Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Palma de Ouro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Palma de Ouro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Crítica: Winter Sleep

Vencedor da Palma de Ouro traz visão desoladora da humanidade enquanto desconstrói seu protagonista

Por Pedro Strazza

Aydin (Haluk Bilginer) é um homem solitário. Mesmo sendo o dono de um pequeno hotel na fria e desértica Anatólia Central e que viva em companhia da jovem esposa Nihal (Melisa Sözen) e da irmã Necla (Demet Akbag), o ex-ator aparenta estar sempre isolado do mundo, e demonstra isto em sua postura encurvada e nas grandes olheiras presentes em seu rosto.
A tônica depressiva descrita no breve parágrafo acima é só um indício do quão desolador será Winter Sleep. Ganhador da Palma de Ouro, o novo trabalho do diretor turco Nuri Bilge Ceylan parte do dia-a-dia de Aydin para trazer à pauta complexos temas existencialistas da humanidade, ao qual discute em verborrágicas conversas entre seus personagens. Estes debates, porém, em nenhum momento trazem esperança ou sequer um lado positivo, refletindo-se de forma emocionalmente impactante naqueles que o debatem.
Mas as pessoas que aparecem em cena e cercam a vida do protagonista só tem sua personalidade afetada por essas discussões por justamente trazerem nessa um perfil falho e deveras machucado por seus erros passados, ao qual maquiam para conseguir viver bem consigo mesmas. Não à toa, Ceylan insiste em filmar seus personagens pelas costas, denotando uma clara necessidade destes em esconder seu verdadeiros medos e anseios do resto do mundo.
O real brilhantismo do filme, entretanto, é o de alinhar esse jogo social com a análise de Aydin e sua própria personalidade falha. Realizado substancialmente em três grandes temas - o problema com o inquilino, a briga com a recém-divorciada irmã e o problemático casamento com Nihal -, o longa desconstrói seu protagonista para revelar sua faceta contraditória, a de um homem que vive das glórias do passado de estrela e não consegue se decidir sobre qual caminho tomar no presente. E a atuação de Bilginer só torna ainda mais evidente os problemas de Aydin ao dar a este uma atitude não muito batalhadora e que pouco se importa com os outros - apesar de tentar demonstrar esta última levianamente em vários momentos da projeção.
O desenvolvimento narrativo de Winter Sleep é algo incrível ao conseguir juntar o questionamento existencial com uma análise de personagem contundente, mas é prejudicada de maneira severa pela própria direção e montagem da produção. Os diálogos, que chegam a levar mais de 20 minutos para serem concluídos, ganham um peso desnecessário na mão de Ceylan, tornando-os parados e monótonos. A edição, por outro lado, é arrastada e contribui para deixar a obra bastante cansativa em suas quase três horas e meia de duração.
Com um elenco excelente e um roteiro denso, Winter Sleep é um filme pessimista sobre a humanidade e seu protagonista, ao qual denota um perfil falho e irremediável. Mesmo lento em seus extensos diálogos, o longa traz através destes uma perspectiva depressiva sobre o ser humano, gerando impacto sobre o espectador. E nenhuma comparação com a humanidade é mais gritante que a visão de um cavalo escapando de uma poça de lama, mas incapaz de prosseguir depois de salvo.

Nota: 7/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)