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sábado, 8 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha - De Volta ao Lar

Nova versão do herói compensa nas dinâmicas colegiais as falhas de seu processo de reformulação.

Por Pedro Strazza.

[Esta crítica aborda reviravoltas da trama. Se você ainda não assistiu o filme, leia por sua própria conta e risco]

Por se tratar da terceira encarnação de um personagem feita em quinze anos, Homem-Aranha - De Volta ao Lar é um filme que sem surpresas precisa lidar desde o princípio com processos de ressignificação da mitologia de seu herói. Essa era uma dificuldade já bastante sentida nos dois O Espetacular Homem-Aranha, mas que aqui se acentua em caráter quase exponencial: afinal, é difícil trabalhar um protagonista e sua jornada se sua história e valores já foram incessantemente martelados duas vezes no imaginário do público há muito pouco tempo.

Talvez seja por isso que o filme dirigido por Jon Watts, no esforço de criar novos caminhos ao herói, opte então por evitar muitos dos elementos que configuram a persona trágica do personagem - bastante exploradas nos outros longas - e prefira uma abordagem descompromissada e mais interessada no espaço ocupado por sua história. Como em Homem-Formiga e nas séries de vigilante da Netflix, De Volta ao Lar aproveita muito do seu status de capítulo periférico à grande trama das produções do Marvel Studios para conceber sua estrutura e dinâmicas, se estabelecendo como uma obra que busca contemplar o olhar daqueles que servem de meros espectadores às grandes batalhas entre deuses, alienígenas e figuras de inspiração.

Ao escalador de paredes, essa mudança de ponto de vista não só reflete numa transição de espaço - sai Manhattan e sua aspiração grandiosa de toques operísticos, entra o Queens e sua rotina de quase cidade pequena - como também de curva de aprendizado. Se os Aranhas de Garfield e Tobey Maguire tinham na responsabilidade de seus atos uma eterna maldição a ser compreendida, esta nova versão vivida por Tom Holland encontra na vida dupla de super-herói o dilema de estar ancorado em dois mundos distintos, um de constantes preocupações maiores e outro de vida simples e cujas maiores ambições são de vencer uma competição de conhecimentos acadêmicos em Washington e saber quem levar para o baile do colégio. É uma temática presente inclusive no grande vilão da história, o Abutre (Michael Keaton, ótimo), cujo perfil de ladrão de sobras dos conflitos dos Vingadores e discurso de "Nós não somos como eles" traz à tona esta divisão espacial sob o viés do revanchismo - o que não deixa de ser um grande clichê na lógica de formação do antagonista, mas isso ajuda a dar distinção e peso suficientes ao personagem e seu grupo de caçadores de sucata, que inclui duas versões do Shocker e uma do Consertador (Michael Chernus).

Esta noção de "eles" e "nós" fica um pouco subaproveitada na direção de Watts, que não se mostra muito habilidoso na hora de conciliar as duas esferas e redirecionar esse choque ao arco de Peter Parker da mesma maneira em que mostra dificuldade sincera para trabalhar a ação - cuja execução burocrática e confusa frustra o potencial de seus cenários, especialmente o do clímax final que envolve camuflagem em grandes altitudes -, mas ele consegue compensar parte destes problemas na hora de enquadrar a rotina escolar do roteiro. Com claras ambições ao cinema de John Hughes (referência repetida quase à exaustão na narrativa) e sabendo tirar o melhor de seu elenco (uma qualidade à qual Watts já havia demonstrado no fraco A Viatura), De Volta ao Lar sabe como expandir as dinâmicas colegiais ao resto da trama, personificando estereótipos feitos do ponto de vista pré-adolescente a figuras da estrutura típica dos filmes de super-herói, como a imagem paterna em cima de Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou do pai da namorada ao vilão - uma sacada de roteiro que mesmo acontecendo muito tarde na trama é ótima para reorganizar e dar novo sentido ao enfrentamento do herói com o inimigo.

São dessas boas sacadas e de um humor bem pontuado (junto da própria adequação ao caráter local, colegial e "pé no chão") que o longa no fim se sustenta, algo mais evidente não apenas fora dessa lógica - como em Homem-Formiga, a presença dos Vingadores pode soar um pouco à toa - mas também nos momentos em que se sente a ausência dos elementos responsáveis por fazer a figura do personagem nas outras encarnações. Destituído aqui da tragédia - Tio Ben nem chega a ser citado - e encarado como um herói em formação que precisa se conformar com a demora de sua jornada, a dualidade Peter Parker/Homem-Aranha acaba esvaziada de um sentido maior ao ser presa no que pode ser considerado um experimento muito controlado de reformulação do personagem, feito no sentido de conferir novos significados ao herói e diversos pontos de sua mitologia, desde a questão da identidade secreta até sua relação com determinados coadjuvantes (incluindo aí a surpreendente inversão de relação realizada com a MJ de Zendaya).

Não que este processo seja de algum modo um fracasso - ele está bem à frente, por exemplo, de todos os equívocos realizados na fase vivida por Garfield - mas De Volta ao Lar deixa claro que não possui o necessário para obter os mesmos resultados dos três capítulos dirigidos por Sam Raimi, que compreensivelmente servem à produção como referência e obra a se tomar distância. Se Watts não ambiciona a mesma grande compreensão do significado de ser um herói, ele busca repetir em cenas desta nova versão (como a do barco ou dos escombros) a força dos pequenos atos de valor oriundos do heroísmo, uma consequência imediata daquela lógica que sozinha não providencia a mesma catarse ao filme.

Nota: 6/10

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Crítica: Spotlight - Segredos Revelados

Relato  de processo jornalístico desconstrói os alicerces sociais à distância.

Por Pedro Strazza.

Dos vários choques de realidade proporcionados por Spotlight - Segredos Revelados, surpreende que o maior deles seja justamente aquele que se faz mais discreto na narrativa, o do real status quo do jornalismo. Apesar da história se passar entre os anos de 2001 e 2003 (há mais de dez anos!), a fotografia de Masanobu Takayanagi tem uma predisposição a filmar o vazio material das redações e o número pequeno de pessoas presentes nesses ambientes, enchendo-os ora ou outra de documentos e arquivos. É como se a tão alardeada crise do jornalismo dos dias de hoje fosse um fato atemporal, algo que mova a produção no meio da mesma forma que um burro é sempre chicoteado pelo dono para mover a carroça.

Esse fato ajuda a explicar alguma das escolhas feitas pelos roteiristas Tom McCarthy e Josh Singer para recontar nas telas a investigação realizada pela equipe Spotlight do jornal The Boston Globe sobre os abusos sexuais cometidos por uma rede de membros da Igreja. Pois mesmo que de início o filme se estabeleça como uma crítica dura à tal instituição religiosa, ele logo expande esse raciocínio para um panorama mais geral da coisa.

A lógica do longa dirigido por McCarthy é a mesma de uma fileira de dominós: se um cai, todos caem juntos. Da mesma forma que empresas e pontos turísticos derrubados (o outdoor da AOL, o pequeno televisor na redação reportando o 11 de setembro) o longa denuncia o declínio das instituições que formam a sociedade contemporânea, deterioradas pelo tempo e a cobiça do ser humano. Oriundo disso, é visível nos lugares e nas pessoas um ar de desilusão constante com o convívio social intenso, seja nos diversos planos que apresentam os personagens sozinhos ou mesmo nas multidões solitárias que discretamente ocupam os espaços públicos. A Igreja, claro, é ainda o maior antagonista da história, mas não passa despercebido o desencanto com profissões como o Direito e o Jornalismo - esta última bastante evidente na relação entre o chefe da Spotlight vivido por Michael Keaton e o antigo editor do jornal, interpretado por Jamey Sheridan.

Mas se Spotlight parece disposto a desfazer gigantescas organizações, ele tem dificuldades em posteriormente construir algo que as substitua, e em parte isso é culpa do próprio roteiro e do pouco que ele faz para estabelecer uma relação entre indivíduo e sistema. Esse elemento, vital em produções dispostas a analisar esta temática, sai atrapalhada no filme pela insistência de McCarthy em filmar a história com distância, em planos que valorizam mais o ambiente que a pessoa e esfriam o envolvimento do espectador com os protagonistas.

A bem da verdade, interessa ao diretor a informação e não o ser humano: os closes do longa sempre se dão no ato da revelação, do relato de inocentes ou de pessoas envolvidas na rede, e nunca chegam a se interessar pelo impacto desta no indivíduo e na sociedade ao qual integra. De vez em quando, o filme até ensaia dar maior atenção aos efeitos da matéria em seus protagonistas jornalistas, como na reação do personagem de Brian d'Arcy James ao descobrir a proximidade de um centro de recuperação do clero de sua casa (uma das poucas sequências que se percebe um manejo humano da câmera) ou na de Rachel McAdams vendo sua avó mega-católica ler sobre o caso; mas à exceção das cenas com o personagem de Mark Ruffalo - o qual encontra um ápice maravilhoso em um momento em que ele pede um táxi e sai desesperado atrás deste, rompendo com a sistemática natural das coisas - é notável que Spotlight parece confortável em se comportar como filme puro de processo, a ponto de não se interessar em revelar o destino dos envolvidos na fabricação da matéria.

A cena que retrata o impacto da notícia do resultado de um julgamento explicita muito bem essa lógica fria da produção. Nela, McCarthy inicialmente estabelece todos os personagens envolvidos olhando para extremos do quadro, cujo centro é Keaton à mesa. Quando este último recebe a ligação que o informa da decisão sobre o caso, a câmera começa a dar um zoom lento e todos olham para seu cubículo interessados no fato, e quando o recebem, não demonstram qualquer reação a ele. É como se eles já fossem parte do sistema mesmo que o combatam com vigor, incapazes de esboçar um mínimo de humanidade que o tornem reais.

E para um filme que vê os poucos momentos de contato com um misto de estranheza e preciosidade, isso pode ser alarmante.

Nota: 6/10

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

HEY, Eu Quero uma Segunda Opinião!: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Um filme de Riggan Thomson, o Birdman... ou Michael Keaton, o Batman.

Por Alexandre Dias.

Quando falamos de Birdman, certamente o que pode ser afirmado é que foi produzido na melhor época possível, a que os blockbusters reinam no cinema e os atores são substituídos por celebridades. É justamente esse diálogo com a realidade que o diretor mexicano Alejandro González Iñarritu construiu de forma muito eficiente, com o auxílio de um belo elenco e por meio da alternância entre o drama e o humor.
A metalinguagem existente se inicia com a própria escolha do protagonista: Michael Keaton, que atuou como Batman em 1989 e 1992, interpreta Riggan Thomson, que foi o super-herói Birdman nos anos 90 e agora procura fazer sucesso com uma peça na Broadway.
E se longa é uma oportunidade única para Keaton “renascer”, ele não a desperdiça. Sua atuação é excelente, tanto nos momentos em que ele se perde no seu psicológico como nas suas relações sociais. O restante do elenco corresponde à altura.
O resultado disso são ótimas interações entre os personagens nas partes cômicas- em especial, as piadas referentes a outros atores- e naquelas mais dramáticas, sendo estas últimas exploradas de maneira interessante na exposição da identidade dos envolvidos; as cenas entre Mike Shiner (Edward Norton) e Sam (Emma Stone), por exemplo, apesar de serem leves por um lado, desvendam muito bem os traços de pensamento do astro de cinema contratado e da filha de Riggan.
Porém, méritos devem ser atribuídos a Iñarritu por aplicar o falso plano-sequência eterno, pois assim a ideia de entender quem os intérpretes são dentro e fora da peça fica mais clara, como se o espectador sempre estivesse nos bastidores e na plateia. Consequentemente, a principal questão do filme vem à tona: quem são estes indivíduos? Atores ou celebridades?
Birdman triunfa ao estabelecer esta indagação afinal, estamos vivendo o tempo das celebridades no entretenimento. Tempo em que uma trama qualquer, um galã, um vilão canastrão e algumas explosões podem compor um projeto cinematográfico. Assim, o limite entre o que é arte ou não estaria sendo questionado, porque apesar de Tabitha (Lindsay Duncan), uma moça que trabalha escrevendo críticas de peças para certo veículo de comunicação, por em dúvida a legitimidade de Thomson como ator, o mesmo fez sucesso por interpretar um homem-pássaro.
A “situação” de Keaton pode ter sido um grande impulso para a realização de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Contudo não há como negar que o resultado foi muito positivo, não só por dialogar com a realidade do antigo Bruce Wayne, mas também com a indústria cultural presente nos dias atuais.

Nota: 10/10

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crítica: Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Egos artísticos em choque.

Por Pedro Strazza.

O ego é uma parte muito curiosa e instável de nossa humanidade. Responsável por alimentar as ambições do indivíduo e de proteger a auto-confiança, ele fortifica as (falsas) convicções do indivíduo sobre sua importância e lugar no mundo, impulsionando-o a tentar ser aquele "algo a mais" em qualquer esfera social que se localize. Mas assim como todas as outras coisas, o ego precisa ser equilibrado para evitar que o ser humano tanto tenha sua pessoa subjugada à sociedade quanto seja tomado por seu orgulho e comece a acreditar na importância de certas características para guiar seu dia-a-dia - ou pior, tenha sua vida escravizada e ditada por estas.
Este último caminho, o da alta soberba, serve como motor para Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), filme de Alejandro González Iñarritu que analisa o tema sob o espectro do mundo artístico. E esta escolha não se dá somente por ser a esfera em que o cineasta mexicano trabalha, mas também por se tratar de um dos ambientes onde o ego encontra-se mais tomado pela vaidade, e é dessa maneira que Iñarritu em poucos instantes já estabelece o bairro central à história aqui como uma espécie de campo de batalha, no qual a soberba dos indivíduos envolvidos confrontam-se continuamente pelo domínio.
Toda esse conflito ocorre devido a uma peça de teatro organizada por Riggan Thomson (Michael Keaton), um decadente ator de Hollywood famoso apenas por fazer o papel de um super-herói intitulado Birdman nos anos 90 e que busca voltar a ser reconhecido por seu trabalho por meio da obra teatral. Para conseguir isso, porém, Thomson não só tem que arrumar os problemas ocorridos nos bastidores, como também precisa encarar sua própria trajetória de vida e todos os erros cometidos nesta, envolvendo desde o problemático relacionamento com a filha Sam (Emma Stone, ótima) até a segunda voz em sua consciência, o próprio personagem responsável por sua rápida ascensão cinematográfica, que o atormenta de forma constante.
De certa maneira, o grande mérito do filme acontece nessa relação de egos desenvolvida na preparação da peça. Do agente de Riggan (Zach Galifianakis),  interessado apenas no sucesso da produção e disposto a fazer de tudo para conseguir isso, à crítica do Times Tabitha (Lindsay Duncan), que defende suas bandeiras e opiniões sobre a arte por um orgulho mesquinho (e bastante caricato, se pensarmos bem), o roteiro escrito por Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Giacobone e Armando Bo cria uma rede de indivíduos que de diferentes formas se relacionam com o reconhecimento do público, concebido aqui como elemento essencial para o sucesso.
Essa definição de glória de imediato remete, claro, aos próprios objetivos estabelecidos nas carreiras de atores e atrizes, que são por sua vez o centro da elaboração temática de Birdman. Assim, temos (com o perdão do trocadilho) no palco uma variedade de intérpretes de perfis que remetem diretamente à questão do sucesso, como a novata inexperiente tomada pelo natural medo do fracasso e esquecimento (Naomi Watts), ou à do ego, como a atriz em crise pessoal devido a uma gravidez perdida (Andrea Riseborough) e o ator "problemático mas brilhante" Mike Shiner (Edward Norton, em um papel dos mais parecidos com sua própria pessoa) que fora da profissão não consegue ser algo mais além de inconveniente.
Mas se a relação dos atores com o mundo em que vivem e suas próprias pessoas é central ao longa, o ponto que marca o centro desta esfera é o Riggan de Michael Keaton. Além de ser ele que esclarece e protagoniza essas interações entre egos orgulhosos, o personagem traz em seu interior uma complexa conexão com a fama proporcionada pelo público, gerada graças ao papel que, apesar de tê-lo consagrado, grudou-se em sua personalidade para nunca mais se soltar. E mesmo que o papel tenha sido escrito para ele e possua todas as características referentes à sua carreira, é inacreditável perceber como Keaton incorpora o personagem para si, dando uma profundidade metalinguística e emocional ao protagonista difícil de ser alcançada.
Saindo um pouco da proposta temática, é interessante perceber como Iñarritu transmite ao público toda a tensão referente à peça. Com a contribuição da atmosférica trilha sonora composta pela bateria de Antonio Sanchez, o diretor escolhe se utilizar (e abusar) de um muito bem montado falso plano-sequência eterno para ao mesmo tempo criar a noção de estarmos vendo de fato uma peça de teatro - o que reforça com precisão o teor metalinguístico da obra - e também de nos dar a sensação de acompanhar a história pelos olhos de Birdman, que parece assombrar os corredores onde seu intérprete "mora" por três dias.
Do começo ao fim com um ritmo crescente e intenso para se encerrar com sua metalinguagem no máximo, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um extremamente bem elaborado ensaio sobre o ego e o orgulho que mesmo gerais a toda a humanidade são individualizados e únicos, denotando nossa insignificância para o universo repetidas vezes ao longo do caminho. E isso não é à toa: Como bem diz o título, a maior qualidade que o ser humano deve ter para continuar a vida é a ignorância do conhecimento de sua própria insignificância.

Nota: 10/10

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