Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Nicolò Cabras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nicolò Cabras. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Crítica: Belos Sonhos

Trauma da perda da figura materna é ponto de partida para Bellocchio trabalhar relações familiares fundamentais.

Por Pedro Strazza.

Diretor bastante reconhecido pela carga política e de forte crítica religiosa de suas obras, Marco Bellocchio não deixa de ser mais um cineasta italiano a trabalhar a unidade familiar em seus filmes, tema forte e um dos pilares fundamentais do cinema do país desde sempre. A união de seu cinema com a problematização destes valores tradicionais gera sempre resultados fascinantes de serem observados, desde os primeiros trabalhos - De Punhos Cerrados, A China Está Próxima - até mais recentes como o explosivo reconto da história de vida da amante de Benito Mussolini em Vencer. Belos Sonhos de certa forma ainda mantém esta mesclagem de assuntos familiares e políticos na pauta, mas não é nem por um instante o grande foco do diretor aqui.

Adaptação do romance autobiográfico de Massimo Gramellini e escrito por Bellocchio em parceria de Valia Santella e Edoardo Albinati, o filme centra-se na vida de Massimo (Nicolò Cabras quando criança, Dario Dal Pero quando adolescente, Valerio Mastandrea quando adulto), um jornalista esportivo que perdeu a mãe (Barbara Ronchi) de forma misteriosa na infância. Bastante ligado à figura materna, a brusca separação gera um trauma no garoto, que cresce sob sua ausência e o constante atrito com o pai (Guido Caprino). Depois de adulto e realizado na profissão, resta a Massimo confrontar os fatos de sua família e entender o que aconteceu naquela fatídica noite antes de prosseguir com sua vida.

A princípio, Belos Sonhos possui como elemento central de seu drama a mesma disrupção entre mãe e filho de a A Hora da Religião, filme que alimentava o conflito entre os dois membros pelo processo de canonização ao qual a figura materna do protagonista era envolvida após sua morte. A diferença entre as duas obras está no direcionamento: se o longa de 2002 usava desse conflito para tratar de instituições que cercavam seu personagem principal (como a família e, óbvio, a religião católica), Massimo se vê envolvido em questões muito mais íntimas, dramas interiorizados que a partir do falecimento de sua mãe o perturbam mesmo depois de adulto por meio de ataques de pânico e lembranças de Belgrano, criatura de um filme de horror italiano antigo que lhe serve de amigo imaginário.

Nesse sentido estabelecido pela história, Bellocchio a aproveita para conceber uma jornada em torno do crescimento e amadurecimento de seu protagonista com a tão sentida falta da mãe. Por meio de uma narrativa que vai e volta no tempo constantemente, mostrando relances do presente para depois retornar ao passado, o diretor insere uma confluência de elementos simbólicos que juntos permitem ao espectador adentrar e navegar pelo espírito atormentado de Massimo. Esporte, música, figuras de Napoleão, mesmo a imagem assustadora de Belgrano são todas derivações diretas - a dança soa como o maior trauma remanescente da vida do jornalista, com sua reconexão só se dando em um momento de libertação pelo relacionamento com a doutora Elise (Bérénice Bejo) - ou indiretas - Massimo só se apaixona pelo futebol porque o pai o levava aos jogos do Torino para, mesmo que só por um momento, se conectar com ele - da perda na infância.

A morte da mãe, então, torna-se no conduíte máximo da história do garoto, com o mistério por trás de sua ocorrência servindo de enigma à sua existência. O longa, ainda que cadenciado pela investigação dos fatos, aproveita deste ponto central da trama pela separação bruta que a caracteriza e pela observação de Massimo como sobrevivente do fim de sua relação familiar mais vital. A procura por algo que substitua a mãe e suas tentativas de perceber sozinho o que de fato aconteceu (a situação da criança no videogame durante o cerco a Sarajevo é um momento curioso desta linha) são a forma encontrada pelo diretor para materializar essa angústia de lidar com a verdadeira tragédia ao qual se encena, como se o cineasta diagnosticasse como fundamental esta relação maternal na sociedade italiana.

Uma relação que, como qualquer outra no cinema do país, é tempestuosa e bipolar. O próprio Massimo define depois na resposta dada a uma carta escrita para o jornal onde trabalha, mas a cena que mostra a conexão difícil de seu amigo de escola com a própria mãe (Emmanuelle Devos) já antecipa esta dificuldade latente do italiano (e, por consequência, do ser humano) de demonstrar amor pela figura materna mesmo que esta o trate com tanto carinho. Entender as maneiras misteriosas pela qual esta relação se dá é algo que no fundo também rege o cinema de Bellocchio, e em Belos Sonhos sua solução temporária ao desafio imposto talvez esteja melhor traduzido nas reações do protagonista quando na infância brinca de esconde-esconde com a mãe e não consegue a encontrar.

Nota: 8/10