar em temas e situações nada interessantes, e a produção transforma-se em algo inconveniente e aborrecido. Mas me precipito.
A trama é simples. Kat (Shailene Woodley), uma adolescente de 17 anos, tem a sua vida alterada profundamente quando sua perturbada mãe Eve (Eva Green) desaparece de forma misteriosa, deixando para trás nenhuma pista de sua localização. Com o sumiço da genitora, Kat ganha mais liberdade em casa, mas logo começa a ser obrigada a confrontar a dura realidade que a permeia e envolve pessoas próxima dela como seu pai Brock (Christopher Meloni), seu namorado Phil (Shiloh Fernandez) e o detetive Scieziesciez (Thomas Jane).
O estranho desaparecimento é utilizado por Araki na primeira metade do longa como um fio condutor eficiente. É a partir desse, afinal, que Pássaro Branco começa a arranhar a superfície de uma crítica à sociedade, realizando-o de fato através dos flashbacks que revelam o problemático relacionamento entre Kat e Eve. Apesar das discussões acaloradas e das brigas constantes, mãe e filha possuem o mesmo perfil de mulher poderosa e em crise com seu futuro pré-estabelecido de dona-de-casa, algo natural se pensarmos no contexto de ascensão do feminismo ocorrido no final dos anos 80 e começo dos 90, justamente a época em que se passa o filme.
Mais curioso, porém, é a maneira como o mundo é encarado por essas duas protagonistas. Pela fotografia quase sempre fixa e o design de produção recheado de cores berrantes, Pássaro Branco na Nevasca revela aos poucos em sua primeira parte uma sociedade repleta de homens unidimensionais e enfraquecidos, dominados por mulheres de futuro promissor e muito mais profundas em seus desejos. Não à toa, os três principais seres masculinos que circundam Kat - Brock, Phil e Scieziesciez - são claramente superficiais em seus desejos e ambições, buscando encontrar apenas uma vida feliz e livre de preocupações.
Mas essa construção crítica do social tão bem apresentada e elaborada pelo roteiro é logo sabotada pelos próprias estruturas primordiais do filme. De sua metade até seu encerramento, o longa abandona uma interessante análise de gênero sobre o mundo para solucionar o mistério que deu início a esta, e faz isso com a ajuda de clichês óbvios e sem graça. A narrativa perde o controle, a direção de Araki se desequilibra e as performances de seu elenco são afetadas seriamente, tornando caricatas atuações antes concisas e equilibradas de Green e Woodley.
Ao subjugar a trama a este processo enfadonho, Pássaro Branco na Nevasca sabota sua própria construção e transforma sua complexidade em algo bobo e desnecessário. E o desfecho da obra, tão anti-climático e mal conduzido, é a prova maior do erro cometido.

Nota: 4/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)